Home Design “Eu quero gravar um DVD! Eu preciso gravar um DVD!”

“Eu quero gravar um DVD! Eu preciso gravar um DVD!”

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Confesso que não é muito fácil manter a qualidade dos textos aqui publicados e mesmo encontrar temas interessantes depois de mais de 4 anos mantendo ativo este blog. Já tentei por inúmeras vezes convidar amigos para escrever no Observatório, mas raríssimas foram as contribuições que recebemos de terceiros nestes anos.

E aí paira uma dúvida, será que o blog é tão desinteressante que meus convites acabam tornando-se insultos para aqueles que foram convidados?

Ou será que simplesmente meus amigos são ainda mais ocupados do que eu e é impossível que dediquem alguns minutos de suas vidas para escrever algumas linhas para o blog? Sinceramente não sei qual a verdadeira razão dessa escassez de contribuições alheias, mas enquanto isso, sigo na minha labuta cotidiana tentando manter viva a audiência deste espaço com algumas novidades e textos inéditos.

Estou escrevendo este post a caminho de Porto Alegre. Já me informei de que por lá encontrarei a máxima de 6 graus, ou seja, para um autêntico carioca praiano, estou seguindo rumo ao continente antártico esperando ser recepcionado por leões marinhos, focas e pinguins simpáticos com seus fraques sempre alinhados.

Além do frio glacial, outra novidade é que nesta viagem estarei contando com a companhia de meu filho primogênito. Resolvi mostrar a ele in loco como é o dia a dia do seu pai em meio às reuniões, visitas e eventos. Pra mim a viagem já é uma delícia, mas para ele imagino que seja um pouco entediante. De qualquer forma, vou tentar que seja o melhor possível para que ele me acompanhe em outras oportunidades.

Já embarcado comecei a pensar qual deveria ser o texto que deveria escrever enquanto estivesse no ar. Me vieram algumas ideias à mente e entre todas, uma me aguçou a vontade. E sobre ela iremos tratar a seguir.

De 10 reuniões que tenho com artistas em processo de contratação, pelo menos 9 deles me falam sobre o desejo de gravar um projeto em DVD. É impressionante como ainda temos artistas, alguns já bem consagrados, que não têm um histórico rico de produções em vídeo.

Até bem pouco tempo atrás, tive a felicidade de gravar o primeiro clipe oficial e profissional da cantora Shirley Carvalhaes. Com mais de 35 anos de carreira é de se surpreender que uma artista do porte dela ainda não tivesse tido a oportunidade de gravar um clipe musical. Mesmo em DVD, se não me engano, a grande dama da música pentecostal tem apenas uma única produção e isso deve ter se realizado há pelo menos uns 10 anos atrás.

Assim como a minha querida Shirley, outros grandes nomes carecem por mais registros visuais de suas obras. Em contrapartida, há uma série de artistas que fazem questão de gravar um DVD para cada lançamento em DVD como se isto fosse absolutamente normal e necessário. Há artistas com pouco mais de 10 anos de carreira com 8, 9 projetos em DVD já lançados. Isso é demais!

Então, pra começo de conversa, é bom que todo artista compreenda que um projeto em DVD é importante para a sua carreira artística, mas que como um registro histórico, deve ser tratado de uma forma mais parcimoniosa.

Levando em consideração o exemplo de artistas internacionais populares, a regra é mais ou menos de 4 a 5 lançamentos em CD para uma gravação de DVD. No Brasil, especialmente no meio sertanejo, esta regra não se aplica. Geralmente os cantores deste segmento costumam gravar 2 CDs para 1 DVD e às vezes chegam à loucura de gravar um DVD para cada lançamento. Mas a única justificativa para essa produção em massa nestes casos, é que os artistas sertanejos utilizam estes DVDs como um importante portifólio para a venda de shows para prefeituras, festas agropecuárias e rodeios por todo o Brasil. Além disso, estes artistas costumam gravar os projetos a cada 2 a 3 anos, que é em média o tempo de uma turnê completa pelo país.

No meio gospel, poucos são os artistas que utilizam-se do conceito de turnês ligadas especificamente a projetos musicais. Geralmente um show gospel é composto de músicas de sucesso da carreira e mais algumas músicas do último trabalho. No meio secular, a turnê de um projeto conta com o repertório maciço do mais recente trabalho – que dá inclusive nome à turnê – com algumas canções de sucesso pinçadas no repertório histórico do artista. Então, o argumento dos artistas gospel de que o DVD será uma ferramenta para a venda do mesmo show para prefeituras é parcialmente aceito, pois na verdade, quando o artista vai mesmo para a estrada, pouca coisa ou praticamente nada do que se vê no DVD é reproduzido na turnê.

Seguindo nesta toada, vale ressaltar que os artistas seculares conseguem reproduzir na estrada os seus DVDs com toda aquela mega produção de som, cenários, luz e efeitos, porque os valores de seus shows são bastante elevados, contrapondo por completo o que observamos no meio gospel. Hoje uma dupla sertaneja de médio porte tem cachês vendidos a 50 mil reais e realizam cerca de 20 eventos por mês. Artistas do primeiro time têm cachês em torno de 150 a 250 mil reais. Hoje, com raríssimas exceções, boa parte dos artistas de nível médio e alto na música gospel trabalham com cachês de aproximadamente 20 a 25 mil reais e participam de 5 grandes shows por mês, na mais otimista das hipóteses! A diferença entre estes dois mundos já começa por aí!

Falando de repertório de um DVD, o ideal é que o público participe ativamente a cada canção apresentada no show. E isso só é possível quando a música é amplamente trabalhada nas rádios, os discos tenham alcançado boas vendagens ou então, depois de um grande trabalho de massificação do artista na região onde o projeto seja gravado. E isto, em qualquer uma das 3 hipóteses, só se alcança com o tempo. Portanto, apresento mais uma justificativa para que um DVD reúna ao menos as canções de 3 discos anteriormente lançados.

Ainda sobre o repertório de um DVD, se o artista pretende que este produto tenha vida útil prolongada, então é fundamental que junto aos grandes sucessos, ao menos 3 canções inéditas sejam incluídas no projeto. É comprovado na história do mercado fonográfico que DVDs que reúnam apenas os hits de um determinado artista não conseguem mais do que 6 meses de destaque nas

vendas e no interesse do público. As músicas inéditas permitem que o disco seja trabalhado nas rádios por pelo menos mais 1 ano e com isso, aumentam consideravelmente o apelo do produto. Mesmo em projetos diferenciados como releituras acústicas de antigos sucessos, a inclusão de algo novo, de algumas músicas inéditas é bastante saudável.

No mercado secular é prática comum que a gravadora contribua com uma parte dos custos da produção do DVD e que o artista e seu empresário participem com outro montante dos custos. Esta ‘parceria’ é coerente porque boa parte do retorno financeiro do projeto se dará através da venda de shows do artista e em muitos dos casos, as gravadoras não recebem nenhum percentual de participação na agenda do artista, ficando tão somente com as vendas físicas e digitais provenientes do produto, o que em muitas vezes se torna insuficiente para a recuperação dos investimentos. Este mesmo conceito já vem sendo difundido no meio das gravadoras do meio gospel. Não se sustenta mais que apenas as gravadoras custeiam todo o projeto de DVD de seu cast, porque efetivamente a possibilidade de recuperação do investimento é baixíssima!

E aí vou destacar um dado muito interessante. É notório que o público evangélico não consome com a mesma volúpia dos consumidores seculares, os projetos lançados no formato DVD. Não sei o porquê desta cultura de não-compra de DVD no meio gospel tupiniquim. Já tentei pesquisar, analisar, avaliar, mas até hoje não consegui chegar a um veredito final sobre os reais motivos desta falta de empatia do público gospel para este tipo de produto. No meio secular brasileiro se dá uma tendência inversa ao do mercado gospel.

A venda de DVDs é bastante considerável ao contrário da venda de CDs que vem caindo sistematicamente. Em lançamentos de um mesmo projeto no formato CD e DVD, a venda do formato áudio/vídeo supera em mais de 60% os resultados do formato áudio somente.

No meio gospel é bem diferente. Em média, de cada 100 CDs vendidos de um projeto, apenas 20 ou no máximo 30 serão no formato DVD. Ou seja, as vendas de DVD no mercado gospel são muito baixas se comparadas ao mercado secular.

Com isso, cada vez menos as gravadoras do segmento gospel têm investido neste tipo de projeto. Numa rápida pesquisa, isso é facilmente comprovado.

Basta analisar-se os lançamentos em DVD nos últimos 10 anos e veremos claramente a tendência na queda de lançamentos nos 2 a 3 anos mais recentes.

Outra preocupação que se deve ter em relação à gravação de um DVD tem a ver com o apelo do projeto em si. A impressão de deja vu é recorrente, especialmente no meio artístico gospel. Faltam projetos diferenciados, criativos e com roteiros que surpreendam o público. Posso enumerar uma lista interminável de DVDs gravados em igrejas com painéis de LED ao fundo, músicos se espremendo e lutando por espaço no palco, 89 vocais enfileirados cada qual fazendo uma infinidade de caras e bocas, naipes de cordas disfarçando que estão tocando alguma coisa, quando na verdade, 99% são apenas fake.

Artistas gritando palavras de ordem como: Dê um grito de júbiloooooooooooooooooooo! Ou ainda: Vire-se para o seu irmão e diga blá blá blá blá … ou seja, mais do mesmo, sempre!

Se é para gravar um DVD, então invista todo o tempo necessário para buscar cenários diferenciados. Saia do lugar comum! Um dos DVDs mais bonitos que assisti nos últimos tempos foi o projeto do Natirutis gravado no alto de uma comunidade do Rio de Janeiro (favela hoje em dia é comunidade!) com toda a paisagem deslumbrante da cidade maravilhosa. O DVD começou a ser gravado no meio da tarde e prosseguiu com um pôr do sol fantástico e se estendeu até o anoitecer. Não havia ali mais do que 300 felizardos cantando todas as músicas e sendo premiados com um cenário extasiante.

Acho que faltam ao nosso meio, DVDs gravados em lugares inusitados ou que tenham propostas diferenciadas. Não vejo como fundamental que todo DVD tenha público gigante, milhares de pessoas. Particularmente prefiro projetos mais intimistas. Quando sento para assistir a um DVD, minha expectativa é de conhecer melhor o artista e sua arte. Não me preocupo muito com efeitos e multidão. É óbvio que um belo e grandioso cenário impressionam, mas no meu caso, o efeito disso é bem efêmero. Prefiro ver o artista, conhecer seu talento, ouvi-lo falar. Observo detalhes. Não me prendo no macro, prefiro o menos.

Um dos DVDs mais vendidos do meio secular no Brasil foi um projeto intimista, bem de estúdio. Os Tribalistas, que contou com a parceria de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown, foi um projeto simples, despretensioso, mas que atingiu resultados fantásticos. Outro case de sucesso, foi o projeto Barzinho e Violão que reuniu diversos artistas da MPB interpretando músicas extremamente populares. O conceito era reproduzir o ambiente de um boteco onde amigos pegariam o violão e saiam cantarolando. Este projeto vendeu milhões de exemplares e gerou mais de 20 títulos em diferentes gêneros e parcerias. Uma ideia. Somente uma boa ideia. Nada de pirotecnia. Tenho algumas metas em minha vida profissional. E entre estas, sem dúvida, se encontram alguns projetos em DVD. Alguns projetos são bastante audaciosos, meio diferentes do que temos por aí. A maior dificuldade nem é executar estas ideias, mas encontrar um artista que a compre junto comigo. Com persistência e uma boa dose de papo eu creio que em breve conseguirei tirar do papel e de minha cabeça alguns destes projetos.

Já chegando ao fim deste texto, vale registrar alguns DVDs de nosso segmento que merecem registro especial. O Diante do Trono acaba de gravar um projeto no interior nordestino sob a direção do meu amigo e profissional da maior qualidade Alex Passos. Imagino que teremos boas novidades vindas daí como tem sido boa parte das produções que eles produzem. Outro DVD que merece atenção é o último trabalho do Juliano Son gravado na Igreja Bola de Neve em São Paulo. Com direção musical de Ruben di Souza e direção de vídeo de Hugo Pessoa, este projeto é um dos melhores já lançados no meio gospel em todos os tempos. Particularmente gosto muito do projeto Fé gravado por André Valadão em Vila Velha/ES. Participei ativamente deste DVD e orgulho-me do resultado deste projeto como um todo.

Um projeto que aguardo com muita expectativa é o DVD Princípio do Leonardo Gonçalves gravado recentemente no Teatro Bradesco em São Paulo, sob a direção de Hugo Pessoa. Em se tratando de Leonardo Gonçalves sempre esperamos um produto final de extrema qualidade e como pude participar de todo o processo de produção e gravação, já conferi que tudo ali está em primeira linha. Outro DVD especial, recentemente lançado é o novo projeto do Fernandinho gravado no HSBC Arena no Rio com a direção de Alex Passos. Ainda não pude assistir ao material, mas soube que está fantástico! Outro DVD que chegará ao mercado ‘causando’ é o primeiro registro em vídeo dus manos do Ao Cubo. No melhor estilo Black Eyed Peas com muitos figurinos modernosos, tecnologia em profusão, efeitos, figurantes e postura no palco, o quarteto fantástico da zona leste paulistana prepara um super produto que chegará às lojas nos próximos 2 meses.

Então, recapitulando um pouco do que comentamos neste texto, gostaria de destacar alguns aspectos para a análise e meditação dos meus diletos (e poucos, penso eu!) leitores.

– Cuidado para não banalizar seus projetos em DVD. Um DVD é um registro histórico e deve ser tratado como tal. O ideal é lançar ao menos 3 discos para cada DVD;

– Indispensável a inclusão de músicas inéditas no repertório;

– Cuidado com o orçamento do projeto. Boa parte dos investimentos em

DVD no meio gospel não são recuperáveis! Bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém!

– Saia do lugar comum! Invista em projetos, ideias, locações e propostas diferenciadas para seu projeto em DVD. Neste caso, a participação de profissionais para dirigir o projeto da melhor forma, é fundamental!

Inicialmente pensei que este tema não fosse render tanto, mas me surpreendi.

Ainda há muita coisa para se comentar sobre DVDs, mas vou poupá-los por enquanto. Prometo retornar com esse assunto em outra oportunidade.

Vou despedindo-me neste momento com a aproximação dos pampas gaúchos. O piloto já iniciou o procedimento de descida e daqui já começo a pensar no meu almoço que certamente será um autêntico churrasco gaúcho. Também vou aproveitar a oportunidade e rever meus amigos da Tanlan. Mais uma vez insisto para todos os meus leitores para que conheçam o som dessa turma do sul.

Abraço a todos!

 Mauricio Soares, jornalista, publicitário, pai em tempo integral, completando em 2013 nada mais, nada menos do que 25 anos de labuta no mercado gospel. Um autêntico highlander!

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