“Quero um pizza do reteté … pouca cebola, por favor!

 

Tenho recebido nos últimos tempos muitos comentários positivos para os textos publicados aqui no blog. Confesso que quando começamos a escrever nossos textos, a expectativa era de que poucos leitores dedicariam seus preciosos momentos para conferir o material publicado no Observatório Cristão. Antes de dar como finalizado um texto, leio e releio muitas vezes os posts. Às vezes, não satisfeito, ainda envio meus escritos para que algum amigo possa avaliar melhor, fazer uma análise crítica. O certo é que por onde tenho estado nos últimos meses, sempre tem algum leitor deste blog comentando os textos publicados e isso é motivo de uma enorme satisfação de minha parte. Vejo que há uma carência enorme de conteúdo neste meio e dentro das minhas possibilidades espero sinceramente contribuir para um amadurecimento deste universo cristão no Brasil.

Logo nos primeiros meses do Observatório Cristão, publiquei alguns textos sobre o papel do assessor de artista, também conhecido como secretário, assistente, alguém que faz a  agenda, cunhado, marido, faz-tudo ou assessor pleno. No meio gospel ainda não podemos considerar a existência de empresários de artistas ou mesmo managers. Apenas nos restringimos a uma pessoa de confiança que acaba ajudando o artista a organizar sua agenda, compromissos, atividades correlatas à carreira artística.

Entendendo que nos últimos anos a música gospel e a área artística como um todo vem passando por um processo lento, mas real de amadurecimento, profissionalização e crescimento, imagino que um dos últimos entraves para um salto de qualidade neste universo seja justamente a área de assessoria aos artistas. Hoje já começamos a ter profissionais coordenando a agenda dos artistas. Posso citar o bom trabalho da Achou Gospel no Rio de Janeiro que administra as agendas de nomes como Asaph Borba, Marcus Salles, Alda Célia, Brenda, Carlinhos Félix, entre outros. Também vale o registro sobre o trabalho da Acesso Gospel em Goiânia e mesmo da Adore Produções que vem dedicando-se às turnês de artistas internacionais no Brasil. Em São Paulo, destaque para Amplitude que cuida da Banda Resgate, FLC  e outros artistas e, ainda, a Dany da Sampa Gospel. Mas convenhamos que é muito pouco para um mercado que cresce aos borbotões e que tem muitos artistas atuando em todo o país!

Muitos artistas optam por montar suas próprias estruturas de atendimento, seus próprios escritórios. No meio secular essa prática também é recorrente, mas a grande diferença é que nestes casos, os assessores e empresários são figuras bastante importantes. No meio gospel podemos considerar o assessor, salvo em raríssimas ocasiões, como uma espécie de atendente de pizzaria delivery. O cliente liga e pede: “tem uma pizza pentecostal do reteté? Preciso de uma para daqui um mês para uma vigília aqui na minha igreja! Tem que ser quente hein?!?!?! Pode caprichar na cebola … borda recheada ok? A data está liberada? Quanto vai custar? Aceita oferta de amor? E no cartão, parcela?”

A ilustração reflete exatamente o que acontece no dia a dia entre a maior parte dos assessores de artistas do meio gospel. O sujeito sentado, computador à frente respondendo e-mails, acessando os blogs de “notícias” do mundinho gospel, vasculhando a agenda de outros artistas, conversando no MSN, escrevendo algumas coisas no twitter e aguardando ansiosamente (isso mesmo! ansiosamente é com S e não com C como normalmente as pessoas cismam de escrever por aí!) pelo toque de um telefone. O assessor passa o dia como uma atendente de pizzaria esperando pelo próximo pedido, numa atitude completamente passiva.

Outro dia conversando com um destes assessores soube que a artista que ele trabalhava recebia mais de 50 ligações por dia, outros 100 e-mails invadiam a caixa postal todos os dias. Aparentemente a agenda daquela artista estava bastante intensa, mas ao conferir depois no site oficial, percebi que não havia mais de 5 compromissos confirmados no mês. Ou seja, mesmo com uma enorme demanda de convites, o assessor não conseguia transformá-los em confirmações na agenda. Entendo que neste meio há muita especulação por datas e cachês. Também concordo que há muitos convites estapafúrdios onde pastores querem até que o artista pague para atender ao seu convite. Mas posso assegurar a vocês que muitos insucessos nesta área devem-se tão somente à falta de habilidade, profissionalismo e mesmo qualidade no atendimento.

Posso garantir que muitos artistas deveriam trocar seus assessores pelos serviços do ex-boxeador Adilson Maguila, pois seriam melhores atendidos. É um tal de assessor que fala errado, que não atende telefone, que é desorganizado, que trata mal às pessoas, que não cumpre o prometido, que não retorna os contatos. O fato é que grande parte destes assessores são pessoas completamente despreparadas para a função! E o mais triste é que muitos destes são maridos, esposos, irmãos, cunhadas, mãe, pai … enfim, fazem parte da herança do artista e portanto, muito difícil de serem simplesmente substituídos.

Uma questão que me tira do sério no meio gospel é a epopeia a que os pobres coitados dos artistas são obrigados a enfrentar todas as semanas. Num autêntico “Me Leva Brasil” o artista na quarta-feira sai do Rio de Janeiro com destino a Mossoró/RN, na quinta-feira ele segue rumo a Pelotas/RS, no dia seguinte desembarca em Palmas/TO, no sábado o artista (ou o que resta dele) desembarca no aeroporto de Manaus e de lá segue por mais 4 horas de balsa com destino a Maués/AM e no domingo, pra completar a maratona, o cantor chega em Piracicaba a tempo de jantar uma pamonha fresquinha. Na segunda, o corpo do indivíduo é despejado de volta à Cidade Maravilhosa, onde ficará em repouso absoluto por algumas horas até retornar ao aeroporto no dia seguinte para mais uma agenda tranquila. E o mais engraçado é que o pastor de Maués/AM, por exemplo, ainda reclama porque o artista não quis após o culto que acabou às 23h sair para jantar e ficar proseando até às 2h, tendo que levantar às 5h para seguir viagem. “Essa turma é tudo artista mesmo! Ô povinho mais besta!”

Longe de ser mais uma das minhas hipérboles, essa maratona de fato acontece com grande parte dos artistas gospel espalhados por este país. E acontece simplesmente porque o famigerado assessor está preocupado apenas em faturar o máximo com a agenda do artista e consequentemente em garantir sua participação (leia-se comissão) no fim do mês. O cantor, coitado, acaba virando um empregado do assessor numa perfeita inversão de papéis. Poucos são os assessores que conseguem estabelecer uma rota de shows com menor deslocamento possível para seus artistas simplesmente porque não têm como hábito provocar agendas. O nome para isso é: falta de logística e principalmente, inércia.

Dando uma pausa nos comentários sobre os “atendentes de delivery” quero comentar um pouco mais sobre o papel do manager. Essa figura é praticamente inexistente no meio gospel. Trata-se de alguém que não somente cuida de todas as questões relacionadas ao artista como agenda, contratos, compromissos, projetos, mas também é aquele que acredita e investe financeiramente. Há um caso muito recente de uma artista sertaneja que teve através de seu empresário um investimento em rádios, promoção e divulgação de mais de 2 milhões de reais. A cantora tornou-se sucesso nacional e o cachê de seus shows saltou de 30 mil para a bagatela de 200 mil reais em pouco menos de 1 ano. A cantora também transformou-se num fenômeno de vendas de CDs, de ações publicitárias e hoje tem uma forte carreira nacional.  Além do talento da artista, sem dúvida, o empurrãozinho financeiro ajudou e muito para os resultados positivos.

No meio gospel, exceto um ou outro “paitrocínio”, são raros os casos de artistas que contam com empresários investindo em mídia, na produção musical ou em qualquer outra área artística. Como um negócio como qualquer outro, a música gospel está aberta à chegada de investidores, mas é fundamental que estes artistas contem com a ajuda de profissionais, para que não tenhamos projetos frustrados e investidores decepcionados mais à frente. Com a abertura do circuito de shows de música gospel em todos os cantos do país, creio que cada vez mais tenhamos pessoas interessadas em investir nos artistas do meio cristão. E, sinceramente, creio que essa aproximação seja muito bem vinda porque poderemos ter uma sensível melhora na qualidade das apresentações dos artistas do segmento que ainda são bastante amadoras.

Imagino que os artistas devam estar mais atentos a estas duas questões que abordei neste texto. Não dá para imaginar um crescimento artístico sendo assessorado por um Brucutu que atende telefone ou nem mesmo por um funcionário de pizzaria. Outro fato é que muito em breve passaremos a ter cada vez mais empresas agenciando as carreiras dos artistas do mundo gospel trazendo mais profissionalismo e qualidade para o segmento. Isso é só uma questão de tempo. A conferir.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor e alguém que lida diariamente com um mercado em franca expansão, um segmento que busca um maior amadurecimento, mas que parece insistir em manter as mesmas fórmulas, estratégias, metas do século passado.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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