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“Você pode ouvir meu CD com carinho?”

Em meu computador pessoal saio escrevendo e arquivando muitas coisas. Principalmente em meio às minhas constantes viagens procuro sempre aproveitar o tempo ocioso para registrar alguns pensamentos, observações, temas para o blog e afins.

Muitos destes arquivos resumem-se a 2 ou 3 linhas. Outros já contam com um texto mais finalizado, prestes a um dia ser publicado no blog ou remetido a algum site ou revista onde periodicamente contribuo. Outros textos ficam ali, parados, meio de castigo esperando que um dia eu volte para dar uma nova roupagem, uma nova contribuição ou mesmo, que meu critério de auto-censura possa autorizar sua publicação.

E o texto abaixo é um destes arquivos que ficou ‘esquecido’ durante muitos meses. Quando encontrei esse texto, estava em pleno vôo São Paulo – Brasília, e fiquei impressionado sobre o porquê de não ter dado já um ponto final sobre esse assunto que é tão atual e importante para os 44 leitores do blog. Na verdade, é perceptível que os textos que tratam sobre o processo artístico são bem mais comentados do que outros temas propostos no blog. Então para atender a essa demanda, vamos seguir falando sobre o processo de análise de CDs e mesmo da montagem de um cast artístico numa gravadora ou selo.

Já perdi a conta de quantas vezes ouvi a surrada e enigmática frase: “Você vai ouvir com carinho o meu CD?” Também deixei de contar as vezes em que, como num reflexo automático, de bate pronto numa jogada ensaiada, respondi: “Sempre ouço tudo! Nem que seja por alguns segundos!”

Este tipo de diálogo acontece semanalmente comigo. Se estou em algum evento, é impossível retornar para casa ou o hotel sem ter em mãos alguns CDs para “ouvir com carinho”. O auge desta experiência acontece anualmente durante a Expo Cristã, maior evento do mercado gospel da América Latina, onde pelo menos por umas 200 vezes durante os 6 dias da feira recebo CDs e atendo pessoas. Como já comentei em algumas oportunidades, em 2011, retornei da feira com pouco mais de 300 produtos para avaliação. É muito carinho transbordante que preciso ter pra analisar tantos projetos, mas enfim, faz parte do negócio.

Uma coisa é certa! Como as janelas do meu escritório não podem ser abertas, afinal estamos localizados no 40o andar da Torre do Rio Sul, os CDs jamais serão arremessados janela afora, mesmo as coisas mais bizarras que chegaram e continuam chegando às minhas mãos. O que já é um alívio para os desavisados pedestres lá embaixo!

Mas como avaliar 300 CDs, tendo uma rotina intensa de afazeres cotidianos à frente de uma gravadora? Confesso que é super difícil atender a mais esta responsabilidade e praticamente impossível ajustar o interesse da companhia com as expectativas dos potenciais contratados.

Atendendo pessoalmente cada uma destas pessoas em busca de uma contratação por uma gravadora no stand, vejo como estas vivem uma ilusão ou talvez mesmo, uma miopia do que é a carreira artística profissional. Durante os 6 dias do evento atendo senhoras sessentonas, crianças, cantores jurássicos, bandas, corais, músicos, rappers, duplas sertanejas, coreógrafos, instrumentistas, compositores e alguns (muitos) maridos de cantoras.

Pouquíssimos foram os contatos que me trouxeram uma impressão segura de que ali, naquele exato instante estaria de frente a um potencial contratado. Esse feeling pode me trair algumas vezes numa primeira impressão, mas geralmente ele tem se mantido coerente.

Já comentei em outros textos publicados aqui mesmo no blog sobre a real eficácia de se enviar um CD para a análise de uma gravadora. E a resposta é simples e cristalina: as chances de contratação a partir desta iniciativa são próximas de zero!

Antes de colocar um  trabalho nos Correios ou mesmo de entregar o material em mãos para um profissional de gravadora, muitas outras questões precisam ser meticulosamente observadas. Vamos tentar listar alguns aspectos a partir de agora.

1) Estilo do cast e da gravadora

Toda empresa tem uma cultura, um perfil definido. No caso das gravadoras essa regra também existe. Naturalmente se percebe se a gravadora é mais voltada para artistas do estilo pentecostal, pop rock, adoração etc. Então, observe qual tipo de perfil cada gravadora possui e procure focar naquelas que mais se adequam ao seu próprio estilo. Se numa gravadora 99% são cantoras pentecostais, dificilmente contratarão um banda de hard rock! Isso é elementar!

2) Lacunas e oportunidades

Algumas gravadoras são mais amplas e trabalham em diferentes estilos musicais. Neste caso, observe dentro do cast da gravadora os perfis dos contratados. Talvez, naquele momento, aquela gravadora esteja carente de uma dupla sertaneja ou de um ministério de louvor. Se você é uma cantora pentecostal e naquela gravadora já existam outras 10 cantoras no mesmo estilo, a não ser que você seja uma nova ADELE do RETETÉ, é bom procurar espaço em outra empresa.

3) Ser a opção número 18 do Flamengo ou a primeira do Bonsucesso?

Vale mais a pena fazer parte de um cast forte, competitivo de uma gravadora ou o melhor é ser o “caolho-rei” em terra de cego? Esta é uma dúvida muito interessante! Fazer parte de uma seleção de estrelas mesmo sabendo que será a opção menos importante para a gravadora num primeiro momento ou ser a principal atração de um selo de muito menor relevância? Em cada caso uma sentença! Creio que o melhor caminho a se percorrer deve ser, na verdade, decidido pelo próprio artista de acordo com sua postura. Só vai adiantar estar ao lado de medalhões se o artista de menor expressão trabalhar exaustivamente. Se a opção do artista for a de deixar que a gravadora cuide de tudo, talvez a opção menos traumática seja fazer parte de uma estrutura sensivelmente menor onde ali será tratada como jóia máxima da coroa. Já tive casos em que o artista optou por não “concorrer internamente” e decidiu-se por ser o Beckham do Olaria. Hoje depois de pouco mais de 2 anos, percebo nitidamente que a decisão foi a pior possível porque a gravadora em questão manteve sua postura de fundo de quintal e literalmente transformou uma artista de médio potencial em alguém tão pequeno como o próprio selo.

4) Estou realmente preparado para um upgrade em minha carreira?

Hoje em dia gravar um CD é algo muito simples. Se por um lado vemos a democratização do sonho de ser artista, por outro lado esse fenômeno também nos trouxe à baila a possibilidade de termos pessoas completamente “nada a ver” pleiteando por um lugar ao sol no mundo artístico – vale a pena conferir um texto publicado recentemente “Nunca será! “. Antes de enviar um CD para avaliação numa gravadora avalie criteriosamente se o seu produto de apresentação está realmente à altura de um trabalho profissional. Falo isso com conhecimento de causa! Recebo CDs bizarros, ou melhor, bizarríssimos, esdrúxulos, assustadores, pífios, hilários, ridículos, assombrosos, vergonhosos, dignos de pena, estapafúrdios, achincalhantes e por aí vai!  Não sei quem, em sã consciência, se acha no direito de enviar um CD desse jeito descrito a pouco para ser avaliado por uma gravadora! Seja o maior crítico de si mesmo!

5) Até que ponto preciso de uma gravadora?

Esta é uma pergunta que todo artista precisa fazer. Hoje posso listar vários artistas que vivem confortavelmente sem ter o suporte de uma empresa. É óbvio que em tempos digitais, cada vez mais será necessário entender e mudar a forma de trabalho, mas nada, em tempo algum irá substituir a relação física do artista com sua plateia. Portanto, se você tem uma agenda concorrida, tem o controle de suas ações e projetos, mantém uma relação saudável e intensa com o seu público, procura manter uma boa qualidade em suas produções, então não necessariamente precisará estar no cast de uma gravadora. Não há uma regra de que só tem sucesso o artista que fizer parte de uma gravadora. Portanto avalie o quanto de sua carreira poderá mudar fazendo parte de uma gravadora. A resposta pode ser: mantenha-se focado como o próprio gestor de sua carreira independente.

6) Não adianta! Eu quero mandar meu trabalho para avaliação, mas o que vale a pena de verdade?

Vencidas as etapas anteriores e caso sua persistência ainda esteja em alta, então vamos passar para a segunda fase. O que você precisa enviar para a gravadora? Em primeiro lugar, o máximo de informações sobre a carreira, discos gravados, vendagens (reais, por favor!), região de destaque no Brasil, agenda recente, links do site, redes sociais, vídeos de shows, clipes e o próprio CD para avaliação. Não precisa mandar o material embalado em caixa com laço de fita. Não adianta mandar carta de apresentação do pastor, ficha de antecedentes criminais, SPC, Serasa. Não precisa mandar pôster, postal, bottons, agenda, bonés, camisetas, canecas, chaveiros ou coisas do tipo.

7) Não há prazos para respostas e avaliações!

Se você pensa que ao enviar seu CD para uma gravadora, apenas alguns dias depois já poderá ligar para perguntar sobre a avaliação do seu trabalho, então é melhor passar também a acreditar em coelhinho da páscoa, Papai Noel e curupira. Pode ser a gravadora que for, mesmo a Xique Xique Records, certamente a pessoa “que recebe CDs” terá uma mesa, uma estante, uma sala, um container, com dezenas, centenas, até mesmo milhares de discos para avaliação. E se você for daqueles sujeitos ansiosos (com S , sempre, por favor!) que ficam olhando a cada quarto de hora para sua caixa de e-mails esperando pela chegada de uma mensagem da gravadora, então a sugestão é mesmo procurar um tratamento psicológico, uma terapia, um curso de origami ou mesmo cancelar sua conta de email por uns 5 anos.

8) Então tá combinado! Eu não te ligo e você não me procura! OK?

Se um artístico de gravadora tiver interesse em seu trabalho, não tenha dúvida, ele vai te procurar, mesmo que você esteja em turnê na Patagônia! Isso é muito simples! Agora, se ele também não demonstrar o menor interesse em seu projeto, por favor, não precisa se martirizar a ponto de ter que ouvir a negativa oficial da gravadora. Não pense que o profissional não te ligou porque não guardou seu telefone, seu email, seu site, seu facebook, o celular de sua vizinha … vivemos tempos da aldeia global. Todo mundo é localizável ao alcance de uma pesquisa na web. Se o telefone não tocar, vida que segue … a fila anda! (parece até letra de música sertaneja, eita nós!)

Por ora acho que as dicas estão suficientes até porque a equipe de comissárias já passou recolhendo o lixo e em breve o piloto anunciará: pouso autorizado! Já iniciamos o procedimento de descida no aeroporto de Santos Dumont no Rio de Janeiro.

Antes de finalizar esse texto quero agradecer à acolhida carinhosa e interessada de alguns músicos de Brasília em minha passagem pela capital federal. Por sugestão minha, Mr. Pingo reuniu nomes como Marcela Taís, Nani Oliveira, Amanda Beatrice, Hélvio Sodré, Metal Nobre, o produtor Pingo, Karol Stahr, Gálatas 5, Ministério Declararei, Luis Cláudio, Jota do DiscoPraise, Gau Viana, entre outros amigos para um bate papo super produtivo sobre música gospel. Foi o primeiro “Fórum Observatório Cristão” até hoje e pretendo promover outros encontros como este em outras cidades de agora em diante.

 

Mauricio Soares, jornalista, blogueiro, profissional em constante trânsito pelos céus do Brasil, consultor de marketing, observador implacável dos costumes e peculiaridades do universo gospel brazuca.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • Josyelem

    17/07/2014 at 21:40

    Realmente muito verdadeiro e interessante! É melhor focar em meios de divulgação com uma possível avaliação de resultado do que investir energia em utopias ou métodos equivocados que podem gerar um desgaste muito maior. Mas uma coisa é verdade: para quem é independente e está em busca de oportunidades não é tão fácil agir sempre com a razão. No processo de plantio, nunca se sabe qual semente irá realmente brotar e dar frutos. Virtualmente, todas as sementes têm o mesmo potencial. Josyelem

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