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A Arte de ouvir música

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Quando foi a ultima vez que você pegou seu CD preferido, ajeitou um sofá, ligou o som ou pegou o fone de ouvido, sentou e ouviu sua música predileta? Possivelmente você vai me dizer que não há mais tempo na vida moderna pra essas coisas. Que agora ouvir música só se for no carro, no celular, enquanto toma banho com o som ligado lá na sala, ou enquanto faz comida ou lava o carro. Pois é, nem é preciso ser especialista pra saber que o momento da humanidade é bem esse. Mas aí surge outra pergunta: faz alguma diferença?

Posso te garantir que faz toda diferença. Quando alguém ouve uma música, seja de que modo for, muitas vezes não se dá conta que ali estão envolvidos os trabalhos de muitas pessoas. Normalmente o ouvinte se atem as melodias das canções e suas letras. Ficam cantando junto enquanto dirigem, lavam roupa, coziam ou lavam o carro. Isso talvez possa parecer que o ouvinte esteja “curtindo” a música. Mas será?

Será  que é possível mesmo, dirigir, lavar roupa, cozinhar, fazer ginástica e ainda apreciar uma canção em sua plenitude? Minha esposa diz que sim, eu discordo (rsrs). Este texto surgiu por um convite do Maurício Soares pra que eu falasse sobre a importância dos arranjos de cordas numa produção musical. Apenas uma sugestão de tema. Mas ai fiquei pensando e pensando e surgiu mais uma pergunta : as pessoas sabem o que é um arranjo de cordas? Você deve achar que tenho mais questões do que respostas, provavelmente. Mas o fato é que, quando falo a respeito do que faço, da minha profissão, muitas pessoas não associam, ou entendem outra coisa : “Ah…arranjador, sei… que faz arranjos de flores?”. Aí eu preciso explicar : “Sabe aquele som de violino que aparece na introdução da música tal?” Ou “Lembra que naquela música tem uns metais que aparecem no momento tal?”. Pois é, não raras as vezes as pessoas fazem cara de que sabem, mas infelizmente não sabem (rsrs).

Quando isso acontece eu logo penso que está totalmente relacionado a forma com que as pessoas ouvem música. Eu nasci num ambiente de muitos discos, e na minha infância era muito natural parar pra ouvir música. Me lembro do meu pai e meus tios colocando o disco de vinil na vitrola, e sentados em frente aos auto-falantes, “mergulhavam” nas canções que ouviam. Cresci imerso nesse costume. Lembro que ouvia muitas e muitas vezes, sentado no chão, o disco “Cem Ovelhas” do cantor Oséias de Paula.  Ou o disco “Orando Quero estar” de Luiz de Carvalho, entre outros. Esse momento de audição que pra mim era tão natural que sem muito esforço eu percebia os oboés que tocavam no disco do Oséias, os pianos do disco do Luiz de Carvalho e as cordas do disco do Voz da Verdade. Ouvia e apreciava. Não sabia exatamente o que era aquilo, mas gostava daquela combinação e conseguia sem conhecimento algum distinguir os elementos que apareciam no decorrer da música. Mesmo sem saber o nome exato dos instrumentos. Mas notava que alem do cantor outras “coisas” preenchiam a música.

E assim também foi minha adolescência, mas nessa etapa da vida já ficava ligado nas rádios esperando as músicas favoritas. Porem, de igual modo, ouvindo atentamente, as vezes até cantando, mas prioritariamente “degustando” a música, era um momento muito agradável. Me lembro quando tive vontade de aprender música. Foi assistindo um programa do Raul Gil, onde vi Guilherme Arantes tocando ao piano “Um Dia,Um Adeus”. Lembro que fiquei maravilhado, porque durante uns poucos minutos estava ali, apenas olhando. Esse pequeno instante de observação mudou o rumo da minha vida, e aqui estou aos 35 anos de idade trabalhando com música e não por acaso, escrevendo arranjos de cordas e metais em inúmeros CD’s. Não quero dizer com isso que todo o bom ouvinte de música se tornará músico, mas que todo amante de música deveria ser um bom ouvinte, nem que fosse uma vez ao ano.

Ano passado fui convidado para dar uma palestra numa igreja da Ass. de Deus, para a orquestra da igreja. E como faço sempre nestas palestras, levo alguns CD’s e peço para que as pessoas fechem os olhos, se concentrem e ouçam as músicas atentamente. É sempre interessante como as pessoas reagem nesse momento. Muitas se emocionam. Na maioria das  músicas que levo são instrumentais justamente pra exercitar a capacidade de atenção e interpretação dos ouvintes. E não é incomum que muitos dos participantes da palestra confessem nunca terem feito isso em casa. Parar pra ouvir música.

A essa altura do texto você inevitavelmente se perguntará : Mas precisa disso? Precisa parar tudo e ouvir música? Olha. eu diria que não só precisa como é indispensável. Nos dias atuais parar, relaxar, é uma necessidade. Na correria do dia-a-dia nosso tempo de qualidade, desaparece. Sem dizer que um CD é feito e elaborado com tanto esmero e dedicação que seria minimamente atencioso por parte de quem o compra, parar pra absorver tudo o que nele foi gravado para deleite do próprio ouvinte. Desde a escolha da canção, do produtor que será o responsável, do arranjador escolhido pelo produtor pra escrever os arranjos de cordas, de metais, de backing vocal. Dos instrumentistas que passam algumas horas nos estúdio lapidando seu talento em prol da canção. Tudo isso e mais um pouco está resgistrado numa singela canção, esperando pra ser apreciado.

Busque em sua memória as vezes em que você foi ao cinema e saiu de lá impressionado com um filme. Garanto que se você não ficou de “tititi” com quem lhe acompanhava e “caiu de cabeça” no filme, você certamente levará contigo as sensações que lhe foram proporcionadas naquele momento em que você parou, e assistiu. Isso é tão certo que pouco antes de começar escrever esse singelo texto, vi uma reportagem sobre um show 3D lançado pela banda irlandesa U2. (Que por sinal me deixou super curioso pra assistir). Em depoimentos dos fãs da banda que viram o show no cinema, todos foram unanimes em dizer que as sensações foram exponencialmente elevadas em relação aos shows comuns, onde se aprecia tudo na platéia, no meio da “muvuca”. O show ao vivo é um momento que tem mais haver com catarse do que com audição propriamente. Aliás, pra você ir a um show do seu artista preferido e curtir aquele instante, se você conhecer cada trechinho da música, isso otimizará suas sensações. A cada segundo será uma satisfação. A introdução vai acelerar seu coração, quando o cantor interpretar a primeira estrofe, automaticamente você vai cantar junto, e quando chegar no solo do meio da música você estará com um enorme sorriso de orelha a orelha. E posso te garantir que isso não tem nada haver com idolatria ao artista, é uma simples manifestação de alegria por apreciar um trabalho artístico. O mesmo tipo de satisfação que se tem ao ver uma bela pintura. Já que a música também é uma arte! Nós cristãos temos dificuldades em admitir que admiramos as coisas. Lembrando que admiração não é adoração. Tanto que muitos admiram Jesus Cristo, mas nem todos são seus adoradores!

Mas enfim, voltando a questão do texto, assim como nós precisamos parar pra ouvir o que Deus tem a nos dizer quando abrimos a bíblia, e naquele momento de meditação Deus fala aos nossos corações. Um trabalho que é feito e dedicado a Deus com todo carinho e sensibilidade, precisa desse tempo de contemplação. Garanto que se você fizer isso com aquele CD que mais gosta, você ouvirá Deus falando contigo não só na letra , mas a partir da introdução, dos primeiros acordes e arranjos que tão graciosamente te apresentam a canção. É essa a função da introdução. Te preparar pra o que vem a seguir. Embora em nossas igrejas é o momento em que os cantores aproveitam pra das saudações, recomendações e passar o número do celular. Uma canção de verdade feita com qualidade e dedicação merece o mínimo de atenção, ao menos em nossas casas.

Para terminar recomendo que se possível, assim que terminar esse texto, faça o que vou lhe pedir. Ouça o seu CD preferido num ambiente tranquilo de olhos fechados e depois me conte sua experiência. Abraços!

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Ronaldo de Oliveira é cristão, músico, arranjador, ouvinte atencioso de boa musica e tuiteiro incansável!

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