SHOPPING CART

A canção que forma e a canção que deforma

nmCorrendo o risco de redundar ao post “Composição” do chefe de operações do Observatório Cristão, quero dedicar algumas linhas a um dos assuntos que mais me fascinam no Universo da música. A canção.

Resgatar histórica e etimologicamente as origens do termo canção a fim de situá-lo seria um trabalho digno de Hercules e não vou submetê-los ao meu academiquês, para felicidade geral da Nação… Vamos tomar agilmente por canção aquelas situações musicais onde texto e música se encontram, combinado?

Ligo minha TV numa noite dessas e me deparo com uma série no SBT chamada “Amor e Revolução”. A temática me fascina! O sombrio período do Golpe Militar e as histórias das militâncias da época. O produto televisivo no entanto é fraco: atuações medianas, uma direção de arte duvidosa e um texto que não faz frente ao tamanho do tema. Mas uma coisa destaca, encanta e prende qualquer uma que tenha coração: as canções! Elas são um retrato fiel do espírito daquele tempo, saltando da tela e nos transportando para tempos e lugares nos quais nunca estivemos. Esse é o poder do que Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e outros tantos produziram quando aquele era o grito entalado na garganta! Coisa forte, cheia de significado e relevância. Formou a muitos, informou a muitos, e a mim inclusive, que não vivi em tempos de ditadura, mas através dos sons, tenho familiaridade com ela.

Nestes tempos atuais, e falando especificamente da canção no contexto da MCC, pergunto: Teria a canção perdido o seu poder?

Quando uma canção vem e vai num período de 6 meses sem deixar lá muitas marcas, fico alarmado e questiono sua relevância. A canção citada pelo Mauricio Soares datada de fins de anos 70 até meados dos 80 é marcante e até hoje encontramos nela a expressão de um povo evangélico crescente no país. A canção de hoje diz do que?  E principalmente, diz como? Arte (entre muitas definições) é o maravilhoso encontro da Forma com o Conteúdo. Vejo muito conteúdo esmagado como que por força nas durações das faixas da nossa MCC. É como se o compositor/ministro/pastor/missionário/levita tivesse tido uma “luz” para uma pregação e tivesse que forçá-la dentro da duração de uma canção comercial. Levando em conta os termos da moda. Isto não produz muita arte… Isto é a esterilidade do literal que mata a poesia! Música que surge do esforço pelo sucesso de formas gastas e mata a invenção!

Além de não surgir como algo relevante, há ainda um outro risco ainda maior na canção da MCC: Deformar. É triste, mas é verdade… Estamos cantando uma teologia estranha ao evangelho, estranha à Bíblia. Cantamos catarticamente reivindicando de Deus o seu favor a nós e eu, ao menos eu e talvez tão somente eu e mais uma meia dúzia de três ou quatro, não vejo nisso Louvor a Deus, mas sim o Louvor a nossa vontade na satisfação de nossasvolições. Este canto não é Libertador, mas sim é escravizador: tenta escravizar, inclusive Deus à nossa própria vontade que é escrava de modelos de consumo e status!

Deforma também quando nos afasta cada vez mais da realidade! Parece que a canção da MCC quer corrigir a oração sacerdotal de Cristo e fazer com que sim, Ele nos tire do Mundo. Estranho, mas o canto de hoje é, muita vez, escapista! Aponta para o alto como fuga e não como resposta ao caos da sociedade. Há pouca profecia nisto.

Não vou citar exceções mesmo sabendo que elas existem para não amenizar! Esta discussão precisa entrar em pauta de maneira insistente. Quero um canto que fale do hoje, que responda às questões de hoje como fez o autor de Amazing Grace em seus tempos, gritando contra a vergonha do escravagismo, como fez Sérgio Pimenta em Tudo ou Nada declarando a radicalidade da opção de seguir a Jesus e como tantos outros homens de Deus cujas canções ecoam e ecoarão pra sempre junto com os Chicos e Caetanos.

_____________________________________________________________________

Jonas Paulo é violeiro, cantador, escrevedor e observador cristão do mundo em que vive.

38 Comments

Deixe uma resposta