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A capa do Resgate e o Papel do Cliente

OBC,-Resgate_CD

O supreendente burburinho diante da capa do cd “Ainda não é o último”, álbum de Resgate que inaugura o projeto gospel da Sony Music, oferece rara oportunidade para comentar sobre aspectos pouco conhecidos do trabalho de criação.

Como assumi a responsabilidade de publicar no site da banda detalhes relativos ao processo que originou o material gráfico, não será neste texto que trataremos de explicações para a escolha da imagem, a escolha do modelo do carro, ou sobre o porquê das fotos terem sido feitas num café. (Sim, posso adiantar que tudo isso tem uma motivação própria, e que nada foi feito por acaso neste trabalho.)

Mas o assunto agora é outro, quero falar de algo que pouco se comenta no universo do design: da importância do aprovador.

Quando algo dá muito certo ou muito errado numa capa, num cartaz, numa camiseta, ou num livro, geralmente, para o bem ou para o mal, atribui-se ao designer o papel de “gênio que superou as expectativas” ou o de “culpado por um trabalho sem brilho”.

A verdade, porém, é bem mais complexa do que parece.

Sem dúvida, o designer é um dos grandes responsáveis pelo sucesso de um projeto gráfico.

É ele quem deve, após analisar tudo o que cerca o trabalho, definir quais os caminhos a serem seguidos. Ele deve estar apto a criar algo fundamentado e para isso, além da criatividade obrigatória, deve se valer de algumas perguntas:

Quem é o cliente?
Qual o seu público-alvo?
Que história deve ser contada?
Que elementos visuais devem contar a história?

Por outro lado, se o designer é realmente a peça central no trabalho de criação da imagem de uma banda ou de um artista independente, na hora de decidir se tal imagem será de fato realizada, tornada pública, entram em cena outros atores.

E aí, na maioria das vezes, aparece como peça decisiva alguém que sequer consta da história do design. Alguém sobre quem não se fala em nenhum livro de arte, alguém que não tem o seu papel reconhecido quando se contempla uma obra de criação: o cliente.

Muitas vezes ele é o vilão: quando incapaz de perceber uma idéia ou apegado em demasia a um passado gráfico que lhe condena.

Mas, como ocorre agora, ele pode ser também o herói, ao decidir algo que ninguém pode fazer em seu lugar: aprovar o que foi apresentado por um profissional com autoridade pra propor uma mudança.

Nenhum trabalho de arte, design, arquitetura pode existir sem a aprovação de um cliente.

Todos os “gênios” do mundo devem seus sucessos a aprovação de seus clientes.

Foi o cliente quem fez a Capela Sistina.
Foi o cliente quem fez a Torre Eiffel.
Foi o cliente quem fez a Pirâmide do Egito.

Porque é o cliente qualificado, capaz, culto, inteligente, bem informado e consciente que aprova uma obra feita à altura da sua capacidade crítica, imagem e semelhança.

Da mesma forma, nada que seja verdadeiramente bom sairá com a aprovação de um cliente que só tem dinheiro, poder e mau gosto a oferecer — quando sai, geralmente ele não viu, não estava, ou cruzava o Brasil no seu jatinho…

Ao aprovar e desaprovar um bom trabalho, o cliente oferece muito mais um panorama de sua capacidade de avaliação do que propriamente um julgamento do profissional que contratou.

Assim, se há algum mérito neste trabalho da nova imagem de Resgate, sem dúvida ele deve ser dividido também com três principais agentes.

Com Mauricio Soares: por sua ousadia e capacidade crítica que a mim já não mais surpreendem — pois foi por isso mesmo que deixei a Graça Music, onde estivemos juntos,  e aceitei o seu convite para este novo desafio na Sony Music.

Com toda a Sony Music: pela liberdade de criação e pelo incentivo ao meu trabalho. É muito bom ser gospel e receber elogios de quem está acostumado a aprovar capas de Elvis Presley, Jimi Hendrix e Michael Jackson. (Também não me surpreendem porque, se na maior gravadora do mundo não houvesse ninguém pra me entender, eu pularia lá do alto do 40o andar — porque se não há lugar pra ousadia ali, não vai haver em mais nenhum. Ao mesmo tempo, chega a ser engraçado quando me recordo de outras épocas, quando “ispesialistas em dizáine” se reuniam pra decidir se tal arte estava ok, ou se estava “carregada de magenta”, ou se não dava pra colocar “o céu bem azul e colorido”: é, não se pode agradar a todos…)

Mas, muito mais do que ao Mauricio ou à Sony Music, quero dedicar este trabalho aos grandes responsáveis por sua existência: aos caras do Resgate.

Não sei se todos sabem, mas qualquer portfólio de designer, por mais consagrado que seja, contém inúmeros trabalhos inéditos.

Recentemente assisti ao DVD de um dos maiores designers do mundo, o grande Alexandre Wollner. Para meu espanto, embora seja o maior designer vivo do Brasil — eu sou o maior dentre os mortos! —, e diante de uma trajetória de sucesso inquestionável, o velho Wollner, acreditem, contabiliza pelo menos uns 30 logotipos rejeitados por seus clientes.

Antes que comecem a falar mal do Brasil, é preciso ser sincero: a sanha conservadora e os preconceitos contra o novo não são privilégio nosso, são uma praga mundial!

Há alguns anos, lendo a revista Form, a bíblia do design alemão, conheci uma obra com o curioso título de “Rejected”: livro trazendo uma vasta coleção de trabalhos formidáveis, todos eles rejeitados por clientes insatisfeitos do mundo inteiro…

Diante de um quadro como este, torna-se ainda mais surpreendente a atitude de Resgate frente a este novo projeto.

Minha admiração por eles só fez aumentar depois de ter trocado idéias com Zé Bruno e Hamilton Gomes — embora não tenha conversado com os demais membros, tenho certeza de que eles não estariam juntos se fossem feitos de material tão diferente.

Como Bispos e depois de vinte anos nessa longa estrada, teriam todos os motivos para apresentar posições conservadoras ou retrógradas.

Mas o que se viu foi um grupo de cabeças formidáveis, conhecedores do que acontece no mundo em todas as épocas, cheios de vigor criativo, e capazes de entender e optar pelo novo, sem parar no tempo ou se deixar vencer pelo conformismo sem risco.

Sem a visão, a capacidade crítica e a cultura visual desses caras, não existiria nada disso.

Se a capa é moderna e contemporânea, se é criativa e diferente do que se vê por aí, o é porque foi feita à imagem e semelhança deles.

A capa é a cara de Resgate.
O mérito é deles.

Eu só cumpri minha obrigação.

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Carlos André Gomes já era Designer Gráfico quando ninguém sabia o que era isso.

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