Home Sem categoria A César o que é de César (e também ao João, Tony,...

A César o que é de César (e também ao João, Tony, Anderson, Josy …)

0 592

Depois de uma semana intensa de textos produzidos em série, dei-me as devidas férias não só para descansar a mente, mas principalmente para selecionar alguns temas realmente relevantes para o blog. Depois de mais de 8 anos escrevendo para o Observatório Cristão é natural que tenhamos um pouco mais de dificuldade em trazer assuntos novos, ainda não abordados ou mesmo com uma dinâmica diferente de tudo o que já foi postado por aqui. De vez em quando me permito voltar a um determinado assunto já publicado por entender que há algo novo a se dizer, mas confesso que cada dia que passa fica bem mais difícil atender à demanda dos 66 leitores do blog.

Entre um e outro vôo procuro aproveitar meu tempo ocioso para atualizar os textos e ideias. Hoje começo este texto tentando embarcar no avião rumo à cidade de Goiânia onde participarei mais à noite de um pocket talk show com a participação do amigo Leonardo Gonçalves. Por questões metereológicas meu vôo já está com mais de 1h30 de atraso, aeroporto fechado, sem previsão de retomada do tráfego, saguão abarrotado de gente, enfim, o cenário (quase) ideal para escrever mais um post … e é nesse clima que eu gostaria de falar sobre um assunto que passa desapercebido de muita gente.

Dias atrás num almoço com colegas de trabalho, surgiu o nome de um determinado pastor. A pessoa que trouxe este assunto à mesa era membro da igreja dirigida por aquele pastor. Em meio a elogios e comentários positivos sobre sua postura como líder, uma característica especial se destacou entre tantas, a de que ele era muito, mas muito direto com a questão do dízimo. No discurso daquele pastor quem não ‘pagava’ o dízimo não teria direito a usufruir do conforto da sua igreja. A palavra era bastante forte e às vezes até meio agressiva. Não vou ater-me ao mérito desta questão, mas sim no comentário feito em seguida sobre este mesmo pastor. A colega de trabalho destacava que ele costumava levar vários cantores em suas reuniões, gente com uma proposta até bastante diferenciada, o que criava uma imagem de que aquele pastor curtia um som inovador, inteligente, criativo, fora dos lugares comuns. Até aí, tudo tranquilo, o problema veio na sequência quando a colega enfaticamente disse que o pastor não admitia pagar cachê aos artistas. Se eles quisessem tocar na igreja dele deveriam fazer isso de modo voluntário ou no máximo à custa de venda de CDs e DVDs.

Confesso que não estava tão atento à conversa naquele momento até que este fato me chamou a atenção com um misto de incompreensão e susto. Como o discurso daquele pastor que não aceita pessoas que não pagam pelo ar condicionado, pelas poltronas ou mesmo da oportunidade de ouvir uma pregação mantinha a coerência recebendo em sua igreja artistas sem querer remunerá-los por isso? Me parece no mínimo contraditória esta posição, ou não?

Não! Este texto não será sobre o batido, cansado e chaaaaaaaato assunto sobre se artista gospel deve ou não receber cachês. Nada disso! Apenas peguei esse fato acima para corroborar e pintar com cores mais vivas sobre o verdadeiro assunto que passo a discorrer nas próximas linhas, concentrado também no sistema de alto falantes do aeroporto esperando ser convidado ao meu vôo.

Boa parte dos pastores vive do salário de sua igreja. Outros tantos mantêm um trabalho ‘convencional’ em paralelo. Alguns complementam seus ganhos com a venda de livros, palestras, congressos, ofertas, entre outras coisas.Já os artistas vivem da venda de shows, apresentações em igrejas, da venda de discos (e mais recentemente de vendas digitais), camisetas, bijouterias e muitas outras fontes de receita. E o compositor vive de qual receita? Basicamente os compositores vivem do percentual pago sobre a vendagem dos discos (físico e digital), isto no caso de autores com músicas gravadas por artistas vinculados a gravadoras (sérias!). Quando as músicas são gravadas por artistas independentes e algumas gravadoras (não tão sérias!), os compositores optam por receber um valor fixo adiantado. Vale ressaltar que uma música NUNCA é de fato vendida, pois a propriedade autoral é um bem inalienável, ou seja, jamais pode ser de fato transferido para um terceiro. Não por vias normais, é claro!

Outra fonte de receita dos compositores é proveniente da execução, ou seja, rádios, programas de TV e mais recentemente plataformas digitais, repassam aos compositores a parte que lhes cabe nesse enorme latifúndio. E aqui vale mais um adendo importante, pesquisando atentamente nos últimos meses sobre as mídias do segmento evangélico que recolhem o ECAD corretamente, a constatação estarrecedora é de que a imensa maioria das emissoras simplesmente se recusa a pagar o que se refere à execução. Simplesmente não pagam e fica tudo como está. O mais absurdo nesta história é que algumas destas emissoras são vinculadas a grandes igrejas, usam suas programações para pedir oferta 24 horas por dia e, absurdo dos absurdos, cobram dos artistas para que músicas sejam veiculadas na playlist. Ou seja, não só não pagam a quem de direito, como penalizam duplamente ao cobrar dos artistas pela execução.

Além da execução fonomecânica, os compositores também recebem percentuais pela apresentação de suas músicas em shows ao vivo. Qualquer evento, seja gratuito ou ingressado, que não seja realizado nas dependências de alguns ambientes específicos, tais como igrejas, templos ou afins, são obrigados a recolher uma taxa ao ECAD. Este valor será repassado posteriormente às associações e no fim chegará ao compositor, podendo ainda passar por uma publisher, caso o autor tenha este vínculo.

Em suma, diferentemente de boa parte dos trabalhadores, a classe de compositores não recebe seus rendimentos de forma direta e padronizada como qualquer empregado ao fim do mês. Independente do canal, o compositor sempre receberá um percentual, sobre fontes variáveis e basicamente em intervalos trimestrais. Ou seja, este profissional precisa ser muito produtivo, ter controle de seu dia a dia e não pode simplesmente abrir mão de determinadas receitas. Pois é justamente neste ponto que eu gostaria de escrever mais algumas linhas ‘aproveitando’ que meu vôo já ultrapassa atraso de mais de 2h30.

É meio que prática usual junto aos promotores de shows no meio gospel a solicitação para que autores simplesmente abram mão de receber seus direitos. Desde que me entendo como gente no mundinho gospel recebo solicitações desesperadas de pastores, promotores de eventos – geralmente faltando poucos dias para o evento – pedindo pela cessão de direitos autorais. Confesso que não entendo a lógica neste tipo de pedido, afinal a empresa que monta o palco recebe pelos serviços, o mesmo acontece com a empresa de sonorização, a agência que emite as passagens aéreas, os seguranças, a empresa de catering, as mídias que divulgam o evento, os artistas que irão se apresentar no palco … e muitas das vezes, o promotor do show sairá com uma bolsa recheada de dinheiro, fruto de seu tempo, esforço e dedicação. Ou seja, é lícito que toda a cadeia de envolvidos no processo seja devidamente remunerada por seus respectivos serviços.

Então por que o compositor, que é onde todo o sucesso começa, não merece participar do processo sendo remunerado de forma correta, profissional e ética?

A indagação é tão clara que não me sinto impulsionado a escrever mais tantas linhas na sequência. Os nossos 66 leitores já entenderam perfeitamente o objetivo central deste texto. Precisamos ser mais atentos a tudo que nos cerca, aos detalhes. Não podemos simplesmente reproduzir o que vem acontecendo nos últimos anos. É necessário analisar as questões por todos os ângulos e contemplando todas as pessoas envolvidas. Lembre-se que a regra básica e saudável de todo bom negócio é quando todos saem ganhando. Simples assim! E nesta mudança de hábito, a participação de artistas e gravadoras opondo-se a esta prática é fundamental! Não dá para deixar a classe de compositores sozinha figurando como vilã ao dizer ‘não’ a este tipo de solicitação. É importante que se tenha em mente de que todos são merecedores de receber por seu tempo, talento e dedicação.

Finalizo este texto já no saguão do aeroporto retornando para o Rio de Janeiro após uma noite especial participando do evento Encontro com a Voz FM, uma bela iniciativa que em 2016 iremos reproduzir em outras cidades do país.

Enjoy!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, contando os dias para entrar em férias com toda a família.