A Dança das Cadeiras no Mercado Fonográfico

Nestes dias recebi uma mensagem em minha Timeline do @DuduAdvir propondo um tema para o Observatório Cristão. O interessante nesse fato é que o tema proposto por ele já estava em minha lista de assuntos para possíveis textos. Só que na correria dos dias e pela quantidade de outras ideias para comentar no blog, esse tema acabou ficando esquecido ali num canto da memória até que o nobre colega virtual atiçou minha vontade de retomar esse assunto.

De uma forma um pouco menos direta já tratei desse tema em outro texto aqui mesmo nesse blog. Recordo-me que tratei desse assunto pela ótica das relações interpessoais, sobre a questão do contrato e temas afins.

O @DuduAdvir propôs-me falar sobre artistas que permaneciam muito tempo em determinada gravadora e que depois de anos e anos de contrato, optavam por mudar de empresa. A questão inicialmente pode ser tratada como básica, talvez até banal. Mas confesso que entendi plenamente a curiosidade e talvez a provocação que o jovem tuiteiro propôs naquele tweet.

Pra começo de conversa é bom acabarmos de vez com uma das questões mais hipócritas, piegas e sem noção que vemos sendo propaladas aos quatro ventos quando ouvimos e lemos sobre a relação entre artistas e gravadoras. Simplesmente não há essa ideia de “Família”. Laços familiares são eternos, mesmo que não haja uma relação amigável, não tem como simplesmente ser desfeito. Já relações comerciais, tem tempo definido de início e fim.

Resolvida essa primeira questão, gostaria também de comentar algo, que no meio dos adolescentes que hoje infestam as redes sociais cheios de opiniões sobre tudo e sobre todos, criam enormes polêmicas. É impressionante quando um determinado artista deixa uma gravadora e assume um contrato com outra, a enxurrada de comentários destes experts juvenis cheios de hormônios, atacando a antiga empresa e tecendo loas incomensuráveis para a nova gravadora. Ou então, no melhor estilo “vira casaca”, os defensores da antiga “família” se sentem ultrajados pela traição do artista e passam a vilipendiá-lo e atacá-lo como se um palmeirense resolvesse virar corinthiano – sacrilégio dos sacrilégios! Os ataques enraivecidos podem chegar inclusive a práticas de voodoo com aqueles bonequinhos cheios de agulhas … uma coisa mesmo! A perseguição invade as redes sociais, comunidades são criadas, campanhas, passeatas, bandeiras são queimadas em praça pública … tudo muito cristão, muito civilizado e sensato.

Para quem ainda não sabe, a Lei Áurea foi sancionada pela Princesa Isabel há mais de 100 anos no Brasil. Mesmo que o trabalho escravo insista em se manter vivo em algumas regiões no Brasil, é fato que os artistas têm direito adquirido para se transferirem de gravadora ao término de cada contrato. E vale ressaltar que a relação é bilateral, ou seja, a gravadora também se reserva o direito de não querer mais o artista em seu cast. Posso afirmar com muita segurança que se boa parte das gravadoras em nosso meio soubesse avaliar claramente o resultado, o desempenho de seus artistas, a rotatividade entre os artistas seria ainda muito maior do que observamos no atual cenário.

Ainda seguindo na questão de desempenho, toda gravadora é uma empresa comercial. Mesmo que esteja ligada a uma igreja ou denominação, uma gravadora será sempre uma empresa comercial que deve pagar seus impostos, seguir uma legislação, enfim, atuar dentro de um conjunto de regras. E como tal, cada projeto ou artista deve ser devidamente avaliado durante o decorrer de seu vínculo com a gravadora e na época certa, decidir-se entre manter o projeto ou não.

Mas o problema não está no tempo de execução do contrato. O maior trauma é justamente a fase da renovação! Já presenciei por inúmeras vezes, artistas completamente acuados no momento da negociação pela renovação ou não de seus respectivos contratos com determinadas gravadoras. O artista simplesmente avaliava não as possibilidades de crescimento em outra empresa, mas justamente as sanções e penalidades que sofreria ao decidir-se por sair da “família”.

Seguindo com nosso post, é importante frisar que a relação entre artista e gravadora deve ser pautada no equilíbrio de forças. Cada vez mais há uma escassez de empresas no mercado fonográfico fazendo um trabalho realmente de qualidade e, em contrapartida, é cada vez mais difícil encontrarmos artistas talentosos e cientes do que é uma carreira longeva e saudável. É bom que a gravadora valorize seu cast, mas é fundamental que o artista entenda sua posição na relação com a empresa. Infelizmente temos empresas que mimam demais seus artistas e, em contrapartida, artistas que exigem mimos demais de suas gravadoras. A relação deve ser prioritariamente comercial, equilibrada e que imponha permanente análise de resultados.

O artista jamais deve ter medo de mudanças! Se ele confia realmente em seu chamado, em sua capacidade e talento, nunca deve virar refém de uma determinada estrutura, cultura ou empresa. O artista, de preferência através de um manager, deve negociar claramente seu contrato observando muito mais do que os percentuais de royalties, uma série de outros detalhes. O artista jamais deve mudar de empresa denegrindo a antiga gravadora e, por auto-proteção, também não deve elogiar despudoradamente a nova empresa na chegada. Simplesmente mude de empresa. Não precisa mudar de opinião, identidade, igreja ou mesmo de time de futebol.

O mercado é dinâmico. Assim como em outras áreas e profissões, a troca de posições é algo que deve ser visto de forma natural. Hoje vivemos um momento na sociedade e conceitos, valores, bem diferentes de uma década atrás. A nova geração de profissionais, a geração Y, quer ascender profissionalmente com uma velocidade muito mais intensa do que seus pais e avós. A troca de empresas com a visão de um maior crescimento intelectual, profissional e econômico torna-se cada vez mais comum. Isso pode ser tratado de forma natural também na área artística e aí encontra-se um grande desafio aos gestores das gravadoras. O A&R, profissional responsável pela contratação e montagem de cast de uma gravadora deve ser um profissional muito atento ás possibilidades do mercado e também muito focado na manutenção saudável com os artistas de seu cast.

Neste texto, minha maior intenção é tentar desmitificar alguns aspectos que me parecem muito consolidados em nosso meio. O primeiro é sobre a relação do artista com a gravadora. Essa relação é antes de tudo, comercial. A amizade, companheirismo, respeito são condições importantes para o sucesso na relação entre as partes, mas antes de tudo, o cerne é comercial. Outro aspecto tem a ver com o equilíbrio de forças. Ninguém deve ser refém de ninguém! Por fim, deve ser considerado normal a troca de gravadoras entre os artistas como uma movimentação inerente ao mercado.

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, profissional com passagem por algumas das principais empresas do segmento religioso no Brasil, palestrante, consultor de marketing e em breve, um exímio trocador de fraldas. 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • Luís Fernando Matoso

    06/08/2012 at 13:24

    Olá Maurício! Muito obrigado por mais um texto. Agradeço, pois a qualquer momento você tem a opção de simplesmente parar de escrever por aqui ou acabar com o blog. Mas a cada texto que você publica, nos ajuda a entender mais sobre música e sobre essa dinâmica da música gospel.
    E aguardo o texto sobre ver o cantor como marca. Posso investir numa “Logo Marca” de um jovem cantor? Depois de alguns anos, a gravadora que quiser contratá-lo(a) não irá querer mudar toda a tipografia e desenho das letras que o cantor já tem usado, por exemplo?

    Obrigado,

    Fernando Matoso

    Fernando Matoso

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