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A Lei da Selva Revista e Atualizada

Relendo alguns dos textos publicados aqui no blog há uns 2 ou 3 anos atrás fico muito impressionado com algumas expectativas à época tornaram-se realidade tempos depois. Longe de querer para mim um título de Mãe Dinah do mercado fonográfico, o certo é que muitos dos prognósticos apontados em alguns textos se configuraram em fatos indiscutíveis na sequência. Especialmente no tocante ao crescimento do mercado digital de forma avassaladora no Brasil e no mundo, as tendências de antes hoje são algo bemperceptível.

 

Outra possibilidade que já venho falando há pelo menos 10 anos e que hoje é uma realidade tem a ver com o afunilamento das empresas no mercado fonográfico. Recordo-me que quando ainda era diretor na Line Records, já comentava com alguns amigos e outros profissionais do mercado que num futuro não muito distante não teríamos muitos players na indústria fonográfica. Jánaqueles tempos imaginava que, especialmente as empresas médias seriam tragadas pela competitividade aguçada, a necessidade de grandes investimentos e por dificuldades administrativas.

 

Por volta dos anos 2000 vivíamos o boom do mercado gospel no Brasil. Qualquer ministeriozinho com nome diferente lançava um disco e suas vendas chegavam aos milhares, quando não centenas de milhares e até mesmo milhão de unidades. Esta foi a época em que os cantores começaram a se tornar pastores e a terem um ministério. Parecia que naquela fase não bastava ser simplesmente um cantor, um artista, para ser mais respeitado, estes profissionais se autodenominaram ‘ministérios’ e também nesta época, a criatividade nos nomes destes ajudaram a proliferar pérolas como “Som da Noiva”, “Crer e Ouvir”, “Rasgando os Céus”, “Chuva de Glória”, “Vai que é Tua!”, “Tocar no Manto”, “Olhos Flamejantes” e coisas do tipo.

 

N.E. – é óbvio que estes nomes são todos fictícios, porque não quero causar nenhum tipo de constrangimento, mas quem quiser conferir alguns nomes esdrúxulos, uma simples pesquisa irá poder saciá-lo nesta área. Divirta-se! E se quiser postar nos comentários alguns destes nomes, fique à vontade!

 

Voltando ao texto, nesta época surgiram muitas pequenas gravadoras, outros tantos artistas independentes ou ‘ministérios’ para quem assim preferir e também alguma pequenas gravadoras puderam viver as ‘vacas gordas’ e assim tornaram-se médias empresas. Esta foi a época das grandes feiras de negócios. Recordo-me que a Expo Cristã tinha praticamente um pavilhão inteiro somente dedicado a gravadoras e o mercado fonográfico e musical. Este foi o tempo dos grandes stands, suntuosos, com metragens latifundiárias e aassustadora poluição sonora onde cada expositor buscava ter a aparelhagem de som mais potente e o palco mais movimentado. Era o Armagedon da música gospel em plena cercanias do Tietê.

 

Nesta fase, qualquer pastor de uma pequena igreja se julgava o Bill Gates, o Steve Jobs da música. Cada um acreditava ter descoberto a grande fórmula para o sucesso. Também nesta época, donos de agências de automóveis ao perceberem que os artistas de música gospel compravam seus bólidos cada vez mais incrementados e frequentes, entenderam que vender CD era uma atividade extremamente rentável. E como a maré era de grandes negócios, até mesmo alguns pequenos lojistas, comerciantes, verdureiros, bancários aposentados, entre outros,  resolveram investir em alguns artistas que trocavam matrizes por carros, kitnets, jet-ski, auxílio funeral, viagens ao exterior e todo tipo de barganha que parecesse interessante. Ou seja, o mercado foi inundado de produtos, de artistas, de selos e gravadoras.

 

Passada a euforia, todo mundo sentiu o baque das mudanças nos hábitos de consumo, na recessão do mercado, no aumento da pirataria (tão hipocritamente alardeada como algo que não afetaria o mercado gospel, mentira danada!), no maior controle dos órgãos públicos sobre as receitas – sim! muitos lojistas e gravadoras trabalhavam diuturnamente na sonegação de impostos, na diminuição sensível do números de lojistas e distribuidores, entre outros empecilhos. A verdade é que naquela época era relativamente fácil entrar neste mercado, mas tempos depois já era necessário ter uma nova postura, mais estratégica, equilibrada, profissional e aí, literalmente faltou brejo pra tanta vaca!

 

Nos Estados Unidos, para ilustrar ainda mais esta história, este fenômeno se repetiu, só que aconteceu bem antes do que observamos no Brasil. Muitos selos passaram a ser administrados por gravadoras e grupos econômicos muito poderosos. Atualmente, a Provident, uma das mais importantes gravadoras norte-americanas, tem em seu catálogo, produtos de mais de 20 pequenos e médios selos. Mesmo na Sony Music hoje, na área gospel já temos 2 selos sendo administrados e outros 2 já estão a caminho. E esta tendência está apenas começando em nosso meio!

 

Em pouco tempo teremos notícia de muitas gravadoras pequenas, medianas e mesmo artistas independentes migrarem seus catálogos para os grandes conglomerados. Escrevo este texto exatamente sobre a região de Porto Velho, extremo norte do país, após deixar a Colômbia onde desenvolvo neste momento um projeto especial para o mercado latino. Uma de nossas reuniões por lá, foi justamente assumir todo o catálogo de um grande artista. Outros dois artistas já firmaram contrato para que a nossa empresa tome conta de seus respectivos produtos.

 

Seja no Japão, nos Estados Unidos, Brasil ou Colômbia, a tendência segue a mesma! Com o crescimento dos formatos digitais e das grandes plataformas de negócios, fica cada vez menos acessível para os pequenos selos, ter acesso às novidades, aos grandes contratos e aos novos modelos de consumo. Numa grande empresa, com volume de produtos e catálogo, os números se tornam mais interessantes. É importante ressaltar que no mercado digital falamos de escala e não mais de rentabilidade de um único produto. Esmiuçando o que acabo de falar, no meio digital as pequenas vendas individuais se somampara alcançar resultados consistentes. E isto só se consegue tendo um número grande de títulos e produtos, é o que chamamos de escala.

 

Este novo formato da indústria fonográfica tem dois pilares. O primeiro é o modelo de negócio que baseia-se no licenciamento detapes, uma espécie de aluguel por tempo determinado, uma autorização pelo uso da obra por terceiros. E neste caso, o detentor da obra, o dono do tape, recebe um percentual fixo sobre os resultados de vendas. Outro aspecto é a divisãodefinida de tarefas, onde a gravadora foca seus esforços na administração, distribuição e, em algumas vezes, no marketing. O selo licenciado tem como trabalho principal, a produção artística, captação de projetos, o desenvolvimento de artistas.

 

Cada vez menos teremos gravadoras investindo na produção artística. O Net Talent – custo de gravação – é um dos mais pesados e arriscados componentes de um projeto. Já é praxe em algumas gravadoras a utilização do conceito de “Custo de Gravação Recuperável” onde o artista participa do processo de investimento no tape e em parceria da gravadora, elimina esta despesa para o projeto. Em suma, o mercado já há muito tempo vive mudanças e transformações profundas e não adianta fazer beicinho, bater o pezinho ou sair correndo em desvario porque é algo que não tem como não acontecer! Mesmo que ainda tenhamos algumas pessoas, gravadoras ou ministérios que acreditem que antigas fórmulas trarão resultados novos ( e que Papai Noel existe!), a verdade é que estas tendências já são realidade.

 

Se você é artista independente ou tem um pequeno selo, já está passando da hora de repensar suas estratégias. Junte seus produtos,seus projetos e busque o suporte e parceria de uma grande (e competente!) empresa. Quem avisa amigo é!

 

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, 25 anos de mercado, insone, mesmo depois de 3 dias de muito trabalho na altitude. Ainda assim não consegue relaxar e dormir durante o vôo. Que dureza! E a passageira ao meu lado não para de fazer o sinal da cruz … misericórdia!

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