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A música de qualidade pede passagem e espaço!

Dias atrás um compositor comentou comigo pelo twitter a respeito de uma música escolhida como single de uma determinada artista. No comentário ele fez questão de destacar a qualidade dos mais recentes singles lançados por nós e vibrava com o ‘acerto’ de mais uma escolha. A minha resposta de imediato foi agradecer pelo carinho, mas em seguida fiz questão de frisar de que aquela era somente mais uma etapa de um processo muito mais prolongado. E, por fim, fiz questão de comentar sobre a dificuldade que temos em nosso meio de ‘estourar hits’ nas mídias evangélicas.

Esta troca de mensagens nas redes sociais é o insight inicial para este post. Confesso que além da falta de tempo, tenho sofrido um pouco com a escassez de temas interessantes para o blog. Como sou muito crítico e criterioso, não saio publicando qualquer coisa, pois mesmo entendendo que apenas meus 60 e poucos leitores assíduos anseiam por novos textos, devo tratá-los com toda a atenção e carinho. Afinal, são os meus 60 leitores!

Estou no mercado evangélico já faz pouco mais de 24 anos, destes, pelo menos 18 anos dedicado exclusivamente à área artística musical. Tenho algumas centenas de produções em meu currículo, entre discos e DVDs. Poucos são os artistas de primeira linha que não tiveram uma relação de trabalho comigo nestes anos e isso me orgulha muito. E ao longo destes anos, sem dúvida, o momento crucial de qualquer projeto é justamente a fase de escolha de repertório. Isso simplesmente não muda! Pode ser na época do vinil ou agora em tempos de downloads e todas as modernidades da época digital. Tanto faz! O que torna um artista ou um projeto em sucesso, é justamente a música e sua qualidade, sua proposta, sua execução, sua performance. Uma música precisa emocionar. Arrepiar. Mostrar sua força e realmente mudar o ambiente. Isso é sucesso e só se encontra música deste naipe através de muita pesquisa. Muito trabalho. Muita transpiração.

Um A&R, profissional especializado na escolha de repertórios e na condução de projetos artísticos, está diuturnamente à caça de hits. Está sempre à procura de uma música especial, diferenciada. E confesso que ainda hoje, quando me deparo com um hit, a sensação é a mesma de anos atrás. Simplesmente a música ‘cola na pele’, nos traz uma sensação de que há algo diferente, especial naquelas notas, palavras, sonoridade. Ter um hit nas mãos é algo mágico! É impressionante em meio a uma audição perceber as reações das pessoas ao terem contato com um hit. Os semblantes se modificam, a música é acompanhada pelos dedos frenéticos como se necessitasse de percussão, as pessoas balbuciam a letra da música como se íntimas já fossem daquela canção. Como já disse anteriormente, o hit muda o ambiente.

Também recentemente vi em uma troca de mensagens no Twitter ou Facebook (não me lembro bem) uma determinada pessoa comentando que a música de um  artista tinha unção, arranjos especiais, algo diferente … e que nem sempre as músicas dos Top 10 das rádios eram as que tinham maior qualidade. Lendo estes comentários, mais uma vez me veio oinsight para este texto. A verdade é que hoje temos uma produção musical no meio gospel nacional bastante diferente do que temos ouvido nas FMs pelo país. E aí, volto à troca de mensagens citada no início deste texto. A gravadora, o artista, o produtor, todos estão empenhados em produzir e oferecer músicas de qualidade para o público. O problema é que nem sempre as rádios, maiores parceiras de divulgação da música, estão empenhadas em abrir espaço para os artistas e canções que realmente têm qualidade! Já escrevi um texto aqui mesmo no blog comentando os critérios (e a falta deles) na seleção das “mais tocadas” ou mesmo das músicas selecionadas para se executar nas rádios gospel pelo país. Vale a pena pesquisar no blog e conferir este texto.

Basta uma simples audição em algumas emissoras de rádio nas principais cidades do país para se observar que a playlistnão necessariamente dá espaço aos artistas com as melhores canções. Entendo que cada região tem sua peculiaridade, seus gostos, sua cultura e não posso querer uma padronização artística nacional, mas em contrapartida, também precisamos concordar que não temos no meio artístico gospel, artistas regionais como há na música secular, como por exemplo, a música gaúcha, carimbó, frevo e outras manifestações artísticas. A música gospel brasileira é basicamente pentecostal, MPB, pop, rock, adoração e dois ou mais poucos estilos, ou seja, as diferenças regionais são muito pequenas. E isso apenas reafirma que boa parte dos artistas e músicas no nosso meio devem seguir alguma lógica, uma certa tendência, uma playlist um pouco mais comum, mas não é isso o que observamos por estas plagas.

Hoje em dia, no meio gospel, os artistas consagrados, detentores de uma longa estrada no segmento, não têm acesso facilitado em boa parte das emissoras de rádio. Muitas das vezes, estes grandes nomes são tratados como qualquer outro artista iniciante. Ou seja, no meio gospel, entre boa parte das rádios, antiguidade não é posto, contradizendo o dito popular. Como podem artistas do calibre de Shirley Carvalhaes, Cassiane, Fernanda Brum, Aline Barros, Fernandinho, Damares, Lázaro, Kléber Lucas e tantos outros, terem que ter algum tipo de investimento para que suas músicas sejam executadas na programação de emissoras de rádio? Também entendo que nem sempre o single proposto pela gravadora é a melhor opção para uma ou outra emissora e região, mas não posso acreditar que entre 10, 12, 14 músicas de um disco, de artistas deste calibre, não tenham uma mísera canção que possa ser executada nestas emissoras! E se para os artistas mais reconhecidos já é difícil, imagina então para os jovens iniciantes?!?!? Aí já é um suplício total!

Com o crescimento da web, cada vez mais as rádios terão concorrência e o poder de decidir se esta ou aquela canção será sucesso, será diminuído sensivelmente. Isto é fato! Hoje temos artistas que se tornaram sucesso, inclusive no meio gospel, sem necessariamente que suas músicas entrassem na programação de emissoras de rádios. Atualmente já temos artistas que foram contratados por gravadoras e que são divulgados essencialmente pelo trabalho realizado na internet. Mas ainda assim, a força de massificação e promoção da rádio mantém-se muito forte! E minha campanha é para que as emissoras do meio gospel mudem a forma de lidar com a música e os artistas. Não dá mais para fechar os olhos para esta realidade! Audiência se consegue com músicas de qualidade, se conquista com uma programação bem feita, adequada ao perfil do ouvinte, do consumidor.

Me entristece muito ter tanto esforço em conseguir produzir um trabalho, em selecionar uma música de qualidade e muitas das vezes esta mesma música não estar entre as playlists de algumas emissoras do segmento pelo país pelo simples fato de uma vontade própria do dono da emissora ou de algum acordo em especial. Por causa desta política errônea, o povo evangélico está sendo penalizado a consumir muitas das vezes uma sub-música, um sub-produto de qualidade nada duvidosa. Mas ainda assim, a palavra que eu deixo a todos os profissionais envolvidos com a arte, com a música, sejam artistas, produtores, compositores ou mesmo A&R e gente do mercado: não deixem de investir na boa música, na qualidade, na criatividade, na poesia, no talento! Não podemos nos amoldar às tendências e aceitar simplesmente de forma passiva às exigências impostas por esta ou aquela empresa ou grupo. Temos um objetivo maior e que não pode ser deixado de lado, jamais! Nossa missão é levar a Palavra de Deus através da música e de fazer isso como adoração a Deus. E como tal, Ele merece o nosso melhor, sempre, mesmo que a mídia não dê espaço para o seu trabalho. Não desanime e não perca o foco: qualidade sempre!

Então, pra finalizar, quero completar este texto relembrando a conversa com meu amigo compositor. A escolha de umsingle é apenas mais uma fase do processo. Trabalhamos muito para que a boa música chegue ao público e isto demanda boa parte de nossos esforços como profissionais. Mas esta é uma batalha cotidiana, diária e em muitas das vezes, temos conseguido romper com todas as barreiras e fazer que esta canção alcance o maior número de pessoas. Vamos em frente!

Mauricio Soares, publicitário, alguém que diariamente luta pela divulgação e distribuição da boa música, jornalista, pai de 3 rapazes, consultor de marketing. Atualmente ouvindo muito o mais recente disco de Mariana Valadão, “Santo” , “Paz e Amor” com André e Felipe e Kelly Clarkson  com “Wrapped in”. Fica a dica!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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