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A ordem dos fatores não altera o produto … será?

 

Em mais uma ponte aérea entre Rio e São Paulo conferi a última edição da revista Brasil, um almanaque sempre muito interessante com textos sobre a cultura de nosso país. E nesta última edição, destaque para uma entrevista com o cantor e compositor Zeca Baleiro. Entre muitas informações sobre seus projetos e trajetória artística, Baleiro comenta sobre um de seus últimos trabalhos onde o público teve acesso às várias etapas da produção do projeto. Ele destaca sobre a importância  do público ter essa noção de como cada música é produzida, os arranjos, o processo de criação e até mesmo os motivos que o levaram a decidir pela ordem final das músicas no álbum.

E é sobre este último aspecto que eu quero aproveitar estes poucos minutos de viagem para escrever sobre um assunto que muitas das vezes passa desapercebido por boa parte do público leigo, mas que tem um importante papel no processo de conquista do artista à atenção dos ouvintes.

Neste post falarei sobre a importância (ou não) da montagem da play list de um CD. Em outras palavras, a ordem das músicas e sua relevância num projeto artístico.  Como sou um profissional do século passado, eu já trabalhava na indústria fonográfica na era dos discos de vinil. E para quem não sabe ou não se recorda, estes discos de vinil, popularmente conhecidos como LPs ou mesmo bolachões, apresentavam as faixas do álbum divididas Naquela época pode-se afirmar que a importância na escolha da ordem das músicas era tão grande como a preocupação na definição do projeto gráfico e mesmo da escolha do repertório em si. Comumente, as músicas de maior impacto encontravam-se no

Lado A do disco. Já na segunda parte, reservava-se para as músicas mais autorais ou menos comerciais.

E nesta separação entre lados A e B, muitos discos traziam uma ideia de que, na verdade, os álbuns eram independentes entre si onde cada um trazia uma proposta artística diferenciada, sem qualquer relação no conceito do projeto. Muito da preocupação em reservar ao Lado A as músicas mais marcantes tinha como preocupação em passar a mensagem, a proposta do disco logo nos primeiros momentos da audição do público. Além disso, o próprio fato da pessoa ter que se dirigir à vitrola e fazer o processo de troca de lado do disco já era de alguma forma mais um entrave para a degustação do disco como um todo. Coisas do passado!

Com a chegada do compact disc, esta preocupação de apresentar já nas primeiras faixas o conceito do disco arrefeceu-se (e nem precisamos lembrar do enfado em trocar o lado do disco) e a escolha de ordem passou a ser uma preocupação em menor escala. Os discos passaram a contar uma história com começo, meio e fim, algo mais equilibrado. Como ainda teremos muitos anos de contato com a mídia CD, não posso deixar de comentar sobre a escolha da ordem das músicas para um disco. Em minha opinião, esta escolha deve ser feita com critérios bem técnicos em que o artista deve ouvir com atenção o seu produtor musical. Basicamente as 3 primeiras músicas devem ser um ‘cartão de visitas’ apresentando o conceito do trabalho em si. Se no ditado popular diz-se que a ‘primeira impressão é a que fica’, no tocante à apresentação de um CD este conceito é bem coerente.

Se uma pessoa se propõe a ouvir um CD e nas 3 músicas ela opta por adiantar para outras faixas, aí a situação é de tensão e atenção! As 3 primeiras canções precisam ser muito fortes no repertório. Não por coincidência, mas boa parte dos singles – músicas trabalhadas nas rádios – estão situados entre as 3 primeiras faixas do disco.

Resolvida a primeira parte, o restante do CD deve ser tratado com igual cuidado. Um dos detalhes a se observar tem  ver com a intensidade das músicas. Não é saudável que as músicas sejam muito parecidas na sequência do disco. A ideia de guardar suas camisas ou vestidos no armário seguindo uma ordem de cores, no melhor estilo de escala Pantone não é bem vinda em se tratando de um projeto musical. A montanha russa entre diferentes estilos é bem mais saudável. Cuide para que os estilos não se repitamem mais do que duas sequências. Torne o seu CD uma surpresa auditiva onde a cada próxima faixa uma nova sensação sonora seja provocada.

Só que neste momento, temos o novo modelo de consumo musical, não mais baseado na mídia física, mas no formato digital. E para esse novo ambiente, a importância na ordem das músicas já perde ainda mais força se comparada a demais mídias. Isso porque a música passa a ser tratada como single e não como um coletivo. Neste novo ambiente digital, cada música tem seu espaço próprio, sua força e impacto individual. Ou seja, o consumo de singles passa a ser bem mais habitual do que em tempos atrás. É óbvio que a proposta de álbum no formato digital deve seguir a mesma estratégia da utilizada no formato CD, mas o próprio perfil de consumo de música neste novo ambiente estimula em muito o destaque dos singles.

Outra mudança que imagino que deva ocorrer nos próximos anos tem a ver com a quantidade de músicas produzidas para se lançar um álbum. Na minha modesta opinião creio que os artistas e suas respectivas gravadoras passarão a lançar álbuns com 3, 5 músicas apenas e em períodos mais curtos entre um e outro lançamento. Mas isso é papo para um novo texto em breve.

Finalizo este texto em meio a um vôo turbulento entre Rio e São Paulo. Nestes últimos dois dias estive em São Paulo acompanhando a gravação maravilhosa do primeiro DVD de carreira de Leonardo Gonçalves.

Este é um típico projeto em que fico absurdamente orgulhoso de ter meu nome na ficha técnica e por ter participado de alguma forma na execução de tudo. Em breve vocês poderão conferir essa obra prima!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e atualmente mais conhecido como o “pai do Benjamim, Fernando e Leonardo”

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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