ABAIXO A DITADURA!

Dias atrás fui entrevistado por um programa de televisão pra falar sobre a música gospel, sobre tendências, as novidades da gravadora, as mudanças do mercado fonográfico, as questões digitais e lá pelas tantas o repórter me perguntou se a música gospel ainda sofria de algum preconceito para que pudesse ter mais espaço e divulgação. Num primeiro momento pensei em seguir a resposta padrão dizendo que a grande mídia de rádio, TV e mesmo a mídia impressa seculares, ainda precisavam dar mais atenção para o segmento, de que ainda há muito a se conquistar e tudo mais. Só que optei em seguir por um viés menos óbvio e mais realista e é sobre esta resposta que pretendo me debruçar nos próximos minutos e espero que você mantenha-se atento na leitura deste post.

Quando comecei a desenvolver minha resposta percebi claramente que o repórter se mostrou meio surpreso com minha reação. Afinal aquela teoricamente seria uma pergunta padrão para uma resposta padrão. Mais ou menos do que falar sobre a classe política, sobre a cordialidade do brasileiro, as belezas do país e por aí vai … ou seja, espera-se sempre que a abordagem siga o senso comum estabelecido. Mas reservo-me ao direito de seguir numa outra linha, afinal como bom analista e crítico do que está há minha volta devo ter como hábito observar fatos e decifrá-los por um olhar diferenciado. É isto o que tentamos fazer por este blog ao longo dos quase 8 anos de existência, ou seja, observar, decifrar e expor por um prisma independente tudo o que nos cerca na sociedade e em especial no segmento cristão tupiniquim. Então, voltando à resposta, de forma muito clara disse que o maior preconceito e entrave que temos para a música gospel é justamente um dos players que mais deveria estar aberto às novidades, a saber: as rádios de programação evangélica em todo o país.

Analisando de forma aleatória e descompromissada vemos que o roteiro das playlists no Brasil radiofônico evangélico segue um mesmo padrão como se não houvessem regionalismos, públicos distintos e mesmo gostos peculiares. Ou seja, o que se toca no Rio de Janeiro é muito semelhante ao que os paraenses estão ouvindo em termos de programação nas rádios evangélicas pelo país. Há uma clara má vontade por parte das rádios evangélicas em abrir espaço para o novo. Recentemente conversando com um locutor de uma das mais influentes e importantes emissoras do país, de forma muito envergonhada, este profissional me disse que ele mesmo não curtia a programação da emissora e que não suportava mais ouvir sempre as mesmas músicas dia a dia. “Praticamente repetimos a playlist dia sim e outro dia também. Se você reparar, os blocos de músicas são os mesmos, sendo mudados apenas os horários. O dono da rádio sempre diz que em time que se está ganhando não se mexe! Lamentável” Este mesmo profissional prossegue dizendo que há mais de 6 anos a emissora não cresce em audiência e que para uma nova música entrar na programação ela precisa estourar em todo o Brasil. Ou seja, é uma rádio que opta pela repetição e não pela vanguarda, pelas novidades. Como ele mesmo fez questão de dizer, lamentável!

Vou mais uma vez comentar, sem medo de estar sendo redundante ou repetitivo: o maior entrave para a música gospel no Brasil é justamente a falta de abertura das emissoras de rádio pelo novo! Basta olharmos a lista de músicas mais executadas pelas emissoras e vamos ver que há uma repetição de nomes consagrados, muitos dos quais em perfeita tendência de queda de qualidade, ou seja, vivendo tão somente do nome adquirido no passado. E esta estratégia Control C Control V repetindo os mesmos medalhões está repelindo uma enorme população de ouvintes das emissoras de rádio em todo o Brasil, principalmente esta nova geração jovem que está antenada nas novas tecnologias e plataformas de consumo de música digital. Com isso, a tendência de envelhecimento da audiência é forte e segura! Incontestável eu diria.

E o pior é que esta ditadura artística acaba repercutindo em diferentes setores do segmento gospel nacional. Sem espaço para novos artistas, a área de shows permanece engessada em 10 nomes de alcance nacional. E isto tem prejuízos enormes para quem se aventura na área do entretenimento cristão, pois esgotados estes 10 medalhões fica muito mais difícil promover shows com garantida presença de público repetidas vezes. Tentando explicar melhor, depois que um contratante faz um show com os artistas X, Y e Z, as opções de outros grandes artistas começam a escassear e aí o risco de prejuízo em eventos cresce vertiginosamente. Ainda na área de shows, quando apenas 10 artistas conseguem ter visibilidade as agendas destes são disputadas entre os contratantes inflacionando substancialmente os seus cachês. Enquanto isso, a turma que está na estrada em busca de seu espaço, segue se submetendo ao que vier pela frente, muitas das vezes uma literal roubada cotidiana.

Mesmo entre as igrejas, esta ditadura tem consequências drásticas, porque a competição entre contratantes e eventos de igrejas se torna acirrada pela melhor e mais importante atração. E é claro, que nesta disputa, a igreja sempre sairá perdendo. Já percebemos inclusive que muitos artistas atualmente reservam em sua agenda apenas dias úteis para atender a convites de igrejas reservando os fins de semana para eventos bilhetados ou de prefeituras.

Outra consequência da falta de abertura das rádios por novidades é que o mercado acaba restringindo-se também a poucas gravadoras, poucos artistas e poucos estilos musicais. Como vemos, a ditadura artística nos traz muitos desdobramentos onde o resultado visível é o empobrecimento cultural, o atraso, o monopólio e a obviedade. O mercado é reativo, ou seja, apenas atende às demandas que surgem num claro “efeito Tostines”, lembra? – vende mais porque está sempre fresquinho e está sempre fresquinho porque vende mais, ou seja, parafraseando este conceito, determinado produto vende mais porque toca nas rádios e toca nas rádios porque é um sucesso! O  seja, em algum momento alguém tem que romper com a inércia e dar o primeiro passo, a primeira oportunidade para artistas jovens mostrarem seu valor. E efetivamente em nosso meio, as rádios não estão assumindo este papel de apresentar novidades ao público.

Como manifestação cultural, a música gospel é muito rica e vai bem além do que os ritmos pentecostais ou as canções congregacionais. Infelizmente, a falta de disposição ou de liberdade dos profissionais que atuam nas rádios evangélicas acarretam consequências danosas à própria música cristã em nosso país. Já citei aqui mesmo no blog que conversando com a equipe da Provident nos EUA, eles ficaram surpresos pela forma como as gravadoras gospel no Brasil precisavam se esforçar para que mesmo grandes nomes do mercado tivessem suas músicas executadas nas FMs por aqui. Há uma clara deturpação de conceitos e atitudes em nosso meio e isso vem prejudicando muito a boa música cristã que é desenvolvida no país.

Recentemente ouvi o som de um músico de Cabo Frio/RJ que me chamou a atenção pela qualidade sonora e principalmente pela criatividade em suas letras, estou falando de Salomão do Reggae. O cara é bom demais! Suas músicas são excelentes. Suas sacadas são absurdamente geniais! E qual rádio pelo país executa suas músicas na programação? Praticamente nenhuma, pelo menos não tenho conhecimento de que em alguma esteja, exceto a rádio da Igreja Batista da Lagoinha em BH ou talvez a Bola de Neve Web Rádio, talvez. Mas nada muito além do que umas poucas emissoras pelo país. Só que os vídeos deste artista começam a crescer em views, sua agenda começa a ficar bem concorrida e a expectativa pelo lançamento de seu primeiro disco cresce a cada dia. Tudo isso sem qualquer apoio da mídia especializada, especialmente as rádios. Ou seja, com o crescimento das mídias digitais, cada vez mais as rádios perderão sua primazia em determinar o que será sucesso, o que será popular junto ao público. Sobre este tema sugiro a leitura do texto sobre o fim do monopólio das rádios publicado recentemente.

Espero que a boa música tenha cada vez mais espaço nas FMs gospel pelo país, assim como a música internacional cristã. Os ouvidos agradecem!

 

Mauricio Soares, observador e grande incentivador pela boa música, alguém que está sempre muito aberto às novidades artísticas. Jornalista, publicitário e peladeiro de fim de semana.  

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

7 Comments

  • Lucas

    22/04/2015 at 21:13

    Muito boa observação, já tinha notado isso a bastante tempo. Há vezes que ligo em uma certa estação de rádio aqui do RJ e seja manhã, tarde ou noite é absolutamente a MESMA música que está tocando, algo bem surreal! Muitas vezes até cantores consagrados, que possuem boas vendagens de discos e tem uma longa carreira são esquecidos! E as programações continuam cheias do mesmo!

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    • Mauricio Soares

      24/04/2015 at 17:38

      Não dá para levar muito a sério estas emissoras que funcionam apenas como alto falantes de igrejas ou de gravadoras … nestes casos, a opinião e o gosto público ficam em terceiro plano.

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  • TheKid

    24/04/2015 at 17:20

    Ahhh meu amigo, é a teoria Fordista reinando nas ondas celestias do radio gospel ou estou enganado? “Dizia Ford: faço carro de qualquer cor desde que seja preto” aí vem arádio brasileira e fala: “toco qualquer coisa desde que seja X, Y e Z”… É por aí?

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