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Acabou a ditadura!

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Nas últimas semanas o nosso blog esteve mais parado do que o de costume, afinal não temos hábito ficar mais de 2 semanas sem textos e postagens inéditas. Em função de alguns contratempos, mesmo com alguns textos já finalizados e prontos para a publicação, ficamos sem novidades no blog, mas pra compensar este hiato, acabamos liberando de uma única vez logo os 3 últimos textos publicados recentemente. E tudo é uma questão de hábito, de repente me peguei numa tremenda falta de escrever mais textos, sem muito estímulo pra continuar dedicando alguns minutos, horas talvez, pra criação de novos conteúdos … confesso que estava quase sucumbindo à tentação de tirar umas férias prolongadas (tipo o Leonardo Gonçalves pra 2017) sem data de retorno. No entanto, bastaram uns dias fora das quatro paredes do escritório, em contato com pessoas que nem sempre tenho oportunidade de conviver no meu dia a dia, para que o desejo de seguir em frente publicando novos textos ressurgisse novamente.

Durante uns dias em Goiânia tive oportunidade de conversar com muitas pessoas, na verdade, revi alguns amigos e conheci dezenas de outras pessoas que até então não conhecia. E boa parte destas pessoas fazia questão de dizer que eram leitores do Observatório Cristão, que curtiam nossos textos, seguiam nossas dicas e que até mudavam sua forma de pensar e agir baseados em informações que recebiam pelo blog. Este tipo de contato é fantástico pra mim! Serve mesmo como um grande estímulo pra seguir adiante mesmo após quase 9 anos de publicações ininterruptas.

E quero aproveitar um pouco mais dos próximos minutos de sua preciosa atenção para comentar sobre algo que tenho falado muito nas últimas semanas. Vale lembrar que boa parte dos temas e assuntos aqui publicados são, na verdade, oriundos do meu cotidiano como profissional da área de música, de experiências vividas e observações acuradas de meu dia a dia. E especialmente nestes dias tenho falado (e ouvido muito) sobre o sucesso ‘meteórico’ do projeto Preto no Branco. Pra quem não os conhece ainda, vou apresentá-los … o Preto no Branco é uma criação do engenhoso, dinâmico e criativo Alex Passos, sócio-diretor-faz-tudo da Balaio Music. Há 2 anos e pouco atrás ele me procurou pra dividir algumas ideias de um projeto musical. Durante muitos anos, Alex Passos foi o apresentador do programa de TV Balaio, transmitido pela Rede Super de Televisão, canal da Igreja Batista da Lagoinha de BH. Ele me apresentou o projeto, aprovei na hora e a partir dali seguimos cuidando de todos os detalhes. O Preto no Branco é o encontro de 4 artistas solistas, multi-instrumentistas, compositores e extremamente talentosos. O grupo inicialmente era formado por Wesley Santos, Juninho Black e Clóvis e contava com a participação especial de Eli Soares. No fim de 2014 eles se reuniram para gravar um projeto inédito e este projeto só chegou ao mercado no fim do ano seguinte. Agora, já quase no fim de 2016, portanto com menos de 12 meses de seu lançamento, o Preto no Branco é um verdadeiro fenômeno de popularidade superando 100 milhões de visualizações de seus vídeos, algo bastante raro no meio gospel tupiniquim, principalmente em se tratando de um projeto tão recente.

Mudança de cena …

Recentemente Leonardo Gonçalves gravou uma música que tornou-se tema para o filme “Você Acredita?”, que foi um sucesso estrondoso nos cinemas pelo Brasil. A música “Acredito”, versão de uma canção da banda norte-americana New Boys (We Believe) está com mais de 25 milhões de visualizações tendo sido lançada cerca de 1 ano atrás. A versão original, com 2 anos de publicada, conta com 18 milhões de views, ou seja, um caso raríssimo de versão que suplantou em popularidade a canção original. Esta música em português interpretada brilhantemente por Leonardo Gonçalves talvez fosse a cereja do bolo que faltava para coroar de vez o sucesso e unanimidade de reconhecimento que o artista precisava após lançar seu projeto “Princípio”, DVD que marcou em definitivo a carreira do Leonardo Gonçalves. Esta música entrou no repertório do cantor a ponto de rivalizar em preferência com outras canções tradicionais do artista como Getsêmani e Sublime, apenas para citar duas músicas.

Nova mudança de cena …

No mês de julho deste ano estava em Fortaleza participando da Expo Evangélica, hoje seguramente a maior feira de produtos evangélicos do país. Lembro-me que vi esta feira crescer há 11 anos atrás, ainda num espaço que comportava (muito quente e apertado) no máximo umas 2 mil pessoas e hoje me deparo com um Centro de Convenções climatizado e com capacidade para 15 mil pessoas completamente abarrotado. Que felicidade ver um projeto crescer, acreditar onde ninguém via nada e depois deparar-me com algo sólido e confiável. Mas voltando ao mês de julho, como apoiador da Expo, fiz questão de levar uma quantidade enorme de artistas de meu cast, de diferentes estilos, de diferentes públicos e de diferentes etapas no estágio da carreira artística. Todos os nossos artistas tiveram oportunidade de cantar no palco principal da feira e pra minha grata (e enorme) surpresa, o público cantava a plenos pulmões cada uma das canções ali interpretadas. E não era no refrão ou no fim das frases, o povo cantava tudo, inclusive com vocais, voltinhas, melismas e tudo mais! Mas aí você deve estar pensando: a gravadora investiu um caminhão de dinheiro nas rádios de Fortaleza pra garantir toda esta popularidade!

Concluindo a cena …

Mas o que tem em comum Preto no Branco com Leonardo Gonçalves e ainda a Expo Evangélica de Fortaleza com os queridos cearenses fazendo dueto com os artistas? Muito simples! Nem o Preto no Branco, nem a canção “Acredito” do Leonardo Gonçalves ou mesmo os artistas do cast que se apresentaram na Expo Evangélica, tiveram seus trabalhos divulgados prioritariamente nas FMs evangélicas pelo país. Ou seja, nestes 3 casos (mas poderia listar outros mais) o caminho da música e seu respectivo reconhecimento do grande público não se deu pelo tradicional caminho de tocar nas rádios do segmento. Se até alguns anos atrás as rádios tinham a primazia (quase uma ditadura!) no sucesso de um determinado artista ou canção, hoje em dia, em tempos digitais e de mobilidade plena, as rádios perderam sua hegemonia no processo de se criar o sucesso. Não estou dizendo que as rádios não são importantes! Não mesmo! O que estou dizendo é que elas não são mais o caminho exclusivo e hoje dividem em importância com a internet e as plataformas digitais. E isso, é muito saudável porque traz para os artistas, gravadoras e principalmente o público a oportunidade de ter acesso a conteúdos diferenciados que até então não tinham espaço nas grades de programação das rádios. Aí cabe até uma puxada de orelha gospel … no nosso meio religioso esta democratização, sem dúvida, desestabilizou algumas emissoras que até então se jactavam de deter a hegemonia em suas regiões. Não posso deixar de comentar sobre determinada rádio de um grande centro do país que só tocava artistas que atendiam suas demandas próprias como eventos na igreja ou outras parcerias comerciais. O dono daquela emissora gostava de alardear aos quatro ventos de que naquela região se quisesse ser conhecido deveria pagar o pedágio a ele … algo mais feudal, impossível!

Em suma, vivemos um momento único na área musical como um todo. Através destes novos canais de consumo de música, artistas até então ligados a determinados nichos (sem acesso às grandes mídias) foram sendo descobertos por novos públicos e ampliaram consideravelmente o alcance de sua mensagem e arte. Especialmente as plataformas de audio streaming contribuíram muito para esta maior interação entre diferentes estilos, públicos e artistas porque todo este conteúdo está num mesmo local entre 30 a 40 milhões de músicas ao simples alcance de uma busca.

Tanto “Acredito” como Preto no Branco são fenômenos da internet que depois foram ‘descobertos’ pela grande mídia. Tive recentemente contato com um diretor de uma grande rádio que me confidenciou não conhecer o Preto no Branco mesmo eles já contando com milhões de views na web, agenda lotada pelo Brasil e milhares de seguidores em suas redes sociais e canais oficiais. Ouvindo este comentário, só pude dizer que as coisas estavam mudando e que os programadores de rádio deveriam incluir buscas na internet como atividades corriqueiras para entender o que o público estava escutando naquele momento. Não só ele entendeu o recado como já vem trabalhando diretamente junto ao YouTube, redes sociais e as plataformas de audio streaming acompanhando os números diariamente.

Pra concluir, vivemos um tempo de grandes transformações. De novos hábitos, novas expectativas, novas estratégias. É fundamental que os artistas, principalmente a nova geração, saiba que hoje todos estão praticamente num mesmo nível, não importando se possui uns poucos anos de estrada ou décadas de música gospel nas costas … a verdade é que tudo voltou à estaca zero e por isso, todos têm capacidade para se estabelecer com sucesso e vigor no cenário artístico gospel. O mesmo digo para os medalhões, artistas que viveram o auge do mercado fonográfico … não adianta de nada anos e anos de estrada se não entenderem que tudo mudou e que é necessário se reeducar, reinventar, adquirir novos hábitos, buscar conhecimento. Uma das provas desta mudança é esta mesma que eu citei nas linhas acima, pois quem imaginaria que artistas surgiriam atropelando tudo sem que suas músicas sequer tocassem nas rádios? A internet está aí … o mundo digital é realidade … novos nomes estão surgindo no cenário musical … tudo novo!

Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, blogueiro, profissional de marketing, jornalista e observador de novas tendências.

  • Jeferson Almeida

    As mídias sociais são ferramentas muito importantes hoje para artistas, porem elas não fazem milagre, é necessário além do talento ter um trabalho profissional e de qualidade, e um bom investimento financeiro também. Mas sem dúvidas, no mundo digital as oportunidades são iguais para todos , tanto “grandes” como “pequenos”.Com dedicação da pra ir longe mesmo de forma independente, dicas valiosas Maurício Soares rs .
    Obs: É triste ver que mesmo grandes empresas atuantes no mercado gospel , ao que me parece ainda não acordaram para o mundo digital.

    • Mauricio Soares

      Sim Jeferson, o bom deste momento é que há espaço para todos os tipos, estilos, tamanhos de artistas. De verdade vivemos dias bem mais democráticos em se tratando de oportunidades para a classe artística. Aqueles que primeiro se posicionarem neste novo ambiente digital certamente terão melhores chances de garantir um lugar ao sol. Obrigado por sua mensagem!

      • Jeferson Almeida

        Eu que agradeço Maurício, tenho aprendido muito aqui , valeu !!!