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Ajustando o discurso “político e gospelmente correto”

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Uma das questões que mais me tiram do prumo em se tratando de universo gospel tupiniquim tem a ver com o discurso quadradinho, aquela coisinha padrão do politicamente, evangelicamente, doutrinariamente correto. É impressionante como a livre expressão de idéias, conceitos e principalmente senso crítico parecem banidos desse mundo!

A Bíblia nos ensina uma série de atitudes que devemos seguir e levar como conceitos inegociáveis de nossa postura e conduta, mas onde está escrito que não devemos ter opinião própria? ou que devemos acatar de olhos fechados o que status quo nos vaticina?

Lidando com artistas evangélicos nos últimos vinte anos de minha existência, já consegui entender muito do linguajar, pensar e mesmo comportamento dessa classe profissional. Neste nosso meio tem artista e músico que tocou há 15 anos atrás no mesmo palco de algum figurão da MPB e hoje inclui no “kit testemunho” esta experiência como se fosse algo constante e profissional. Outros substituíram o 3º back vocal do artista X por uma turnê na Zona Leste de São Paulo e no release atual cheio de autoelogios consta que fez parte da banda deste determinado figurão.

Saindo do plano da autopromoção e dos testemunhos inflados, seguimos com o vocabulário léxico gospel onde cantor é “levita”, cachê é “oferta de amor”, show é “apresentação” e cantar em igrejas de brazucas nos Estados Unidos onde reúnem-se multidões de 20, 30 pessoas torna-se “turnê internacional”.

Se eu fosse médico, sem dúvida alguma estudaria e trabalharia para tornar-me um cirurgião respeitadíssimo! Se fosse advogado, meu foco seria tornar-me um magistrado tendo como objetivo maior assumir uma cadeira no STF ou algo similar. Se este que vos escreve tivesse a bênção e o dom divino de ser um atleta de futebol, meu objetivo não seria outro que não fosse conquistar uma Copa do Mundo ou uma Bola de Ouro da Fifa. Ou seja, em qualquer profissão, seja ela a mais simples ou a mais complexa e competitiva, a meta deve ser sempre alcançar os mais elevados postos.

No entanto, quando um artista gospel fala em alcançar o sucesso é como se estivesse dizendo algo inadmissível para os ouvidos padrões do meio cristão. É óbvio que o objetivo – ressalte-se que não apenas dos artistas de música cristã, mas de qualquer pessoa que professa a fé evangélica – de todos deve ser propagar a Palavra de Deus e seu discurso redentor, mas uma questão não anula a outra. Ou seja, você pode usar seus dons e talentos para evangelizar as nações, mas não precisa se autoflagelar por também almejar o reconhecimento terreno e o respectivo sucesso profissional e financeiro.

Vejo com muita reserva e principalmente leio e escuto os discursos perfeitos de alguns dos “adoradores” que hoje residem em mansões nos bairros mais sofisticados de suas cidades, dirigindo bólidos reluzentes pelas ruas e avenidas, com ar condicionado geladinho e vidros enegrecidos pelas películas, dizendo que buscam a simplicidade, o amor ao próximo e que detestam a idolatria, os fãs, a exacerbação do mercantilismo e afins. Please! Como a própria Bíblia afirma, todo obreiro é digno de seu salário, se hoje estes conquistaram conforto para si e suas famílias isso certamente não é nenhum crime, não precisam se esconder por detrás de lágrimas, melancolia, ou pior, de discursos meticulosamente formados para agradar aos críticos e religiosos de plantão.

É tão estimulante ler biografias de pessoas como Steve Jobs, Carlos Salinas, Antônio Ermírio de Moraes e outros empresários e empreendedores que com seu sacrifício, talento e às vezes sorte conquistaram lugar de destaque no meio corporativo mundial. Então porque não podemos ter cantores evangélicos que fruto de seus talentos, dons, inteligência e mesmo foco na carreira conseguiram lugar de relevância no meio fonográfico nacional?

O maestro Antônio Carlos Jobim vaticinou certa época, que “no Brasil, sucesso é ofensa pessoal”. Realmente percebemos que profissionais que se destacam em certas áreas de atuação, acabam por criar mesmo que involuntariamente “partidos contra e a favor”, como se o sucesso não fosse algo a ser conquistado e almejado por todos.

Através deste post gostaria de provocar uma reflexão sobre a adequação entre o discurso e a realidade. O que, sem dúvida, pode trazer grande peso ao coração do homem é ele perceber que vive de aparências para somente agradar e ajustar-se à sociedade, ao pensamento da massa, da unanimidade. Como também afirmou, Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”, então escolha ser inteligente, seja autêntico e ciente de seus objetivos e princípios!

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Mauricio Soares é publicitário. Nos últimos meses, talvez fruto da idade, esteja perdendo o pudor em expor mais claramente suas opiniões e crê piamente de que podemos e devemos fazer uma mudança neste pensamento reinante do meio evangélico nacional. Enquanto isso, vai lendo entrevistas de alguns artistas acompanhado de um dicionário de “expressões, temas e assuntos gospelmente corretos”.

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