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Ambientes iguais, resultados diferentes

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Nos próximos dias tentarei atualizar ao máximo este blog com muitos textos, pois estarei viajando e como sempre faço, aproveitando ao máximo horas de voo e de espera em saguões de aeroportos para escrever o quanto for possível e minha criatividade e disposição resistirem. Neste momento sigo para mais uma edição da Expolit, a mais importante feira do mercado cristão da América Latina. Confesso que não tenho mais noção da quantidade de vezes que participei deste evento, mas estimo que esta seja minha décima quarta edição ou algo próximo a isso. Felizmente minhas últimas participações têm sido bastante produtivas com o início e ampliação do projeto de música cristã em parceria com os escritórios da Sony Music na região. Neste ano estaremos apresentando oficialmente o projeto em espanhol do DJ PV e imagino que esta edição da Expolit será determinante para os artistas cristãos brasileiros na América Latina. Espero que já em 2018 tenhamos mais artistas brasileiros apresentando seus projetos ao mercado cristão hispano.

Dando sequência ao nosso texto propriamente dito, tenho observado atentamente alguns aspectos do consumo de música após a mudança nos formatos, meios e na indústria da música em si. Quando comecei a lidar com o mundo digital, isso lá pelos idos dos anos 2010, tudo parecia uma grande aposta, uma tendência que demoraria alguns anos até se consolidar, especialmente no Brasil ou na América Latina. Recordo-me que em toda oportunidade de viagem ao exterior, especialmente aos EUA, carregávamos o cartão para consumo do iTunes, porque o serviço não dava demonstrações de quando chegaria de fato a Terra Brasilis. Por muito tempo ouvíamos (e torcíamos) sobre possíveis datas do desembarque da plataforma de downloads no país e enquanto aquilo não se tornava em realidade, seguíamos focados nas vendas de CDs, DVDs e no combate à pirataria – engana-se quem imaginou que o mercado gospel se manteve alheio às mazelas da pirataria. Tivemos casos comprovados de clonagem de discos derramados no mercado, especialmente no Estado de São Paulo, que afetaram negativamente muitas gravadoras. Quando, finalmente, o iTunes chegou ao Brasil, oficialmente o país entrou no circuito mundial de consumo digital. Por estar numa companhia multinacional, automaticamente todo o conteúdo de nosso catálogo gospel estreou no iTunes exatamente no minuto zero da existência da plataforma no país, o que para algumas gravadoras do segmento demorou até anos para que o processo se concretizasse (algumas demoraram tanto a enxergar e agir que acabaram entrando no iTunes apenas quando esta modalidade de consumo digital já havia entrado em queda pela chegada do streaming).

Quando o iTunes desembarcou em praias brasileiras o Top Chart de vendas foi povoado por muito tempo exclusivamente por artistas internacionais. A música brasileira no primeiro momento simplesmente foi colocada à margem no consumo de downloads pelo iTunes. Sertanejos, funk, MPB e, claro, o gospel surgiam raramente no Chart50, vez ou outra no Chart100. Quando Leonardo Gonçalves tornou-se o primeiro artista religioso do país a figurar no topo do Chart de vendas do Brasil a comemoração foi digna de um Oscar ou algo do tipo! Feito repetido depois por Os Arrais, Gabriela Rocha, Mariana Valadão, Paulo César Baruk, entre outros. Vale um “registro-ostentação” destacando a Sony Music como a gravadora a ter o maior número de artistas do cast entre o Top 5 de melhor performance na história do iTunes no Brasil. Durante muito tempo o iTunes foi um território exclusivo de artistas e conteúdos internacionais e não por coincidência, este tipo de consumo refletia o estilo de usuários do serviço, notadamente um público das classes AB, com perfil mais sofisticado, antenado com as tendências do exterior.

Com a expansão do consumo, a popularização do consumo (note-se de que nunca no Brasil o iTunes foi popular, até porque sua política de preços sempre manteve-se atrelada ao dólar e ao cartão de crédito internacional) e um maior entendimento dos artistas nacionais, a exclusividade de artistas e projetos internacionais passa a ser diluída, dividindo as atenções com artistas nacionais, especialmente uma turma da nova MPB e os sertanejos. Antes mesmo do iTunes tornar-se um canal de consumo popular, chegou ao país as plataformas de streaming, primeiramente o Deezer, sendo seguido pelo Spotify e tempos depois pela Apple Music. No início, estes aplicativos vivenciaram a mesma tendência histórica do iTunes, ou seja, conteúdos internacionais, especialmente a música eletrônica, monopolizavam a atenção do público. Nada de sertanejo, funk, samba, pagode ou gospel … no entanto, com o crescimento dos serviços, a parceria entre a Deezer e a operadora de telefonia Tim, a popularização das marcas e o aumento do consumo por parte de diferentes públicos, o perfil de consumo nas plataformas digitais também sofreram transformações sensíveis incluindo novos estilos que até então se mantinham à margem do consumo digital ou, melhor, distantes do universo streaming. Entre estes estilos, destaque para o funk – especialmente o som produzido nas periferias paulistanas – que assumiu lugar entre o sertanejo, pop internacional e eletrônico.

Atualmente no Top 10 Semanal de Streamings no Brasil encontramos sempre dois a três MCs ‘qualquer coisa’ ladeando com nomes como Matheus e Kauan, Marília Mendonça, Anitta e Ed Sheran. E é basicamente a respeito deste ponto que irei seguir pelos próximos minutos, imaginando que ainda terei a atenção de ao menos nossos 69 leitores abnegados e atentos do Observatório Cristão. O advento da música digital, especialmente nas plataformas de áudio streaming, vem promovendo uma mudança significativa na indústria da música e na escala de prioridades dos A&R em termos de contratações. Se em tempos atrás o funk ficava restrito às periferias, sempre à margem do mainstream, distante das rádios e programas de TV, atualmente os artistas deste segmento garantem importantes pontos de Market Share e passam a ser buscados avidamente pelos profissionais das gravadoras. A grande questão é que esta novidade, esta mudança de estilo que vem crescendo em importância no cenário musical tupiniquim, deixou de lado qualquer pudor, senso estético ou qualidade. Nem é preciso dedicar alguns minutos para se ouvir o que vem sendo produzido por esta turma do funk, basta atentar-se aos títulos das músicas onde “Bumbum Granada” passa a ser um dos títulos mais sutis entre o cardápio oferecido. Outro dia parei para analisar uma playlist de funk e antes de chegar à décima faixa, já decidi nem arriscar-me a ouvir nada tamanha agressividade nos títulos das ditas ‘obras musicais’. Tempos depois ainda soube que há uma categoria ainda mais HardCore com os “proibidões” que seguem uma linha ainda mais pornô-explícita-agressiva que define o sexo feminino como qualquer coisa … algo deplorável ao extremo. Não sou sociólogo e por isso mesmo nem me atreverei a fazer uma análise sobre os motivos que corroboram para este cenário musical, mas o que sei neste momento é que o ambiente digital trouxe à baila uma música de baixíssima qualidade, feita em escala industrial (há escritórios de funk lançando 6 a 10 faixas inéditas por dia!), que ultrapassou os limites da periferia e hoje performam com destaque no YouTube e nos aplicativos de áudio streaming.

Em contrapartida, este mesmo ambiente digital provocou outra mudança radical na área da música gospel nacional e que merece ser comemorada por todos! Enquanto no secular, o digital trouxe o funk, pelos lados da música cristã observamos uma chegada de artistas e propostas musicais de extrema qualidade que até então não tinham espaço no concorrido mainstream ocupado por poucas gravadoras do segmento. Há 10 anos atrás, a música gospel era representada por Aline Barros, Damares, Fernandinho, Cassiane, Diante do Trono e mais uns 5 a 10 outros nomes com relevância nacional. Entre os estilos, nada de um reggae brilhantemente apresentado por um Salomão ou a vibrante e dançante música de um DJ PV, por exemplo. A música gospel de então, limitava-se ao surrado pentecostal com seus trinados, arranjos triunfantes, letras enormes ou aos tradicionais estilos pop adoração ou louvor congregacional, nada muito além disso! Com a chegada das plataformas digitais, os artistas que até então eram considerados underground ou de nichos menores, passaram a ter espaço e a conquistar a atenção do público. Público, que por sinal, já dá sinais claros de que vem crescendo no consumo de música comemorando o fim do monopólio das rádios do segmento onde nem sempre a qualidade da programação era, de fato, o forte das emissoras.

Meses atrás fiz uma pesquisa interna e deparei-me que entre os 10 artistas de melhor performance em resultados de minha companhia na área gospel, cerca de 80% haviam se destacado nos últimos 5 anos, muitos destes com tempo de carreira inferior a 7 anos, ou seja, uma turma jovem, com propostas musicais bem diferenciadas e de acordo com o novo perfil de consumo no segmento, destacava-se demonstrando um novo caminho para a música gospel no país. Nomes como Amanda Rodrigues, Gabriela Rocha, Ministério Morada, Deise Jacinto, Priscilla Alcântara, Pier49, Marcela Taís, Os Arrais, Estêvão Queiroga, Preto no Branco, Paulo Nazareth, Isadora Pompeo, Arianne, Tanlan, ou os já citados, DJ PV e Salomão, já são artistas de relevância no segmento, demonstrando a enorme diversidade de estilos, propostas musicais e alcance nacional.

Estamos vivendo um momento muito especial no mercado da música no Brasil, especialmente no segmento gospel e considero que estamos sabendo aproveitar esta oportunidade para valorizar o que temos de melhor. Por muitos anos fomos reconhecidos externamente pela força em vendas, pela pujança do mercado gospel, mas não necessariamente pela qualidade de nossas produções ou artistas. Hoje em dia posso assegurar que esta característica vem sendo transformada com muita força e velocidade. Como trabalho num ambiente profissional e não confessional, tenho acesso a visões e observações muito sinceras sobre o atual estágio da música gospel produzida no país e confesso que tenho me orgulhado muito com o que tenho ouvido ultimamente. Tem sido bastante recorrente receber entusiasmados feedbacks de colegas de trabalho destacando músicas como “Retrovisor” de Deise Jacinto ou “Deserto” de Os Arrais ou ainda, “Creio em Ti” com Aline Barros. Estes comentários têm sido cada vez mais comuns e enfáticos contrastando com o que se dizia no passado: Vende muito né? Muito bom …

Vamos em frente! Produzindo e investindo na qualidade de nossa música!

Mauricio Soares, jornalista, diretor artístico que busca a qualidade sempre, publicitário, editor do blog Observatório Cristão, casado, pai do Fernando, Leonardo e Benjamim.

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  • Isaque Prado

    Em evolução contínua. As transformações sociais tem feito o mundo girar mais rápido, e a música segue como combustível impulsionador de muitas. Todo grande movimento histórico-social foi catalisado assim, muitos estilos surgiram deles. Estou animado com o que vem por aí! Muito obrigado por sua contribuição.

  • Eric Castro

    Essa diversidade artística na música gospel é extremamente positiva. A qualidade musical atrelada a uma mensagem bíblica coerente pode nos abrir porta e nos fazer alcançar lugares (e ouvidos) que ainda não chegamos…
    Meu TCC do curso de Jornalismo será sobre esse tema: Música gospel na era streaming (2017/18).

  • Théo Carvalho

    É uma honra nós do Pier49 sermos incluídos nessa seleta lista, como um “novo caminho para a música”. Mauricio, obrigado por sua busca incessante pelo novo e pelo excelente. Parabéns!!

  • João na Real

    Essa “nova era” da música se é que posso chamar assim, trouxe uma nova luz para que os trabalhos de muitos artistas tenham uma oportunidade a mais de serem descobertos!
    Eu mesmo sou do norte e sempre achei quase impossível um dia alcançar outras pessoas longe de mim com a minha arte, crendo que as coisas só aconteciam no eixo Rio-Sampa, ainda tenho essa impressão kkkk, mas as plataformas chegaram para montar palcos apontados para o rumo onde a gente espera chegar, agora é estudar, trabalhar, investir e ver os frutos que serão possíveis colher. Texto muito bom, obrigado!

    • Mauricio Soares

      Acho que sua análise sobre o eixo Rio x São Paulo precisa ser refeita. Vou só elencar alguns casos que contrapõem esta informação. Sandro Nazireu (BA), Kleuder Leão (BA), Seo Fernandes (BA), Idma Britto (TO), Discopraise (DF), DJ PV (GO), Leo Fonseca (GO), André e Felipe (SC), Marcela Taís (DF), só para citar alguns do cast Sony Music. No resto, sua observação está corretíssima! Abs

      • João na Real

        A Sony mudou, “está mudando” isso(imaginei mesmo que você iria sugerir uma reanálise kkk)! Inclusive a Idma Britto é minha amiga aqui do TO !
        Estive no Rio com um amigo e ele estava falando do que estava acontecendo, sobre a forma da Sony Music “jogar luz” onde não se costumavam procurar nada, onde muitas outras gravadoras esperavam o artista quase morrer para conseguir um reconhecimento e assim então conseguir um contrato ! Essa aposta no novo, está abrindo caminho para muita gente talentosa e quem ganha é a música gospel! Está refeita a análise, vlw kkk ! Abs

  • http://www.twitter.com/alex_eduardo Alex Eduardo

    O mais legal deste momento digital são as colaborações, o pensamento de concorrentes estar caindo e vindo com tudo esse collabs, muito bom mesmo. E que assim a música cristã cresça mais e mais e nos traga um frescor novo.