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Analisando os programas evangélicos na TV ou Guia de Sobrevivência às Esquisitices Reinantes

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Durante os festejos momescos em que eu e minha família optamos em nos isolar numa casa de praia, entre um mergulho e outro, entre uma relaxante ducha, banhos de piscina, um tempinho de sauna, almoços e jantares mega agradáveis com amigos e toda minha prole, dei-me a incumbência de dedicar algum tempo de meu dia para conferir canais que normalmente não assisto em meu pacote de TV por assinatura. A casa em que me hospedei tinha uma ‘assinatura’ (entre aspas mesmo!) de alguma operadora que além dos canais abertos tradicionais contava com outras opções não tão ortodoxas e atrativas como diversos canais rurais com uma enxurrada de propagandas de defensivos agrícolas e equipamentos e uma infinidade de outros canais de programação religiosa, a saber: católica e evangélica. Nada de filmes, séries, documentários … um suplício!
Fiquei durante uns 3 dias revezando-me entre Datena, Marcelo Rezende, William Bonner e uma saga interminável de pastores, missionários, bispos, querubins, apóstolos e outros santíssimos com suas vozes roucas, ternos mal cortados, mãos endurecidas, discursos rasos, sudorese em extremo, cabelos com gel e teologias estranhas que tirariam qualquer Lutero ou Calvino do sério! É impressionante como durante estes dias não consegui encontrar um único pregador que, de verdade, me chamasse a atenção a ponto de manter-me interessado por alguns minutos. Confesso que minha boa vontade foi além da conta, até porque em meio ao carnaval as opções na TV são pra lá de escassas pra quem não quer ficar com o baticundum chacoalhando na mente.
Assisti de tudo. Tudo mesmo! Fui de um missionário cearense com cara de índio boliviano que usava uma túnica dourada e um chapéu tibetano com pontas para cima aos tradicionais pastores que se revezam com suas vozes roucas divulgando onde estarão com suas reuniões milagrosas do poder pelos próximos dias. Este tal missionário cearense que parecia o Evo Morales em seus trajes cerimonialistas, que mais parecia um gárgula de filme de terror falava coisas desconexas para um público ainda mais estranho com seus roupões e suas fisionomias cansadas como de seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos. Ele pregava sobre o fim dos tempos, sobre o Anti-Cristo e de como a sociedade devia mudar, inclusive deixando de ser influenciada pela TV – mas ele mesmo estava se usando deste expediente para, como assim dizer, influenciar as pessoas. As imagens que mais pareciam ter sido gravadas em VHS com seus tons desbotados e falta de sincronização entre o som e o vídeo conseguiam transmitir o ambiente tosco e esquisito daquele lugar que se auto-denominava como sede mundial daquela igreja. Consegui ficar naquele canal por uns 20 minutos e depois fui obrigado a mudar assim que começaram os cânticos … a música era apresentada por uma senhora de 1,50m, vestida com uma túnica verde claro, coque no alto da cabeça, 8 dentes na boca e que entoava alguma coisa entre uma ladainha das carpideiras do Nordeste e o Hino da Harpa Cristã no ritmo das benzedeiras da região do Jequitinhonha, Minas Gerais.
Segui em meu propósito e mudando de canal me encontrei com uns bonecos gigantes, sem expressão facial, ou melhor, com seus rostos congelados, cabeças completamente desproporcionais, personagens estereotipados (o boneco negro era jogador de futebol e vestia amarelo com azul), se remexendo como se estivessem numa rave matinal ensandecida e frenética. Aqueles personagens deveriam animar as crianças … deveriam porque na verdade, causavam pânico! Chamei meu filho caçula pra dar seu veredicto e ele candidamente disse: Bonecos feios! Eles não mexem a cara não? Prefiro a Patrulha Canina! Em meio aos personagens tinha um boneco ‘adulto’ com terno e gravata, mega adequado ao universo infantil #sqn … o dito cujo mais parecia com aqueles bonecos gigantes do carnaval de Olinda … por mim já deu … muda de canal …
No canal seguinte voltamos ao script tradicional com um pastor, este já com um terno mais bem cortado, uma barba bem feita, dando todos os indicativos de que foi abençoado e prosperou acima dos demais. Este pastor começa a conclamar as pessoas a estarem com ele numa reunião onde “Os milagres vão acontecer! Quem bebe vai deixar de beber! Quem fuma vai deixar de fumar! Quem está falido, vai ver a maré mudar! Basta você ir na igreja XYZ que é onde o Deus Vivo está presente! Onde as coisas acontecem de verdade! E aí ele quebra tudo! Vou tentar ser o mais literal possível. “Aqui na igreja XYZ está a verdadeira unção. As outras podem te prometer um monte de bênçãos mas aqui na XYZ nós prometemos e cumprimos porque o nosso Deus não nos deixa na mão! A gente determina e ele cumpre!” Assim mesmo, como se Deus fosse apenas um mero atendente das vontades, caprichos e desejos dos líderes daquela determinada denominação. No fim, o mesmo pastor se dirige com voz grutural, gestos cênicos e muita emoção para conclamar a todos participarem da obra que não pode parar! Contribua através do Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Itaú, Santander, Rede Shop, Visa, CitiBank, carnê mensal, toalhinha ungida ou diretamente em uma de nossas filiais espalhadas por todo o país …
Comecei a sentir falta das notícias de assalto, sequestro, acidentes do Cidade Alerta e seus programas correlatos … corta pra 18!
Mas ainda tinha mais. Em outra troca à procura de novos canais, deparei-me com um canal voltado à juventude cristã. Que lindo! Ufa! Agora vai … teremos uma programação mais moderna, mais leve e dinâmica … na volta do intervalo vejo imagens do que deveria ser um congresso de jovens em alguma grande igreja de São Paulo. Os jovens presentes, todos, essencialmente TODOS vestidos com a mesma camiseta alusiva ao próprio congresso. Nada mais estranho do que ver jovens e adolescentes uniformizados! Mas ok, tudo bem … vamos seguir assistindo … no palco, 8 ou 10 meninas fazendo a coreografia de uma música do querido DJ PV que agora não me recordo mais qual seria, mas era do PV, sem dúvida. A coreografia era uma espécie de street dance ou algo do tipo. Como cada uma fazia num tempo próprio, não sei se seria uma coreografia com delay ou se era apenas falta de ensaio e sincronismo mesmo. Dei um tempo, fui até a cozinha pegar algo pra comer e quando retornei a coreografia havia acabado. Naquele momento, um jovem de seus 30 e poucos anos assumia o microfone e começava a pregar a respeito do papel do jovem na sociedade e sua relação com Deus. Completamente desconcertado o jovem pregador tentava de todas as formas manter um clima ameno, com piadinhas pra lá de sem graça, alguns trejeitos estranhos e colocações que pudessem trazer aquele texto bíblico para a realidade daqueles jovens. Quando a câmera focava os jovens, a impressão era de que estavam diante de um professor de física quântica tamanha a impressão de que ninguém estava entendendo absolutamente nada! Eu também não estava entendendo nada e depois de alguns minutos desliguei a TV e fui viver minha vida.
Por 3 dias seguidos fiz este exercício. Em um dia específico fiquei à cata de musicais nestes canais de TV e aí pude assistir também a alguns programas católicos. A experiência não foi das melhores. Vi uns grupos tocando uma espécie de axé com letras religiosas (devia ser por influência do carnaval), alguns padres cantando umas músicas de arranjos simples, quase uma toada e, no fim, vi um esforçado cantor tentando animar a plateia formada essencialmente por jovens de 60 a 70 anos. Como tenho conhecido cada vez mais o universo da música católica produzida no Brasil, reconheço que ali na TV não pude constatar o que há de melhor neste segmento. Artistas como Tony Allison, Rosa de Saron, Ziza Fernandes, Olivia Ferreira, Diego Fernandes e a novata Lucimare têm se esforçado (e conseguido!) em apresentar uma música católica de maior qualidade. No entanto, o que vemos habitualmente nos canais do segmento tem sido um desfile de qualidade duvidosa em se tratando de música.
Nesta busca por algo de qualidade, especialmente na área musical, assisti ao Caixa de Música, programa tradicional da Rede Novo Tempo. Entre um ou outro artista da própria gravadora da casa, pude conferir clipes de Os Arrais, Estêvão Queiroga, Felipe Valente, Deise Jacinto, Gabriel Iglesias … alguns nomes internacionais que eu nem conhecia, enfim, uma boa lufada de qualidade em meio ao desfile de musicais de gosto discutível. Respeitando a filosofia do canal, o senão fica apenas pela falta de alguns artistas de outras linhas na programação da emissora.
Como ainda insisti em seguir na minha campanha hercúlea enfrentando as programações religiosas na TV durante meu tempo de descanso, o destino me levou a mais um canal onde um tal pastor pregava sobre conceitos bíblicos, uma espécie de Escola Bíblica Dominical no ar … a questão nem consistia no conteúdo apresentado, mas na qualidade das imagens. Como na verdade a Palavra de Deus não muda, o tal pregador resolveu aproveitar seus vídeos gravados nos longínquos anos 80, com suas costeletas, gravatas enormes e grafismos psicodélicos. Era uma espécie assim de Túnel do Tempo … como o vintage está na moda, talvez esse programa retrô tenha seu charme … ou não.
No mais, muita campanha, muito sacrifício, muita toalha ungida, óleo ungido, sabonete ungido, símbolos da cultura judaica, danças estranhas, apelos por ofertas, sapatos de bico fino, gravatas espalhafatosas e lenços combinados, muito gel na cabeça, apelos por ofertas, camisas com marca de pizza embaixo do braço, interpretações estranhas da Bíblia, linguajar todo próprio criando quase um dialeto particular, apelos por ofertas, testemunhos, música incidental de terror e tensão, verdadeiros assassinatos à língua portuguesa, principalmente na concordância (como gostam de comer o “S”, oh Lord!), choros em demasia, relatos emocionantes, pregações exclusivamente sobre o Velho Testamento (não sei o que esta turma tem contra Jesus e o Novo Testamento!), teologias próprias, apelos por ofertas, música ruim, artistas sem expressão, clipes toscos (assisti um tiozão cantando para uma plateia especialmente formada por pessoas da terceira idade. Ele cantava uma canção num ritmo que tentava chegar a uma bachata ou algo mais latino. Talvez esta tenha sido a tentativa original. O tiozão parecia o boneco do posto se saracoteando num ritmo too próprio e estranho), vinhetas da década de 70, imagens amareladas e apelos por ofertas.
Ou seja, sinceramente acho que está tudo muito confuso. Há alguns anos atrás, um amigo me pediu algumas indicações de programa de TV ou mesmo alguma igreja para em palavras próprias: entender um pouco de Jesus. Pensei por alguns segundos e dei-lhe uma primeira dica: pra começar, não assista a nenhum destes programas da TV … esta dica eu dei já faz uns 7 a 8 anos e acho que se ele novamente me pedisse uma ajuda neste sentido, muito possivelmente minha resposta seria a mesma. Em minha modesta opinião, creio que teríamos um país muito melhor, muito mais justo, muito mais amoroso, ético, acolhedor, pacífico e humanizado se efetivamente a mensagem libertadora da graça de Jesus fosse pregada não só nos púlpitos das igrejas pelo país como também nas telas das TVs e mesmo pela web que cada vez assume mais papel de destaque dentro da comunicação de massa. Perde-se muito tempo em defesa das instituições, no levantamento de recursos e campanhas de arrecadação, na venda de produtos (outro dia cronometrei 18 minutos de ‘vendas’ num programa de 30 minutos de duração, ou seja, mais de 50% do tempo útil do programa) e, pasmem, na rixa entre esta ou aquela liderança, entre esta e aquela igreja. Isso é terrível, triste e melancólico!
Minha esperança e torcida é para que a comunicação no meio evangélico no Brasil seja transformada nos próximos anos. Que a qualidade seja uma busca incessante. Que a mensagem seja embasada na verdadeira e simples mensagem da Cruz. Que esta mensagem alcance e seja compreendida pelas pessoas. Que os interesses pessoais sejam sobrepostos pelo bem comum e maior. Que o Evangelho pregado em nosso país seja verdadeiramente a Boa Nova que muda a vida das pessoas e que influencie positivamente nossa sociedade como um todo.
Voltando ao Jornal Nacional em 3, 2, 1 …

Mauricio Soares, formado em Comunicação Social, bacharelado em Jornalismo e Propaganda & Publicidade, atuando há 28 anos no mercado gospel no Brasil e sobrevivente após algumas horas assistindo a programas religiosos na TV durante o feriado do Carnaval.