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Antes só que mal acompanhado

Nestes últimos dias venho tentando escrever algum texto que valha a pena ser publicado por aqui. O nível de exigência de meus 66 leitores é relativamente alto, então preciso sempre me empenhar em merecer tal atenção desta turma que me segue nos últimos 8 anos. Neste exato instante tenho 4 textos inacabados. Há um momento em que o meu nível de criatividade está próximo ao da popularidade da presidente Dilma, então como não tenho o recurso das pedaladas fiscais, a única opção é parar com tudo e esperar que num momento qualquer a inspiração retorne com força. O problema é que na contramão da alta do dólar, meus insights estão lá embaixo.

Nestas horas o melhor a se fazer é justamente não fazer nada. E de repente num papo informal e despretensioso pode surgir uma assunto, uma ideia e aí tudo flui numa naturalidade assombrosa. E ontem, em meio a uma reunião importante, anotei dois temas que poderiam servir como mote para um novo texto. Vou optar por um dos assuntos e tentarei nos próximos minutos seguir com o texto. Espero que ao fim, tenhamos um post à altura de tantos outros aqui publicados.

Lá no meio do século passado, as gravadoras trabalhavam muito com o lançamento de discos com singles. A gravadora produzia um disco, muitas das vezes com conteúdo apenas em um lado da bolacha, às vezes até o mesmo conteúdo em ambos os lados, para testar junto ao público consumidor a força da canção. Algumas vezes eram discos sazonais, como por exemplo, as animadas marchinhas de carnaval. O senso de oportunidade na época era algo que norteava muitos destes lançamentos. Se de repente um fato marcante na política chamava a atenção da opinião pública, imediatamente a gravadora mobilizava seus músicos e artistas – sim, as gravadoras tinham estúdios, artistas e mesmo músicos próprios dedicados – e rapidamente sacava uma canção para ser lançada ao mercado.

Nesta época a rádio tinha o poder de comunicação de massa mais eficiente. Especialmente a Rádio Nacional localizada na capital federal, Rio de Janeiro, ditava a moda, lançava os grandes artistas, transformava uma canção em sucesso nacional. O sonho de todo artista de então, era poder participar dos programas de auditório ao vivo e interpretar suas canções que poderiam do dia para a noite tornarem-se o grande hit do país.

Depois as gravadoras foram abandonando esta estratégia de lançamento de singles, a bolacha passou a ter mais canções. O trabalho de divulgação aos poucos foi migrando do rádio para a TV e tudo se transformou décadas depois. Aí veio o CD e a música voltou a ter seu consumo aumentado em escalas inimagináveis. A possibilidade de uma melhor portabilidade, qualidade, durabilidade e mesmo a sensação de uma inovação tecnológica acabaram mais uma vez transformando a realidade do mercado. Quando todos imaginavam que as coisas estavam perfeitas, eis que nos deparamos com mais uma mudança radical com a chegada do mundo digital.

E é a partir de agora que quero seguir no tema central do post. Além das mudanças na forma de consumo, da portabilidade, na popularização do conteúdo, uma das mudanças mais radicais neste novo ambiente é justamente um revival ao formato que foi amplamente utilizado há décadas atrás, o single. Se antigamente atrás os artistas e mesmo o público consumidor valorizava a quantidade de faixas em cada disco, o atual momento aponta para o caminho oposto onde a obra passa a ser individualizada, única, uma experiência diferenciada de todo o contexto de um álbum. Em suma, a música assume uma força exclusiva que antes era diluída em meio a um repertório.

Cerca de 6 semanas atrás lançamos a música “Acredito” com o fenomenal Leonardo Gonçalves. Pra quem esteve no leste europeu ou nos rincões da Ásia nestas semanas e não sabe do que se trata essa canção, informo que esta música faz parte da trilha do filme “Você Acredita?” que está nos cinemas de todo o país e conseguiu a proeza de levar mais de 300 mil pessoas às salas, configurando o recorde de bilheteria de um filme cristão no país. Pois bem, esta única música alcançou o topo de vendas do iTunes no Brasil, tanto no período de pré-vendas como no seu lançamento. A versão em clipe também ficou no topo da mesma plataforma. A faixa teve mais de 58 mil streamings no Spotify em uma semana, um sucesso absoluto! Agora, o vídeo está prestes a superar 2 milhões de views no YouTube/Vevo. A música também está entre as mais executadas nas FMs do segmento no país. Ou seja, bastou apenas uma música de qualidade, interpretada por um artista de qualidade e relevância, com o suporte de uma gravadora que desempenha com maestria o marketing digital e tradicional (modéstia à parte!) para que os resultado fossem alcançados.

O lado positivo desta mudança está justamente em alguns dos mesmos fatores de quando a indústria fonográfica trabalhava com as bolachas de vinil. A facilidade em colocar uma canção no momento certo dá ao artista uma agilidade e senso de oportunidade maior. Não precisa mais que o artista hiberne por meses dentro de um estúdio para reunir 12, 14, 16 canções naquele repertório que ele julga como sendo o definitivo em sua carreira. Isso é desnecessário hoje em dia! Com a facilidade de produção, o artista pode reunir sua ‘tropa’ e gravar um single (o ideal é que este single seja lançado já com um clipe!) colocando-o nas plataformas digitais dias depois. Isso é simplesmente fantástico!

Se a fase for boa e criativa, não há impedimento algum que este single se torne um EP com mais 2 ou 3 outras faixas. O importante é que o artista entenda esta nova configuração do mercado e principalmente do público consumidor. O serviço digital que mais cresce no mundo é justamente o streaming, com destaque para o Spotify, e neste ambiente, o que impera são as playlists, ou seja, uma seleção de singles de diferentes artistas ou não, divididos por temas ou segmentos. Ou seja, mais uma vez o conceito de single chega com força!

Então, se você ainda é daqueles que estão esperando reunir um monte de músicas para lançar um álbum, que tal poupar esforço, tempo e dinheiro e começar a trabalhar de uma forma diferente e atual? Pense seriamente na possibilidade de lançar singles ou EPs, deixando claro que todo lançamento deve vir acompanhado de uma estratégia intensa de marketing digital. Ultimamente tenho conversado com artistas que colocaram seus projetos nas plataformas digitais através de agregadores como se isto fosse a parte mais importante do processo. Ledo engano. Colocar sua música no Spotify entre outras 30 milhões de canções sem um trabalho específico de promoção é mais ou menos como a ideia da agulha no palheiro, ou seja, praticamente impossível que alguém consiga encontrar seus conteúdos. Então, além de mudar o formato do trabalho, as estratégias e ações também precisam ser reavaliadas.

Ufa! Consegui chegar até o fim. Mais um texto para o deleite (ou não) dos 66 leitores.

Antes de finalizar este post quero incentivar a todos aqueles que curtem música de qualidade para estarem atentos ao dia 02 de outubro. Nesta data estaremos lançando as pré-vendas no iTunes dos novos álbuns de Os Arrais (EP Paisagens Conhecidas) e Priscilla Alcântara (Até Sermos Um). Uma semana depois, oficialmente em todas as plataformas digitais estes produtos estarão disponíveis. Como A&R que sou, conto com o privilégio de conferir estes projetos antecipadamente e posso garantir que são fenomenais!
Mauricio Soares, jornalista, publicitário, profissional de marketing, blogueiro, palestrante, diretor artístico, pai, marido, precisando de férias urgente!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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