Apogeu e Queda de um Astro

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Atendendo a solicitações de alguns de nossos recorrentes 19 leitores abnegados do Observatório Cristão, vamos abordar neste post, escrito diretamente da cidade de Belém, no norte de nosso país, o fenômeno de artistas que despontam do anonimato para os holofotes da glória e sucesso com uma velocidade digna de trem bala e que, com a mesma velocidade, desaparecem para o limbo com seus hits.

Temos vários exemplos para ilustrar esse fato. Artistas como o sacolejante Vinny, que invadiu as paradas de sucesso com seu megahit “Mexe a cadeira” é um deles. Por que também não recordarmos da avassaladora Luka, descoberta por Latino, essa cantora esteve presente em todas as casas com a música “Tô Nem Aí”? Outra que vale a pena recordar, a trilha de novela global que embalava as cenas de tórrido romance entre Du Moscovis e Carolina Ferraz, “Palpite” na voz de Vanessa Rangel.

No meio gospel, também podemos incluir nesta lista de artistas que sacudiram com suas canções e depois simplesmente desapareceram, gente como Tino, revelado pela Line Records que já no primeiro CD vendeu mais de 100 mil cópias e conquistou o país com a canção “Quando o Vento Soprar”. Outro que foi um fenômeno neste sentido vem das plagas fluminenses, o cantor Eliezer Barcelos com sua “melô do desempregado” com o refrão “a prova está doendo Jesus, eu não aguento mais!” que descrevia as agruras de um sujeito bem sem sorte na vida.

São inúmeros casos que poderíamos relembrar neste momento, mas a questão que vamos focar neste momento são os motivos (ou alguns deles) que fizeram com que estes artistas fossem sucumbidos pela “maldição do ostracismo” após o sucesso arrebatador.

Vamos elencar alguns fatores que podem justificar ou entender o que acontece nestes casos.

1) Efeito Forrest Gump – lembra-se daquele personagem magistralmente interpretado por Tom Hanks que conquistou 7 estatuetas do Oscar? Para aqueles que não se recordam, ou mesmo não assistiram ao filme, Forrest Gump era um personagem que tinha todos os indicativos de ser uma pessoa fracassada, mas por uma conjunção de fatores sempre esteve em momentos marcantes da história. Efetivamente, Forrest Gump não tinha atrativos e sua vida era fadada às derrotas. Quis o destino que de coajuvante ele, por inúmeras vezes, fosse justamente a maior atração.

Existem pessoas e artistas em especial que, por uma série de coincidências positivas, acabaram contribuindo para que projetos sem grandes investimentos ou expectativas tornassem-se sucessos arrebatadores. Recentemente, no meio gospel, tivemos alguns clássicos de artistas com produções bastante simplórias que conseguiram enorme sucesso.

Nestes casos, a vontade divina é determinante. Aprouve ao Soberano que aquele artista sem muita expressão do dia para a noite caísse no gosto do público. Quando lidamos com questões espirituais nosso esforço e entendimento de marketing ou do mercado em si tornam-se menos importantes.

O problema é que muitos destes artistas que experimentaram um mover sobrenatural de Deus acabam acreditando que esta fase em que tudo dá certo será permanente. Não conseguimos entender a estratégia de Deus, mas o que percebemos analisando os fatos reais é que, num determinado momento, a impressão é de que Deus deixa que aquele escolhido siga seu caminho por pernas próprias.

Neste momento é que percebemos que aquele sucesso foi realmente sobrenatural e quando o artista teve que mostrar seu valor, aí as coisas complicaram-se e muito! Então, a dica que fica neste caso é de que todos devemos nos preparar no tempo de abundância para a fase de estiagem que será inevitável!

2) Talento demais, inteligência de menos – a expressão pode parecer forte e é mesmo! Lidando com artistas ao longo dos últimos 20 anos, já tive a oportunidade de conviver com artistas dos mais variados perfis. Infelizmente, existem artistas no meio gospel que se tornaram folclóricos pelos rompantes de loucura e estrelismo.

A forma com que determinados artistas conduziram suas carreiras merece um verdadeiro tratado de psiquiatria! De nenhum artista deve ser aguardada uma postura de racionalidade cartesiana, afinal eles são artistas e não funcionários engravatados de instituições bancárias. A criatividade e a emoção são características inerentes na personalidade artística.

O problema é quando essa criatividade descamba para a mais absoluta loucura! E quando afirmo “loucura”, é “loucura de verdade”. Do tipo aquele artista que está no auge do sucesso agendar no mesmo dia 3 ou 4 eventos. Também naquele caso do artista desmarcar horas antes um evento já agendado meses atrás.

Existem artistas que não precisam de inimigos, pois o seu maior inimigo está justamente em frente a ele quando o próprio se olha no espelho!

3) “Em time que está ganhando não se mexe” – este ditado não se aplica em se tratando da área artística. O conceito de arte está intimamente ligado ao processo criativo, ao novo, ao constante projeto evolutivo, portanto opostamente distante à repetição de fórmulas de sucesso.

Temos casos bastante recentes e emblemáticos de artistas e ministérios de louvor que, no auge, venderam milhões de CDs e hoje se esforçam com muita exposição na mídia para alcançar algumas dezenas de cópias vendidas. Sem dúvida, nestes casos fica latente a falta da mudança nos arranjos, nas letras, nas concepções musicais, na interpretação, enfim, na mais absoluta repetição do estilo.

Particularmente não gosto e não aprovo artistas que repetem sua equipe de trabalho – arranjadores, compositores, músicos – por mais de 3 produções consecutivas. O intérprete pode ter seu estilo, mas mesmo assim, a busca pelo novo, pelo desenvolvimento deve ser uma constante!

Confesso que muitas das vezes como profissional enfrento verdadeiras batalhas com artistas que não entendem essa necessidade de mudanças, especialmente quando a (o)artista é casada(o) com o(a) produtor(a) ou arranjador(a).

4) Auto-suficiência – lidar com uma personalidade self made é realmente muito difícil. Temos casos de pessoas que, com muito esforço, uma boa dose de sorte, muito empreendedorismo e talento, conseguiram montar verdadeiros impérios. E no meio artístico também temos casos de pessoas que com seus esforços próprios conseguiram alcançar o sucesso.

Até aí tudo bem, o problema consiste na manutenção do sucesso. Muitos artistas baseados em seu feeling conseguiram acabar suas carreiras mesmo tendo conseguido um histórico de sucesso no passado. Costumo dizer que os artistas devem focar e se satisfazer em seus talentos pessoais. Isso é fantástico! Você viver com dignidade através de seu talento artístico é realmente impressionante!

Mas não dá para o artista se julgar competente para cuidar de tudo de sua carreira, seja de assuntos tão díspares como estratégia de divulgação, design, agenda, site, redes sociais. Muitos artistas abdicaram do processo artístico para tornarem-se empresários, gestores e afins, com isso suas carreiras naturalmente entraram em declínio.

5) Staff despreparado – caminhando lado a lado à auto-suficiência está a capacidade de não escolher corretamente seus pares e apoiadores. Se não incentivo o artista caminhar sozinho tão menos quero estimulá-lo a se cercar de asseclas e sanguessugas incompetentes.

Temos vários casos de artistas que derrubaram suas carreiras pelo simples fato de contarem em seu staff com pessoas despreparadas e incompetentes! Já tive a oportunidade de assistir problemas homéricos provocados por produtores de palco. Isso para não falar em “assessores de agenda” que vez ou outra mais atrapalham do que ajudam!

Sempre procurei trabalhar em equipe. Não é por coincidência que profissionalmente procuro manter minha comissão técnica por onde sou convidado a trabalhar. Essa minha comissão técnica é formada por pessoas gabaritadas e experientes. No entanto, mesmo com minha total confiança, jamais abdico de acompanhar bem de perto o desempenho de cada um membro de meu staff. O meu grau de cobrança é bastante elevado porque sei que a cobrança e expectativa sobre o meu trabalho são bastante elevados.

Particulamente acho que temos mais alguns aspectos para elencar no processo de derrocada de um projeto após um momento de sucesso, mas vamos parando por aqui mesmo. É inevitável que após o ápice, o artista terá que conviver com uma diminuição do sucesso. A questão é saber conviver e estar preparado para a fase menos gloriosa.

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, psiquiatra com especialização em distúrbios tripolares artísticos, diplomata formado no Instituto Rio Branco de Paciência com doutorado em contar até 1 milhão antes de explodir em ira, terapeuta de egos inflados e artistas com síndrome do sucesso. Enfim, quase um mártir!

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