SHOPPING CART

Aprendendo com quem está na dianteira do mercado!

Durante esse período em que o blog ficou fora do ar, pela mais absoluta e imperdoável falha desse que se julga tão ligado em tudo (eu mesmo), parei umas 5 a 6 vezes para escrever um texto que marcasse o retorno do Observatório ao universo digital. Acho que consegui escrever uns 3 ou 4 textos realmente publicáveis e outros tantos que sequer se sustentaram mais do que 10 ou 15 minutos de minha própria atenção. O exercício de escrever para o blog é algo meio estranho. Há épocas em que entro numa sana intensa de produção, acumulando vários textos para um estoque saudável de semanas. Já em outras épocas, forço minha cabeça para pensar em algo realmente relevante para o blog e, felizmente, meu senso de ridículo e crítica me fazem recuar, voltar ao meu trabalho, meus afazeres cotidianos até que uma nova tsunami de ideias volte à minha mente.

Tenho consciência plena de que os meus tão, outrora, dedicados 44 leitores do Observatório certamente perceberam que viveriam normalmente sem a leitura do Observatório e resolveram seguir suas vidas. Não fui procurado por nenhum dos 44 leitores reclamando de crise de abstinência ou coisas do tipo, então imagino que voltamos ao início de tudo. Espero só saber conviver com o mais profundo ostracismo a partir de agora. Só não vou apelar para textos sobre fofocas do mundinho gospel ou pior, textos rasgadamente chapa-branca, elogiosos a todos os artistas, líderes, mídias e quem mais que seja, para que num movimento tipicamente do universo digital, receba RTs no melhor estilo “olhem o que o Mauricio Soares está falando de mim!”

Chega de blá, blá, blá e vamos ao texto. Neste momento estou vendo um maravilhoso entardecer da janela do hotel em Franklin, cidade histórica, um dos palcos principais da guerra civil norte americana. Então espero que esse visual me ajude a partir de agora!

Nestes dias em que estive fora do país, tive reuniões com artistas e/ou managers quase que diariamente. Antes de falar do assunto em si, me veio uma lembrança que deve servir como exemplo pra todos nós brasileiros. Devo ter participado de umas 10 a 15 reuniões durante estes dias e em nenhuma, eu digo, nenhuma destas reuniões, o outro participante do encontro se atrasou mais do que 5 minutos. E aí é importante deixar claro, que nem mesmo eu atrasei-me a qualquer um dos compromissos agendados. Estranha essa mudança de postura pelo simples fato de não estarmos em nosso país!?!?!?!?! Quando marcamos uma reunião no Brasil, consideramos 30, 60 minutos de atraso algo corriqueiro, normal.Uma vez, agendei uma reunião com uma artista para às 5 da tarde. Consegui chegar no horário ao local estabelecido pela própria, neste caso, seu próprio escritório. Saí de lá às 8 e meia da noite e a ‘querida’ nem me ligou para dar satisfação, nem nada. Essa falta de educação e compromisso com a hora dos outros realmente deveria ser banida de nossa cultura.

Mas voltando ao tema do post …É muito bom ter alguém pra facilitar as coisas. Ainda mais em se tratando da relação com artistas. Afirmo isso com conhecimento de causa, afinal com mais de 20 anos de estrada, já tive todo tipo de reunião com artistas e nem sempre o entendimento de tudo o que cerca uma carreira artística fica bem claro para o próprio. Muitas das vezes, o artista precisa de alguém para orientá-lo, para cuidar de seus interesses, para ter frieza e paciência nos momentos de maior tensão, enfim, para de alguma forma protegê-lo do próprio “EU”. É impressionante como existem pessoas, artistas inclusive, que têm uma capacidade quase insana de se auto sabotar e, nestes casos, fica ainda mais evidente a necessidade de se contar com alguém mais racional para estar ao lado.

Nas reuniões que tivemos especificamente com os managers ficou evidente que antes de tudo, esse tipo de profissional conhece o seu cliente. Numa determinada reunião, a impressão que eu tinha era de estar ali na frente do próprio artista tamanha a segurança que o seu manager passava a cada informação. “Isso ele gosta muito! Pode contar que ele fará! … Hummm … impossível! Isso ele não vai fazer de jeito algum. Ele pensa exatamente o oposto disso …” O manager é aquele profissional que vive intensamente a vida do artista e se antecipa aos eventuais problemas que o próprio artista poderá ter.

É evidente que o mercado de música cristã nos Estados Unidos é extremamente evoluído. As diferenças entre os nossos dois mercados são gritantes. Apenas para citar alguns dados que impressionam, a rede de Livrarias Life Way, especificamente voltada ao mercado religioso, possui mais de 100 filiais espalhadas pelo país. No Brasil, não temos uma rede de lojas evangélicas com mais do que 10, 12 filiais pelo país. Pessoalmente visitei uma destas lojas em Franklin, cidade que não tem mais do que 60 mil habitantes, e o impacto foi absurdo! A loja tinha uns 1,5 mil metros quadrados de área, climatizada, móveis novos, funcionários bem uniformizados, estoque atualizado, enfim, no Brasil não temos lojas semelhantes que possamos contar com os dedos de nossas mãos! Outro dado interessante, o grupo Leeland, vendeu dos últimos 3 álbuns mais de 3 milhões de unidades. A jovem banda Royal Tailor já vendeu mais de 150 mil álbuns no iTunes do CD de estréia pela Provident.

Não estou querendo comparar realidades, mas apenas mostrar que se o mercado e os artistas norte americanos estão hoje num patamar mais consolidado, então devemos tê-los como referência para o mercado no Brasil. E entre esses detalhes que devemos priorizar, sem dúvida, a utilização do manager na estrutura de um artista é uma delas. No Brasil, o artista, principalmente o gospel, é um misto de auto-didata com papai-sabe-tudo, um mix de Steve Jobs com Nizan Guanaes, uma simbiose entre Jack Welch e Fernando Meireles, um ser com a força do Superman, a sagacidade do Fantasma e a genialidade do Batman, em suma, eles acham que não importa o assunto, sempre sabem de tudo! E tanto esse que vos escreve como a torcida do Corinthians e a do anti-Corinthians, sabem que ninguém sabe de tudo com extrema maestria. E é para isso que o artista e boa parte das pessoas, deve-se cercar de profissionais que colaborem para se alcançar melhores resultados com menores esforços e dores de cabeça!

Um manager deve negociar a agenda do artista analisando os melhores convites e propostas. Também deve organizar toda a logística de viagens e apresentações do artista. O manager não é aquele que fica no escritório esperando pelas ligações, esse aí é o atendente de pizzaria, é bem diferente! O manager provoca convites para eventos estratégicos, não espera por eles! O manager é aquele que vai ao mercado em busca de boas oportunidades para o seu cliente. Seja na publicidade, merchandising, ou mesmo na área de shows, o manager busca sempre aumentar o rendimento do artista e consequentemente, o seu também! No trato com a gravadora ele é quem assume a dianteira de tudo! Da negociação à campanha de marketing, os compromissos promocionais, a elaboração da estratégia, o networking com os diferentes departamentos da empresa, em tudo ele está participando. Ao artista cabe apenas gravar um bom trabalho, estar ciente de tudo e contribuir positivamente no processo.

Fiquei muito bem impressionado nestes dias, ao ver que grupos e artistas novatos já possuem seus managers e que estes entendem perfeitamente de que têm em mãos um produto que precisa ser apresentado ao mercado. Fiquei especialmente feliz ao ver o interesse dos managers em investir no mercado brasileiro, entendendo muitas das vezes que serão anos de muito trabalho pela frente.

Anos atrás contratei um artista. Uma promessa. Um artista de muito potencial. Vislumbrei que tinha algo realmente grande em minhas mãos. No início da caminhada, sua agenda era administrada por sua esposa, pessoa especial, educada, muito competente em sua profissão, mas que até então nunca havia lidado com aquele tipo de trabalho. Uma das decisões mais acertadas que tive em toda minha carreira como A&R, foi justamente conversar com esse artista e falar-lhe da necessidade dele ter alguém profissional ao seu lado. Ele entendeu e me pediu uma indicação. Dias depois liguei para ele e disse que tinha uma pessoa para a função. Depois de anos desta ligação, o artista tem uma carreira sólida e segue em ritmo de profunda cumplicidade com seu manager. Simples assim.

Infelizmente não temos muitos managers no nosso meio. Na verdade, eu acho que posso listar uns 2 ou 3 no máximo, neste momento. E aí temos uma situação bastante interessante que deve ser analisada com muita atenção por aqueles que se interessam pela área artística, a enorme demanda por profissionais para a função de manager. Para quem deseja aprender mais sobre essa profissão, o caminho mais certo é uma faculdade de relações públicas, marketing ou produção de eventos. Um estágio num escritório artístico também é de suma importância.

Quem se habilita? Mauricio Soares, publicitário, jornalista e futuro manager quando a aposentadoria chegar. Será?

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • Luís Fernando Matoso

    24/07/2012 at 12:43

    Puxa vida!!! E eu ficava batendo no meu computador porque o blog não entrava no ar e quase arrumei briga com o meu provedor de internet. Estava desesperado!!! Mas que bom que voltou!!! Me tornando um leitor ávido desse blog, confesso: Tenho interesse em um dia ser um Manager de artista, mas sei que tenho muuuiiiiittoooooo, aliás, mmmuuuuuuuuiiiiitttooooooooo chão pela frente. Mas só o fato de conhecer esse blog já tem me ajudado muito. Cada texto que leio, me faz sair um pouco mais da casinha!!!
    Obrigado!

    Responder

Deixe uma resposta