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Mauricio Soares

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Para os 69 leitores do blog preciso ser absolutamente transparente e verdadeiro … infelizmente o tempo (ou a falta dele!) não tem permitido que eu mantenha o Observatório Cristão sendo atualizado periodicamente como sempre foi minha intenção, mesmo desde sempre deixando claro a todos de que este projeto seria sempre tratado muito mais como um lazer do que efetivamente um trabalho mais sério. No entanto, já estou tão sem novidades neste espaço que estou me forçando a escrever algo para segurar a atenção de nossa (pouca) audiência.

Na semana passada publiquei em minha conta no Instagram (mauriciosoaresobc) um card que recebi de um amigo com o seguinte texto: “Artista, se você ainda não entendeu a importância de estar nos streamings de música, é como se você estivesse na era do CD, tentando vender fita K7”. O card é de autoria do produtor musical Ronan Barros, excelente profissional radicado em Brasília. A mensagem me pareceu tão pertinente, tão atual e tão simples, que resolvi compartilhar em minha rede social. Quem me acompanha nos últimos anos, especialmente os últimos 5 anos, já deve ter percebido o quanto sou entusiasta da mudança do formato de consumo de música, saindo do tradicional modelo físico (CD/DVD) para o digital, especialmente o áudio stream. O Brasil é um dos países de maior potencial para o mercado da música neste momento, tendo crescido cerca de 30% no faturamento em 2017 comparado ao ano anterior. O mercado fonográfico que amargava crise após crise, especialmente pelo advento da pirataria, vive neste momento uma situação completa inversa com crescimento após crescimento. Estima-se que em 2018, o faturamento do mercado fonográfico irá crescer mais 30% sobre o ano anterior e tudo indica que no mundo, estaremos superando a marca de faturamento histórico do setor, ou seja, vivemos momentos de euforia no mercado da música e isto deve-se unicamente às mudanças no formato de consumo da música.

Então, não há o que se discutir! Não adianta fazer beicinho ou batidinha de pé no chão, que sejam capazes de segurar o tradicional formato físico perante o crescimento da música digital. E aí, em meio aos muitos comentários que recebi em minha postagem, deparei-me com 1 ou 2 pessoas que insistiam dizer que os CDs ainda têm demanda entre o meio gospel, especialmente entre as igrejas pequenas ou do interior. E que esta demanda seria suficiente para que as gravadoras mantivessem a política de lançamentos de produtos físicos. Com muita tranquilidade e mesmo tempo disponível, resolvi explicar que o crescimento digital era algo irreversível, inquestionável e que as vendas físicas estavam em queda vertiginosa, não merecendo neste momento, mais tanta atenção por parte das gravadoras mais atualizadas. Não adiantou! O rapaz chegou a chamar-me de sensacionalista (sinceramente não entendi bem esta adjetivação, mas imagino que ele quisesse dizer que eu estava alardeando sobre algo que não era tão drástico assim … imagino que fosse isto …) e a continuar na toada de que há consumo de CDs no meio evangélico.

Também na semana passada recebi para uma reunião (sem saber previamente a pauta) um representante de uma empresa que apresenta uma opção ao CD. O projeto em questão é um card onde o consumidor através de um site tem acesso a conteúdo do artista, seja em áudio como em vídeo. Com muita atenção ouvi toda a apresentação, mas no fim fiz questão de dizer que eles estavam ao menos 5 anos atrasados, de que aquela ‘solução’ não consegui ser mais atraente do que as plataformas de áudio streaming já oferecem aos seus usuários hoje em dia. E aí, novamente a mesma ladainha … o mesmo discurso de que o público evangélico ainda não está nas plataformas digitais, que o povo ainda quer ter algo em mãos, de que aquele formato seria uma solução para os artistas, enfim, uma série de justificativas anacrônicas e que, a meu ver, não conseguem justificar a razão do projeto em si.

Hoje, em dados não oficiais, estima-se que pouco mais de 5% da população evangélica seja usuária dos apps de áudio streaming. Ainda boa parte do segmento cristão no Brasil vem consumindo música pelas plataformas de vídeo streaming, especialmente o YouTube. A queda da venda de CDs e DVDs no meio é avassaladora e perceptível, mesmo que alguns ainda insistiam que não! Então, com todo o carinho e respeito que todo ser humano mereça (mesmo os eleitores de Lula), não posso fingir que ainda há um mercado consumidor de produtos físicos que mereçam minha atenção e esforço. Se ainda tem pessoas mais tradicionais, do interior do país que não foram alcançadas pelos formatos digitais, sinto dizer que nem mesmo estas pessoas eram percebidas pelo mercado fonográfico antes. Boa parte dos ‘consumidores’ de música do interior do país eram (ou ainda são) abastecidos por produtos não originais, o que não contribui em nada para o crescimento das gravadoras e dos próprios artistas. Com apenas estes imaginados 5% de consumidores evangélicos, no meu caso, as vendas digitais cresceram incríveis 70% de um ano para o outro, muito além do próprio crescimento do mercado no país. Isso é pra aplaudir de pé igreja!

Em 2017, em nosso núcleo artístico, lançamos quase 250 projetos, dos quais, apenas 2 nos formatos físicos. Em 2018, a expectativa é de que tenhamos mais de 350 projetos sendo lançados, dos quais, não mais do que 5 terão versões físicas. E aí vale ressaltar uma questão específica e que também foi motivo de uma alfinetada de algum seguidor em minha rede social. O rapaz disse que era incoerência de minha parte divulgar e lançar o projeto infantil de Aline Barros em CD e DVD. Também com muita calma expliquei que no caso de produtos infantis ainda há uma demanda interessante por produtos físicos, especialmente DVDs, até porque os resultados de áudio streaming em se tratando deste tipo de produto era bastante baixo e que o consumo dá-se principalmente por DVD e Youtube. Quem é pai sabe bem do que estou falando … sobre a capacidade da criança assistir ao mesmo vídeo por 467 vezes apenas num dia. Então, neste caso justifica o lançamento de produtos físicos. Até quando? Sinceramente não sei …

Usei apenas alguns exemplos para deixar ainda mais claro de que o mercado da música tornou-se digital – atenção ao tempo verbal, estou afirmando claramente de que não é uma questão de futuro, mas de que já é … hoje! – e por mais que ainda tenham demandas residuais de consumo do formato físico, esta mínima demanda não será suficiente para que a indústria dedique alguma atenção. Haja visto que o mercado de LPs, que surgiu como uma tendência interessante, segue neste momento ainda como um modismo, não sendo capaz de fazer com que as gravadoras busquem alternativas para atendê-lo em plenitude. É nicho e como nicho será tratado e percebido, assim como CDs e ainda menos, DVDs.

É o que tenho pra hoje! Espero que consiga retornar com mais textos e conteúdos.
Boa semana!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, palestrante e digital, completamente digital.

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Um risco que qualquer pessoa passa ao conversar comigo, seja numa reunião ou mesmo de forma descontraída num restaurante, é que algo dito por ela torne-se tempos depois o pontapé para um texto aqui no blog. Às vezes, uma simples frase já pode tornar-se o estopim para um insight e depois materialize-se num texto do Observatório Cristão. Pois dias atrás, em conversa com um grande amigo do mercado, ele me comentou sobre algo que gostaria de dividir com os nossos 69 leitores (vocês estão aí?) nas próximas linhas.

Este amigo, assim como eu, tem alguns bons anos de mercado fonográfico e naquele dia estávamos um pouco saudosos, recordando nossas muitas histórias, casos engraçados e muito pitorescos. Rimos muito. Muito mesmo! Até que ele soltou a frase que servirá como nosso tema de hoje. “Soares, a gente está comemorando a mudança do físico pro digital, mas na verdade, agora, nosso trabalho não acaba nunca! Já não basta o Temer querer que a gente aposente já velhinho, agora no digital, não temos direito mais de parar” … a frase de efeito veio acompanhada de uma risada gostosa, daquela em que ficamos sem ar … e todo o corpo ri junto. Em meio às gargalhadas, só me coube concordar e dizer quase que num lamúrio: “Pior é que é, estamos fritos!” e sem seguida, mais gargalhadas …

Pra quem não entendeu ainda o que dissemos acima, vou tentar explicar de forma bem didática. Nos tempos ancestrais em que as vendas físicas (CD, DVD,Playback) ditavam o mercado, as gravadoras atuavam desde o início do processo. Contratava o artista, definia o repertório, cuidava da produção do disco em estúdio, músicos, arranjos, enfim, todo o processo de elaboração do projeto. Em paralelo havia as sessões de foto, figurino. Depois a criação, o design do produto, escolha de capa, embalagem, ficha técnica, revisão de texto, escolha das fotos, os intermináveis textos de agradecimento dos artistas, que muitas das vezes pareciam verdadeiros testamentos de tão grandes, até que com tudo aprovado, partia-se para a fábrica, após mix e masterização e, claro, a palavra final da própria gravadora e artista. O trabalho depois seguia numa outra área: vendas e marketing. O produto era apresentado ao mercado através de uma campanha de divulgação, o artista seguia em turnê por algumas capitais e o disco chegava às lojas. Neste momento, o foco era todo em ‘tirar o produto da prateleira’ para que o lojista pudesse providenciar a reposição de estoque, o que muitas das vezes não acontecia, neste caso o produto ficava literalmente ‘encalhado’ pegando poeira até uma liquidação de Bota Fora. Todo este enorme trabalho, de fato acabava quando o consumidor final ia até o ponto de venda e adquiria o CD ou DVD. A partir dali, teoricamente a gravadora encerrava seu trabalho. Digo teoricamente porque havendo reposição de estoque e procura pelo mercado, o trabalho de vendas e divulgação seguia normalmente até que a força do produto em si, acabasse de vez ou fosse substituída por um novo produto do mesmo artista.

O fato é que após o consumidor comprar seu disco na loja, para a gravadora não faria diferença alguma se ele fosse escutar o disco por 500 vezes seguidas, fosse ouvir apenas uma faixa, geralmente a música de trabalho, ou mesmo se ele esquecesse o CD ainda embalado no criado mudo do quarto. O simples ato da compra, encerrava de vez a relação da gravadora com o produto em si.

E aí voltamos à conversa com meu querido amigo no início deste texto. Quando ele comenta de que hoje, com a mudança do formato físico para o digital o trabalho da gravadora não acaba nunca, significa que o foco neste momento é de que TODOS OS DIAS o consumidor ouça aquele determinado conteúdo porque somente assim, teremos receita sobre o produto. As plataformas de streaming atuam como as antigas lojas e distribuidores de discos, mas em vez de pagarem em contrapartida pela compra dos discos, neste momento elas pagam mediante o uso do conteúdo, ou seja, são parceiros diários do negócio. Explicando ainda de forma mais clara, toda vez que o consumidor ouve ou assiste uma música pelos aplicativos de áudio e streaming por no mínimo 30 segundos, a plataforma direciona um valor para as gravadoras e, por conseguinte, os artistas, compositores e toda a cadeia produtiva. Então, se antes, nosso objetivo era tirar o produto das prateleiras, o foco atual é fazer com que o consumidor aperte o play (por pelo menos 30 segundos) para ter acesso DIARIAMENTE ao conteúdo e, se possível, mais de uma vez por dia.

Ou seja, o trabalho em tempos digitais não acaba NUNCA! Não há feriado, fim de semana ou descanso!

E esta questão é fundamental e merece ser entendida por todos os players do que chamamos de mercado da música. Especialmente artistas e equipes de marketing digital. Antigamente, os artistas mantinham-se focados no lançamento num período que compreendia 3 a 6 meses, no máximo! Após este período de maior pressão pela divulgação do novo projeto, os artistas costumavam pegar a estrada em turnês, shows … alguns tiravam umas férias e outros já começavam a pensar na produção de um novo projeto iniciando mais um período, repetindo-se tudo o que vivenciou nos últimos meses. Vale lembrar que muitos artistas lançavam projetos de 15, 16 … até 20 faixas em períodos de 1 ano, criando para si uma cultura de produção em sequência quase frenética. E aí, vale ressaltar que nesta época, produzia-se uma quantidade enorme de faixas e o foco permanecia em apenas uma única canção, a famigerada ‘faixa de trabalho’ colocando para o limbo do ostracismo todas as demais canções. Desperdício em nível máximo, de tempo, de qualidade e dinheiro.

Atualmente a música é individual, ou seja, todas as faixas de um projeto tornaram-se ‘música de trabalho’. O single assumiu lugar de destaque no mercado e, por isso mesmo, demanda um trabalho semelhante de divulgação, nos mesmos moldes do que havia na época do disco. Divulgação nas mídias, entrevistas, promoções, turnê de divulgação, maratona de rádios … o escopo de divulgação segue o modelo de antes. A grande diferença tem a ver com periodicidade desta divulgação que deixou de ser por um período curto e passa a ser contínua, diária e por alguns meses. O lançamento de um novo single não exclui o single anterior, pelo contrário, os dois projetos passam a ser complementares, a divulgação de um conteúdo reforça o outro servindo como escada para novos projetos. É como um fio condutor … uma música boa traz expectativa para um novo lançamento e por aí vai …

A questão é que este trabalho de incentivo ao consumidor para ouvir ou assistir a canção deve ser diária. Vou repetir, não tem férias em tempos digitais. A meta é ter ao menos 30 segundos de atenção do consumidor para somente assim garantir uma receita ao fim do mês. Especificamente sobre este emblemático tempo de meio minuto, vale aqui a dica de que estão ‘proibidas’ introduções intermináveis acima de alguns segundos, pois o risco do consumidor dar um skip na canção e pular para a próxima aumentam consideravelmente à medida em que a música não se apresenta de fato nos segundos iniciais.

Conversando com outro amigo do mercado, ele me comentou de que dados e pesquisas apontavam uma queda considerável no número de streams de conteúdo gospel nos sábados e domingos. Em contrapartida, o pico de consumo de música sertaneja é bem maior nos fins de semana do que durante os dias úteis. O consumo de conteúdo gospel às segundas-feiras é enorme, colocando o estilo musical entre os principais consumidos neste dia. Estas análises servem para que estrategicamente algumas ações sejam tomadas e neste momento estamos elaborando uma campanha para que o consumo de música gospel permaneça alto nos fins de semana. É uma questão de foco e trabalho, porque não creio que justo nestes dias, os evangélicos ou simpatizantes de música cristã passem a curtir outros estilos musicais, é mais uma questão de hábito, de cultura, de incentivo para que o público insira a música gospel nestes dias, mesmo sabendo que são dias de reuniões, eventos e cultos dominicais. A música nestes dias não precisa ser colocada de lado, pelo contrário!

Então, finalizando este texto, #ficaadica, não perca o foco! Mantenha-se permanentemente incentivando o público pelo consumo através dos apps de streaming, jamais baixar a guarda! O número de ouvintes mensais no Spotify, por exemplo, é uma informação que deve ser acompanhada sempre, pois é um importante registro do comportamento de consumo de conteúdos do artista. Assim como as ferramentas que a Deezer disponibiliza no controle do número de streams. Falando de Deezer, em breve será lançada a ferramenta Backstage que irá ajudar muito na busca por informações aos artistas, assim como já existe o Spotify for Artists.

Aproveito para informar aos 69 leitores que em 2018 iremos, em parceria com a On Off Marketing Digital, promover alguns workshops em algumas cidades pelo país abordando assuntos relacionados ao mercado da música, marketing digital, oportunidades e ferramentas. Muito possivelmente, a primeira cidade em que faremos este projeto será Recife, depois Vitória, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e São Paulo. Mais notícias em breve.

Foco!

Mauricio Soares, diretor artístico, publicitário, jornalista, palestrante e alguém que já percebeu que a aposentadoria ou o descanso tornaram-se algo bem distante. Vamos trabalhar!

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Na semana passada publicamos o primeiro texto após o meu momento sabático de 3 meses … e aí conforme esperado, a vontade de seguir publicando mais textos chegou de forma mansa, tranquila, mas chegou, ainda que num ritmo bem low profile. Recebi de uns 4 a 5 amigos mensagens de felicitações pela volta do blog com textos inéditos … pelo visto, o nosso tradicional quórum de 69 leitores precisa ser recuperado. Então vamos caprichar. Tenho pela frente 2h20 de vôo entre o Rio de Janeiro e Recife. Vamos lá … apertem os cintos!

Dias atrás em conversa com a equipe de Label na empresa em que trabalho, ouvi o comentário de que em comparação à quantidade de pedidos de versões solicitadas por artistas seculares, o nosso núcleo gospel era imbatível na proporção de 30 por 1 … ouvi atentamente o comentário tentando alguma resposta mais coerente, mas no fim, apenas concordei com a cabeça deixando claro de que nesta questão não há o que se explicar, apenas aceitar (ou não!).

Hoje cedo eu fiz este mesmo comentário com os grupos que temos pelo whatsapp junto aos artistas de nosso cast. E aí incluí não só o relato da conversa descrita acima, mas também minha posição a respeito. A grande questão é que a música gospel, desde os anos 80 no Brasil vem bebendo freneticamente da fonte de intermináveis versões de canções internacionais, especialmente norte-americanas. O cantor e compositor, o excelente letrista, Fábio Sampaio, front man da Tanlan comentou que “Este é um tema bastante pertinente e até, porque não dizer, controverso em nosso meio. Estudando a história da música cristã brasileira fica evidente que, por diversas razões, produzir versões se tornou o ethos da música gospel. Fábio continua com sua excelente intervenção destacando que pode haver até uma explicação histórica para essa cultura de versões. “Isso acontece, principalmente, mas não exclusivamente pelo fato de que o Evangelho chegou ao Brasil através de missionários estrangeiros (norte americanos e europeus). Muitos tinham como metodologia a exclusão da cultura local e imposição de sua própria cultura. E isso perpetuou-se nos dias atuais. Outro fator curioso é que não há como definir qual estilo seria o “brasileiro”, criando um terreno fértil para as versões, já que assim, padronizamos a estética sem muito esforço, já que nos apoiamos em fórmulas pré-estabelecidas e comprovadamente de ‘sucesso’”.

Tentando prosseguir na rota apresentada pelo Fábio Sampaio acredito que a música cristã brasileira de fato não criou uma identidade cultural forte. Se na cultura nacional, o samba e a bossa nova representam o que temos de mais expoente na música produzida no país e percebida no exterior, no tocante ao que chamamos de música gospel, esta identidade ainda é bastante fluida, incipiente, para não dizer inexistente. Talvez alguns possam dizer que a música ‘pentecostal’ possa ser considerada como um estilo essencialmente nacional, específica de nosso meio, mas para tornar-se uma referência cultural este estilo deve ser percebido não somente pelo próprio segmento como também pela sociedade como um todo e, convenhamos que no exterior, a música gospel produzida no país ainda não consegue avançar além fronteiras. Então, do ponto de vista técnico, seguimos carentes de uma identidade cultural gospel definida.

Voltando ao contato que tive com os artistas pelo app de conversas, escrevi um pequeno texto para validar o que eu penso a respeito da profusão de versões internacionais em nosso meio. Neste texto além de expor a impressão de nossa equipe de Label, deixei claro que devemos dedicar mais tempo ao processo de produção de músicas. E que este tempo de dedicação deve vir acompanhado de muitas atitudes bastante definidas. Em primeiro lugar, boa parte do processo de criação de uma música demanda de tempo, atenção, foco e dedicação. Casos clássicos em que a melodia e letra surgem num piscar de olhos, devem ser tratados como exceção e como tal, não se tem qualquer controle a respeito. Simplesmente a inspiração, surge do nada e … pronto! O sucesso está nas mãos, mas quem garante isso? Ninguém! Não mesmo! Então, para não depender do acaso, o que se deve fazer é trabalhar, trabalhar, trabalhar … em primeiro lugar, não creio que possamos oferecer algo se não temos posse do conteúdo. Em outras palavras, se no nosso meio as canções falam de questões espirituais, relacionados à Palavra de Deus, como podemos escrever sobre estes temas se não tivermos vida e intimidade com Ele? Já recebi muitas músicas … incontáveis composições … e posso garantir que é sistemático … ao ter contato com algumas destas canções, muitas das vezes fica a sensação de bla bla bla … com infindáveis chavões, palavras de efeito, referências repetidas … ou seja, mais do mesmo … e aí, ao pesquisar sobre os autores, não me surpreendo em perceber que o que a caneta registra, não significa que a vida representa. Entenderam ou preciso ser mais claro?

Quando tratamos de assuntos espirituais, conhecimento e experiência, vivência e intimidade fazem total diferença.

Entendendo que esta questão básica de intimidade com Deus é ponto pacífico, podemos seguir para outros aspectos. Seguindo no mesmo conceito de que só podemos dar aquilo sobre o que temos, sempre entendi que o processo de composição é um grande trabalho braçal, mental, demanda dedicação e este trabalho consiste também e, ou principalmente na busca por conteúdos. Então, como poder trabalhar com a palavra se a leitura é pouca? Sinceramente não consigo entender como algumas pessoas se julgam compositores se ao menos não têm controle sobre a própria língua natal. Recebo constantemente composições, inclusive tenho um grupo de whatsapp somente com compositores e sendo um Diretor A&R, este trabalho é uma das bases de meu ofício cotidiano (pra quem não está ambientando à sigla, A&R significa “Artístico & Repertório”, já traduzido ao português). E aí posso garantir que ao menos 50% das músicas que recebo, contém erros grosseiros de português – isso é inadmissível! Então, para aqueles que pretendem seguir na carreira de compositor, minha dica ou clamor mesmo, é que dediquem tempo, muito tempo mesmo! para a leitura … livros, revistas, textos … não importa, o que conta é buscar referências, informações, estilo, ampliar consideravelmente o conteúdo, o estofo cultural … isso é fundamental. Na minha última viagem em família, como forma de passar o tempo na estrada, propus aos meus filhos uma simples brincadeira … eu falava uma palavra e pedia que eles explicassem o respectivo significado, um simples exercício como este pode fazer uma diferença e tanto! Uma das lembranças que tenho de minha infância era justamente os jogos que fazia com meu pai neste mesmo sentido. Diariamente eu lia o dicionário e comentava com ele o significado … até hoje algumas palavras trago em minha memória.

Leitura é fundamental. Buscar conhecimento é tarefa cotidiana e algo a ser perseguido todo o tempo.

O trabalho de composição é algo que demanda tempo e pode ser feito de forma individual, em parcerias ou até mesmo no estilo colaborativo ou cooperativo com a participação de um grupo criativo. Esta é uma questão bastante pessoal … há casos de compositores que só trabalham solitários, outros encontram parceiros ideais … às vezes pode se contar com a ajuda de um ‘colador’ de frases soltas, alguém que consegue organizar ideias e transformá-las em algo de qualidade. O processo de composição é algo muito interessante porque não segue regras ou formatos determinados. O importante é conhecer seu processo próprio de criação, respeitá-lo e dedicar-se a ele da melhor forma.

Outra característica do processo de composição tem a ver com a ideia de erro e tentativa, acerto e tentativa … ou seja, é praticamente impossível que se ache a ‘música’ numa única vez. O processo de composição exige tempo, senso crítico e bom senso. Outra forma de avaliação é a consulta a terceiros. Sempre que possível, apresente sua música para que outras pessoas possam escutar e opinar a respeito. No entanto, neste caso, saber escolher os ‘ouvidos’ faz parte do processo de análise criteriosa. Não adianta mostrar as composições pra mãezinha querida ou aquela tia que acha tudo perfeito o que você faz desde os primeiros dias de vida. Não busque a aprovação imediata, como um diamante, burile, lapide ao máximo sua produção.

Não há regras, formatos ou atalhos para se encontrar o hit.

Especialmente no exterior, a figura do “cantautor” é algo extremamente valorizado, algo como se fosse um patamar acima do intérprete ou mesmo do compositor. Para quem não está familiarizado com a expressão, “cantautor” significa o compositor que canta ou vice-versa. Esta valorização deve-se ao fato de que uma pessoa ter 2 talentos artísticos – cantar e escrever – seja algo a ser destacado. No Brasil, não somente no meio gospel, mas também secular, a figura do compositor não raras as vezes é algo colocada em segundo plano. Basta olharmos o ranking do Top 20 ou 30 das músicas mais executadas no país neste momento ou nos últimos anos … se conseguirmos identificar os autores de 10% das canções, podemos nos considerar como profundos entendedores deste mundo da música. Mas não quero trazer a responsabilidade sobre a baixa valorização aos compositores no nosso país a questões simplistas … é fato que o reconhecimento ao compositor se dá não somente pela produção de um único hit, mas especialmente de um conjunto de hits, uma obra completa. Vejamos o que aconteceu com Sullivan e Massadas nas décadas de 80 e 90, a grande quantidade de sucessos em sequência, transformou-os em referência de hits na MPB, colocando-os no Olimpo dos compositores do país. No nosso caso, compositores mais antigos como Josué Teodoro, Jorge Raeder, João Alexandre, Nelson Bomilcar, marcaram lugar de destaque no meio gospel, sendo seguidos décadas depois por nomes como Anderson Freire, Tony Ricardo, Clóvis Pinho, entre outros.

É fato que a estratégia de versões internacionais é um atalho tentador, afinal a música já foi testada e se chamou a atenção para contar com uma versão em português é porque de fato alcançou o sucesso. A questão é que seguindo esta toada, estaremos cada dia mais dependentes de conteúdo estrangeiro, iremos diminuir a força da produção local e adiaremos por mais anos e anos, a criação de uma identidade cultural sólida e reconhecida. Hoje em dia é muito claro que temos um cenário relevante de intérpretes. Isso é muito notório e repercutido por toda a classe artística secular … é impressionante os relatos entusiasmados que recebo sobre os cantores de música gospel brasileira de artistas do universo sertanejo, funk e mesmo da MPB. Entre meus pares na gravadora, o mesmo acontece … são elogios rasgados à qualidade das músicas, extensão vocal e técnicas da turma gospel e isso, é motivo de orgulho.

O nosso último grande hit que atravessou todos os limites, números, recordes … talvez tenha sido a música “Ninguém Explica Deus” de autoria de Clóvis Pinho. A música está prestes a alcançar 200 milhões de views no YouTube, foi regravada por alguns artistas seculares e gospel no Brasil, entrou na playlists de celebridades da TV, da música e da web … ou seja, transformou-se num grande sucesso. Isto é muito gratificante! E, sem dúvida, esta composição abriu um enorme caminho ao artista, intérprete e compositor. Precisamos de mais hits … precisamos de mais sucessos … precisamos de novos temas, novas propostas musicais …

Não estou dizendo que devemos promover um caça às bruxas ou um boicote ao que vem de fora. Longe de mim lançar um discurso xenófobo, mas o que eu quero incentivar através deste texto é para que a produção local seja fortalecida, respeitada e propagada cada vez mais. No entanto, não quero propor um sistema de reserva de mercado como o que vivemos nas décadas de 70 e 80 que proibia o acesso à tecnologia estrangeira, colocando o Brasil num atraso absurdo por décadas. Minha proposta é de que os artistas, ao buscarem repertórios, que dêem prioridade aos compositores locais … que deixem a tentação de buscar atalhos e versões de sucessos internacionais que muitas das vezes (a grande maioria) não conseguem ter o mesmo sucesso por aqui como têm por lá. Tenham paciência e disposição para buscar parceiros de composição, para contatar compositores e dar-lhes alguns caminhos a seguir, que tenham vontade de buscar sempre a excelência. Em contrapartida, que os compositores também façam o máximo esforço em oferecer cada vez mais conteúdos melhores e de qualidade. Invistam tempo e principalmente atenção ao processo criativo. Atentem-se aos detalhes, à poesia, à criatividade, ao novo, ao diferente … busquem novas referências. Aproveitem que nos apps de streaming há milhões de músicas para dar um ‘reset’ nas suas próprias referências musicais. Conheça novas propostas. Por fim, leve-se a sério e aja como tal, dando a devida importância onde o verdadeiro sucesso começa sempre: na música.

Não há artista de sucesso sem música. Buscamos o hit sempre e valorizemos as etapas, detalhes e aspectos do sucesso.

Ufa! A comissária de bordo acaba de anunciar nossa chegada ao Recife. Consegui iniciar e finalizar um texto numa pegada só … parece que estou voltando ao pique de antes. Quero me despedir e indicar a vocês uma música muito especial e que vem alcançando excelente repercussão nestes dias: Inteiro, faixa composta por Priscilla Alcântara uma jovem de 21 anos. Ou seja, nada melhor para ilustrar tudo aquilo que comentamos acima.

Divirtam-se!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que segue freneticamente em busca de novos hits.

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Se não me engano, desde o fim de 2017 não publico algo novo por aqui no blog … e de uma forma muito humilde quero justificar-me que o ofício de escrever, de publicar meus textos, seja aqui mesmo ou em outros veículos de comunicação, sempre foi encarado por mim muito mais como um lazer, um hobby ou principalmente, um prazer pessoal, do que algo mais oficial ou uma obrigação. Há momentos em que minha produção de textos é intensa … já em outras oportunidades, por falta de tempo e mesmo de inspiração, vivenciei períodos de estiagens intensas. No entanto, uma pausa tão longa como a que tivemos nestes últimos 90 dias, creio que seja algo inédito nos 11 anos de existência do Observatório Cristão e minha grande justificativa, até por respeito aos nossos diletos 69 leitores, é única, a saber: absoluta falta de vontade de escrever algo relevante mesmo tendo muitos insights e temas pensados ao longo deste período.

Dias atrás entreguei um texto para uma revista digital que será lançada em breve. O editor desta revista havia feito o convite a mim desde o fim do ano passado e pelas mesmas justificativas citadas acima, protelei ao máximo a entrega do texto inédito, até que por insistência do editor, me impus parar tudo e atender ao pedido. No texto dei um rápido resumo sobre o que vivemos no mercado da música em 2017 com a efetiva transição do consumo físico para digital. A experiência de sentar-me à frente da tela do computador, talvez tenha sido o estopim para que neste momento, a bordo de um voo entre o Rio de Janeiro, em plena intervenção federal, e a capital mineira, eu esteja teclando este texto … que na verdade, confesso, ainda não sei qual tema irei discorrer nas próximas linhas. O importante é que de alguma forma, parece-me que a vontade de romper com o ócio criativo está sendo combatido neste momento. É pra aplaudir de pé igreja!

Ainda sobre este tempo de escassez de textos, me surpreendi (continuo achando que minha relevância e audiência no blog são bem abaixo do que a realidade insiste em demonstrar) com a enorme quantidade de mensagens de amigos, alguns conhecidos e até mesmo gente que só conheço virtualmente, me perguntando sobre a ausência de novos textos ou ainda, relatando a necessidade de atualizações do blog. Confesso que este interesse me deixou bastante feliz e até mesmo lisonjeado. Desde quando começamos a publicar nossos textos há mais de uma década, a intenção do blog sempre foi de contribuir de alguma forma para um melhor entendimento do mercado e temas relacionados ao marketing, comunicação, vendas e estratégias. Nos últimos 3 anos, tive a grata oportunidade de contribuir com 9 projetos de TCC e já em 2018, recebi o pedido de mais 2 formandos. Ou seja, creio que o Observatório Cristão de forma direta ou indireta vem contribuindo para um melhor entendimento, especialmente sobre o mercado da música como um todo.

Então, aproveitando o texto que escrevi ontem, gostaria de seguir este novo post – com uma enorme introdução, me desculpem! – abordando alguns aspectos que me chamaram a atenção no último ano. Em primeiro lugar, creio que daqui 10 anos, quando olharmos os livros de história ou textos jornalísticos, o ano de 2017 poderá ser considerado como o marco oficial da transição do consumo de música. Efetivamente foi neste ano em que houve o grande salto do consumo da música pelos aplicativos de áudio streaming revertendo de uma vez por todas o modelo de consumo por parte do público. Estima-se que no mercado brasileiro, cerca de 97% do faturamento entre as majors – principais gravadoras – será proveniente de operações digitais em contraste às vendas físicas de CDs e DVDs. Falando de meu dia a dia, no ano de 2017 tivemos a oportunidade de lançar apenas 2 produtos físicos e 238 projetos exclusivamente digitais, ou seja, a disparidade entre os formatos é absoluta e irrevogável.

Então, o que era apenas futuro, tornou-se presente! A música agora é oficialmente digital!

Com esta nova cultura, podemos observar mudanças profundas no meio fonográfico e porque não dizer, no ambiente artístico como um todo. Gostaria de aproveitar para destacar alguns destes novos aspectos. Em primeiro lugar, a forma de apresentação dos conteúdos para o mercado e público sofreram várias mudanças. Sai o álbum com 12, 14 faixas para dar lugar a singles e EPs … tudo sempre acompanhado da versão em vídeo, seja através de clipes, Lyric Videos, Live Sessions ou mesmo Pseudo Vídeos (quando é só a capa estática do produto). Com isso o ritmo de produção e mesmo o intervalo entre os lançamentos é alterado sistematicamente, pois se antes uma produção demorava em média 6 meses e outros 18 meses de trabalho, neste atual cenário, o tempo de produção pode chegar a dias, em caso de um single e o tempo de divulgação demanda não mais do que 90 dias, em raríssimas exceções. Agora o artista não pode se dar ao luxo de grandes espaços sem novidades … a necessidade de constantemente lançar conteúdos torna o trabalho muito mais intenso (um dos meus últimos textos aqui publicados trata bem deste assunto, vale a leitura!).

Eis que tudo se fez novo … de novo! Atualize-se urgentemente para não correr o risco de ficar para a história ou mesmo no mais puro ostracismo e esquecimento!

Uma mudança neste novo cenário e que merece destaque neste momento tem a ver com a democratização em nomes, geografia e estilos. Tentando resumir esta afirmação, acho melhor dissecá-la, então explicando, até alguns anos atrás vivíamos uma escassez de novos talentos, basicamente em função dos altos custos para transformar uma promessa em sucesso, pela própria característica reativa e pouco audaciosa de boa parte das gravadoras do segmento gospel no país e, ainda pela falta de disposição de emissoras de rádio em abrir espaço para novos nomes e novas propostas musicais. Ou seja, vivíamos um círculo vicioso sempre com os mesmos artistas no topo, os mesmos estilos musicais repetidos à exaustão, mesmos produtores musicais, mesmos compositores e assim seguia a mesma toada numa falta de novidades irritante. Basta lembrar que o último artista que surgiu nos últimos anos, com nova proposta musical, foi o cantor Thalles Roberto no longínquo ano de 2008/09. Em comparação com os dois ou três últimos anos, tivemos uma profusão de novidades de estilos e de nomes, de propostas musicais e sonoridades. Isto deve-se basicamente ao novo formato de consumo através dos aplicativos de vídeo e áudio streaming.

Hoje é muito mais fácil tornar-se conhecido e relevante. As tecnologias aproximam as pessoas, encurtam os caminhos e têm capacidade de transformar uma carreira. No entanto, talento, qualidade e conhecimento técnico são indispensáveis, sempre, estejam atentos a isto!

A democratização não se limitou ao estilo ou mesmo aos artistas, mas também alargou substancialmente as fronteiras, ou melhor, o digital eliminou por completo as barreiras, tornando o consumo global e de igual forma, as chances de artistas de regiões fora do eixo Rio-São Paulo tornaram-se reais, algo inconcebível tempos atrás. Para ilustrar esta afirmação neste momento tenho trabalhado com artistas do sul do país, assim bem como artistas do Centro Oeste, inclusive residindo em Palmas, Tocantins. Trabalho ainda com artistas do interior da Bahia, de Aracaju, interior de São Paulo e até mesmo em Seattle, EUA, caso de Arthur Calazans, front man do Ministério CFC. Enfim, não há mais dificuldades na distância porque as distâncias simplesmente inexistem neste momento. E isso é fantástico!

Não há mais distância ou grandes entraves! O que impede um artista atingir seu público é qualidade de conteúdo e investimento da forma correta!

Outra questão que observamos em 2017 e que merece atenção é o encolhimento de alguns artistas. É notório que alguns medalhões do meio gospel estão vivenciando tempos estranhos com o advento do mercado digital. A grande maioria destes artistas que viveram o ápice na carreira atrelada à venda de discos carece da vontade em se readequar a um novo cenário, aliada a uma falta de profissionais capacitados à volta e mesmo um estímulo extra, por parte de suas respectivas gravadoras. Outro dia parei para analisar números de vários artistas no tocante a streams e o susto foi grande. Artistas com 3 anos de carreira superando outros com 20 anos de estrada … e o mais impressionante é que este fenômeno já passa a ser percebido também no line up dos grandes shows de música gospel pelo país, ou nas programações das emissoras de rádio. Enfim, quem imaginava que teria uma carreira longeva e tranquila no melhor ‘céu de brigadeiro’ após ter alcançado o sucesso anos atrás, é bom mudar este conceito, arregaçar as mangas, tirar o ‘escorpião do bolso’ – em bom português, investir mesmo! – e se atualizar sobre ferramentas e estratégias. Ou seja, trabalhar com foco, simples assim.

Vamos trabalhar! Chega de ficar no sofá da sala achando que as coisas acontecerão normalmente!

Ou seja, o mercado da música está talvez num dos seus melhores momentos das últimas décadas. Como profissional do segmento há alguns anos, vivo hoje uma experiência incrível de mesmo após tanto tempo de mercado, ainda aprender e sentir-me estimulado a crescer e a trabalhar mais e mais. Vejo claramente que há artistas que estão vibrando com este cenário, que estão trabalhando muito e, consequentemente estão colhendo resultados incríveis. Já outros estão literalmente ‘correndo atrás’ … não do prejuízo, até porque não sei quem cunhou esta expressão tão louca … afinal, devemos correr atrás é do lucro, porque do prejuízo corre-se dele e não para ele, mas enfim … há artistas que estão buscando adaptar-se às novas demandas e outros que simplesmente resolveram aposentar as chuteiras e deixarem-se se levar pela correnteza ladeira abaixo … o recado está dado! Vamos trabalhar e colocar a música gospel de fato no local em que deveria estar no mundo digital nos últimos tempos.

Finalizo este texto com uma boa notícia e uma mensagem de parabéns. O excelente trabalho que Lincoln Baena, editor de música cristã da Deezer Brasil vem realizando nos últimos anos chamou a atenção do board da companhia no mundo e desde o início de 2018, o editor brazuca assumiu o posto de editor da Deezer na América Latina para o mercado cristão. Agora, Baena coordena 20 países dentro da plataforma. Parabéns!

Enjoy!

Mauricio Soares, diretor artístico da Sony Music, publicitário, jornalista e palestrante. Agora, voltando com tudo para o blog!

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Tenho reunido muitos insights para futuros textos no Observatório Cristão, mas por absoluta falta de tempo, não tenho conseguido trazer à vida todos os temas que neste momento estão apenas estocados em minhas anotações. Meu dia a dia tem sido muito intenso e isto deve-se também às mudanças no formato de trabalho digital. Se antigamente tínhamos 3 a 4 lançamentos por mês, nos longínquos anos em que trabalhávamos com projetos físicos, hoje em dia chegamos a ter 40 lançamentos em um único mês, muitas das vezes, 5 a 8 projetos simultâneos chegando ao mercado em uma única sexta-feira.

Mas para não deixar os 69 leitores com a sensação de abandono, reservei alguns minutos em meio a um vôo entre Beagá e Barreiras, o aeroporto mais perto de meu destino final, a cidade de Luís Eduardo Magalhães, no Estado da Bahia, para escrever um texto para o blog. E entre os tantos temas possíveis, escolhi uma frase que anotei durante uma reunião em que participei dias atrás. Em meio a tantas informações, comentários, novidades, uma frase proferida por um dos participantes me chamou a atenção a ponto de escrevê-la em meu caderno de anotações.

“O artista precisa entender que ele não vive um estado de espírito! Ser artista é antes de tudo, ter uma profissão!”

Para contextualizar esta frase, vale a pena comentar que estávamos diante de uma conversa entre profissionais da indústria fonográfica sobre como artistas que encaram a vida artística como uma profissão, alcançam resultados potencialmente superiores do que aqueles que a enxergam como uma qualidade, uma característica pessoal, algo etéreo, sobrenatural ou quase um destino.

Especialmente no ambiente evangélico esta definição de vida artística como profissão suscita debates acalorados, muito preconceito, muitas baboseiras, muita santarronice e raros momentos de lucidez. Em nosso segmento, a questão do chamado ministerial, introduz mais um componente nas discussões sobre o tema. Outro dia assisti a um debate com pastores-intelectuais-da-esquerda-festiva em que aqueles doutos detonavam os artistas e seus cachês. A impressão que tive era de estar diante de pessoas completamente santas, que viviam a cada dia o milagre do maná … o problema é que boa parte dos participantes daquela mesa, era de pessoas que já conheço faz muitos e muitos anos … e posso garantir de que todos, sem exceção possuem bons carros, propriedades, viajam constantemente ao exterior e têm seus soldos pagos por igrejas, instituições ou na venda de livros, camisetas e se sustentam à base de ofertas. De vez em quando um destes sites deploráveis de fofocas gospel lança matérias sobre cachês e exigências de artistas. Ou seja, há muita opinião a respeito do tema – o profissional de música cristã.

Mas o caminho que eu quero seguir não é por esta rota. Até porque já expus em diversos outros posts nas redes sociais e mesmo aqui no Observatório Cristão, o que penso sobre esta questão e minha falta de paciência nestes debates. O que eu quero falar a partir de agora tem a ver com a necessidade do artista de música gospel deixar de lado o amadorismo e passar a encarar seu ministério/trabalho como algo efetivamente braçal, estratégico, técnico, com mais transpiração do que só inspiração. Recentemente promovi um grande treinamento digital junto ao cast da gravadora em que estou à frente. Por mais de 8h tivemos um intenso dia de treinamento, conteúdo, palestras, apresentações, enfim, invertemos a posição dos personagens, onde os artistas ficaram na plateia (muitos atentamente anotando tudo!) e os profissionais assumiram o microfone. Confesso que havia momentos em que me impressionava com o nível de atenção dos artistas – mais de 50 presentes – e de todos os participantes do treinamento (algo em torno de 300 pessoas). Foi especialmente inspirador perceber, caneta e bloco de anotação à mão, uma decana como Aline Barros atentamente participando de tudo com um foco impressionante. Ou ainda ver artistas como Nívea Silva (que até uns meses atrás sequer sabia o que eram os apps de áudio streaming) ou Sandro Nazireu (outro também que até meses atrás não sabia se era de comer ou beber … completamente perdido) participando das palestras, interagindo e até sendo apresentados como cases, modelos a se seguir pelos demais.

Durante os dias que se seguiram ao treinamento, a mudança de postura dos artistas presentes foi surreal. A transformação chegou a ponto de nossa equipe escolher alguns dos participantes para serem monitorados pelos próximos meses, com o foco na performance digital. Alguns casos, em apenas 5 dias, cresceram mais de 60% no número de streamings. Outros, em pouco tempo aumentaram em mais de 1.000% o número de fãs nos perfis oficiais. Ou seja, com apenas algumas mudanças de atitudes e postura, os resultados cresceram exponencialmente.

Nestas 3 últimas semanas, coincidentemente fui entrevistado por algumas mídias e todas com foco no crescimento do consumo de música gospel nos aplicativos de áudio streaming. No caderno Ilustrada da Folha de São Paulo (mega destaque de capa) fui perguntado pela repórter sobre os motivos do atraso na transição do consumo de música gospel. É notório que ainda nem 5% do enorme contingente de evangélicos no Brasil (cerca de 60 milhões) já usufruem conteúdo gospel pelos apps de streamings. Minha resposta foi simples e direta. A culpa deste delay deve-se especialmente às gravadoras do segmento que demoraram a entender as mudanças da indústria e do consumo e, também a própria classe artística que manteve uma postura distanciada perante às transformações. O público consumidor, em minha opinião, não tem culpa alguma por este atraso monumental. Na verdade, os vejo muito mais como vítimas do que co-responsáveis por qualquer problema neste assunto.

Então, o foco no texto de hoje é estimular à classe artística a romper com este autismo, esta inércia endêmica. Hoje ao artista não é mais permitida a opção do “não mexo com isso!” ou “não entendo nada destas coisas de digital” – simplesmente não há mais espaço para esta postura! O artista precisa antes de mais nada entender que neste momento aqueles que manejam bem suas redes sociais e estabelecem estratégias e planos de ação, sairão à frente dos demais e muito seguramente manterão o posto de destaque entre o segmento musical.

E o que deve ser priorizado? O que o artista precisa fazer e focar para ter uma melhor performance em tempos digitais?

Adaptando um pouco do que apresentamos em nosso último treinamento, vou elencar algumas ações fundamentais para o artista neste momento a partir de questionamentos que temos recebido por parte de artistas nos últimos tempos. Então, prepare-se, vamos a um intensivo a partir das próximas linhas! Mas antes de destacar algumas ações, é fundamental que o artista se aprofunde no uso dos apps de áudio streaming. Não existe essa estória de divulgar o que de fato não se aplica ou não se conhece. Ao artista, neste momento, ter conhecimento sobre o universo digital é questão de sobrevivência.

O que eu devo priorizar? Aumentar o número de seguidores em redes sociais ou os perfis dos aplicativos de streaming?

Em primeiro lugar é importante deixar claro que uma prioridade não exclui a outra, ou seja, o ideal é que as estratégias sejam trabalhadas em paralelo. No entanto, se tivermos que optar (principalmente pela escassez de recursos para investimento) entre um ou outro foco, a opção em incrementar os perfis nos apps deve ser levada mais a sério. Esta opção aplica-se ainda mais aos artistas que já possuem bons números de seguidores nas redes sociais. O tempo do “me segue lá na rede social tal” já passou e agora o objetivo é incrementar o número de fãs nos perfis da Deezer, Apple Music ou Spotify, por exemplo. No caso de artistas iniciantes, sem tanta relevância nas redes sociais, o trabalho deve ser dobrado, porque não há lógica estimular seguidores nos perfis de áudio streamings se, este artista não possui uma boa base nas redes sociais.

Como venho falando sistematicamente, todo artista precisa contar com uma assessoria de marketing digital, porque este profissional irá estabelecer ações, estratégias, metas e objetivos para que o artista torne-se mais relevante nas redes sociais e, principalmente junto aos apps. E aqui, permito-me um comentário: é fundamental que o artista tenha uma postura participativa em todo este processo. Transferir a responsabilidade na aquisição de fãs para impulsionamentos ou estratégias de marketing e remarketing irá atrasar em muito tempo o alcance dos resultados. O artista precisa engajar-se neste processo, ou seja, falar todo o tempo sobre a importância de que os seus fãs o sigam nos perfis digitais.

O valor de monetização de vídeos caiu assustadoramente nos últimos anos. Ainda assim vale a pena investir em conteúdos de vídeos e em investimentos de impulsionamento?

Sim, sem dúvida! A música passou a ser visual e por isso, é fundamental que a produção de conteúdos em vídeo seja intensa e permanente. Se tem condições de lançar um single com clipe, perfeito! Se a grana e tempo não permitem, então invista ao menos em um Lyric Video e, se ainda assim, não for possível, ao menos coloque no ar um pseudo vídeo, lembrando que em todos os casos, é fundamental que o artista esteja monetizando sobre o número de views.

Há uma certa miopia neste momento quando se fala de investimentos digitais, especialmente no tocante ao impulsionamento de vídeos. Inclusive escrevi um texto a respeito meses atrás falando a respeito do conceito de organicidade, ou em um bom português, quando o resultado vem de forma natural, sem investimentos para um maior alcance. Se o artista acredita no potencial de sua canção, o mínimo que ele almeja é que sua produção seja assistida pelo maior número de pessoas e, portanto, nada mais natural que seja feito um investimento para que aquele conteúdo vá o mais longe possível. Então, não há nada de irregular em fazer investimentos! As pessoas confundem impulsionamento com a compra de seguidores (o famoso me engana que eu gosto!). O investimento digital é algo completamente normal, inteligente, estratégico (quando feito de forma profissional, técnica) e que comprovadamente dá muito resultado. Então, sobre este tema, mas uma vez reforço a necessidade de todo artista contar com a assessoria de um profissional de marketing digital. Não neglicencie esta dica!

As redes sociais são ferramentas de incremento ao consumo de música pelos apps?

Muito! Talvez sejam o melhor ambiente para que o artista comunique com seu público incentivando-o a consumir música no ambiente e formato correto. Infelizmente tenho observado (sim! me dou ao trabalho de pesquisar as redes sociais de vários artistas do segmento gospel, inclusive de artistas que não trabalhem comigo diretamente) que a imensa maioria dos artistas não faz uma única menção aos apps de áudio streaming. E isto é simplesmente assustador! Acho que a palavra certa não seria “assustador”, mas estarrecedor tamanha miopia da classe em sua própria sobrevivência. Os artistas gospel se identificam muito em fazer ações de merchandising de barbearias, cabelereiros, restaurantes, clínicas de estética, dentistas e afins … tudo na base descarada do “me tratou bem, divulgo em minhas redes”, mas pouquíssimos são aqueles que fazem campanhas para que o consumo da música (inclusive seu próprio conteúdo!) seja feito nas plataformas digitais. E aí tenho que relembrar que o ambiente correto de se ouvir são os apps de áudio streaming e não o YouTube (infelizmente o ambiente de consumo de música mais usual para boa parte do público gospel).

O distanciamento dos artistas gospel das plataformas digitais é algo que vem trazendo prejuízos grandes para o segmento como um todo, para artistas, em especial que não conseguiram se posicionar no ambiente digital e, de alguma forma, para o público consumidor que não enxerga e compreende a transição do formato de consumo de música para o digital. Este atraso, deve ser combatido e, sem dúvida, o principal campo de batalha, são as redes sociais.

Eu devo escolher uma plataforma e massificar minha comunicação direcionando tudo a este app?

Jamais! O artista não pode limitar-se a uma única plataforma de app de áudio streaming. É fundamental que o artista possua ao menos 2 contas nos apps em que o seu público esteja mais presente. É óbvio que no dia a dia, temos predileções por esta ou aquela plataforma, no entanto, a comunicação deve ser sempre direcionada a cada um dos públicos que estão presentes nos diferentes apps. Ou seja, esta frase manjada de “Em todas as Plataformas Digitais” tão usada nos flyers em redes sociais, deve ser substituída em divulgações separadas, pois quem consome música pela Deezer tem um perfil próprio, assim como Apple Music ou Spotify, apenas para citar as 3 principais. É fundamental que o artista mantenha atualizado cada um dos seus perfis. Há casos clássicos de artistas que sequer divulgam outra plataforma que não seja a que se relaciona como consumidor, com isso, ele abandona seus fãs à própria sorte e, sempre, os resultados de streamings ficam muito abaixo do potencial.

O artista precisa atualizar suas playlists, além de possuir conteúdos específicos para cada app. Isso dá trabalho? Sim, pode até dar pra quem ainda não encara esse processo como algo prazeroso, mas sendo trabalho ou deleite, a verdade é que todo artista precisa arregaçar as mangas e trabalhar! Sim, trabalhar! E assim encerro meu texto iniciado e finalizado em uma viagem para a cidade de Luís Eduardo Magalhães, no extremo oeste do Estado da Bahia onde fui palestrar a respeito justamente do mercado digital, música, estratégias e números. Fiquei especialmente surpreso ao me deparar com dezenas de pessoas, de diferentes idades, expectativas e estilos presentes na palestra promovida no meio de uma tarde ensolarada no meio do cerrado baiano. E mais ainda surpreso ao constatar que mais de 80% dos presentes já tinham uma conta em algum dos apps de áudio streaming. Isso é fantástico e cada vez mais estou convicto de que em mais pouco tempo teremos um número substancial de usuários digitais dentro do público evangélico no Brasil.

O resumo deste texto é que o artista precisa ser mais participativo. Precisa ser mais braçal e menos ‘dolce far niente’. Precisa se envolver com os processos e deixar de ficar assistindo a banda passar. Precisa divulgar e estimular o público a se engajar no novo formato de consumo de música. Precisa contar com profissionais capacitados à sua volta. Precisa entender que sem o suporte de uma gravadora com acesso às plataformas digitais, será como remando sozinho contra uma forte correnteza. Precisa, em outras palavras, trabalhar! Trabalhar. Trabalhar e, pra não restar dúvidas, trabalhar!

Então, não perca tempo, arregace as mangas e vamos trabalhar!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing, alguém que neste momento não vê a hora de merecidas férias. Que venham logo, please!

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Há algum tempo atrás era bem comum encontrar adesivado em vidros dos carros pelas grandes cidades uma campanha que dizia “Seguro, só com corretor de seguros”. Tempos depois passamos a nos deparar com outras categorias profissionais em campanhas semelhantes onde o conceito que se repetia era sempre o mesmo, ou seja, cerque-se de profissionais credenciados e de qualidade para somente assim garantir que não terá problemas futuros. Existe um ditado popular que diz: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Em uma palestra ouvi do preletor a seguinte afirmação: ‘Muito pior do que ter um funcionário passivo, lento, sem iniciativa, não criativo … é ter um idiota voluntarioso, o estrago costuma ser bem maior!”

Estava conversando com um amigo profissional da indústria fonográfica, alguém com pouco mais de 10 anos de mercado, portanto já com uma relativa experiência em nosso meio e ele me relatava a respeito de uma experiência traumatizante que havia vivenciado dias atrás. No meio de um processo de renegociação de contrato, este profissional viu-se diante de uma situação constrangedora onde o artista simplesmente recusava-se a negociar diretamente com a gravadora e havia determinado um interlocutor de seu staff para tratar de todo o processo. Até aí, nada demais … muitos artistas (especialmente no meio secular) possuem empresários e managers que cuidam de todas as questões relativas a números, contratos, percentuais, venda de shows etc. Só que neste caso, o tal interlocutor imposto pelo artista era alguém completamente despreparado, sem experiência do mercado fonográfico, sem ‘tempo de estrada’, que não havia participado do processo de construção daquele projeto/artista desde o início e, o pior, com uma arrogância tamanha que praticamente inviabilizou todo o processo de conversação entre aquele artista e a gravadora.

Quase que como um terapeuta, fui ouvindo as queixas e decepções daquele profissional (que tem meu máximo respeito!) pela forma com que todo aquele processo havia sido conduzido. Era latente de que aquele artista havia errado de várias formas na condução da negociação e o principal fator neste erro, sem dúvida, foi a colocação de alguém sem a menor condição de representá-lo. E aí voltamos ao primeiro parágrafo deste texto que escrevo em meio a uma ponte aérea entre Rio e São Paulo. Há uma carência de profissionais que realmente estejam preparados para conduzir carreiras artísticas no meio gospel e católico no Brasil. Vivemos uma profusão de maridos, esposas, cunhados, primos que surgiram não se sabe de onde … filhos, vizinhos e até sogras que de uma hora para outra imaginam-se como sendo Dodi Sirena, Poladian ou outros empresários de sucesso no show business. Isto é mais comum do que se possa imaginar para tristeza daqueles (como eu!) que precisam sentar-se à mesa de negociação para tratar de contratos e do gerenciamento de carreiras. O nível de conhecimento no ambiente dos ‘empresários’ do meio gospel é perto do pré-sal e não falo isso para diminuir ninguém, mas justamente para estimular ao crescimento, ao entendimento, à maior capacitação e busca de conhecimento. Simples assim!

Meses atrás reuni-me com um destes empresários-maridos-de-cantora-gospel e o nível de desconhecimento do mercado da música, do ambiente digital, em especial, beirava o nível máximo de ‘vergonha-alheia’. O marido sequer conseguia pronunciar Spotify, Deezer, ou palavras mais comuns como views e single … quando não conseguia mencionar estas palavras, recorria ao surrado ‘essas coisas’ … e confesso que nunca ouvi tantas vezes ‘essas coisas’ numa conversa de pouco mais de 1 hora de duração. Mas aí você deve se perguntar, mas será que todo mundo nasce sabendo? Tem algum mal em ser empresário e marido da cantora? De pronto respondo que não! Não há problema alguma em unir a filiação ou o vínculo familiar com o trabalho de gestor de uma carreira artística, mas o DNA não pode ser mais importante o que o conhecimento! Jamais! Pra começo de conversa, o que mais temos hoje em dia é informação ao alcance das mãos. Basta um tempo de dedicação, pesquisa, leitura e observação in loco dos processos, para se formar conhecimento. No caso de gestores de carreiras artísticas, uma boa dica é buscar conhecer outros profissionais do meio e aprender com eles. De fato, sugar ao máximo o conhecimento e adaptar à realidade de seu artista tudo o que foi aprendido.

A verdade é que tem muita gente em nosso meio querendo ser o que de fato não é … e neste momento, contar estória já não leva ninguém a lugar algum! Ou se sabe com propriedade ou então, é melhor ficar quieto. O que não ocorreu em uma recente reunião em que participei e um jovem com seu blazer surrado disse que uma determinada artista havia trazido mais de 1.000% de lucro para a gravadora. E o rapazinho falou isso com a maior sem-cerimônia como se fosse normal um artista alcançar tal lucratividade, ou seja, deveria ter ficado calado (e comprar um blazer novo!). O ruim para ele é que nesta reunião tinham apenas profissionais mega experientes do mercado da música e aquela sua intervenção, praticamente o desabilitou no restante da reunião. Ninguém mais o levou a sério!

O mercado da música seguirá crescendo pelos próximos anos! Isso é fato! Especialmente no Brasil com um delay significativo em termos de qualidade de acesso aos conteúdos digitais. Neste momento, estar inserido no cast de uma gravadora faz toda a diferença para qualquer artista e contar com o suporte de profissionais irá garantir resultados que certamente irão contribuir e, muito, para uma carreira de sucesso e maior longevidade. Então, minha sincera dica é “Seguro, só com corretor de seguro!”

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, 30 anos de mercado gospel e alguém que não curte gente que finge que entende e na verdade não entende nada, mas que sabe fingir o que não sabe.

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É impressionante como nos tornamos reféns de algumas tecnologias. Para quem começou a trabalhar na era do Telex, depois do fax e dos e-mails, ter que lidar com o whatsapp e vê-lo substituir o próprio telefone e o correio eletrônico, é algo incrível. Começo escrevendo este texto justamente porque neste momento a equipe de IT da empresa em que trabalho resolveu sequestrar meu aparelho celular para back up e mudança de equipamento. Com isso, já estou faz 2 horas sem ter acesso ao whatsapp e de repente me vejo completamente de mãos atadas, sem ter como me comunicar com o mundo exterior como se estivesse em meio à floresta Amazônica, sem sinal de celular ou coisas do tipo. E como tenho tido pouco tempo para escrever os textos para o blog, vou aproveitar o fim de tarde de um dia espetacularmente bonito e iluminado no Rio de Janeiro para escrever este texto.

Aproveitando este momento de isolamento whatsappiano comecei a pesquisar alguns sites de artistas e alguns perfis das plataformas digitais, especialmente o Deezer e Spotify. Fiz um exercício de busca, análise e considerações. Primeiro listei alguns dos principais nomes do meio artístico gospel. Depois selecionei alguns outros artistas que estão em fase de desenvolvimento de carreira, gente jovem que ainda está buscando seu espaço no mainstream e por fim, alguns dos medalhões de nosso circuito artístico, personagens com 20 ou mais anos de estrada. No fim, listei 38 nomes e pacientemente fui visitando cada um dos seus perfis e sites oficiais. Ressalte-se não foquei em redes sociais! Meu objetivo foi basicamente as páginas oficiais e os perfis nas plataformas. E o resultado foi desolador … eu diria que foi decepcionante, frustrante, assustador!

Em quase 80% dos sites, a sensação de poeira e abandono ficou latente! Muito mesmo … não sei se pela proximidade do Halloween a impressão que tive é que os sites oficiais destes artistas estavam tão cheios de teias de aranhas (isso é uma força de expressão, por favor, hein!?!?!) que mais se assemelhavam a um site mal assombrado ou coisa que o valha! O mais comum nestes sites era o espaço de agendas completamente desatualizado com eventos que remetiam a longínquos 6 a 12 meses atrás (uma simples ferramenta resolveria esta parte!). Ou ainda, a biografias que descreviam o que aconteceu até, no máximo, 3 anos atrás, ou seja, praticamente como se nada houvesse acontecido de 2014 em diante … e as Galerias de Fotos? Tudo bem que algumas cantoras queiram manter uma imagem de jovialidade, mas manter fotos dos 30 anos de idade quando se está beirando os 50 anos é forçar um pouco demais a barra, ou não?

Na lista de sites sem atenção frequente, destaque para os telefones de contato que não foram atualizados e para a ausência de imagens dos novos projetos do artista. Ou seja, normalmente o visual do site oficial do artista deve estar 100% de acordo com o projeto visual do último trabalho lançado. Há uma necessidade de que a comunicação visual do artista esteja padronizada com o seu projeto atual, isso é mais básico do que aluno de comunicação ler Philip Kotler. Praticamente nenhum artista gospel segue esta regra à risca!

Geralmente quando um artista decide criar seu site ou atualizar toda a proposta do site atual, ele sai listando uma série de ferramentas, caminhos, informações, conteúdos. Lembro-me que antigamente os sites de alguns artistas acabam tornando-se verdadeiros mastodontes, uns negócios gigantes, quase portais de tanto conteúdo e informações. Com o tempo o mercado foi percebendo que neste caso de sites, o menos era o melhor, a síntese das informações era primordial e que aquele espaço deveria informar, mas não necessariamente entregar tudo, atender a todas as demandas, suprir todas as necessidades. Então, partiu-se para uma tendência de atender ao mínimo de informações e direcionar as pessoas que quisessem algo mais, a buscar o contato personalizado, direto, específico.

De forma bem direta, um site de artistas precisa basicamente do mesmo mix de informações, a saber: Biografia, Agenda, Contatos, Links aos perfis das plataformas de áudio/ vídeo streaming e redes sociais. Nada além disso! Todo o mais pode ser transferido para outros canais de informação, especialmente as redes sociais, especialmente a fanpage do artista. A discografia, por exemplo, já é uma informação que se encontra nas plataformas de áudio streaming, portanto não precisa estar no site oficial do artista. Galeria de Fotos é outra questão que tornou-se obsoleta em se tratando de sites, afinal, quer melhor galeria de imagens do que o Instagram? E pra que Galeria de Vídeos se temos o canal do artista no YouTube ou VEVO?

Muitas empresas e artistas optaram em concentrar suas informações institucionais no Facebook. De fato, esta foi uma forte tendência do mercado nos últimos 5 anos em especial. Só que mais recentemente todos perceberam a importância de terem seus espaços 100% controlados, independentes, onde podem comunicar-se e informar sem que necessitem pagar ou impulsionar seus conteúdos. Então, é muito importante que todos os artistas voltem sua atenção para os sites oficiais e que mantenham este espaço sempre atualizado e o mais enxuto possível, justamente para não tornar um peso extra de atenção.

Voltando à minha pesquisa, percebi que 90% dos artistas não ofereciam link de acesso às plataformas digitais de consumo de música e mais de 60% destes sites destacavam o produto físico, CD/DVD/Playback como se ainda estivéssemos em pleno anos 2000. Ou seja, não adianta ir para as redes sociais dizendo que está antenado nas novidades e tendências digitais se o seu site oficial segue divulgando os produtos físicos. Olha a coerência aí pessoal, por favor, hein!?!?!?

Muitos artistas criam seus sites, simplesmente porque ‘todo artista precisa ter’ um site ou porque precisa divulgar o seu contato para convites. Basicamente por isso. No entanto, o principal objetivo do site é ser um canal de informação, contato e relacionamento. Um dos sites pesquisados fui positivamente surpreendido por um Pop Up (aquelas janelas que surgem no meio da tela para interação) agradecendo pela visita e me estimulando a preencher um pequeno cadastro para que a partir daí eu fosse notificado por shows daquela artista em minha cidade ou região, lançamentos e todas as novidades. Achei ótima aquela ação, mesmo entendendo que não há nada de tão criativo, apenas por de fato ter sido colocado em prática. Pois bem, este tipo de atitude, criando cadastros de fãs ou afins, é algo extremamente importante neste momento de contato direto com consumidores. E, sem dúvida, o site é um importante canal de contato e aquisição de cadastros.

A questão das agendas nos sites também me chamou a atenção. Há artistas onde este espaço está em 2016 … atualização zero! Há outros em que o artista coloca na agenda até o chá de bebê da cunhada ou o culto de oração na casa da Irmã Zuleika … e há aqueles que colocam simplesmente a data e a cidade em que estarão, no melhor estilo: “Tô cansado demais pra escrever a informação completa, assim tá bom!” Ou seja, informar que no dia 18 de outubro o artista estará em São Paulo é mais ou menos como você combinar com seu amigo que estará na Praia de Copacabana no primeiro sábado do verão, ou seja, as chances de vocês se encontrarem beiram o nível zero! Se é pra informar, que seja com os dados completos, nome do evento, cidade, endereço, horário, tipo do evento, no caso de eventos ingressados … incluir o local de venda de ingressos. Ou seja, a informação completa! Simples assim.

Então, espero que numa próxima pesquisa me depare com sites mais atualizados, com estética agradável e moderna, com informações atualizadas, navegação simples e leve, ou seja, que eles sejam tratados com o devido respeito que merecem.

P.S. – Nos próximos dias será lançada a campanha #VemProStreaming promovida por 7 gravadoras de nosso segmento. Fique atento e participe conosco se engajando, divulgando e principalmente consumindo música através dos apps de áudio streaming.

Mauricio Soares, pai, jornalista, publicitário, editor do blog Observatório Cristão.

De tempos em tempos há algumas perguntas que costumam ser repetidas numa frequência recorrente e de alguma forma reproduzem fases específicas de minha vida ou do mercado, apenas para citar 2 momentos bem distintos. Me lembro que enquanto namorava minha futura esposa (um namoro que se estendeu por alguns anos) as pessoas nos perguntavam constantemente sobre quando nos casaríamos. Depois de subirmos ao altar, bastaram apenas alguns poucos meses para que as primeiras cobranças pela chegada do primeiro filho começassem a surgir. Passados quase 6 anos depois, veio a notícia da gravidez de minha esposa e aí as inevitáveis perguntas: prefere menino ou menina? Quando saiu o resultado da chegada do Fernando, meu primogênito, festa de todos, muitas felicitações e já de bate pronto a inevitável pergunta: mas e aí? Não vão parar em um filho só, né? Tempos depois recebemos a notícia da chegada do Leonardo, nosso segundo filho e com ele as perguntas seguiram sobre os assuntos mais diversos como a preferência do sexo (agora é um casal?), o nome do bebê, a continuidade do processo reprodutivo (fechou a fábrica?) e coisas afins. É impressionante a falta de noção das pessoas em, na verdade, não se preocuparem com as respostas, mas sim em dar a sua própria opinião a respeito das coisas que não lhe dizem respeito e, principalmente a ausência de criatividade, principalmente nas piadas que geralmente seguem um script padrão do tipo: que bom que puxou à mãe, salvou a família!

Trazendo esta realidade para o nosso mercado, há alguns anos atrás eu repetidamente era questionado sobre o tempo de vida útil dos CDs … projeções as mais descabidas surgiam e constantemente as pessoas me perguntavam sobre este assunto. Tempos depois a pergunta já focava especificamente para o mercado gospel: tudo bem que no meio secular a transição entre o físico e o digital está indo rápida, mas no meio gospel o digital vai crescer tanto mesmo? Em quanto tempo teremos o mercado consumindo música exclusivamente no digital? Recordo-me que sempre respondi a este questionamento com a certeza de que mais tempo ou menos tempo, o mercado se renderia ao digital. A questão para mim não era o “se”, mas o “quando”. E ainda hoje, mesmo com a transição do mercado fonográfico acontecendo de forma mais intensa nos últimos 3 anos, sou questionado sobre esta mudança dos hábitos de consumo de música entre o público evangélico tupiniquim.

E ontem, conversando com alguns amigos, o assunto desta transição surgiu mais uma vez. Particularmente gosto muito de números, dados, estatísticas, tendências, enfim, trabalho com informações e costumo usá-las sempre quando me deparo com algum tipo de debate ou questionamentos. Então, no meio deste bate papo tendo a Baía de Guanabara ao fundo, esplendorosa, maravilhosa … comentei aos amigos de que hoje 96% de nosso faturamento na empresa refere-se às vendas digitais contra apenas 4% de produtos físicos. Apresento os números do crescimento do mercado fonográfico no Brasil e no exterior, a tendência de crescimento para os próximos 5 anos, comento sobre a queda de mais de 70% nas vendas físicas no país em 2017 e ainda, uma visão pessoal (ressalto aqui, uma opinião própria desprovida de maior profundidade ou números estatísticos!) de que o mercado digital ainda não atingiu a grande parcela do público cristão no Brasil. Especificamente junto aos apps de áudio streaming, o DataSoares especula que não mais do que 5% (talvez até menos do que isso!) do que consideramos como consumidor evangélico nacional esteja vinculado às plataformas. Resumindo, em minha opinião, Spotify, Deezer ou AppleMusic hoje estão atingindo uma pequena parcela dos mais de 60 milhões de brasileiros evangélicos, ou seja, se as coisas estão boas, imagine quando 20, 30, 40% da população passar a usar os serviços destes apps. Será uma revolução!

Seguindo com esta perspectiva, as possibilidades do mercado digital são, de fato, impensáveis, incalculáveis! Temos que levar em questão que a partir dos apps de áudio streaming, diferentes públicos terão acesso a conteúdos de música gospel e, não necessariamente apenas o próprio segmento. O que quero dizer neste caso é que, se antigamente era bem mais difícil que uma pessoa não-evangélica entrasse numa livraria específica para comprar um disco da Damares, Diante do Trono ou Aline Barros, hoje em dia, esta mesma pessoa pode tranquilamente criar sua playlist de músicas gospel ou mesmo ouvir a nova canção do Preto no Branco por um destes apps de áudio streaming. Ou seja, o acesso tornou-se muito mais democrático, facilitado e é natural que atinja muito mais pessoas (não só no Brasil, mas em escala global!), diferentemente do que vivíamos na época dos CDs e DVDs.

Então, neste momento sigo com a mesma dúvida de tempos atrás. Não estou preocupado se o enorme contingente de evangélicos no Brasil passarão a consumir música pelos apps de áudio streaming, isso já é fato consumado! A questão que me aflige neste momento é quanto tempo as pessoas evangélicas se engajarão de fato nos aplicativos. E neste caso, nos aplicativos e canais corretos, porque quando se fala em consumo de música, o ambiente correto para esta prática são os apps de áudio streaming e não necessariamente o YouTube. Frise-se bem esta informação. Irei até repetir para que não reste a menor dúvida. Se você pretende aprender a desentupir a pia da cozinha, a tirar mancha de molho de tomate da roupa ou mesmo assistir a uma linda mensagem devocional, o ambiente correto para estas questões chama-se YouTube. Agora, se a sua intenção é ouvir música, ter acesso a um catálogo com mais de 40 milhões de músicas, criar suas playlists pessoais, compartilhar canções e estar sempre antenado com as novidades ou mesmo ter acesso à discografia de seu artista favorito em simples navegação, então, o ambiente correto são os aplicativos de áudio streaming, Deezer, Apple Music, Spotify, entre outros. Sem falar nas outras peculiaridades do serviço como ter acesso às canções no modo off line, a própria qualidade de áudio e várias ferramentas específicas.

Para tentar diminuir um pouco mais este delay na inserção do público gospel junto aos apps de streaming, de forma histórica, algumas gravadoras do segmento gospel têm se reunido nas últimas semanas com o objetivo único de criar ações em prol do áudio streaming no meio evangélico nacional. Entre as pautas, a principal é estimular o povo evangélico a aderir o quanto antes às plataformas de áudio streaming e para isto, uma grande campanha com a participação de muitos artistas de destaque no segmento será lançada em breve. Entre as gravadoras deste movimento, a saber: Som Livre, Universal Music, Sony Music, Musile Records, Oni Music, Mess Entretenimento e Central Gospel.

Creio que entre outras razões, este atraso do segmento gospel no tocante aos aplicativos digitais deve-se principalmente ao desconhecimento e interesse de boa parte da classe artística e em maior parte, pela inércia das gravadoras do segmento que imaginaram que o processo de transição seria bem mais lento do que de fato foi … ou seja, neste momento temos que literalmente correr para recuperar o tempo perdido e promover o quanto antes a transição dos hábitos tradicionais de consumo de música para o ambiente digital. Então, finalizo este texto com a frase de um destes amigos que recebi ontem para um papo … “Numa hora vai!”

E que venha o quanto antes!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, palestrante, consultor de gerenciamento de carreira, tricolor, pai de 3 meninos que sempre quiseram ser meninos e casado com uma mulher que sempre quis ser tratada como princesa! Simples assim