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Mauricio Soares

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Para quem me acompanha em alguma das inúmeras redes sociais em que divido parte de meu dia a dia, deve ter percebido que recentemente participei de uma mega convenção em Miami com alguns dos mais importantes profissionais do mercado artístico e fonográfico. E nos próximos textos que irei postar por aqui, tentarei esmiuçar um pouco mais de tudo o que foi comentado, apresentado, informado naqueles dias tão intensos. O objetivo de nosso blog desde sua criação há quase 10 anos atrás sempre foi de dividir um pouco de nosso conhecimento ajudando na capacitação dos artistas, mídias, profissionais que gravitam em torno do mercado cristão musical.

Os assuntos são vários e irei postá-los sem necessariamente seguir uma ordem de importância. Anotei vários insights, informações, dicas e observações sobre o que está acontecendo e o que provavelmente acontecerá nos próximos anos no exterior e no mercado brasileiro e sobre estas questões é que iremos tratar daqui em diante. Vasculhando meu caderno me deparo com um destes insights e literalmente o que escrevi ali foi “Atenção para a importância do repertório. Ideia de cooperativa ou criação colaborativa, pessoas reunidas especificamente para composição de hits”.

Este assunto surgiu em uma das apresentações dos países que participaram de nossa convenção. O projeto tinha como objetivo juntar alguns dos mais ativos e renomados compositores, arranjadores, produtores e a equipe do A&R da gravadora em sessões de brainstorming em busca de hits. O resultado desta iniciativa que mereceu destaque foi uma fusão de estilos, produção de qualidade e uma grande interação entre os profissionais que atuam num mesmo objetivo, mas que não necessariamente caminhavam juntos. Em poucas semanas de trabalho, algumas canções foram escritas, produzidas e apresentadas aos grandes artistas da companhia que se encontravam em fase de seleção de repertório. Já posso adiantar que alguns dos hits que tocarão exaustivamente nas rádios e playlists do mundo, serão fruto deste trabalho inovador.

Mudando o foco para o nosso dia a dia no mercado da música cristã no Brasil, vejo o quanto necessitamos de atitudes como esta proposta descrita acima. Falando em tom pessoal, vejo como é difícil selecionar repertórios de qualidade para artistas de nosso meio neste momento de certa escassez criativa e autoral. Tenho casos clássicos em que o artista e seu produtor nos apresentaram mais de 200 canções para no fim, serem selecionadas 2 a 3 canções de forma convicta e mais umas 2 ou 3 outras faixas sem tanta empolgação. Basta analisarmos as fichas técnicas dos mais recentes projetos dos grandes nomes do jet set gospel pra percebermos a escassez de novidades entre os nomes dos compositores e, principalmente, de temas, assuntos, propostas artísticas. Somos um meio em que um grande sucesso acaba influenciando por anos e anos os demais artistas, estilos e produções. Vale lembrar que quando Fernandinho estourou com “Faz Chover”, todo mundo gravou em seguida falando de ‘águas’, ‘chuvas’ e por aí vai … o mesmo aconteceu quando o Toque no Altar explodiu com “Restitui” e aí o assunto se tornou assunto recorrente rivalizando com o Leão do Imposto de Renda. Ter uma música de Anderson Freire no repertório de um disco significava um atestado ISO9002 de Sucesso, o que na verdade não se tornava realidade tamanha quantidade de músicas semelhantes sendo gravadas por artistas de norte a sul do país.

Os artistas precisam entender de uma vez por todas é que TODO projeto de sucesso se inicia através de uma boa música! O grande hitmaker Michael Sullivan repete sempre a mesma cantilena de que no fim, tudo se baseia na música! E eu concordo plenamente nisso! Não adianta ter uma estratégia bem elaborada, bons contatos, agenda intensa de shows e nem mesmo muita grana pra se investir e não ter a música! Há o caso recente de um artista que investiu muito dinheiro em rádios, em estrutura de shows, bom networking, produção no exterior, e tudo mais, para no fim não chegar a lugar algum! Especificamente neste caso, além da ausência de um hit, também considero a falta de carisma como o grande responsável pelo não sucesso do projeto, mas isto é tema para outro post.

Ações como esta cooperativa de compositores é uma iniciativa muito bem vinda em nosso meio. Melhor ainda é o conceito de produtores trabalhando lado a lado com estes profissionais. Na verdade, os produtores do meio gospel precisam rever suas respectivas atuações e forma de trabalho, pois em sua imensa maioria o que temos na verdade são arranjadores e não produtores que pensam de forma estratégica e analítica seus projetos. E, de verdade, acho que ultimamente (ou desde sempre) as tendências em nosso meio artístico gospel seguem de uma forma muito natural, ou pra usar a expressão da moda, de forma orgânica. Pouco se pensa. Pouco se analisa. Pouco se observa. Nada ou quase nada se pesquisa e busca por novas referências. E esta inércia acaba afetando diretamente o que se é produzido em nosso segmento. Até pouco tempo atrás, o estilo Cold Play (ops!), Hillsong de misturar louvor congregacional com rifs de guitarras, pop rock londrino e ministrações em meio a momentos de profundo mantra, tornou-se mais comum do que ouvir o depoimento do Senhor Excelentíssimo Ex-Presidente Lula afirmando que não sabia de nada.

Nestes dias de convenção, tive acesso a artistas do Leste Europeu, da Inglaterra, Alemanha, Áustria, dos Estados Unidos, Espanha, Portugal, Itália e, claro de nossos hermanos latinos do México, Colômbia, Uruguai, Chile, Argentina, Porto Rico, República Dominicana e tantos outros países, culturas e influências. À medida que tinha contato com seus trabalhos, anotava atentamente quais artistas de nosso cast gospel no Brasil tinham alguma sinergia com aquele artista internacional. Em alguns casos, mandava os links no próprio momento dos seus pocket shows ou apresentações. Esta troca de experiências, referências, sonoridades, é o que faz com que o artista cresça e torne-se relevante em meio ao marasmo criativo ululante da cena cultural.

Já postei aqui pelo blog alguns textos falando a respeito da importância da produção, do cuidado na escolha do repertório. Uma das minhas dicas sempre é investir no conhecimento, na cultura geral, e em nosso caso específico, no conhecimento da Palavra. Compositor que não tem o hábito da leitura é como guarda vidas que não sabe nadar, as coisas não se encaixam perfeitamente. Meu incentivo com este post é para que valorizemos a criatividade, a qualidade, novos sons, novas propostas musicais e artistas. Que a palavra seja valorizada em detrimento aos refrões de fácil assimilação. Que a poesia esteja presente e faça as pessoas pensarem e, principalmente, se emocionarem. Que os profissionais deste segmento valorizem encontros em busca de algo melhor, mais bem acabado e que atenda às demandas do público, do mercado, do segmento como um todo.

Fica a dica!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e atualmente curtindo os sons de James Arthur, Os Arrais (novo projeto que já estou tendo o prazer de ouvir de forma exclusiva), Monsieur Periné e o novo single do DJ PV ft. Mauro Henrique.

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Foram divulgados recentemente os números atualizados do mercado da música no mundo através da IFPI, órgão que reúne os principais players do segmento fonográfico. E mais uma vez, o mercado registra crescimento, estancando a tendência de queda que permaneceu constante por mais de uma década. O mercado mundial de música gravada cresceu 5,9% em 2016, a maior taxa desde que a IFPI começou a acompanhar o mercado em 1997. A receitas totais para 2016 foram de US$ 15,7 bilhões.

No final de 2016 havia 112 milhões de usuários de assinaturas de streaming de música pagos, impulsionando o crescimento de receita em streaming ano a ano de 60,4%. Este crescimento é, sem dúvida, um dos maiores entre os diferente setores de negócios na área de entretenimento em todo o mundo. A receita digital no ano passado representou a metade da receita anual da indústria mundial de música gravada pela primeira vez. O crescimento no streaming mais do que compensou uma queda de 20,5% nos downloads e um declínio de 7,6% na receita física.
O streaming está ajudando a impulsionar o crescimento nos mercados de música em desenvolvimento, com destaques para China (+ 20,3%), Índia (+ 26,2%) e México (+ 23,6%) vendo forte crescimento de receita.

As gravadoras alimentaram esse crescimento de receita através de investimentos contínuos, não apenas nos artistas, mas também nos sistemas que suportam plataformas digitais, o que permitiu o licenciamento de mais de 40 milhões de faixas em centenas de serviços. Vale ressaltar que o mercado digital baseia-se no conceito de escalabilidade, ou seja, grande quantidade de conteúdos disponíveis nas plataformas de áudio e vídeo streaming.

A indústria está agora trabalhando para um retorno ao crescimento sustentável após um período de 15 anos durante o qual as receitas caíram quase 40%. O sucesso requer a resolução da distorção do mercado conhecida como “diferença de valor” – o crescente descompasso entre o valor que os serviços de upload de usuários, como o YouTube, extraem da música e a receita devolvida àqueles que criam e investem na música. Há neste momento uma série discussão entre o YouTube e os grandes players geradores de conteúdos que entendem que a baixa remuneração desta operação precisa ser revertida o quanto antes. Não se assustem se em alguns meses, os conteúdos musicais das majors deixem de ser veiculados no YouTube.

Frances Moore, diretor-executivo da IFPI, comentou: “O crescimento da indústria segue anos de investimento e inovação das empresas de música em um esforço para impulsionar um mercado de música digital robusto e dinâmico. O potencial da música é ilimitado, mas para que esse crescimento se torne sustentável – para que os investimentos em artistas sejam mantidos e para que o mercado continue a evoluir e a se desenvolver – é preciso fazer mais para salvaguardar o valor da música e recompensar a criatividade. Toda a comunidade musical está se unindo em seu esforço para fazer campanha por uma correção legislativa para a lacuna de valor e estamos chamando os políticos a fazer isso. Para a música prosperar em um mundo digital, deve haver um mercado digital justo.”

Números consolidados e importantes no mercado global da música:
• Crescimento da receita global: + 5,9%
• Parcela digital da receita global: 50%
• Crescimento das receitas digitais: + 17,7%
• Crescimento da receita de streaming: + 60,4%
• Receitas físicas: -7,6%
• Receita de download: -20.5%

Os números do Brasil estão prestes a ser divulgados, mas tudo indica que teremos um crescimento das vendas digitais na ordem de 22% e uma queda vertiginosa das vendas físicas na casa de 43%, o que irá impactar negativamente no resultado de 2016 do mercado fonográfico no Brasil com queda estimada de 3%. Para 2017, há uma expectativa de que o mercado digital represente cerca de 95% do montante das receitas no país, contra apenas 5% de receitas físicas. No primeiro trimestre de 2017, as vendas físicas caíram 75% e as vendas digitais cresceram 20%. Para quem ainda acredita que o digital é o futuro, estes números apenas comprovam de que quem crê neste pensamento é porque, de verdade, está no passado! Ou seja, o mercado da música já é digital, gostando ou não, aceitando ou não a novidade!

Contra fatos, não há argumentos!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, tricolor, observador do mercado da música, de gente, do cotidiano e dos números!

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Depois de uma semana intensa de produção em meio ao feriado carnavalesco, volto à labuta para dedicar-me por alguns minutos à prática de escrever textos para nosso dileto blog. Outro dia um amigo cantor me perguntou assustado como eu consigo fazer tantas coisas no meu dia a dia e ainda arrumar tempo para escrever para o Observatório Cristão. A resposta sincera e imediata foi um simples: não sei também! Mas a verdade é que, especialmente nos últimos anos e ainda mais intensamente nos derradeiros meses, o blog tem contribuído muito para que eu apresente informações ao grande público, artistas principalmente, de uma forma mais didática e atualizada.

Hoje não tenho mais tanta falta de assuntos. O que me falta mesmo é o tempo para trazê-los à baila em nossos textos. E este texto de hoje, que começo a escrever depois de um dia intenso de trabalho e aguardando sair do escritório para mais um compromisso que irá seguir noite adentro, tem como base algumas das últimas pesquisas sobre resultados de streaming no Brasil e no mundo. Semanalmente recebo reports de desempenho de músicas nas principais plataformas de audio streaming do mundo. Também diariamente pesquiso em alguns sites e ferramentas que tenho à disposição sobre o desempenho de vídeos nas duas principais plataformas, YouTube e VEVO. Ou seja, meu dia a dia hoje, além de reuniões, audições, planejamentos, encontros e ações estratégicas, vem sendo tomado por planilhas, estudos, projeções e tendências. Imagino que nunca a indústria da música no mundo trabalhou com tantas informações, estatísticas e conteúdos para análise dos profissionais de diferentes áreas. No entanto, o texto de hoje não irá por este caminho, já falei há alguns posts atrás sobre o Business Inteligence e de como esta área vem crescendo e irá tornar-se fundamental no mercado do entretenimento em geral. Vamos falar dos dados que venho observando nestes rankings que recebo periodicamente.

Além da tendência mundial de hits baseados em loops, efeitos e traquitanas da música eletrônica, outra característica me chama a atenção neste momento que é a proliferação de músicas com participações especiais também conhecidos como Feat ou simplesmente ft., que é a versão mais comum no meio artístico. Neste momento, entre as 10 faixas mais ouvidas nas plataformas de audio streaming nada menos do que 6 são duetos ou mesmo trios. Entre as músicas mais executadas no Brasil neste ano, destaque para Nego do Borel cantando com Anitta e Wesley Safadão. Esta prática é especialmente disseminada entre os cantores sertanejos, muitos dos quais contratados de um mesmo escritório de management, o que acaba facilitando as parcerias e principalmente, servindo como mais uma estratégia de posicionamento e divulgação dos artistas, especialmente aqueles mais jovens.

Antigamente, na época dos discos físicos, as participações especiais de artistas em projetos figuravam apenas a partir da terceira faixa em diante. Muito dificilmente a música com a participação de outro artista seria a música principal do disco como divulgação, não se gravavam clipes, enfim, aquele registro ficava meio perdido em meio a tantas outras faixas. A razão de se ter uma participação especial remetia mais à admiração daquele determinado artista ao convidado do que a qualquer outra estratégia mais elaborada de marketing. Só que hoje em dia as parcerias são muito mais do que um simples registro. Estes encontros passaram a ser fundamentais para a expansão do artista em busca de uma maior divulgação de seu trabalho, do maior alcance de sua música em busca de novos públicos (leia-se também neste caso, maior número de seguidores em redes sociais e plataformas) e ainda, em maior espaço nas mídias já que esta tendência tornou-se verdadeira febre não só no Brasil como no mundo todo.

Focando em nosso mundo gospel tupiniquim, basta lembrarmos que a música mais executada em 2016 nas rádios do segmento foi justamente “Ninguém Explica Deus”, sucesso avassalador do Preto no Branco com participação de Gabriela Rocha. A mesma Gabriela Rocha amealhou até agora 19 milhões de visualizações e comemorou mais um hit em sua carreira num dueto com Leonardo Gonçalves na música “Nossa Canção”. Outro artista, Paulo César Baruk também ultrapassou 15 milhões de views na canção “Santo Espírito” em dueto com Leonardo Gonçalves, tornando-se esta a sua faixa de maior visualização em toda a carreira. Voltando um pouco mais no tempo, a música “A dracma e seu dono” com Damares e participação de Thalles Roberto foi um um hit em 2015 e conta com mais de 17 milhões de views. Ou seja, mesmo no gospel que sempre é um pouco mais resistente às tendências e inovações, a prática de participações especiais tornou-se bastante interessante neste momento.

Há artistas internacionais que nos últimos lançamentos de seus singles, todos contaram com participações especiais. Por exemplo, o cantor colombiano Maluma, jovem estrela da música latina, gravou músicas com Ricky Martin, Shakira e mais recentemente a brasileira Anitta. Nos 3 casos, sucessos acachapantes! Na discografia do jovem cantor há muitos outros encontros musicais que juntos garantem milhões e milhões de audio e video streamings.

E a regra das participações musicais me parece que é justamente não ter regra alguma. Basta uma boa música, um excelente vídeo, estratégias bem definidas de marketing e promoção e a participação total dos envolvidos na música junto às redes sociais. Mesmo quando a música pertence a determinado artista, o ideal é que o artista convidado participe ativamente de toda a promoção da faixa usando ao máximo sua própria rede social e canais. Recordo-me que quando convidei o cantor Thalles para gravar uma faixa no disco da pentecostal Damares, um dos meus argumentos à época era justamente a fusão de públicos, afinal os 2 naquele tempo eram altamente populares em diferentes estilos musicais e públicos bem distintos. A fusão foi excelente e tanto Damares como Thalles conseguiram agregar novos admiradores aos seus respectivos trabalhos. Hoje em dia, os argumentos são muito mais elaborados e técnicos do que este simples ‘fusão de públicos” e tem muito a ver com relevância nas redes e plataformas digitais. O alcance de músicas com participações é aumentado bastante e isto acaba repercutindo positivamente em diferentes áreas do universo digital.

Numa próxima produção, que tal pensar em uma participação mais do que especial?

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, editor do blog Observatório Cristão nos últimos 9 anos.

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Sigo aproveitando os dias de feriado prolongado para escrever um pouco mais para o blog. Também tenho aproveitado este tempo para responder a algumas entrevistas e mesmo uma pesquisa de conclusão de curso, uma monografia inspirada no mercado de música gospel e da qual sou uma das fontes. Na casa em que estou hospedado na cidade de Armação dos Búzios deparei-me como uma coleção de vinis de deixar qualquer um que curte música, de queixo caído e ouvidos bem atentos. A coleção conta com discos antológicos de Djavan, Maria Bethânia, Gilberto Gil, 14 Bis, A Cor do Som, Guilherme Arantes, Caetano Veloso, Chico Buarque, Secos e Molhados, Tom Jobim, Elis Regina, Beto Guedes, entre outros grandes nomes da MPB. Entre os internacionais, muitas bandas de rock e relíquias de Supertramp, Simon & Garfunkel, Elton John e Bee Gees. Ou seja, só coisa boa e com aquele chiado característico dos vinis, sujeirinha chique e retrô.

Em minha recente viagem de férias pelo sul do país, inclui em uma de minhas playlists apenas músicas da década de 80 ou relíquias da época, inclui boa parte do álbum “Ouvi Dizer” do Grupo Elo e mais canções de Rebanhão, Marquinhos Gomes, João Alexandre, Jorge Camargo, Altos Louvores. Infelizmente muitas canções que listei para minha pesquisa resultaram em arquivo não encontrado, ou seja, muitas músicas do passado da música evangélica ou cristã como se dizia à época, não estão ainda disponíveis nas plataformas de áudio streaming. Frustrante foi perceber que referências como Josué Rodrigues, Banda e Voz ou a dupla Cíntia e Silvia não têm seus repertórios ao acesso da juventude e os nem tão jovens assim, através do Spotify, Deezer ou AppleMusic. Com isto alijamos muitas pessoas de conhecer a história da música cristã no Brasil.

Recentemente o grupo Rebanhão reuniu-se para gravar um DVD comemorativo aos tantos anos de carreira da banda que revolucionou a música cristã no Brasil, não somente do ponto de vista musical, mas também com relação aos temas e forma de compor as canções, algo muito vanguardista para a época. Observei que muita gente nas redes sociais comentava com espanto e incredulidade sobre o que seria o Rebanhão, sua história e sua relevância no cenário artístico. E antes que os raivosos de plantão comecem a vociferar e jogar pedras na ignorância das pessoas sobre o passado do Rebanhão, cabe destacarmos que a igreja evangélica no Brasil ‘explodiu’ de verdade nos últimos 15 a 20 anos somente, ou seja, para boa parte da igreja evangélica brasileira tudo o que vier antes deste período é simplesmente lenda!

Indo para 34 anos de batismo, tive a oportunidade de conhecer grandes nomes da história da música gospel nacional. Lembro-me de um show com o Rebanhão na quadra da Primeira Igreja Batista de Niterói que seria um marco em minha vida. Parecia que eu estava diante de astros internacionais tamanha a admiração que todos nós, adolescentes imberbes nutríamos por aqueles jovens bronzeados com suas guitarras e letras engajadas. Banda e Voz com seu reggae, soul music e brasilidade representava algo novo e por muitas das vezes até mantinha uma aura transgressora pelos padrões da época. Nesta época também, surgia Cristina Mel cantando os grandes hits de artistas como Sandi Patty e Amy Grant. Outra que se destacava nesta época, igualmente em versões internacionais, era a cantora Cristiane Carvalho. Logo depois, em um culto na mesma Primeira Igreja Batista em Niterói, surgia uma jovem cantora que iria fazer história na música gospel, Marina de Oliveira. Pode até parecer história de Forrest Gump, mas eu estava presente e cantando no coral de adolescentes da PIBN quando Marina de Oliveira debutou na música gospel. Coisas da vida.

Sérgio Lopes, Marquinhos Gomes, Altos Louvores, Milad, Edson e Telma, Jorge Camargo, Paulo César Graça e Paz, Jota Neto, Álvaro Tito, João Alexandre, Asaph Borba, Josué Rodrigues, Vencedores por Cristo, eram alguns dos principais nomes do início da fase mais popular da música cristã no Brasil. Ainda não parei para pesquisar o que temos de cada um destes artistas disponível nas plataformas de áudio streaming, mas do pouco que já pude procurar, os resultados não foram nada estimulantes. É muito importante que os jovens ou aqueles que chegaram às igrejas evangélicas no Brasil mais recentemente tenha acesso e conhecimento a estes acervos tão especiais e que forjaram boa parte do que hoje conhecemos como música gospel brasileira.

Quando hoje escuto as canções de Estêvão Queiroga ou Os Arrais, é inevitável não lembrar-me das propostas musicais de Cíntia e Silvia, Josué Rodrigues, Rebanhão ou João Alexandre. O mesmo acontece quando me deparo com as músicas do Preto no Branco, como não identificar-me com a sonoridade de Kadoshi, Atos 2 ou Banda e Voz?

Já comentei em algum texto por aqui publicado de que o futuro (ou já seria presente?) do mercado da música estará ligado exclusivamente a dois formatos, a saber: streaming e vinil. O formato CD seguirá em declínio até manter-se num patamar bastante tímido como um dia foi o próprio LP que hoje se reergue e volta a ser moda. E também gostaria de aproveitar e exercitar meu sentido de projeção, cravando que dificilmente, pelo menos na próxima década teremos um mercado de vinis de música gospel. Então, tudo indica que estes clássicos serão acessíveis ao público tão somente através das plataformas de áudio streaming. Cabe aos selos, gravadoras e mesmo artistas desta época resgatarem estes conteúdos, disponibilizando-os nos novos canais de consumo da música.

Nos últimos anos, em especial nestes 2 mais recentes, venho particularmente buscando contato com selos e gravadoras que possuem estes acervos para contribuir com a entrada destes conteúdos nas plataformas digitais. Infelizmente a esmagadora maioria destas empresas não possui documentação que possibilite o ingresso destes conteúdos nas plataformas, o que acaba atrapalhando todo o processo. Este é, sem dúvida, um objetivo que todo amante da boa música gospel deve ficar na torcida.

Enquanto não consigo ouvir alguns destes artistas citados, vou curtindo um disco antológico gravado no Canecão, tradicional casa de espetáculos do Rio de Janeiro, que já não existe mais e que foi cenário para o encontro antológico entre Tom, Vinícius, Miúcha e Toquinho.

Enjoy!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e alguém que durante o feriado de carnaval teve estômago para conferir alguns programas de TV nos inúmeros canais de programação evangélica e católica. Assisti a tudo o que era artista, uma avalanche de clipes, musicais e apresentações ao vivo. Mas o que mais se chocou foi ver um pastor tiozão que acha que canta, que acha que compõe e que acha que entende de música, se sacudindo de terno e gravata como um boneco do posto. Misericórdia!

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Quarta-feira de cinzas. Somente agora, numa manhã nublada na Região dos Lagos no Rio de Janeiro pego meu computador para tentar escrever algumas linhas para nosso laureado blog. Nos últimos dias muitos temas vieram à mente … alguns ainda permanecem no meu HD pessoal, outros se perderam na minha memória e sinceramente espero que um dia voltem para contribuir com a diversidade e qualidade dos assuntos abordados por aqui. Por mais que eu tente me distrair, distanciar-me do dia a dia da música e especialmente do mercado fonográfico, confesso que vivo em uma relação tão impregnada que fica difícil fazer ‘cara de paisagem’. Em função dos anos de mercado – já partindo para minha vigésima oitava primavera – tenho condições de analisar alguns fatos do ponto de vista privilegiado. E será a partir de algumas observações que gostaria de tecer as próximas linhas, que sinceramente espero sejam capazes de manter a atenção dos nossos 69 (seriam 71?) leitores assíduos.

Com a mudança do formato de consumo da música em todo o mundo através da transição do físico para o digital, observamos muitas outras novidades além da decadência do CD ou o crescimento das plataformas digitais. Mudaram também as estratégias das gravadoras, o relacionamento entre o consumidor e artista, o modelo de produção artística, o marketing, expectativas, a relação artista e gravadoras, enfim, numa verdadeira tsunami tudo que antes era tido como ‘imexível’ foi revolvido e tornou-se diferente … e quando digo diferente, é muito diferente mesmo!

Vamos nos ater neste momento a uma destas revoluções. Tenho pensado (e falado!) muito sobre a mudança no perfil do cast artístico em tempos digitais. Há algumas semanas atrás fiz uma pesquisa sobre os 10 maiores artistas do cast na gravadora onde trabalho do ponto de vista de resultados em faturamento e relevância digital. Para minha surpresa (ou nem tanto assim) dos 10 mais importantes artistas por estes critérios, incríveis 9 artistas possuíam carreiras artísticas relativamente recentes com 3 a 4 discos lançados até então. De fato, todos estes 9 artistas efetivamente tiveram maior destaque para o grande público a partir da relação com a gravadora atual, ou seja, são sucessos recentes, entre 5 a 7 anos de estrada.

Outro dado bastante interessante sobre esta pequena pesquisa: estes mesmos 9 artistas, coincidência ou não, são todos jovens, na faixa entre 20 e 30 anos com algumas poucas exceções. Com isso chegamos à conclusão de que estes jovens artistas também fazem parte do contingente de pessoas que se utilizam das ferramentas, aplicativos e redes sociais como qualquer jovem ou adolescente do país. E esta análise apenas corrobora para a tese de que não se pode falar o que não se vive. Em suma, estes artistas vivenciam no dia a dia as novas tendências, tecnologias, ferramentas e tudo de novo de uma forma muito natural e isso repercute diretamente em seu posicionamento artístico. Para os artistas com um pouco mais de idade e que não estão tão familiarizados com o ambiente tecnológico a urgência em se adequar e ‘a correr atrás do prejuízo’ (nunca entendi esta expressão, não deveria ser correr atrás do lucro? mas enfim …) é uma questão de sobrevivência e não se ele entende ou não entende, se gosta ou não gosta, como se fossem opções reais. Não! Simplesmente ou o artista se adequa e passa a entender e agir digitalmente ou vai aos poucos ver sua carreira minguando em relevância pouco a pouco (às vezes nem tão pouco assim, pode se surpreender com a velocidade desta transição).

Voltando ao primeiro ponto que apontei, sobre as carreiras curtas que em pouco tempo tornaram-se referências no atual momento do mercado fonográfico, vale ressaltar que vivemos um momento único na indústria da música. Nunca vivenciamos uma fase de tantas oportunidades para o surgimento de novos artistas, novas propostas musicais, estilos e sonoridades. Se formos recuar aos anos 80, 90 e mesmo 2000, os grandes nomes da música gospel resumiam-se a um punhado de não mais do que 10 artistas. Vivemos neste momento a fase dos artistas-arrasa-quarteirão, um seleto grupo dos grandes vendedores de discos agrupados em 2 a 3 estilos musicais. Esta “ditadura” foi estremecida apenas ali pelos idos dos anos 90 com a chegada dos ministérios de louvor que reverteram a tendência única da música pentecostal e o pop gospel. Nomes como Diante do Trono, ministério Paixão, Fogo e Glória (David Quinlan), Toque no Altar, Ludmila Ferber, entre outros, surgiram exatamente neste período e davam a sensação de que seriam um novo modismo com grandes chances de permanecer no mainstream gospel tupiniquim. Então, excetuando-se esta fase mais democrática, a música gospel manteve-se atrelada a nomes tradicionais como Aline Barros, Cassiane, Shirley Carvalhaes, Rose Nascimento, Cristina Mel, artistas consagrados com muitos anos de carreira e discografias de muitos e muitos álbuns.

E aí, eis que o mundo digital chegou e com ele uma série de dogmas foram caindo como um castelo de cartas … uma a uma, as leis que regiam o segmento da música, especialmente a música gospel foram caindo em desuso numa velocidade incrível a ponto de atingir várias pessoas, lojistas, mídias, artistas e gravadoras de forma intensa e profunda. A imagem de um tsunami nos moldes do que vimos na Ásia anos atrás é a mais perfeita representação do momento que vivenciamos na indústria fonográfica no Brasil e no mundo.

Para as gravadoras, investir em jovens artistas era algo dispendioso em termos de investimento, demandavam bastante paciência porque eram projetos de médio e longo prazo e, sem qualquer garantia de retorno, ou seja, artistas jovens eram apostas difíceis de serem bancadas pelas companhias de música. Com isso, vivemos por muitos anos uma verdadeira escassez de novos nomes no meio gospel. Tive a oportunidade de descobrir, lançar e investir alguns dos artistas que anos depois tornaram-se grandes em nosso meio, mas confesso que não fiz isso por mérito ou uma visão altruísta, poética e lúdica … muito pelo contrário, para concorrer com as gravadoras que colocavam cheques vultosos na mesa de negociação perante os artistas, não tive muitas opções porque sempre estive à frente de gravadoras que não seguiam esta forma de trabalho. Com isso precisava de outros argumentos para convencer os artistas a optarem por nossa empresa e muitos destes, eram jovens promessas que não traziam interesse algum para as grandes gravadoras. Recordo-me que ali pelos anos 90 surgiram de todos os cantos, gravadoras no meio gospel. Um empresário que vendia muitos carros aos artistas do meio gospel, observou que ali corria muito dinheiro e do dia para a noite criou uma gravadora. Outro empresário atuava na área de construção civil e começou a vender muitas casas e apartamentos para os artistas de música gospel. Resultado: além de vender casas ou dito cujo resolveu montar seu próprio selo. E estes empreendedores ajudaram a inflacionar o meio gospel oferecendo carros, casas, muito dinheiro para ter os artistas em seu ‘abençoado’ cast artístico. Com isso, vivemos um período de leilão entre artistas e gravadoras, com muito dinheiro circulando de um lado para o outro, só que sempre envolvendo apenas os ‘medalhões do mundo gospel’, para os jovens artistas não sobrava nada, nada mesmo!

Felizmente o momento digital dá espaço para diferentes estilos musicais, diferentes nomes, diferentes propostas artísticas. Vale muito a pena fazermos um simples exercício para descrever melhor este cenário. O jovem goiano, empreendedor e talentoso DJ PV surgiu no meio gospel nacional com maior destaque a partir de sua entrada na Sony Music. E ele foi ‘descoberto’ a partir de seus vídeos com grande número de views no canal YouTube. Antes disso, a música eletrônica gospel era um estilo de poucos iniciados. Com o advento do mercado digital, o estilo eletrônico assumiu posição de destaque entre os jovens e hoje DJ PV é praticamente unanimidade nos eventos voltados aos jovens. O rapaz saiu do gueto diretamente para o line up dos grandes eventos de música gospel no país.

Outro artista que vivenciou o boom do meio digital é justamente o grupo Preto no Branco. Em 28 anos de carreira nunca vivenciei um projeto tornar-se sucesso nacional em tão pouco tempo e isto deve-se especialmente ao ambiente digital. Não canso de comentar que muitas rádios importantes do meio gospel passaram a executar as músicas do Preto no Branco apenas depois deles terem milhões e milhões de visualizações no canal de vídeos. Ou seja, eles são artistas essencialmente digitais que subverteram a ordem natural do reconhecimento do público e do mercado em si. Hoje, o Preto no Branco supera 700 mil followers em seu canal de vídeos na VEVO Brasil, além de serem a música mais executada nas rádios do segmento em 2016 e ser o nono vídeo mais assistido na mesma VEVO Brasil em 2016 (somente 2 artistas brasileiros participaram do Top10 em 2016).

Neste novo momento nos deparamos com o surgimento de tantos nomes de destaque no meio gospel que me arrisco a indicar apenas alguns porque a lista seria enorme. Vale listar alguns destes novos nomes que no momento se destacam na música gospel advindos do ambiente digital: Marcela Taís, Luma Elpídio, Gabriela Rocha (maior artista gospel na VEVO Brasil em número de views), Priscilla Alcântara, Laura Souguellis, Gabriel Guedes, Coral Kemuel, André e Felipe, Fornalha, Os Arrais, entre outros.

Enfim, particularmente creio que ainda teremos muitas mudanças de estratégias, prioridades e ações no meio fonográfico nos próximos anos, até mesmo nos próximos meses já que este é um ambiente de mudanças profundas e muito rápidas. Vale lembrar que mesmo no meio digital estamos vivendo a segunda fase deste universo, onde a queda do download é absurda e constante em contraponto ao crescimento vertiginoso do streaming. A boa notícia neste momento é que está aberta a temporada de ‘caça aos jovens e promissores talentos’… cada vez mais as gravadoras (que estão atentas ao novo ambiente) estarão abertas a investir no novo. É fundamental que os artistas já tenham um DNA digital, pois estes certamente se destacarão em meio à multidão. Para os ‘medalhões’ a fase é de atenção e reciclagem imediata. Há uns 3 anos atrás busquei contratar um grande cantor do meio gospel com uma proposta bastante agressiva à época. O tempo passou, não conseguimos chegar a um acordo e hoje, este mesmo artista segue à deriva em busca de um novo contrato e saiu em definitivo de meu radar, ou seja, a fila andou …

Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que acredita na força da boa música, mesmo em meio aos modismos que insistem no contrário.

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Sou do tipo hiperativo que mesmo em meio a dias de descanso em família, sinto um comichão pra sempre estar em atividade. Qualquer atividade, seja ela desportiva, de lazer puro e simples ou mesmo de cozinhar (Sim! tenho alguns atributos culinários), o importante é estar ocupado com alguma coisa. Muitas vezes minha esposa chega a me alertar antecipadamente de que não quer viajar com um guia turístico tamanho o número de atividades que eu tento encaixar no roteiro da família. Mas a verdade é que não consigo ficar calmamente deitado numa rede em meio a uma manhã de sol e brisa constante na beira da piscina em uma cidade maravilhosa como Búzios, na Região dos Lagos fluminense. Então, faço tudo isso, neste cenário deslumbrante, esparramado na rede com minha família por perto e munido do computador onde neste momento começo a escrever mais um texto para o meu espaço virtual.

Durante estes dias de tentativa de descanso escrevi muitos textos, li algumas revistas e segui na leitura de meu livro sobre a vida do último Czar da Rússia, um calhamaço de mais de 500 páginas. E em meio a tantos insights um assunto me salta à lembrança a ponto de praticamente ser obrigado a escrever sobre o assunto. Boa parte dos textos publicados são fruto do meu dia a dia como executivo de uma gravadora multinacional. Além de cuidar dos projetos da gravadora, minha rotina diária está baseada no contato com pessoas, das mais diferentes formas e canais, onde cada vez mais o whatsapp assume a posição de principal veículo de comunicação. É impressionante como o telefone vem perdendo sistematicamente sua importância e até mesmo se tornando enfadonho e aborrecido! Muitas vezes opto em falar com as pessoas pela troca de mensagens em vez do telefone pela simples vontade de manter uma comunicação direta e resumida. Pode parecer antipático, frio, distante … e entendo que muitas das vezes o resultado é esse mesmo, mas convenhamos também que desta forma nosso dia rende muito mais!

Mas o tema de nosso post de hoje não é sobre comunicação. Apenas usei o texto introdutório acima para exemplificar que muitas das vezes um determinado assunto que se torna corriqueiro em meu dia a dia acaba tornando-se tema para este blog. Constantemente venho falando das transformações do mercado fonográfico. Se você está entre os 69 leitores deste blog, certamente já percebeu que este tema é recorrente desde o início deste espaço há mais de 9 anos atrás. Em papos internos com minha equipe tenho buscado demonstrar o quanto precisamos estar atentos a este novo momento da indústria e de como precisamos nos adequar às novas demandas que se apresentam à nossa frente. E entre os novos desafios que uma gravadora se impõe neste momento está o de ser efetivamente necessária aos artistas e ao próprio mercado. Acredito que se os profissionais de gravadoras não observarem com mais profundidade a razão de ser de suas empresas e atividades, estes correm o sério risco de ver seus empreendimentos sucumbirem do dia para a noite.

A própria transformação do mercado em função da transição do formato físico para o digital já promoveu uma mudança sensível no mercado de gravadoras. Vamos focar a lupa especialmente para o segmento gospel. Nos idos dos anos 90 tínhamos cerca de 30 gravadoras e pequenos selos atuando no que chamamos de mercado gospel. Isso se contarmos aquelas gravadoras que tinham alguma relevância nacional, porque se formos incluir alguns selos regionais certamente este número triplicará facilmente. Pois bem, com as crises econômicas que o país passou, a pirataria de CDs e DVDs, a entrada das gravadoras seculares no mercado e por fim, a queda nas vendas de produtos físicos e o crescimento irreversível do mercado digital, a quantidade de gravadoras atuando no mercado gospel tupiniquim foi reduzida para não mais do que 10 empresas verdadeiramente relevantes e atuantes. Confesso que estou sendo bastante bondoso com este número porque, de verdade, não considero mais do que 5 empresas no mercado gospel fazendo algo realmente interessante neste momento.

Então temos aqui um contrassenso, afinal se o mercado consumidor de conteúdo gospel segue crescente, se o ambiente digital proporciona o consumo de conteúdo de forma mais democrática, em escalas muito superiores ao proporcionado pelas vendas físicas, então por que o número de gravadoras do segmento segue em queda galopante? Muito simples. A esmagadora maioria das empresas do setor não se preparou adequadamente para este momento de transição. Isto quer dizer que numa época em que as mudanças ocorrem em ritmo intenso, em que os consumidores estão ávidos por novidades, as empresas não podem ser reativas, lentas e ultrapassadas. E foi isto o que vivenciamos (e ainda observamos) em muitas empresas deste segmento.
Infelizmente muitas das gravadoras do mercado gospel estão atreladas a denominações, ministérios, igrejas e isto acabou trazendo grandes prejuízos para a adequação destas empresas no novo formato da indústria. Sabemos que a direção de empresas ligadas a igrejas, em sua imensa maioria, é constituída por pastores, bispos e afins, ou então a apadrinhados da própria instituição, o que na maioria das vezes não configura em capacidade técnica e profissional para a gestão administrativa. Com isso, vemos que estas empresas que teoricamente teriam enormes chances de resultar em sucesso, na realidade tornam-se em fracassos redundantes e prejuízos gigantescos.

Neste novo momento da indústria fonográfica as gravadoras (que se levam a sério e agem de forma profissional) assumem um novo papel na relação com o mercado, consumidor e os próprios artistas. Em primeiro lugar, as gravadoras passam a ter novos players concorrentes: as empresas agregadoras de conteúdo e distribuição digital. Para aqueles que ainda não estão tão ambientados ao universo digital, há no mercado empresas que fazem a intermediação entre as plataformas digitais e os artistas/conteúdos. De uma forma simplista, estas empresas são os ‘despachantes’ que facilitam o acesso de artistas e produtores de conteúdo às grandes plataformas digitais como iTunes, Spotify, Deezer, YouTube, Vevo, AppleMusic e operadoras de telefonia, entre outras. Estas empresas apenas entregam o conteúdo, na imensa maioria dos casos, não fazem nada muito além de servir como atalhos entre as partes e por isso mesmo, possuem condições de remuneração bastante agressivas se comparado ao praticado pelas gravadoras.

Outra mudança considerável nesta atual fase tem a ver com a participação dos artistas em todo o processo. Se em tempos atrás o artista estava focado tão somente na produção musical, deixando que a gravadora e os escritórios de management cuidassem de todo o resto, hoje em dia as coisas mudaram e, mudaram bastante! O artista deixa de ser espectador para ser co-participante dos processos e principalmente dos investimentos. A esmagadora maioria das gravadoras migrou do modelo de contrato artístico para o contrato de distribuição ou licenciamento, onde os custos de produção dos álbuns e conteúdos em vídeo passam a ser de responsabilidade do próprio artista que assim detém a posse dos fonogramas de áudio e vídeo. Neste momento há uma nova relação entre artistas e gravadoras que inclui diversas contrapartidas, como por exemplo a cessão de datas de shows/ano por parte do artista à gravadora. Esta é uma alteração irreversível até porque as gravadoras estão cada vez mais inseridas e focadas na área de Live, ou seja, na produção e venda de shows.

E aí, você atento e perspicaz leitor do Observatório Cristão deve se questionar então porque um artista hoje em dia precisaria estar no cast de uma gravadora?

Pois bem, tentarei responder a este questionamento nas linhas a seguir. Em primeiro lugar, como já comentei mais acima, as empresas agregadoras oferecem o serviço básico de colocação de conteúdo nas plataformas digitais, nada muito além disso. Então, sinto dizer que se você optar em colocar sua música em meio a outras 30, 35 milhões de músicas numa plataforma qualquer, as chances de sua canção virar um hit é mais ou menos a mesma proporção de com um único bilhete e 6 dezenas, tornar-se o ganhador sozinho da Megasena. Tipo isso … vale tentar?
Então, o primeiro ponto a favor das gravadoras consiste na forma com que o conteúdo/artista é tratado. Cada vez mais as gravadoras terão estrutura de marketing digital para que seus projetos e lançamentos se destaquem em meio à multidão de outros conteúdos nas plataformas digitais. Cada lançamento, seja em áudio ou vídeo passa a ser tratado como produtos que merecem estratégias próprias, planejamentos exclusivos e destaque. Vale ressaltar que as próprias plataformas digitais priorizam a relação com as principais players do mercado. Ou seja, pequenos selos ou gravadoras e mesmo os agregadores não têm a mesma atenção recebida pelas majors, as principais gravadoras do mainstream. Neste caso o networking vale muito e faz uma tremenda diferença nos resultados finais.

A relação entre as grandes gravadoras e as plataformas digitais é mais um ativo importante em prol das companhias de música.

Trazendo um exemplo bem prático e que estou vivenciando neste atual cenário: antigamente (ano passado, pra falar a verdade!) meu Release Schedule, também conhecida como planilha de lançamentos, baseava-se em meses, ou seja, no mês de maio eu planejava ter 3 a 4 lançamentos, em junho outros lançamentos e assim seguia mês a mês. Hoje em dia, meu Release Schedule deixou de ser mensal para tornar-se diário e muitas das vezes temos 3 a 4 lançamentos diferentes num mesmo dia. Esta é a nova realidade da indústria fonográfica em tempos digitais! E com base neste planejamento temos condições de estabelecer toda a campanha de lançamento com diversas ações e estratégias e conseguir junto às plataformas o maior destaque para nossos artistas e seus respectivos projetos. Hoje em dia, a presença de um projeto na Home de determinada plataforma garante resultados 30 a 40% mais consistentes.

Outro diferencial nos serviços oferecidos pelas gravadoras tem a ver com o acesso às informações e novidades. Já comentei mais acima que um dos motivos da queda das gravadoras do segmento gospel teve a ver com a lentidão em entender as tendências e rumos do mercado no momento de transição. Pois bem, as grandes empresas da indústria fonográfica sempre têm e terão acesso privilegiado a informações, serão os parceiros preferenciais das plataformas estabelecidas e de todas a que porventura venham a surgir, além do que estas mesmas gravadoras, boa parte multinacionais, também têm profissionais extremamente capacitados e atualizados, o que certamente já é um diferencial gigantesco perante a concorrência.

Recordo-me que já no primeiro contato que tive com a companhia em que atuo nos últimos 7 anos, a palavra ‘digital’ naturalmente fazia parte do cotidiano de toda a equipe. Mesmo à época, a área digital que basicamente estava somente vinculada às operadoras de telefonia e a alguns agregadores de SMS e afins, toda a empresa já começava a se organizar para o momento de desembarque de grandes parceiros digitais. Acompanhávamos as notícias, experiências e resultados de nossas filiais no exterior onde o iTunes já marcava presença transformando o mercado local. No dia em que o iTunes passou a operar no Brasil, todo nosso catálogo gospel já estava automaticamente disponível para os consumidores no país. Em contrapartida, algumas gravadoras ditas ‘gigantes’ no mercado gospel demoraram mais de 3 anos até entrar nas plataformas digitais, algumas inclusive só vieram a estrear no iTunes quando os serviços de download já sofriam com a queda vertiginosa de suas atividades.

No caso de algumas majors outro diferencial tem a ver com o canal exclusivo de vídeos que cada artista automaticamente passa a ter. Estou falando do canal de vídeos do artista na plataforma VEVO, que é uma área premium de conteúdo de música em vídeo em oposição ao YouTube, que cada vez mais passa a ser um espaço de conteúdo diversificado não-musical. Por se tratar de um espaço exclusivo, a audiência fica mais qualificada, atraindo mais publicidade e consequentemente a monetização se torna melhor comparada à plataforma tradicional de vídeos. As gravadoras com conteúdo na VEVO têm acesso direto à plataforma e com isso, também conseguem mais destaque para os seus produtos e lançamentos. Em tempo: a palavra ‘destaque’ será amplamente utilizada pelos profissionais do mercado fonográfico, assim como relevância, CPM, entre outras palavras. Acostumem-se a estes novos termos e significados.

Acho que estou alongando-me bastante neste post, mas a realidade é que temos tantos aspectos para destacar neste assunto que mesmo com minha turma me intimando a desligar o computador e curtir uma piscina, vou prosseguindo refastelado na rede teclando este texto. Mas prometo a vocês 69 leitores que em uma próxima oportunidade tentarei seguir com mais algumas informações neste tema em posteriores posts. Finalizo o texto de hoje apenas destacando um último diferencial ou um ativo importante na relação gravadora e artistas em tempos digitais. E este ativo tem a ver com o conceito de transparência. Sim! E por mais óbvio, inerente e natural que esta questão esteja intrínseca à relação entre partes de um negócio, especialmente no meio gospel, este aspecto torna-se um ativo e tanto. Acho que comentei aqui mesmo no blog que meses atrás tive acesso ao contrato artístico de uma cantora e que (pasmem!) esta não recebia um único centavo proveniente das receitas digitais. Vou repetir: a artista, em contrato, abria mão de receber todo e qualquer valor proveniente de receitas digitais ou afins, ou seja, a ‘pobre coitada’ recebia apenas sobre as vendas advindas de CDs e DVDs. Por mais que o contrato tivesse sido redigido no século passado, não significa que seja pétreo, imutável, não adaptável a novas situações.

Empresas grandes, principalmente multinacionais, são auditadas periodicamente. Possuem sistemas completos de gerenciamento de dados, permitem acesso a relatórios, informações, detalhamentos, ou seja, são empresas transparentes e como tais, dão às partes envolvidas a tranquilidade no processo como um todo. Os artistas precisam levar este fato em maior consideração a partir de agora porque as receitas passarão (na verdade, já estão assim!) a vir em muitas linhas diferentes e não mais apenas pela venda física de CDs e DVDs. Com isso, o acesso a relatórios e sua posterior e constante análise das informações passa a ser algo fundamental, tanto para as gravadoras como para os artistas. Se uma empresa não tem um sistema organizado de dados, não permite o acesso transparente e atualizado aos envolvidos ou simplesmente sonega informações, deve-se ligar o sinal de alerta em nível máximo. Infelizmente sei de empresas no meio gospel em que a sonegação de informações é prática constante, usual e formal.

Um outro aspecto (sim! eu disse que seria o último, mas me permita apenas mais um pouco antes da pausa em definitivo!) que merece atenção e que será ou já está sendo prioridade entre as grandes gravadoras: a diversificação de receitas. Ou seja, como mencionei a pouco, as fontes de receita para gravadoras e artistas deixam de ser unicamente sobre a venda de CDs e DVDs e passam a ser muito mais diversificadas. E entre tantas opções quero ater-me a apenas mais 2 oportunidades. O Live e o Merchandising. Chamamos de Live todas as atividades relacionadas à realização de eventos, sejam eles a venda de shows (booking), a organização e produção de shows (management), festivais, congressos e afins. Esta é uma área que as gravadoras estão muito focadas no momento e em alguns casos, chega a ser 50% da receita anual da empresa. Já o Merchandising é a atividade em que a gravadora atua junto ao mercado para a criação de projetos especiais relacionados ao artista e/ou sua obra. Esta é uma área ampla de negócios e onde a criatividade é livre! Podemos ter ações de merchandising nos moldes tradicionais do uso da imagem do artista para a confecção de produtos – cadernos, moleskines, brinquedos, games, confecção, pins – ou atividades mais recentes como curadoria, presença em eventos, postagem em redes sociais, entre outras. Nestes casos, a gravadora atua como escritório de oportunidades e negócios aos artistas otimizando ao máximo as possibilidades de novas receitas a seu cast.

Meu caçula já veio reclamar por minha presença na piscina … é melhor eu obedecer porque tenho juízo! Quero apenas deixar registrado que não escrevi este texto como uma intenção não declarada de propagandear as benesses de um artista fazer parte de uma gravadora. Nem de auto-promover a empresa da qual faço parte. Não mesmo! Apenas me sinto no direito e até no dever de esclarecer aos artistas e profissionais do meio gospel sobre o que há de novo neste momento de tantas transições. Infelizmente nesta fase, com tantas incertezas e desconhecimento da realidade dos fatos, me deparo com muitas pessoas literalmente contando estórias e com isso iludindo pessoas de boa fé e inocência. O momento é de busca pela informação. Duvide dos ‘vendedores de atalhos’, dos experts em facilidades, dos vendedores de ilusões como escrevi há alguns anos aqui no blog. Tampouco se iludam com percentuais e condições que num primeiro momento pareçam interessantes. Analise do ponto de vista da contrapartida, ou seja, o que efetivamente o parceiro te oferece de serviços e benefícios em troca. Outro importante ponto para ser analisado tem a ver com os resultados. E este eu considero o mais importante de todos! Analise o posicionamento dos artistas do ponto de vista digital naquela determinada empresa, seus resultados, sua relevância. Em outras palavras, veja criteriosamente se os artistas que estão vinculados àquela gravadora ou empresa realmente estão se destacando entre os demais. Se possível, até converse com estes artistas e ouça deles suas próprias experiências. Não me canso de lembrar que uma determinada artista ligada a uma gravadora do meio gospel elencando as benesses de estar naquele cast. A dita cuja enchia a boca para falar que sua gravadora bancava a academia de ginástica, salão de cabelereiro e até algumas roupinhas. Sinceramente acho que deve-se esperar outro tipo de benefícios de uma gravadora séria e profissional, certo?

Espero que tenha contribuído de alguma forma neste momento e caso tenha alguma dúvida sobre este assunto, que tal deixar sua pergunta em nossa área de comentários. Terei imenso prazer em respondê-lo de forma exclusiva.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, entusiasta do mercado gospel e que descobriu aos 47 anos o prazer de se espreguiçar numa rede e ficar ali pensando na vida e escrevendo suas ideias, muito bom!