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Mauricio Soares

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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Quarta-feira de cinzas. Somente agora, numa manhã nublada na Região dos Lagos no Rio de Janeiro pego meu computador para tentar escrever algumas linhas para nosso laureado blog. Nos últimos dias muitos temas vieram à mente … alguns ainda permanecem no meu HD pessoal, outros se perderam na minha memória e sinceramente espero que um dia voltem para contribuir com a diversidade e qualidade dos assuntos abordados por aqui. Por mais que eu tente me distrair, distanciar-me do dia a dia da música e especialmente do mercado fonográfico, confesso que vivo em uma relação tão impregnada que fica difícil fazer ‘cara de paisagem’. Em função dos anos de mercado – já partindo para minha vigésima oitava primavera – tenho condições de analisar alguns fatos do ponto de vista privilegiado. E será a partir de algumas observações que gostaria de tecer as próximas linhas, que sinceramente espero sejam capazes de manter a atenção dos nossos 69 (seriam 71?) leitores assíduos.

Com a mudança do formato de consumo da música em todo o mundo através da transição do físico para o digital, observamos muitas outras novidades além da decadência do CD ou o crescimento das plataformas digitais. Mudaram também as estratégias das gravadoras, o relacionamento entre o consumidor e artista, o modelo de produção artística, o marketing, expectativas, a relação artista e gravadoras, enfim, numa verdadeira tsunami tudo que antes era tido como ‘imexível’ foi revolvido e tornou-se diferente … e quando digo diferente, é muito diferente mesmo!

Vamos nos ater neste momento a uma destas revoluções. Tenho pensado (e falado!) muito sobre a mudança no perfil do cast artístico em tempos digitais. Há algumas semanas atrás fiz uma pesquisa sobre os 10 maiores artistas do cast na gravadora onde trabalho do ponto de vista de resultados em faturamento e relevância digital. Para minha surpresa (ou nem tanto assim) dos 10 mais importantes artistas por estes critérios, incríveis 9 artistas possuíam carreiras artísticas relativamente recentes com 3 a 4 discos lançados até então. De fato, todos estes 9 artistas efetivamente tiveram maior destaque para o grande público a partir da relação com a gravadora atual, ou seja, são sucessos recentes, entre 5 a 7 anos de estrada.

Outro dado bastante interessante sobre esta pequena pesquisa: estes mesmos 9 artistas, coincidência ou não, são todos jovens, na faixa entre 20 e 30 anos com algumas poucas exceções. Com isso chegamos à conclusão de que estes jovens artistas também fazem parte do contingente de pessoas que se utilizam das ferramentas, aplicativos e redes sociais como qualquer jovem ou adolescente do país. E esta análise apenas corrobora para a tese de que não se pode falar o que não se vive. Em suma, estes artistas vivenciam no dia a dia as novas tendências, tecnologias, ferramentas e tudo de novo de uma forma muito natural e isso repercute diretamente em seu posicionamento artístico. Para os artistas com um pouco mais de idade e que não estão tão familiarizados com o ambiente tecnológico a urgência em se adequar e ‘a correr atrás do prejuízo’ (nunca entendi esta expressão, não deveria ser correr atrás do lucro? mas enfim …) é uma questão de sobrevivência e não se ele entende ou não entende, se gosta ou não gosta, como se fossem opções reais. Não! Simplesmente ou o artista se adequa e passa a entender e agir digitalmente ou vai aos poucos ver sua carreira minguando em relevância pouco a pouco (às vezes nem tão pouco assim, pode se surpreender com a velocidade desta transição).

Voltando ao primeiro ponto que apontei, sobre as carreiras curtas que em pouco tempo tornaram-se referências no atual momento do mercado fonográfico, vale ressaltar que vivemos um momento único na indústria da música. Nunca vivenciamos uma fase de tantas oportunidades para o surgimento de novos artistas, novas propostas musicais, estilos e sonoridades. Se formos recuar aos anos 80, 90 e mesmo 2000, os grandes nomes da música gospel resumiam-se a um punhado de não mais do que 10 artistas. Vivemos neste momento a fase dos artistas-arrasa-quarteirão, um seleto grupo dos grandes vendedores de discos agrupados em 2 a 3 estilos musicais. Esta “ditadura” foi estremecida apenas ali pelos idos dos anos 90 com a chegada dos ministérios de louvor que reverteram a tendência única da música pentecostal e o pop gospel. Nomes como Diante do Trono, ministério Paixão, Fogo e Glória (David Quinlan), Toque no Altar, Ludmila Ferber, entre outros, surgiram exatamente neste período e davam a sensação de que seriam um novo modismo com grandes chances de permanecer no mainstream gospel tupiniquim. Então, excetuando-se esta fase mais democrática, a música gospel manteve-se atrelada a nomes tradicionais como Aline Barros, Cassiane, Shirley Carvalhaes, Rose Nascimento, Cristina Mel, artistas consagrados com muitos anos de carreira e discografias de muitos e muitos álbuns.

E aí, eis que o mundo digital chegou e com ele uma série de dogmas foram caindo como um castelo de cartas … uma a uma, as leis que regiam o segmento da música, especialmente a música gospel foram caindo em desuso numa velocidade incrível a ponto de atingir várias pessoas, lojistas, mídias, artistas e gravadoras de forma intensa e profunda. A imagem de um tsunami nos moldes do que vimos na Ásia anos atrás é a mais perfeita representação do momento que vivenciamos na indústria fonográfica no Brasil e no mundo.

Para as gravadoras, investir em jovens artistas era algo dispendioso em termos de investimento, demandavam bastante paciência porque eram projetos de médio e longo prazo e, sem qualquer garantia de retorno, ou seja, artistas jovens eram apostas difíceis de serem bancadas pelas companhias de música. Com isso, vivemos por muitos anos uma verdadeira escassez de novos nomes no meio gospel. Tive a oportunidade de descobrir, lançar e investir alguns dos artistas que anos depois tornaram-se grandes em nosso meio, mas confesso que não fiz isso por mérito ou uma visão altruísta, poética e lúdica … muito pelo contrário, para concorrer com as gravadoras que colocavam cheques vultosos na mesa de negociação perante os artistas, não tive muitas opções porque sempre estive à frente de gravadoras que não seguiam esta forma de trabalho. Com isso precisava de outros argumentos para convencer os artistas a optarem por nossa empresa e muitos destes, eram jovens promessas que não traziam interesse algum para as grandes gravadoras. Recordo-me que ali pelos anos 90 surgiram de todos os cantos, gravadoras no meio gospel. Um empresário que vendia muitos carros aos artistas do meio gospel, observou que ali corria muito dinheiro e do dia para a noite criou uma gravadora. Outro empresário atuava na área de construção civil e começou a vender muitas casas e apartamentos para os artistas de música gospel. Resultado: além de vender casas ou dito cujo resolveu montar seu próprio selo. E estes empreendedores ajudaram a inflacionar o meio gospel oferecendo carros, casas, muito dinheiro para ter os artistas em seu ‘abençoado’ cast artístico. Com isso, vivemos um período de leilão entre artistas e gravadoras, com muito dinheiro circulando de um lado para o outro, só que sempre envolvendo apenas os ‘medalhões do mundo gospel’, para os jovens artistas não sobrava nada, nada mesmo!

Felizmente o momento digital dá espaço para diferentes estilos musicais, diferentes nomes, diferentes propostas artísticas. Vale muito a pena fazermos um simples exercício para descrever melhor este cenário. O jovem goiano, empreendedor e talentoso DJ PV surgiu no meio gospel nacional com maior destaque a partir de sua entrada na Sony Music. E ele foi ‘descoberto’ a partir de seus vídeos com grande número de views no canal YouTube. Antes disso, a música eletrônica gospel era um estilo de poucos iniciados. Com o advento do mercado digital, o estilo eletrônico assumiu posição de destaque entre os jovens e hoje DJ PV é praticamente unanimidade nos eventos voltados aos jovens. O rapaz saiu do gueto diretamente para o line up dos grandes eventos de música gospel no país.

Outro artista que vivenciou o boom do meio digital é justamente o grupo Preto no Branco. Em 28 anos de carreira nunca vivenciei um projeto tornar-se sucesso nacional em tão pouco tempo e isto deve-se especialmente ao ambiente digital. Não canso de comentar que muitas rádios importantes do meio gospel passaram a executar as músicas do Preto no Branco apenas depois deles terem milhões e milhões de visualizações no canal de vídeos. Ou seja, eles são artistas essencialmente digitais que subverteram a ordem natural do reconhecimento do público e do mercado em si. Hoje, o Preto no Branco supera 700 mil followers em seu canal de vídeos na VEVO Brasil, além de serem a música mais executada nas rádios do segmento em 2016 e ser o nono vídeo mais assistido na mesma VEVO Brasil em 2016 (somente 2 artistas brasileiros participaram do Top10 em 2016).

Neste novo momento nos deparamos com o surgimento de tantos nomes de destaque no meio gospel que me arrisco a indicar apenas alguns porque a lista seria enorme. Vale listar alguns destes novos nomes que no momento se destacam na música gospel advindos do ambiente digital: Marcela Taís, Luma Elpídio, Gabriela Rocha (maior artista gospel na VEVO Brasil em número de views), Priscilla Alcântara, Laura Souguellis, Gabriel Guedes, Coral Kemuel, André e Felipe, Fornalha, Os Arrais, entre outros.

Enfim, particularmente creio que ainda teremos muitas mudanças de estratégias, prioridades e ações no meio fonográfico nos próximos anos, até mesmo nos próximos meses já que este é um ambiente de mudanças profundas e muito rápidas. Vale lembrar que mesmo no meio digital estamos vivendo a segunda fase deste universo, onde a queda do download é absurda e constante em contraponto ao crescimento vertiginoso do streaming. A boa notícia neste momento é que está aberta a temporada de ‘caça aos jovens e promissores talentos’… cada vez mais as gravadoras (que estão atentas ao novo ambiente) estarão abertas a investir no novo. É fundamental que os artistas já tenham um DNA digital, pois estes certamente se destacarão em meio à multidão. Para os ‘medalhões’ a fase é de atenção e reciclagem imediata. Há uns 3 anos atrás busquei contratar um grande cantor do meio gospel com uma proposta bastante agressiva à época. O tempo passou, não conseguimos chegar a um acordo e hoje, este mesmo artista segue à deriva em busca de um novo contrato e saiu em definitivo de meu radar, ou seja, a fila andou …

Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que acredita na força da boa música, mesmo em meio aos modismos que insistem no contrário.

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Sou do tipo hiperativo que mesmo em meio a dias de descanso em família, sinto um comichão pra sempre estar em atividade. Qualquer atividade, seja ela desportiva, de lazer puro e simples ou mesmo de cozinhar (Sim! tenho alguns atributos culinários), o importante é estar ocupado com alguma coisa. Muitas vezes minha esposa chega a me alertar antecipadamente de que não quer viajar com um guia turístico tamanho o número de atividades que eu tento encaixar no roteiro da família. Mas a verdade é que não consigo ficar calmamente deitado numa rede em meio a uma manhã de sol e brisa constante na beira da piscina em uma cidade maravilhosa como Búzios, na Região dos Lagos fluminense. Então, faço tudo isso, neste cenário deslumbrante, esparramado na rede com minha família por perto e munido do computador onde neste momento começo a escrever mais um texto para o meu espaço virtual.

Durante estes dias de tentativa de descanso escrevi muitos textos, li algumas revistas e segui na leitura de meu livro sobre a vida do último Czar da Rússia, um calhamaço de mais de 500 páginas. E em meio a tantos insights um assunto me salta à lembrança a ponto de praticamente ser obrigado a escrever sobre o assunto. Boa parte dos textos publicados são fruto do meu dia a dia como executivo de uma gravadora multinacional. Além de cuidar dos projetos da gravadora, minha rotina diária está baseada no contato com pessoas, das mais diferentes formas e canais, onde cada vez mais o whatsapp assume a posição de principal veículo de comunicação. É impressionante como o telefone vem perdendo sistematicamente sua importância e até mesmo se tornando enfadonho e aborrecido! Muitas vezes opto em falar com as pessoas pela troca de mensagens em vez do telefone pela simples vontade de manter uma comunicação direta e resumida. Pode parecer antipático, frio, distante … e entendo que muitas das vezes o resultado é esse mesmo, mas convenhamos também que desta forma nosso dia rende muito mais!

Mas o tema de nosso post de hoje não é sobre comunicação. Apenas usei o texto introdutório acima para exemplificar que muitas das vezes um determinado assunto que se torna corriqueiro em meu dia a dia acaba tornando-se tema para este blog. Constantemente venho falando das transformações do mercado fonográfico. Se você está entre os 69 leitores deste blog, certamente já percebeu que este tema é recorrente desde o início deste espaço há mais de 9 anos atrás. Em papos internos com minha equipe tenho buscado demonstrar o quanto precisamos estar atentos a este novo momento da indústria e de como precisamos nos adequar às novas demandas que se apresentam à nossa frente. E entre os novos desafios que uma gravadora se impõe neste momento está o de ser efetivamente necessária aos artistas e ao próprio mercado. Acredito que se os profissionais de gravadoras não observarem com mais profundidade a razão de ser de suas empresas e atividades, estes correm o sério risco de ver seus empreendimentos sucumbirem do dia para a noite.

A própria transformação do mercado em função da transição do formato físico para o digital já promoveu uma mudança sensível no mercado de gravadoras. Vamos focar a lupa especialmente para o segmento gospel. Nos idos dos anos 90 tínhamos cerca de 30 gravadoras e pequenos selos atuando no que chamamos de mercado gospel. Isso se contarmos aquelas gravadoras que tinham alguma relevância nacional, porque se formos incluir alguns selos regionais certamente este número triplicará facilmente. Pois bem, com as crises econômicas que o país passou, a pirataria de CDs e DVDs, a entrada das gravadoras seculares no mercado e por fim, a queda nas vendas de produtos físicos e o crescimento irreversível do mercado digital, a quantidade de gravadoras atuando no mercado gospel tupiniquim foi reduzida para não mais do que 10 empresas verdadeiramente relevantes e atuantes. Confesso que estou sendo bastante bondoso com este número porque, de verdade, não considero mais do que 5 empresas no mercado gospel fazendo algo realmente interessante neste momento.

Então temos aqui um contrassenso, afinal se o mercado consumidor de conteúdo gospel segue crescente, se o ambiente digital proporciona o consumo de conteúdo de forma mais democrática, em escalas muito superiores ao proporcionado pelas vendas físicas, então por que o número de gravadoras do segmento segue em queda galopante? Muito simples. A esmagadora maioria das empresas do setor não se preparou adequadamente para este momento de transição. Isto quer dizer que numa época em que as mudanças ocorrem em ritmo intenso, em que os consumidores estão ávidos por novidades, as empresas não podem ser reativas, lentas e ultrapassadas. E foi isto o que vivenciamos (e ainda observamos) em muitas empresas deste segmento.
Infelizmente muitas das gravadoras do mercado gospel estão atreladas a denominações, ministérios, igrejas e isto acabou trazendo grandes prejuízos para a adequação destas empresas no novo formato da indústria. Sabemos que a direção de empresas ligadas a igrejas, em sua imensa maioria, é constituída por pastores, bispos e afins, ou então a apadrinhados da própria instituição, o que na maioria das vezes não configura em capacidade técnica e profissional para a gestão administrativa. Com isso, vemos que estas empresas que teoricamente teriam enormes chances de resultar em sucesso, na realidade tornam-se em fracassos redundantes e prejuízos gigantescos.

Neste novo momento da indústria fonográfica as gravadoras (que se levam a sério e agem de forma profissional) assumem um novo papel na relação com o mercado, consumidor e os próprios artistas. Em primeiro lugar, as gravadoras passam a ter novos players concorrentes: as empresas agregadoras de conteúdo e distribuição digital. Para aqueles que ainda não estão tão ambientados ao universo digital, há no mercado empresas que fazem a intermediação entre as plataformas digitais e os artistas/conteúdos. De uma forma simplista, estas empresas são os ‘despachantes’ que facilitam o acesso de artistas e produtores de conteúdo às grandes plataformas digitais como iTunes, Spotify, Deezer, YouTube, Vevo, AppleMusic e operadoras de telefonia, entre outras. Estas empresas apenas entregam o conteúdo, na imensa maioria dos casos, não fazem nada muito além de servir como atalhos entre as partes e por isso mesmo, possuem condições de remuneração bastante agressivas se comparado ao praticado pelas gravadoras.

Outra mudança considerável nesta atual fase tem a ver com a participação dos artistas em todo o processo. Se em tempos atrás o artista estava focado tão somente na produção musical, deixando que a gravadora e os escritórios de management cuidassem de todo o resto, hoje em dia as coisas mudaram e, mudaram bastante! O artista deixa de ser espectador para ser co-participante dos processos e principalmente dos investimentos. A esmagadora maioria das gravadoras migrou do modelo de contrato artístico para o contrato de distribuição ou licenciamento, onde os custos de produção dos álbuns e conteúdos em vídeo passam a ser de responsabilidade do próprio artista que assim detém a posse dos fonogramas de áudio e vídeo. Neste momento há uma nova relação entre artistas e gravadoras que inclui diversas contrapartidas, como por exemplo a cessão de datas de shows/ano por parte do artista à gravadora. Esta é uma alteração irreversível até porque as gravadoras estão cada vez mais inseridas e focadas na área de Live, ou seja, na produção e venda de shows.

E aí, você atento e perspicaz leitor do Observatório Cristão deve se questionar então porque um artista hoje em dia precisaria estar no cast de uma gravadora?

Pois bem, tentarei responder a este questionamento nas linhas a seguir. Em primeiro lugar, como já comentei mais acima, as empresas agregadoras oferecem o serviço básico de colocação de conteúdo nas plataformas digitais, nada muito além disso. Então, sinto dizer que se você optar em colocar sua música em meio a outras 30, 35 milhões de músicas numa plataforma qualquer, as chances de sua canção virar um hit é mais ou menos a mesma proporção de com um único bilhete e 6 dezenas, tornar-se o ganhador sozinho da Megasena. Tipo isso … vale tentar?
Então, o primeiro ponto a favor das gravadoras consiste na forma com que o conteúdo/artista é tratado. Cada vez mais as gravadoras terão estrutura de marketing digital para que seus projetos e lançamentos se destaquem em meio à multidão de outros conteúdos nas plataformas digitais. Cada lançamento, seja em áudio ou vídeo passa a ser tratado como produtos que merecem estratégias próprias, planejamentos exclusivos e destaque. Vale ressaltar que as próprias plataformas digitais priorizam a relação com as principais players do mercado. Ou seja, pequenos selos ou gravadoras e mesmo os agregadores não têm a mesma atenção recebida pelas majors, as principais gravadoras do mainstream. Neste caso o networking vale muito e faz uma tremenda diferença nos resultados finais.

A relação entre as grandes gravadoras e as plataformas digitais é mais um ativo importante em prol das companhias de música.

Trazendo um exemplo bem prático e que estou vivenciando neste atual cenário: antigamente (ano passado, pra falar a verdade!) meu Release Schedule, também conhecida como planilha de lançamentos, baseava-se em meses, ou seja, no mês de maio eu planejava ter 3 a 4 lançamentos, em junho outros lançamentos e assim seguia mês a mês. Hoje em dia, meu Release Schedule deixou de ser mensal para tornar-se diário e muitas das vezes temos 3 a 4 lançamentos diferentes num mesmo dia. Esta é a nova realidade da indústria fonográfica em tempos digitais! E com base neste planejamento temos condições de estabelecer toda a campanha de lançamento com diversas ações e estratégias e conseguir junto às plataformas o maior destaque para nossos artistas e seus respectivos projetos. Hoje em dia, a presença de um projeto na Home de determinada plataforma garante resultados 30 a 40% mais consistentes.

Outro diferencial nos serviços oferecidos pelas gravadoras tem a ver com o acesso às informações e novidades. Já comentei mais acima que um dos motivos da queda das gravadoras do segmento gospel teve a ver com a lentidão em entender as tendências e rumos do mercado no momento de transição. Pois bem, as grandes empresas da indústria fonográfica sempre têm e terão acesso privilegiado a informações, serão os parceiros preferenciais das plataformas estabelecidas e de todas a que porventura venham a surgir, além do que estas mesmas gravadoras, boa parte multinacionais, também têm profissionais extremamente capacitados e atualizados, o que certamente já é um diferencial gigantesco perante a concorrência.

Recordo-me que já no primeiro contato que tive com a companhia em que atuo nos últimos 7 anos, a palavra ‘digital’ naturalmente fazia parte do cotidiano de toda a equipe. Mesmo à época, a área digital que basicamente estava somente vinculada às operadoras de telefonia e a alguns agregadores de SMS e afins, toda a empresa já começava a se organizar para o momento de desembarque de grandes parceiros digitais. Acompanhávamos as notícias, experiências e resultados de nossas filiais no exterior onde o iTunes já marcava presença transformando o mercado local. No dia em que o iTunes passou a operar no Brasil, todo nosso catálogo gospel já estava automaticamente disponível para os consumidores no país. Em contrapartida, algumas gravadoras ditas ‘gigantes’ no mercado gospel demoraram mais de 3 anos até entrar nas plataformas digitais, algumas inclusive só vieram a estrear no iTunes quando os serviços de download já sofriam com a queda vertiginosa de suas atividades.

No caso de algumas majors outro diferencial tem a ver com o canal exclusivo de vídeos que cada artista automaticamente passa a ter. Estou falando do canal de vídeos do artista na plataforma VEVO, que é uma área premium de conteúdo de música em vídeo em oposição ao YouTube, que cada vez mais passa a ser um espaço de conteúdo diversificado não-musical. Por se tratar de um espaço exclusivo, a audiência fica mais qualificada, atraindo mais publicidade e consequentemente a monetização se torna melhor comparada à plataforma tradicional de vídeos. As gravadoras com conteúdo na VEVO têm acesso direto à plataforma e com isso, também conseguem mais destaque para os seus produtos e lançamentos. Em tempo: a palavra ‘destaque’ será amplamente utilizada pelos profissionais do mercado fonográfico, assim como relevância, CPM, entre outras palavras. Acostumem-se a estes novos termos e significados.

Acho que estou alongando-me bastante neste post, mas a realidade é que temos tantos aspectos para destacar neste assunto que mesmo com minha turma me intimando a desligar o computador e curtir uma piscina, vou prosseguindo refastelado na rede teclando este texto. Mas prometo a vocês 69 leitores que em uma próxima oportunidade tentarei seguir com mais algumas informações neste tema em posteriores posts. Finalizo o texto de hoje apenas destacando um último diferencial ou um ativo importante na relação gravadora e artistas em tempos digitais. E este ativo tem a ver com o conceito de transparência. Sim! E por mais óbvio, inerente e natural que esta questão esteja intrínseca à relação entre partes de um negócio, especialmente no meio gospel, este aspecto torna-se um ativo e tanto. Acho que comentei aqui mesmo no blog que meses atrás tive acesso ao contrato artístico de uma cantora e que (pasmem!) esta não recebia um único centavo proveniente das receitas digitais. Vou repetir: a artista, em contrato, abria mão de receber todo e qualquer valor proveniente de receitas digitais ou afins, ou seja, a ‘pobre coitada’ recebia apenas sobre as vendas advindas de CDs e DVDs. Por mais que o contrato tivesse sido redigido no século passado, não significa que seja pétreo, imutável, não adaptável a novas situações.

Empresas grandes, principalmente multinacionais, são auditadas periodicamente. Possuem sistemas completos de gerenciamento de dados, permitem acesso a relatórios, informações, detalhamentos, ou seja, são empresas transparentes e como tais, dão às partes envolvidas a tranquilidade no processo como um todo. Os artistas precisam levar este fato em maior consideração a partir de agora porque as receitas passarão (na verdade, já estão assim!) a vir em muitas linhas diferentes e não mais apenas pela venda física de CDs e DVDs. Com isso, o acesso a relatórios e sua posterior e constante análise das informações passa a ser algo fundamental, tanto para as gravadoras como para os artistas. Se uma empresa não tem um sistema organizado de dados, não permite o acesso transparente e atualizado aos envolvidos ou simplesmente sonega informações, deve-se ligar o sinal de alerta em nível máximo. Infelizmente sei de empresas no meio gospel em que a sonegação de informações é prática constante, usual e formal.

Um outro aspecto (sim! eu disse que seria o último, mas me permita apenas mais um pouco antes da pausa em definitivo!) que merece atenção e que será ou já está sendo prioridade entre as grandes gravadoras: a diversificação de receitas. Ou seja, como mencionei a pouco, as fontes de receita para gravadoras e artistas deixam de ser unicamente sobre a venda de CDs e DVDs e passam a ser muito mais diversificadas. E entre tantas opções quero ater-me a apenas mais 2 oportunidades. O Live e o Merchandising. Chamamos de Live todas as atividades relacionadas à realização de eventos, sejam eles a venda de shows (booking), a organização e produção de shows (management), festivais, congressos e afins. Esta é uma área que as gravadoras estão muito focadas no momento e em alguns casos, chega a ser 50% da receita anual da empresa. Já o Merchandising é a atividade em que a gravadora atua junto ao mercado para a criação de projetos especiais relacionados ao artista e/ou sua obra. Esta é uma área ampla de negócios e onde a criatividade é livre! Podemos ter ações de merchandising nos moldes tradicionais do uso da imagem do artista para a confecção de produtos – cadernos, moleskines, brinquedos, games, confecção, pins – ou atividades mais recentes como curadoria, presença em eventos, postagem em redes sociais, entre outras. Nestes casos, a gravadora atua como escritório de oportunidades e negócios aos artistas otimizando ao máximo as possibilidades de novas receitas a seu cast.

Meu caçula já veio reclamar por minha presença na piscina … é melhor eu obedecer porque tenho juízo! Quero apenas deixar registrado que não escrevi este texto como uma intenção não declarada de propagandear as benesses de um artista fazer parte de uma gravadora. Nem de auto-promover a empresa da qual faço parte. Não mesmo! Apenas me sinto no direito e até no dever de esclarecer aos artistas e profissionais do meio gospel sobre o que há de novo neste momento de tantas transições. Infelizmente nesta fase, com tantas incertezas e desconhecimento da realidade dos fatos, me deparo com muitas pessoas literalmente contando estórias e com isso iludindo pessoas de boa fé e inocência. O momento é de busca pela informação. Duvide dos ‘vendedores de atalhos’, dos experts em facilidades, dos vendedores de ilusões como escrevi há alguns anos aqui no blog. Tampouco se iludam com percentuais e condições que num primeiro momento pareçam interessantes. Analise do ponto de vista da contrapartida, ou seja, o que efetivamente o parceiro te oferece de serviços e benefícios em troca. Outro importante ponto para ser analisado tem a ver com os resultados. E este eu considero o mais importante de todos! Analise o posicionamento dos artistas do ponto de vista digital naquela determinada empresa, seus resultados, sua relevância. Em outras palavras, veja criteriosamente se os artistas que estão vinculados àquela gravadora ou empresa realmente estão se destacando entre os demais. Se possível, até converse com estes artistas e ouça deles suas próprias experiências. Não me canso de lembrar que uma determinada artista ligada a uma gravadora do meio gospel elencando as benesses de estar naquele cast. A dita cuja enchia a boca para falar que sua gravadora bancava a academia de ginástica, salão de cabelereiro e até algumas roupinhas. Sinceramente acho que deve-se esperar outro tipo de benefícios de uma gravadora séria e profissional, certo?

Espero que tenha contribuído de alguma forma neste momento e caso tenha alguma dúvida sobre este assunto, que tal deixar sua pergunta em nossa área de comentários. Terei imenso prazer em respondê-lo de forma exclusiva.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, entusiasta do mercado gospel e que descobriu aos 47 anos o prazer de se espreguiçar numa rede e ficar ali pensando na vida e escrevendo suas ideias, muito bom!

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Durante os festejos momescos em que eu e minha família optamos em nos isolar numa casa de praia, entre um mergulho e outro, entre uma relaxante ducha, banhos de piscina, um tempinho de sauna, almoços e jantares mega agradáveis com amigos e toda minha prole, dei-me a incumbência de dedicar algum tempo de meu dia para conferir canais que normalmente não assisto em meu pacote de TV por assinatura. A casa em que me hospedei tinha uma ‘assinatura’ (entre aspas mesmo!) de alguma operadora que além dos canais abertos tradicionais contava com outras opções não tão ortodoxas e atrativas como diversos canais rurais com uma enxurrada de propagandas de defensivos agrícolas e equipamentos e uma infinidade de outros canais de programação religiosa, a saber: católica e evangélica. Nada de filmes, séries, documentários … um suplício!
Fiquei durante uns 3 dias revezando-me entre Datena, Marcelo Rezende, William Bonner e uma saga interminável de pastores, missionários, bispos, querubins, apóstolos e outros santíssimos com suas vozes roucas, ternos mal cortados, mãos endurecidas, discursos rasos, sudorese em extremo, cabelos com gel e teologias estranhas que tirariam qualquer Lutero ou Calvino do sério! É impressionante como durante estes dias não consegui encontrar um único pregador que, de verdade, me chamasse a atenção a ponto de manter-me interessado por alguns minutos. Confesso que minha boa vontade foi além da conta, até porque em meio ao carnaval as opções na TV são pra lá de escassas pra quem não quer ficar com o baticundum chacoalhando na mente.
Assisti de tudo. Tudo mesmo! Fui de um missionário cearense com cara de índio boliviano que usava uma túnica dourada e um chapéu tibetano com pontas para cima aos tradicionais pastores que se revezam com suas vozes roucas divulgando onde estarão com suas reuniões milagrosas do poder pelos próximos dias. Este tal missionário cearense que parecia o Evo Morales em seus trajes cerimonialistas, que mais parecia um gárgula de filme de terror falava coisas desconexas para um público ainda mais estranho com seus roupões e suas fisionomias cansadas como de seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos. Ele pregava sobre o fim dos tempos, sobre o Anti-Cristo e de como a sociedade devia mudar, inclusive deixando de ser influenciada pela TV – mas ele mesmo estava se usando deste expediente para, como assim dizer, influenciar as pessoas. As imagens que mais pareciam ter sido gravadas em VHS com seus tons desbotados e falta de sincronização entre o som e o vídeo conseguiam transmitir o ambiente tosco e esquisito daquele lugar que se auto-denominava como sede mundial daquela igreja. Consegui ficar naquele canal por uns 20 minutos e depois fui obrigado a mudar assim que começaram os cânticos … a música era apresentada por uma senhora de 1,50m, vestida com uma túnica verde claro, coque no alto da cabeça, 8 dentes na boca e que entoava alguma coisa entre uma ladainha das carpideiras do Nordeste e o Hino da Harpa Cristã no ritmo das benzedeiras da região do Jequitinhonha, Minas Gerais.
Segui em meu propósito e mudando de canal me encontrei com uns bonecos gigantes, sem expressão facial, ou melhor, com seus rostos congelados, cabeças completamente desproporcionais, personagens estereotipados (o boneco negro era jogador de futebol e vestia amarelo com azul), se remexendo como se estivessem numa rave matinal ensandecida e frenética. Aqueles personagens deveriam animar as crianças … deveriam porque na verdade, causavam pânico! Chamei meu filho caçula pra dar seu veredicto e ele candidamente disse: Bonecos feios! Eles não mexem a cara não? Prefiro a Patrulha Canina! Em meio aos personagens tinha um boneco ‘adulto’ com terno e gravata, mega adequado ao universo infantil #sqn … o dito cujo mais parecia com aqueles bonecos gigantes do carnaval de Olinda … por mim já deu … muda de canal …
No canal seguinte voltamos ao script tradicional com um pastor, este já com um terno mais bem cortado, uma barba bem feita, dando todos os indicativos de que foi abençoado e prosperou acima dos demais. Este pastor começa a conclamar as pessoas a estarem com ele numa reunião onde “Os milagres vão acontecer! Quem bebe vai deixar de beber! Quem fuma vai deixar de fumar! Quem está falido, vai ver a maré mudar! Basta você ir na igreja XYZ que é onde o Deus Vivo está presente! Onde as coisas acontecem de verdade! E aí ele quebra tudo! Vou tentar ser o mais literal possível. “Aqui na igreja XYZ está a verdadeira unção. As outras podem te prometer um monte de bênçãos mas aqui na XYZ nós prometemos e cumprimos porque o nosso Deus não nos deixa na mão! A gente determina e ele cumpre!” Assim mesmo, como se Deus fosse apenas um mero atendente das vontades, caprichos e desejos dos líderes daquela determinada denominação. No fim, o mesmo pastor se dirige com voz grutural, gestos cênicos e muita emoção para conclamar a todos participarem da obra que não pode parar! Contribua através do Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Itaú, Santander, Rede Shop, Visa, CitiBank, carnê mensal, toalhinha ungida ou diretamente em uma de nossas filiais espalhadas por todo o país …
Comecei a sentir falta das notícias de assalto, sequestro, acidentes do Cidade Alerta e seus programas correlatos … corta pra 18!
Mas ainda tinha mais. Em outra troca à procura de novos canais, deparei-me com um canal voltado à juventude cristã. Que lindo! Ufa! Agora vai … teremos uma programação mais moderna, mais leve e dinâmica … na volta do intervalo vejo imagens do que deveria ser um congresso de jovens em alguma grande igreja de São Paulo. Os jovens presentes, todos, essencialmente TODOS vestidos com a mesma camiseta alusiva ao próprio congresso. Nada mais estranho do que ver jovens e adolescentes uniformizados! Mas ok, tudo bem … vamos seguir assistindo … no palco, 8 ou 10 meninas fazendo a coreografia de uma música do querido DJ PV que agora não me recordo mais qual seria, mas era do PV, sem dúvida. A coreografia era uma espécie de street dance ou algo do tipo. Como cada uma fazia num tempo próprio, não sei se seria uma coreografia com delay ou se era apenas falta de ensaio e sincronismo mesmo. Dei um tempo, fui até a cozinha pegar algo pra comer e quando retornei a coreografia havia acabado. Naquele momento, um jovem de seus 30 e poucos anos assumia o microfone e começava a pregar a respeito do papel do jovem na sociedade e sua relação com Deus. Completamente desconcertado o jovem pregador tentava de todas as formas manter um clima ameno, com piadinhas pra lá de sem graça, alguns trejeitos estranhos e colocações que pudessem trazer aquele texto bíblico para a realidade daqueles jovens. Quando a câmera focava os jovens, a impressão era de que estavam diante de um professor de física quântica tamanha a impressão de que ninguém estava entendendo absolutamente nada! Eu também não estava entendendo nada e depois de alguns minutos desliguei a TV e fui viver minha vida.
Por 3 dias seguidos fiz este exercício. Em um dia específico fiquei à cata de musicais nestes canais de TV e aí pude assistir também a alguns programas católicos. A experiência não foi das melhores. Vi uns grupos tocando uma espécie de axé com letras religiosas (devia ser por influência do carnaval), alguns padres cantando umas músicas de arranjos simples, quase uma toada e, no fim, vi um esforçado cantor tentando animar a plateia formada essencialmente por jovens de 60 a 70 anos. Como tenho conhecido cada vez mais o universo da música católica produzida no Brasil, reconheço que ali na TV não pude constatar o que há de melhor neste segmento. Artistas como Tony Allison, Rosa de Saron, Ziza Fernandes, Olivia Ferreira, Diego Fernandes e a novata Lucimare têm se esforçado (e conseguido!) em apresentar uma música católica de maior qualidade. No entanto, o que vemos habitualmente nos canais do segmento tem sido um desfile de qualidade duvidosa em se tratando de música.
Nesta busca por algo de qualidade, especialmente na área musical, assisti ao Caixa de Música, programa tradicional da Rede Novo Tempo. Entre um ou outro artista da própria gravadora da casa, pude conferir clipes de Os Arrais, Estêvão Queiroga, Felipe Valente, Deise Jacinto, Gabriel Iglesias … alguns nomes internacionais que eu nem conhecia, enfim, uma boa lufada de qualidade em meio ao desfile de musicais de gosto discutível. Respeitando a filosofia do canal, o senão fica apenas pela falta de alguns artistas de outras linhas na programação da emissora.
Como ainda insisti em seguir na minha campanha hercúlea enfrentando as programações religiosas na TV durante meu tempo de descanso, o destino me levou a mais um canal onde um tal pastor pregava sobre conceitos bíblicos, uma espécie de Escola Bíblica Dominical no ar … a questão nem consistia no conteúdo apresentado, mas na qualidade das imagens. Como na verdade a Palavra de Deus não muda, o tal pregador resolveu aproveitar seus vídeos gravados nos longínquos anos 80, com suas costeletas, gravatas enormes e grafismos psicodélicos. Era uma espécie assim de Túnel do Tempo … como o vintage está na moda, talvez esse programa retrô tenha seu charme … ou não.
No mais, muita campanha, muito sacrifício, muita toalha ungida, óleo ungido, sabonete ungido, símbolos da cultura judaica, danças estranhas, apelos por ofertas, sapatos de bico fino, gravatas espalhafatosas e lenços combinados, muito gel na cabeça, apelos por ofertas, camisas com marca de pizza embaixo do braço, interpretações estranhas da Bíblia, linguajar todo próprio criando quase um dialeto particular, apelos por ofertas, testemunhos, música incidental de terror e tensão, verdadeiros assassinatos à língua portuguesa, principalmente na concordância (como gostam de comer o “S”, oh Lord!), choros em demasia, relatos emocionantes, pregações exclusivamente sobre o Velho Testamento (não sei o que esta turma tem contra Jesus e o Novo Testamento!), teologias próprias, apelos por ofertas, música ruim, artistas sem expressão, clipes toscos (assisti um tiozão cantando para uma plateia especialmente formada por pessoas da terceira idade. Ele cantava uma canção num ritmo que tentava chegar a uma bachata ou algo mais latino. Talvez esta tenha sido a tentativa original. O tiozão parecia o boneco do posto se saracoteando num ritmo too próprio e estranho), vinhetas da década de 70, imagens amareladas e apelos por ofertas.
Ou seja, sinceramente acho que está tudo muito confuso. Há alguns anos atrás, um amigo me pediu algumas indicações de programa de TV ou mesmo alguma igreja para em palavras próprias: entender um pouco de Jesus. Pensei por alguns segundos e dei-lhe uma primeira dica: pra começar, não assista a nenhum destes programas da TV … esta dica eu dei já faz uns 7 a 8 anos e acho que se ele novamente me pedisse uma ajuda neste sentido, muito possivelmente minha resposta seria a mesma. Em minha modesta opinião, creio que teríamos um país muito melhor, muito mais justo, muito mais amoroso, ético, acolhedor, pacífico e humanizado se efetivamente a mensagem libertadora da graça de Jesus fosse pregada não só nos púlpitos das igrejas pelo país como também nas telas das TVs e mesmo pela web que cada vez assume mais papel de destaque dentro da comunicação de massa. Perde-se muito tempo em defesa das instituições, no levantamento de recursos e campanhas de arrecadação, na venda de produtos (outro dia cronometrei 18 minutos de ‘vendas’ num programa de 30 minutos de duração, ou seja, mais de 50% do tempo útil do programa) e, pasmem, na rixa entre esta ou aquela liderança, entre esta e aquela igreja. Isso é terrível, triste e melancólico!
Minha esperança e torcida é para que a comunicação no meio evangélico no Brasil seja transformada nos próximos anos. Que a qualidade seja uma busca incessante. Que a mensagem seja embasada na verdadeira e simples mensagem da Cruz. Que esta mensagem alcance e seja compreendida pelas pessoas. Que os interesses pessoais sejam sobrepostos pelo bem comum e maior. Que o Evangelho pregado em nosso país seja verdadeiramente a Boa Nova que muda a vida das pessoas e que influencie positivamente nossa sociedade como um todo.
Voltando ao Jornal Nacional em 3, 2, 1 …

Mauricio Soares, formado em Comunicação Social, bacharelado em Jornalismo e Propaganda & Publicidade, atuando há 28 anos no mercado gospel no Brasil e sobrevivente após algumas horas assistindo a programas religiosos na TV durante o feriado do Carnaval.

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Estava revendo alguns textos bem antigos publicados por aqui no Observatório Cristão e é bastante interessante constatar as mudanças ao longo destes últimos quase 9 anos de existência do blog. Algumas das dicas e análises que fizemos lá pelos idos de 2009 ou alguns anos à frente, soam hoje como informações paleolíticas, completamente defasadas, fora de contexto … ou seja, hoje são apenas instantâneos, fotos de um passado que aparentemente soam como longínquos mas que na verdade distam apenas alguns poucos anos.

As mudanças que vivenciamos e ainda convivemos neste momento atual são enormes, profundas e intensas. O que era importante alguns anos atrás, hoje soa como obsoleto ou desnecessário. O que antes sequer existia, hoje é fundamental, primordial, essencial. O mundo do entretenimento sofreu transformações radicais. O mercado fonográfico se reinventou e ganhou novos ares absolutamente alvissareiros, afinal durante mais de 20 anos a indústria da música em todo o mundo conviveu com o cataclisma da pirataria física, depois com a pirataria digital que assolou o mercado, provocou rupturas gigantescas, quebrou um monte de gravadoras, encerrou projetos. Especialmente neste período a indústria da música conviveu com o aposto, mercado em declínio, sempre citado em 10 de cada dez matérias publicadas na imprensa alusivas às gravadoras. E aí, eis que depois de anos e anos de queda, o mercado fonográfico voltou a crescer a partir de 2015, seguiu em alta em 2016 e certamente tem prognósticos muito positivos pelos anos seguintes.

Sempre gosto de citar que até alguns anos, no Brasil tínhamos cerca de 2 mil pontos de venda de discos no mercado gospel, entre livrarias, igrejas, sites, distribuidores, lojas de conveniência. Boa parte destas lojas encontravam-se nos grandes centros do país como Rio de Janeiro ou São Paulo. Em cidades do interior do país, encontrar uma loja com produtos evangélicos era um trabalho digno de um Indiana Jones, tamanha falta de opções. Pois bem, com as plataformas digitais, o mercado da música passa a contar não mais com poucos milhares de canais de consumo de música e sim com mais de 250 milhões de aparelhos celulares, outros tantos milhões de computadores com acesso à internet de qualidade, enfim, o consumo da música tornou-se global, democrático, portátil e muito mais ágil, afinal não se demoram dias até que o álbum chegue em rincões do sul ou norte do país, bastou que o conteúdo seja postado em alguma plataforma de audio ou video streaming para que imediatamente esteja disponível em todo o planeta.

Em minhas leituras do blog, deparei-me com um texto que listava algumas atitudes que certamente levariam o artista a ser um retumbante fracasso. O texto em questão era “Dicas Infalíveis para seu inSucesso” e ali eu dissecava sobre as várias atitudes que garantiriam ao artista-suicida um resultado catastrófico. Recentemente um jovem cantor me perguntou insistentemente sobre as 10 dicas para o sucesso e eu respondi-lhe muito tranquilamente que poderia listar várias atitudes que poderiam, juntas, transformar um projeto qualquer em sucesso, mas frisei que nem mesmo fazendo todas estas ações da melhor forma possível, eu teria condições de garantir o sucesso. O sucesso é intangível! Não se baseia em fórmulas! Mas é óbvio que algumas atitudes podem colaborar para uma melhor performance. De forma bem simples e direta resolvi elencar algumas dicas para os nossos 69 assíduos leitores do blog.

Em primeiro lugar, é importante que o artista entenda que a forma de pensar, agir e planejar hoje é completamente diferente de anos atrás. Não adianta se basear no sucesso de artistas que militavam na cena musical na década de 90 porque efetivamente hoje, nada do que eles fizeram no passado se aplicará nos dias atuais. Então, é fundamental trocar o ‘chip’ físico, analógico, pelo novo, digital.

E com isso, muita coisa muda também. Sai a necessidade de se apresentar ao mercado com um álbum completo de 14 faixas. Agora o artista precisa de uma única canção, também conhecido como “Single” ou um punhado de músicas, 3 ou até 5 faixas, o que chamamos de EP. A necessidade da versão em vídeo aumenta significativamente. Se antigamente o artista ou gravadora lançavam um clipe “da música de trabalho” apenas após meses e meses de lançamento do álbum, hoje em dia, o lançamento do Single é simultâneo à disponibilização de sua versão em vídeo. E, em muitos dos casos, a finalização do clipe irá inclusive determinar o melhor momento de lançamento da música. Ou seja, lançar uma canção sem vídeo é como comer macarrão sem molho … entendeu?

Entendendo que tudo é novo, partimos para as ações. O artista precisa ser usuário das plataformas de audio streaming. Não importa se você é habitué de novas tecnologias ou não, porque se você é do ramo da música e das artes, ter uma assinatura do Spotify, Deezer ou Apple Music, não é questão de luxo, mas de sobrevivência. Procure se tornar íntimo da plataforma de audio streaming de seu gosto assim como o Facebook ou o Instagram eram coisas que você não tinha intimidade alguma e tornaram-se tão próximos e vitais a ponto de você sofrer de crises de abstinência pela distância. Crie suas playlists. Conheça as ferramentas. Ambiente-se com as novidades. Confesso que hoje não consigo sequer me relacionar com um CD sabendo que aquele mesmo conteúdo está disponível na minha plataforma preferida.

É fundamental que o artista tenha uma assessoria de marketing digital. Antigamente (3 anos atrás) eu tinha muita dificuldade em indicar profissionais ou empresas de marketing digital para os artistas de nosso cast. Eram caros demais ou eram baratos demais e prestavam serviços de quinta categoria. Durante um bom tempo limitei-me a indicar uma única empresa. Só que hoje em dia esta situação mudou, para alívio dos artistas e da própria gravadora que hoje consegue desenvolver projetos e campanhas em parceria com as assessorias dos artistas. Felizmente já tenho entre 5 a 8 empresas para indicar nesta área, cada qual com uma performance, preço de investimento e foco muito distinto.

Semanalmente recebo 10, 15 contatos de artistas querendo ingressar no cast de nossa empresa. Especialmente neste momento em que as gravadoras desenvolvem seus labels digitais como incubadoras de jovens artistas, a demanda de artistas é enorme. E confesso que mesmo artistas de reconhecido talento e até com algum nome no mercado, quando nos procuram e estes não possuem uma mínima estrutura de marketing digital por detrás, o interesse da gravadora praticamente é desfeito. Em contrapartida, se um artista chega na gravadora para apresentar seu projeto e já vem acompanhado de números digitais relevantes e de uma assessoria de marketing digital, o tratamento é completamente outro. Fique ligado nesta questão!

Outra atitude importante é o artista ser intenso nas redes sociais divulgando não aquele prato de camarão internacional do Coco Bambu (olha o merchan aí pessoal!) na orla de Fortaleza, mas sua agenda e principalmente suas canções e conteúdos nas plataformas de audio streaming. Se até bem pouco atrás os artistas concorriam entre si para ver quem tinha maior número de seguidores na fanpage, Instagram ou Twitter, hoje em dia o importante é buscar aumentar o número de seguidores nas plataformas de video e audio. É inconcebível um artista de 3 milhões de seguidores no Facebook e minguados 10 mil seguidores no seu canal oficial de vídeos. Desastre total! Ou o artista ter 500 mil seguidores no Twitter e seus vídeos não passarem de 1 milhão de visualizações e suas playlists sequer terem seguidores ou uma quantidade consistente de streamings. Que fique bem claro! O que importa são os números de visualizações de vídeos e o número de vezes que as pessoas ouvirão suas músicas nas plataformas como Spotify, Deezer e AppleMusic. Agora é a hora dos milhões de acessos, em contraponto aos milhares de discos … compreende?

No momento vou parando por aqui. Espero retornar com conteúdo inédito nos próximos dias. O exercício de escrever no blog deve ser natural, mas de vez em quando preciso dar uma ‘forçada’ como fiz hoje após semanas de ócio criativo. Espero que a criatividade chegue com força em breve. Obrigado por sua companhia.

Mauricio Soares, sobrevivente do mercado fonográfico e gospel completando 28 anos de atuação no segmento. Um verdadeiro Highlander …jornalista, publicitário, consultor, palestrante e tricolor!

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Ecad ganha ação contra a OI FM que contestava a cobrança de direitos autorais de execução pública por músicas veiculadas no ambiente digital

O julgamento da ação movida pelo Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) contra a OI FM teve seu encerramento ontem (08/02) no Superior Tribunal de Justiça. A ação corria na 2ª seção do STJ e o Ecad saiu vitorioso com ampla vantagem: 8 votos a 1. A vitória do escritório central gera novas (e boas) perspectivas para a cobrança de direitos autorais de execução pública no ambiente digital. A decisão concluiu que a transmissão de músicas por ‘webcasting’, ‘simulcasting’, ‘streaming’ e ‘streaming interativo’ encontram-se integradas ao conceito de execução púbica definido pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/98), sendo devida a cobrança por parte do Ecad. O escritório representa milhares de autores, músicos, intérpretes, produtores e editores.

Outros usuários, como Napster, Deezer, Google, You Tube, também não têm realizado o pagamento dos direitos de execução pública por falta deste entendimento, mas, agora, com a orientação do STJ, não poderão resistir ou protelar o reconhecimento dos direitos autorais. A expectativa é que a decisão de ontem contribua para o fim desta questão, pacifique o mercado digital e acabe com a aflição (e dor de cabeça) dos titulares de direitos autorais que não veem seus rendimentos chegarem por falta de pagamento por parte destes usuários. A decisão também deve aumentar significativamente a receita da arrecadação no ambiente digital, setor que vêm a cada ano crescendo em faturamento e audiência.

O julgamento corria no tribunal desde 2015 e estava parado desde o dia 9 de novembro de 2016 quando o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva pediu ‘vista’ (pedido de um tempo a mais para julgar) do processo.

Veja abaixo o que é cada modalidade de transmissão via internet:

Webcasting: Transmissão de áudio ou vídeo pela internet via streaming. Deriva do termo ‘broadcasting’, algo como ‘transmissão de radiodifusão’ na língua portuguesa

Streaming: Vídeo ou áudio transmitido através da internet em que o arquivo fica armazenado na ‘nuvem’ sem a necessidade de realizar download para consumir o conteúdo. O termo ‘streaming interativo’ é aplicado para definir plataformas como Deezer e Spotify que permite o público escolher quando e qual o conteúdo deseja consumir.

Simulcasting: Quando o conteúdo é transmitido por emissora de televisão ou rádio em simultâneo com aplicativo ou site da internet. ”

Fonte: UBC

Começo a escrever este texto logo nos primeiros minutos de vôo entre Rio de Janeiro e Salvador. Tudo indica que será minha última viagem de 2016, num ano em que fiz muitos giros internacionais e dezenas de deslocamentos pelo Brasil. E como sempre, aproveito estes minutos, às vezes horas de vôo para colocar em dia os textos publicados para deleite dos 69 assíduos, abnegados, fiéis, companheiros e atentos leitores deste blog. Ano que vem completaremos 10 anos de existência deste blog e é impressionante como algo que começou de forma absolutamente despretensiosa segue da mesma forma tempos depois, afinal – faço questão de sempre repetir – este projeto é apenas um agradável hobby onde me divirto a cada texto publicado e principalmente pelo feedback que recebo de tantas e tantas pessoas pelo país e até do exterior, que incluem-se como um dos nossos 69 leitores.

Todo fim de ano começam a pintar as listas de fatos e acontecimentos de destaque naquele período. Dizem por aí que o ano de 2016 foi tão intenso de catástrofes, escândalos, mortes, acidentes, fatos marcantes na política e na economia, Lava Jato, prisão de celebridades do cacife do ex-governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral e empresarial, entre outros assuntos, que o programa de restropectiva da Globo irá começar neste ano e acabar lá por dia 2 ou 3 de janeiro somente. E como tenho feito por alguns anos, resolvi elencar alguns fatos que, em minha opinião, merecem destaque no blog no ano de 2016. Irei listar alguns destes acontecimentos, deixando claro que não seguirei uma ordem de importância ou relevância e como não anotei numa folha nada do que irei pontuar nesta lista, vou crer apenas em minha mente … o que ultimamente e pelo avançado da idade, pode falhar e me causar alguma falha de mérito.

Em primeiro lugar, acho que não poderia começar a lista sem falar de algo que tem se tornado tema recorrente em meu dia a dia, em minhas conversas, palestras e, principalmente, nos textos publicados por aqui no blog. Definitivamente vivenciamos a transição do formato físico para o digital no mercado da música gospel no Brasil. Acho que 2015 tivemos a consolidação do mercado digital no Brasil como um todo e, o ano seguinte foi especialmente de transição para o segmento gospel tupiniquim. Creio que 2016 foi o ano do entendimento deste novo momento do mercado da música entre os artistas e principalmente público consumidor. Palavras como streaming, playlist, Spotify, Deezer, passaram a fazer parte do vocabulário e principalmente do dia a dia das pessoas do segmento gospel no Brasil. Não por coincidência, dias atrás o Spotify em seu site de notícias publicou um balanço de atividades em 2016 e entre o ranking de 10 gêneros musicais de maior crescimento na plataforma durante o ano, a ”Brazilian Gospel Music” apareceu na nona posição no mundo todo! Isto é incrível e merece ser aplaudido de pé, igreja! Definitivamente vivenciamos um novo momento para a música gospel e em 2016, me parece que todos acordaram para esta nova realidade!

Outra novidade que parece ter chegado com força a partir deste ano foi a mudança na mentalidade de artistas, produtores de eventos e público. Sim! O ano de 2016 vai ser conhecido pela expansão da música gospel para fora das quatro paredes das igrejas e invadindo casas de espetáculos e teatros pelo Brasil. Na história da música gospel jamais tivemos tantas turnês, shows, atividades em teatros, tradicionais casas de eventos e até mesmo lugares inusitados como hamburguerias e parques pelo país. Artistas como Marcela Taís, Leonardo Gonçalves, Resgate, Tanlan, Cristina Mel, Paulo César Baruk, Priscilla Alcântara, Pamela, Estêvão Queiroga e o projeto Loop Session, lotaram teatros e casas de shows em diferentes cidades do Brasil. Isto mostra uma saudável tendência de valorização do público ao trabalho do artista. Também mostra uma mudança de mentalidade por parte dos artistas querendo oferecer ao público algo mais bem acabado, melhor elaborado e que seja também uma saudável modalidade de entretenimento cristão. Para representar esta nova fase, posso destacar os 33 shows em teatros e casas de espetáculos da turnê “Princípio”, protagonizada pelo talentoso Leonardo Gonçalves e sua magnífica banda, muitos com ingressos esgotados e sessões extras. Os últimos shows desta turnê reuniram quase 8 mil pessoas no Rio de Janeiro, com shows Sold Out no Teatro Bradesco e VIVO RIO.

Este ano será lembrado (pelo menos para mim!) pelos projetos fantásticos de Deise Jacinto, Estêvão Queiroga, Alexandre Magnani e uma turma que está chegando ao mainstream nos apresentando uma música de muita qualidade!

Seguindo com nossa lista e voltando ao tema ‘digital’ acho que vale a pena o registro sobre a mudança de atitude dos players deste mercado perante o mercado gospel. Hoje quando se fala de música gospel junto às plataformas digitais, a reação não é mais de nariz torcido ou aquele semblante de ‘cara de paisagem’ esperando que se mude de assunto. Não mais! O que observamos é uma atenção, um interesse e principalmente uma atitude pró-ativa querendo trabalhar em conjunto pelos melhores resultados. Acho que em 2016 tivemos a consolidação da presença do conteúdo cristão nas plataformas, especialmente Deezer – que conta com o primeiro curador de música gospel em sua equipe – e o Spotify que não tem medido esforços para ampliar o alcance dos artistas e seus respectivos conteúdos no meio digital.

Em termos artísticos, ninguém tira dois nomes entre os de maior destaque no ano. É óbvio que Leonardo Gonçalves tornou-se, ou melhor, consolidou-se como o maior nome do meio gospel no Brasil, inclusive ultrapassando as fronteiras e já conquistando espaço na América Latina, mas este processo vem sendo fortalecido nos últimos 3 anos em especial e acredito que 2016 foi só a ‘cereja do bolo’. No entanto, quem cresceu vertiginosamente neste ano, em minha opinião (irei sempre reforçar que este texto se trata de algo pessoal, isento de maiores dados ou pesquisas, é minha percepção e pronto!) foram Gabriela Rocha e a turma do Preto no Branco. A primeira, jovem talentosíssima e com um carisma impressionante. Ninguém passa incólume a uma ministração de Gabriela Rocha … não mesmo! E a pequena e intensa cantora que não pára nunca no palco, começou o ano gravando seu primeiro DVD e termina 2016 justamente lançando este trabalho depois de meses de espera do público. Enquanto isso, Gabi trabalhou e trabalhou muito, chegando a ter 20 apresentações por mês, algo incrível num ano de tantas crises e dificuldades no nosso país. Para mim, Gabriela Rocha tornou-se em 2016 a mais destacada cantora de música gospel no país e, em especial, a principal ‘ministra de louvor’ do meio cristão, posto que já foi ocupado por gente do quilate de Ana Paula Valadão, Ludmila Ferber, Nívea Soares, só pra sentir como esta mocinha no auge de seus poucos 20 anos conseguiu progredir em sua carreira nos últimos anos! O outro artista que quero incluir entre os destaques deste ano é o Preto no Branco, que em 27 anos de mercado que tenho, deve assumir seguramente a posição de projeto de crescimento mais meteórico com que tive contato. Em pouco mais de 1 ano, o Brasil inteiro, crente ou ateu, cristão ou secular, conheceu e cantou as músicas do Preto no Branco. A turma chegou a ter 23 apresentações em 26 dias de turnê pelo país e por onde passaram colocou todo mundo pra dançar, cantar e se emocionar. Impressionante mesmo! Coincidência ou não, tanto Preto no Branco como Gabriela Rocha, fecham o ano sendo os 2 artistas de maior visibilidade nas plataformas YouTube/VEVO entre todos os artistas do segmento no Brasil, ambos superaram 100 milhões de views em seus canais de vídeo. Sucesso absoluto!

Ainda no tema ‘música’ creio que em 2016 vivenciamos uma democratização nos estilos musicais dentro do cenário artístico gospel. Este fato deve-se muito mais à popularização do consumo de música através dos meios digitais do que propriamente a um boom criativo no segmento. Tempos atrás, onde o CD e DVD ditavam as regras do mercado fonográfico, especialmente no meio gospel, as gravadoras optavam por poucos nomes, poucos estilos. Tínhamos uma limitação entre os estilos pop e pentecostal, os mais vendáveis até então. Esta padronização em função de interesses comerciais limitava o surgimento de novos artistas e principalmente de novos estilos. Com a chegada do digital, novos artistas passaram a se destacar e com eles, uma nova modalidade de estilos musicais. Na época dos CDs, dificilmente artistas como Os Arrais, Deise Jacinto, DJ PV, Paulo Nazareth, Gerson Borges, teriam espaço em gravadoras do mainstream. Pois bem, agora não só estes artistas e suas propostas musicais estão ao alcance de qualquer pessoa, como efetivamente tornaram-se importantes dentro deste novo contexto.

Quando em 2015 lançamos o projeto Sony Music Live muita gente ficou sem entender muito bem a proposta daqueles vídeos semanais com diferentes artistas, em diferentes cenários e locações, com produções simples (não simplórias!) porém chiques … de verdade, recebi alguns questionamentos sobre a estratégia e expectativa daquele projeto. Passados 2 anos e mais de 150 milhões de views depois, inclusive incluindo conteúdos de música secular ao projeto, percebemos claramente uma tendência entre gravadoras e artistas no mundinho gospel. O ano de 2016 foi uma profusão de live sessions, algumas nem tão live assim … mas que efetivamente consolidaram o projeto piloto lançado pela área do A&R Gospel da Sony Music e criaram toda uma cultura de conteúdo de vídeo para não só divulgar o artista e seu trabalho, mas principalmente abrir uma nova fonte de receita para artistas e gravadoras.

Por falar em vídeo, destaque para o clipe ‘Jeremias’ do Gabriel Iglesias … top das galáxias! E o recém lançado clipe de Priscilla Alcântara, “Sou Escolhido”, dirigido por Hugo Pessoa e que em pouco menos de 48h no ar passou de 250 mil visualizações. Entre os Lyric Videos, vale conferir os materiais produzidos pela Deise Jacinto e a banda Tanlan.

Especialmente no fim deste ano, observei que tivemos várias premiações destacando artistas de música gospel entre sites, blogs e eventos como o Troféu Ouro e o mais recente, Troféu Gerando Salvação. Temos o tradicional Grammy Latino, na categoria ‘música cristã em língua portuguesa’, que me parece algo completamente distante da realidade do que acontece em nosso meio com suas escolhas estapafúrdias, desconexas com a realidade e absolutamente sem critério … sobre este prêmio prefiro nem tecer muitos comentários a respeito. Verdadeiramente sinto falta de uma premiação que seja no mínimo criteriosa, porque no fim das contas, justiça não chega a ser um componente muito presente em questões subjetivas. A boa notícia, dada por quem esteve presente ao evento (infelizmente não pude ir!), é de que o Troféu Gerando Salvação teve uma produção impecável, uma noite mesmo muito especial. Espero que em 2017 este prêmio se consolide e que seja mais reconhecido por todos do segmento e público.

Em termos de mídia, especialmente, rádio, a medalha de honra ao mérito vai para a Rádio Melodia 97,5 FM que chega ao fim de 2016 consolidada na liderança entre as emissoras do Rio de Janeiro e entre as 3 mais importantes em todo o país. Congratulations!

Já entre resultados de vendas, “Obra Prima”, novo projeto de Damares, fechou o ano na liderança de vendas do mercado com mais de 60 mil cópias vendidas. Importante salientar que Damares também se destaca como a artista gospel brasileira com maior número de assinantes dos serviços de ring back tone, algo em torno de 1,6 milhão de inscritos. Ainda sobre números, Leonardo Gonçalves se firma como artista gospel brasileiro com maior relevância nas plataformas de audio streaming possuindo, apenas no Spotify, mais de 320 mil playlists no mundo, com ao menos uma música sua inserida. Entre as músicas mais executadas e ouvidas nas rádios e plataformas de audio streaming, destaque para “Ninguém Explica Deus” com Preto no Branco e participação de Gabriela Rocha, sem dúvida, a grande canção de 2016.

Já vou finalizando este texto. Para aqueles que consideraram os destaques muito chapa-branca, muito relacionados ao cast ou projetos da gravadora na qual trabalho, o que posso afirmar em minha auto-defesa é que quem discordar, basta elaborar sua própria lista. Este blog sempre foi um espaço bem personalista, pessoal, quase confessional … e de forma muito leve e tranquila, acredito piamente em todos estes destaques que listei acima. Talvez tenha falhado deixando algo ou alguém de fora, mas também a respeito disso já adiantei logo nas primeiras linhas que esta lista era algo feito ‘de cabeça’, sem maiores estudos, pesquisas ou qualquer aprofundamento técnico.

O ano que parece não querer acabar, no campo pessoal foi muito difícil para mim. Tive a perda doída (como me faz falta!) de meu pai no início do ano e isso repercutiu muito ao longo de 2016, inclusive me fazendo rever e repensar algumas atitudes e prioridades. Mas também tive grandes conquistas e em especial, o início das atividades do projeto de música cristã junto à Sony Music México seguindo por completo o modelo do projeto que implantamos por aqui no Brasil. Tive oportunidade de fazer muitas viagens internacionais, inúmeras nacionais (muitas mesmo!) … conheci muita gente interessante, trabalhamos demais (como sempre!), encontramos artistas fantásticos, aprendemos muito, dividimos nosso conhecimento e chegamos ao fim do ano completamente no limite das forças físicas. Mas agradeço imensamente a Deus por ter me sustentado até aqui e por ele insistir em usar uma pessoa tão imperfeita pra trabalhar em seu Reino e realizar coisas tão grandes. Não poderia finalizar este texto, sentado no saguão do aeroporto de Salvador, retornando para casa em pleno domingo, em minha última viagem a trabalho de 2016 recordando-me (e ouvindo) a canção “Princípio e Fim” com Leonardo Gonçalves.

“Quando penso em desistir, lembro que Você, insistiu em mim”

Que venha o novo ano … e com ele melhores notícias para o povo brasileiro, porque confesso que foi difícil aturar 2016 com tantas notícias ruins …

Mauricio Soares, jornalista, pai, esposo, publicitário e um brasileiro que não desiste quase nunca!