Casa dos Artistas

Já faz um bom tempo em que não dedico alguns minutos de meu dia para escrever alguma coisa para o blog. Na verdade, não me faltam desculpas para essa enorme falta de novidades por aqui. A primeira que me vem à cabeça é justamente a mais usual, ou seja, absoluta falta de tempo em meio a tantos e tantos compromissos. Realmente meu dia a dia não é dos mais tranquilos. Recebo algumas centenas de e-mails por dia, dezenas de ligações, tendo que atender artistas, produtores, mídias, negociar contratações, elaborar planos estratégicos, viajar … e ainda, estar atento a todo o desenvolvimento de meu projeto departamental. Aliado a isso, ainda preciso dar a devida e merecida atenção à minha família, amigos, saúde … e pra falar a verdade, depois de elencar tantas e tantas atividades, nem eu sei como dou conta que tantas atividades simultâneas e tão importantes.

E entre tantas atribuições, a labuta em escrever alguns textos criativos, inéditos, pertinentes para o blog torna-se algo absolutamente escasso e muito difícil. Sou um auto-crítico ferrenho, destes que não se permite escrever e postar qualquer coisa pelo simples fato de ter que manter o Observatório Cristão sempre na ativa. Acho que pela qualidade e credibilidade do blog adquirido nos últimos 4 anos, não posso simplesmente escrever qualquer coisa e publicar, por respeito ao blog, à minha pessoa e aos meus leitores, que neste momento não creio mais que sejam 2 ou 3 insistentes personagens.

Como boa parte de meus textos, este post está sendo escrito em meio a uma ponte aérea Rio-São Paulo. O tempo de viagem é curto, mas sempre é um momento em que eu gosto de exercitar minha verve literária. É mais um passatempo do que qualquer outra coisa! Muitas das vezes, escrevo durante um vôo e deixo o texto ali arquivado, esperando que um dia eu retorne a burilá-lo com mais carinho e atenção.

Há algumas semanas atrás estive participando de uma convenção com profissionais de diversos países. Sem dúvida, para mim estas convenções são momentos de intenso aprendizado. Por mais exaustivo que seja e, realmente é uma maratona desgastante por 5 dias, a oportunidade ali apresentada é tão especial que jamais considero a possibilidade de não marcar presença nestes eventos. Neste ano, uma expressão foi bastante repetida durante esta convenção. Por muitas vezes ouvi que a gravadora deve ser “a casa dos artistas”. Longe de manter qualquer relação com o programa de TV que confinava alguns artistas, sub celebridades e pessoas esquisitas num mesmo ambiente, esta expressão significa manter uma relação próxima e intensa com os artistas que fazem parte do cast da gravadora. Essa relação deve ser pautada pelo respeito, pela proximidade, pela clareza nos objetivos, pela troca constante de idéias e informações.

Esta expressão nos traz mais uma vez uma mudança na mentalidade da indústria fonográfica. Se antes havia uma camaradagem entre os profissionais das gravadoras e os artistas, também havia uma desmedida postura de paparicos, desmandos, desperdícios. E todo esse descontrole, acabou por criar uma política onde as gravadoras deixaram de fazer cálculos e o céu, literalmente tornou-se o limite. Clipes com orçamentos de milhões de dólares, custos de gravação estratosféricos, adiantamentos irrecuperáveis … em suma, era uma época da “casa da mãe Joana” – não me pergunte quem era essa tal de Joana, mas certamente devia ser alguém não muito organizada ou controlada. E todo este descontrole acabou criando dificuldades para a indústria na época das vacas magras, com a pirataria detonando as vendas onde arautos do apocalipse chegaram a anunciar o fim do mercado fonográfico.

O que percebemos claramente é que a indústria percebeu o erro de rota e, conscientemente ou não, mudanças sensíveis foram implementadas e hoje, depois de decretada a morte do mercado fonográfico, vemos o ressurgimento como a mítica Íbis em meio ao caos, das gravadoras e do segmento em si. E entre estas alterações, sem dúvida, podemos destacar a mudança de mentalidade e postura por parte dos executivos das grandes gravadoras mundiais e consequentemente, de boa parte dos artistas e seus managers. O conceito de ‘ganha-ganha’ se tornou mais habitual, onde as gravadoras se beneficiam e os artistas idem num maior equilíbrio de responsabilidades. Se antigamente as gravadoras tinham uma postura paternalista de bancar todos os investimentos, hoje em dia, esta tarefa está bem dividida entre o artista, o empresário e a gravadora.

Por mais que a expressão “casa dos artistas” tem sido algo novo para mim, posso afirmar que boa parte desta estratégia , de forma espontânea ou inconsciente, tem sido trabalhado por mim faz alguns anos. Sempre procurei trazer para minha relação com os artistas uma leveza e cumplicidade que para alguns chega a surpreender. Como estou nesse mercado há 24 anos, posso dizer que já trabalhei com praticamente todo perfil de artista. Tive oportunidade de trabalhar com jovens talentos, algumas divas, grandes nomes, artistas em busca de uma nova guinada em suas carreiras, ex-artistas-seculares-convertidos … cada qual de um jeito bem peculiar. E sem medo de errar, raríssimas foram as vezes em que precisei exercer minha hierarquia.

O que eu percebo, especialmente em se tratando de mercado gospel tupiniquim, é que esta estratégia de trabalhar lado a lado com o artista precisa ser melhor implantada. Vejo que alguns artistas ainda não sabem lidar com suas novas responsabilidades esperando que a sua gravadora assuma atribuições que hoje em dia não existem mais. Já citei antes, mas cabe a repetição pela situação esdrúxula que vivenciei alguns anos atrás. Uma determinada artista sugeriu que a gravadora bancasse a festa de aniversário de sua mãe porque em outra gravadora isso era pra lá de normal … parece piada, mas não é!

Em um próximo texto que estarei publicando por aqui falarei do novo conceito no mercado fonográfico e certamente irei dissecar um pouco mais sobre estas recentes mudanças de mentalidade, mas finalizando este meu texto, gostaria de concluir que nenhum artista deve aceitar uma postura tirânica por parte de sua gravadora. Soube dias atrás de um grupo que está esperando o OK do supremo líder de sua gravadora há pelo menos 3 meses … logo me vem a imagem de César com o polegar pra baixo ou pra cima decidindo entre a vida e a morte dos gladiadores … isso é poder demais!!!!!! Outro dia conversando com uma cantora ela me disse que até achava engraçado a forma nada convencional que uma determinada empresa tratava seus artistas, sempre com muita tensão e pressão, gritos e outros métodos nada ortodoxos. Com muita franqueza, retruquei que não via graça nenhuma em ser tratado de forma agressiva e obsessiva, afinal já não estamos vivendo nos anos de chumbo do regime militar.

Pra concluir, já que o piloto iniciou o procedimento de descida. Os artistas precisam entender que as coisas mudaram. Não podem esperar mais uma postura paternalista por parte de suas gravadoras. A hora agora é de arregaçar as mangas e juntos buscarem os melhores resultados. De outra forma, as gravadoras precisam estimular uma maior participação de seus artistas nos processos. Precisam criar um relacionamento mais saudável com seus artistas e assim, alcançar novos objetivos de forma mais eficaz. Estamos todos na mesma trincheira, vamos para a batalha juntos!

Opa! Já está na hora de desligar o computador! Até um próximo texto, bye!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que tem ouvido bastante o CD do André e Felipe (momento merchan)

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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