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Diariamente recebo em média 250 emails sobre os mais variados assuntos. E engana-se quem imagina que este fluxo diminui nos fins de semana e feriados. Pelo contrário, muitas das vezes justamente neste período minha caixa postal transborda com mais de 350 mensagens. E como tenho algum TOC – transtorno obsessivo compulsivo – algo não me permite desligar o computador após um dia de intenso trabalho sem ao menos dar uma olhada em todos os emails, a simples informação de que alguma mensagem recebida ainda nào foi devidamente lida, não me permito simplesmente deixar para o dia seguinte e desligar meu computador. Tenho uma estranha sensaçào de tarefa não concluída, o que não faz bem algum à minha mente. Tudo bem, estou confessando algum problema que carece de um estudo mais aprofundado, uma terapia talvez, mas enquanto não corro à procura de ajuda especializada sigo nesta neurótica atitude de zerar sempre minha caixa de entrada.

E entre tantas e tantas mensagens importantes, informações, negociações, apresentações, tarefas do cotidiano de um diretor A&R de uma gravadora multinacional, alguns emails me chamam a atenção e muitas das vezes, posso até confessar, que servem como um momento refrescante e relaxante no melhor estilo non sense, ou num bom português, sem noção alguma!!! Nos últimos 2 meses criei no meu Outlook uma pasta especial e coloquei o nome de Absurdos/Blog. Todos estes emails hilários, com mensagens estapafúrdias, inocentes, desprovidas de qualquer noção do que estão pedindo ou informando, resolvi redirecionar para esta pasta. A partir de agora vou apresentar aos meus seletos 66 leitores do blog alguns destes emails especial e criteriosamente pinçados para uma análise mais apurada.

“Sei que ninguém vai dar a devida atenção, mas …” – é o email profético, realmente com essa introdução nunca consigo ler mais do que alguns segundos … geralmente esses emails são direcionados para centenas e centenas de pessoas, muitas das quais em cópia aberta. Pela ausência de resultado e comentários, acredito que geralmente ninguém dá mesmo atenção.

“Minha esposa é levita há 19 anos, tem 12 discos gravados e é um sucesso aqui em Palmeira das Missões …” – definitivamente uma artista com muito tempo de estrada, tantos projetos gravados e que é sucesso num raio de míseros quilômetros, das duas uma: ou é alguém que se contenta com pouco e foca somente em cantar para os vizinhos ou não tem o menor apelo além do próprio quarteirão. Especialmente gravadoras estão focadas em jovens artistas, gente com enorme potencial de crescimento e hoje em dia, com muita adequação ao formato digital.

“Vocês precisam conhecer! Não deixem esse sucesso passar pelas suas mãos!” – este tipo de mensagem é mais recorrente do que se possa imaginar. A impressão é de que estamos diante de um novo Thalles que só precisa de um leve empurraozinho pra deslanchar de vez! Aquele ditado gauchesco do cavalo que passa encilhado e que você deve montar adequa-se a este tipo de mensagem. Confesso que também não dou muita atenção a este tipo de mensagem mesmo sendo alguém que está sempre à procura de novidades. Então, nestes casos, o melhor mesmo é deixar o cavalo correndo livremente pelo pasto …

“Eu quero informações de como faço pra gravar com vocês. Preciso analisar todas as possibilidades …” – outro típico contato sem noção em grau extremo! A impressão é de que o postulante a astro intergaláctico está sendo disputado por todas as gravadoras e cabe a ele, somente a ele, optar por esta ou aquela proposta. Muitas das vezes estas mensagens são acompanhadas de relatos emocionantes mostrando o que o artista vem conquistando nos últimos meses numa carreira meteórica.

“Quero um orçamento para gravar 10 músicas e ser contratado por vocês!” – uma subdivisão da mensagem “sem noção, onde estou? é pra comer ou pra beber?” é quando um incauto nos procura como se fôssemos um estúdio ou mesmo aquele tipo de gravadora que grava, distribui, lava e passa … antes de se enviar um email é fundamental ao menos pesquisar antes com quem se está falando. É o mínimo, não?

“O lançamento mais aguardado do ano!” – aguardado por quem cara-pálida? Se tem uma coisa que não curto são frases de efeito, hiperbolizadas, querendo trazer uma grandiosidade que definitivamente não existe. Coisas como “o maior nome”, “a grande revelação”, “ o mais espetacular da América Latina” só servem para diminuir o projeto em si. Quem é importante não precisa ficar se auto-elogiando o tempo todo.

“Tenho uma promessa e sei que ela vai se cumprir, você apenas precisa me dar uma oportunidade. Não irá se arrepender!” – nestes casos o apelo espiritual é latente! E você como diretor artístico não pode ser uma pedra de tropeço para que o prometido tenha acesso à sua ‘bença’ … se Ele prometeu, então é melhor que você pare tudo pra fazer parte da vitóóóóóória … é pra aplaudir de pé igreiiiixaaaaaa … Nestas horas você não tem nem muito o que dizer, simplesmente entender que se é promessa, Ele também vai mover terra e céu pra coisa acontecer. Mas isso tudo só se realiza com muita paz e convicção, não dá pra sair acreditando em tudo quanto é promessa porque senão aí a coisa fica feia pro seu lado!

“Sei que seu tempo é muito precioso, mas poderia assistir aos meus vídeos e me retornar dando suas impressões. Se possível, me ligue em horário comercial” – ao fim da mensagem links e mais links de apresentações em igrejas com aquela câmera tremendo, ângulos tortos e som pavoroso. Além disso, fotos e mais fotos, links de áudio e a carta de recomendação do pastor-presidente do campo … o mais surreal é a expectativa do dito cujo de que alguém irá pegar o telefone e falar sobre tudo o que foi ali apresentado.

“Tenho uma irmazinha na igreja em que congrego que ela canta demais! Você precisa conhecê-la!” – Não! Não preciso conhecer até porque se fosse a todos os cultos onde tem gente cantando bem, minha mulher e meus filhos me abandonariam … o meio gospel é pródigo em talentos! Pra chamar a atenção de uma gravadora cada vez mais o artista precisa estar com um caminho já iniciado. A história de gente cantando na igreja sendo descoberta e investida por uma gravadora hoje em dia simplesmente não existe!

“Quero muito louvar a Deus. Por favor, acredite e invista em mim para gravar um CD. Tenho um chamado para as nações!” – não confunda louvar a Deus e ter uma carreira artística. Louvar a Deus todos devemos, mas poucos são os que têm realmente condições de seguir numa carreira artística. Não confunda alhos e bugalhos como dizia meu avô! E na verdade, boa parte dos que dizem ter um chamado na verdade mesmo quer é viajar, tirar fotos, se apresentar aqui e ali … o duro é ter que trazer à realidade essa turminha que gosta de se iludir, mas posso assegurar que esta é uma das especialidades da casa … sempre às ordens!

Vou ficando por aqui. Infelizmente ainda tenho muitos outros exemplos de mensagens deste naipe chegando diariamente em nossos canais de contato. Se antigamente os profissionais de gravadoras eram abordados somente pessoalmente ou através de cartas, com o avanço da web e das plataformas sociais, essa distância praticamente sumiu. Em muitos casos esta facilidade ajudou bastante aos profissionais, já por outro lado, permitiu que qualquer um se sinta motivado a mandar sua mensagem, opiniões e pedidos. Coisas da modernidade!

Nos próximos dias teremos muitos textos inéditos no blog, pois a viagem até Fortaleza mostrou-se pródiga em insights, boas ideias e temas.

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, torcedor do Fluminense, longânimo, alguém com o hábito de contar até 1 milhão antes de pular no pescoço alheio, tudo bem que às vezes a contagem é reduzida …

Conversando dias atrás com o produtor Dudu Borges, considerado hoje o melhor profissional em sua área no segmento sertanejo, falamos sobre a realidade do mercado gospel. Para quem não sabe, Dudu Borges fez parte da banda Resgate, inclusive produzindo o clássico disco “Ainda Não é o Último”, o primeiro projeto lançado pela Sony Music no projeto gospel. Na área sertaneja, Dudu é responsável pelos últimos grandes hits aferidos pela Crowley nos últimos anos como “Chora Me Liga” da dupla João Bosco e Vinícius, “Ai Se Eu Te Pego” com Michel Telló, sucessos de Luan Santana, do recente fenômeno Lucas Lucco e de outra dezena de artistas do gênero. Ou seja, Borges é sem dúvida, o “cara” do sertanejo e merece todo o sucesso!

Mas voltando ao nosso bate papo pelos corredores da gravadora, Dudu questionava o porquê da música gospel ainda não ter se consolidado no cenário nacional, especialmente em relação às grandes festividades de prefeituras e feiras agropecuárias. Tentei justificar com alguns aspectos e no fim chegamos à conclusão de que ainda temos barreiras a vencer pela frente e outros ajustes para fazer no âmbito interno.

É com base neste papo descompromissado que seguirei de agora em diante neste post. Na verdade irei juntar algumas questões mencionadas neste encontro com outras observações que venho tendo nos últimos meses. Então, nas próximas linhas faremos uma pequena dissertação sobre os desafios que a música gospel tem pela frente no país. Espero que eu consiga ter a devida atenção dos meus 66 leitores fiéis (ou não!?!?!?!) daqui em diante.

É inegável que o boom da música gospel na TV brasileira aconteceu entre os anos de 2011 e 2012 e que no ano seguinte observamos uma forte retração ao segmento. Se formos analisar e relembrar, inúmeros artistas gospel povoaram os programas da TV brasileira numa frequência jamais alcançada até então nestes anos recentes. Chegamos a ter determinados dias com artistas gospel participando em programas de TV em diferentes emissoras nos mesmos horários. A concorrência entre as produções dos programas acirrou-se de uma tal forma que estas se antecipavam no agendamento das atrações gospel. A disputa era enorme e constantemente víamos os artistas de música gospel na telinha participando de programas em emissoras que até então restringiam ao máximo estas participações. Só que a alegria durou pouco! Especialmente em 2013 foram raras as participações dos artistas de música gospel nos programas de TV e esta tendência deve se seguir em 2014 onde a pauta notoriamente será direcionada para esportes em função da Copa do Mundo no Brasil.

Quando um artista do calibre do sertanejo Leonardo, Jota Quest ou Roberto Carlos, por exemplo, lançam seus respectivos projetos, toda a mídia é contatada e responde de forma muito receptiva e amigável. Em pouco tempo os programas de TV agendam as suas participações, muitas das vezes até mesmo com uma certa disputa entre os veículos. A mídia impressa e eletrônica destacam em suas pautas os respectivos lançamentos, ou seja, em pouco tempo, o projeto passa a ser conhecido nacionalmente. As emissoras derádio tocam os singles com destaque na programação, entrevistas são agendadas, promoções são criadas e muita badalação sobre o artista e seu novo projeto agitam o ambiente.

Definitivamente não é isto o que acontece com a música gospel. Não temos veículos de comunicação de massa em nível nacional. Não há redes de televisão com conteúdo cristão em nosso país e nas poucas emissoras de TV do segmento, o espaço para a música ainda é bem acanhado perdendo de goleada para os programas evangelísticos e de variedades. Também não temos uma rede de emissoras de rádio evangélica que favoreça os grandes artistas ou lançamentos. A maior rede de rádios do país coincidente faz parte do segmento evangélico, a Rede Aleluia, mas ela está longe de ser uma referência em termos de programação musical. A playlist musical desta emissora baseia-se em hits dos longínquos anos 90 ou ainda mais distantes.

Outra característica de nossas mídias é a relação visceral com denominações religiosas, cada qual com interesses e características muito específicas. Isto também dificulta absurdamente a divulgação de um projeto no meio gospel, pois estas emissoras e veículos nem sempre têm como prioridade trabalhar de forma profissional, focando na satisfação de seus clientes. Com isso, alguns artistas e gravadoras são prejudicados em determinadas regiões do país pela falta de espaço nas mídias locais.

Desta forma, um projeto no meio gospel no Brasil passa por uma série de obstáculos para sua divulgação. Não temos muitas mídias demassa. Muitos veículos são restritos e refratários à novidades e mesmo a determinados estilos musicais ou artísticos. Assim, é notório que para ‘estourar’ em nível nacional, um artista e sua respectiva gravadora precisam utilizar-se de diversas estratégias e altos investimentos. Entre as principais estratégias de divulgação, sem dúvida, destacamos a necessidade de uma verdadeira maratona de entrevistas nas mídias locais. Por mais cansativo e dispendioso que esta operação seja, é comprovada sua eficácia! Existem algumas cidades importantes em nosso mercado e efetivamente são estas que devem constar do roteiro de divulgação. Praças como Beagá, Recife, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Belém e Fortaleza são indispensáveis para o artista que pretende ter seu trabalho reconhecido pelo grande público.

Outra importante estratégia para uma divulgação maciça de um projeto tem a ver com a web. O brasileiro é reconhecido mundialmente por ser um heavy user em tudo relacionado à tecnologia. E, sem dúvida, a internet é uma importante ferramenta e ambiente para a divulgação de conteúdos artísticos. São muitos sites, blogs, rádios on line fanpages dedicadas à música e notícias gospel. Então, nada mais acertado do que manter contato permanente com estes veículos fornecendo farto material, notícias, vídeos, conteúdos diversos. Neste caso, torna-se fundamental a contratação de serviços e profissionais especializados para tal atividade.

Em resumo, não há facilidade para os artistas do segmento gospel e suas gravadoras. Os entraves são muitos e não apenas os citados por aqui neste texto. Lançar um novo projeto nacionalmente é um exercício de muita paciência, altos investimentos, dedicação e transpiração! Esta constatação apenas reforça duas outras características peculiares deste nicho. A primeira é que como o produto ‘demora’ a ser divulgado nos quatro cantos do país por todos os motivos já citados, o tempo de vida útil do projeto é bem maior do que um projeto secular de um artista do primeiro time. Com isso, a estratégia utilizada por alguns artistas, especialmente a turma do segmento pentecostal, de lançar um novo projeto a cada ano, torna-se claramente uma decisão equivocada, pois é impossível que neste curto espaço de tempo, todo o país conheça o seu último trabalho.

Este texto foi iniciado em um vôo entre Curitiba e o Rio de Janeiro. Depois foi retomado no trecho entre Goiânia e Fortaleza e agora é finalizado a caminho de Vitória, capital capixaba. Durante os últimos dias exercitei plenamente o que acabo de escrever, ou seja, visitar algumas das mais importantes cidades do país divulgando o projeto (lançado em abril de 2013) “O Maior Troféu” com a cantora Damares. Observe-se que estamos falando da artista de maior vendagem do mercado gospel nos últimos anos. Se uma artista como ela dedica seu tempo para este tipo de trabalho então está mais do que na hora da turma arrumar as malas e partir pra estrada!

Vamos em frente!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.  

A tecnologia deveria facilitar a vida do ser humano e realmente em muitos dos casos é exatamente isso o que acontece. Só que em outros aspectos, esta mesma tecnologia acaba nos tornando pessoas ansiosas, ultra atarefadas e muitas das vezes psicóticas. Me incluo na lista de pessoas que não conseguem se desligar do mundo externo e por conseguinte, dos neuróticos crônicos que não podem deixar de ler as mensagens eletrônicas que insistem em marcar presença em nossa caixa postal, mesmo que isso aconteça em plena madrugada.

Durante o tempo em que acordava nas madrugadas para atender ao choro intenso de meu bebê clamando por uma boa mamada noturna, sempre aproveitava o momento de súbito acordar para conferir se alguma grande notícia havia chegado enquanto eu dormia. Sei … é uma psicose, mas estou me tratando …

Hoje em dia recebo em média 180 a 200 emails em minha caixa postal. Destes, cerca de 50% são relativos diretamente às minhas atividades profissionais. Outros 10% são spams, propagandas diversas e correntes de prosperidade e coisas do tipo. Já os outros 40% são mensagens de pessoas pedindo por algum apoio artístico. Os assuntos vão desde compositores querendo apresentar seus trabalhos até jovens artistas pedindo por atenção da gravadora.

Não sei se há pela web algum site oferecendo dicas ou mesmo textos prontos sobre como se deve abordar um A&R de gravadora. Digo isto porque é impressionante como os temas e abordagens se repetem de forma padronizada.

Há os textos compreensivos … “Sei que o senhor é uma pessoa muito ocupada, mas garanto que não irá se arrepender se dedicar apenas alguns minutos para conhecer a artista …”

Outros que também estão sempre presentes são os descobridores de fenômenos … “O senhor precisa conhecer a cantora Gladyslivia Gomes, ela é um sucesso aqui em Araguaína! Sua música está entre as mais pedidas da rádio online Louvor FM.Contrate-a antes que outra gravadora o faça, fica a dica!”

Mas, sem dúvida, uma das abordagens que mais me chamam a atenção são justamente aquelas que apelam para as questões espirituais. E aí, posso elencar algumas estratégias bem claras e vou me deter em poucas opções para que este texto não fique muito extenso.

“Eu quero muito louvar a Deus! Quero muito falar do seu amor para todas as pessoas. Eu sou uma adoradora e preciso demais que o senhor me apoie neste propósito! Preciso gravar logo um CD!”

Em sua Palavra, Deus nos ensina que ele busca por adoradores, que o adorem em espírito e em verdade! Em outro texto o salmista exalta para que todo ser que respire louve ao Senhor! Em nenhum momento a Bíblia nos ensina ou indica que para tornarmo-nos adoradores devemos entrar em estúdio e gravar um disco!?!?!?!? Não há qualquer relação entre o processo de louvar e adorar a Deus com a necessidade de se ingressar num projeto artístico! E ainda bem por isso! Graças a Deus porque nos permite achegarmos a Ele semmaiores dificuldades, basta apenas um coração puro, contrito, disposto a manter uma relação íntima com o Criador.

É importante que os meus 66 leitores do blog tenham ciência de que adorar a Deus é maravilhoso e um processo individualizado, sem filtros, uma experiência realmente sobrenatural e marcante! Já uma carreiraartística é algo absurdamente trabalhoso, árduo, difícil, um processo de entrega constante, com enormes riscos de insucesso, ou seja, é algo muito, mas muito complicado!

Você já parou para pensar como deve ser entediante cantar as mesmas músicas por longos 18 meses, às vezes muito mais do que isso? Outro dia encontrei um cantor que repetia a mesma canção por (pasmem!) 20 anos! Haja inspiração! Ou então, de como deve ser difícil abrir mão de fins de semana com a família?

Isso para não falar das viagens! Alguns me encontram por aí e dizem na maior cara de pau: “Você nasceu virado para a Lua! Como deve ser bom viver viajando, nos aeroportos,conhecendo pessoas, lugares … ô vidão!” Neste momento escrevo este texto às 21h15 de uma sexta-feira a bordo de um avião com destino à capital federal. Neste próximo sábado estarei conferindo a gravação de um DVD de um artista que sequer faz parte do cast de minha gravadora. Deixei em casa meus 3 filhos eesposa, retornando ao convívio com eles somente na parte da tarde do domingo. Alguém acha que prefiro estar fora de casa, sem meus familiares, tendo que trabalhar em pleno fim de semana? Pois é exatamente isso o que acontece quando você se torna um artista profissional.

Ainda com relação às viagens, é importante salientar que nem sempre se viaja de avião e se hospeda em grandes hotéis. Mesmo artistas do primeiro time como Damares, Shirley Carvalhaes, Mariana Valadão e tantos outros, vez ou outra são ‘surpreendidos’ com hotéis 5 estrelas cadentes, em cima de postos de gasolina, com banheiro coletivo e outras maravilhas pentecostais. Isso sem falar com os banquetes de cachorro quente e coxinhas de frango frias que mais parecem bolas de pingue pongue. Ah! já ia me esquecendo … tem também as ‘pegadinhas’ quando o contratante te diz que depois do aeroporto, ainda vai ser preciso fazer um pequeno trajeto por estrada (de terra) … só uns quilômetros (mais 3 horas de sacolejos!).

Ou seja, não confunda sua vontade de adorar, de louvar, cantar, de ter uma vida dedicada às questões espirituais com a necessidade de lançar-se numa carreira artística! Deus não está à procura de cantores, discos de ouro ou hits empolgantes! Ele quer adoradores e isso inclui cada um de nós, sem exceção, e nesta lista até incluímos os cantores e cantoras, sem distinção!

Outra abordagem tem a ver com uma palavra que ganhou notoriedade surreal nos últimos anos – promessa. É impressionante como as pessoas atualmente se agarram em promessas como se Deus estivesse ali assinando uma nota promissória! Não quero entrar numa discussão teológica, mas efetivamente tenho muitas ressalvas com o uso que as pessoas têm feito deste assunto. Boa parte das mensagens que recebo diariamente têm a citação de que “Deus me deu esta promessa! De que eu gravaria um CD, de que eu teria um ministério”. Como profissional o que eu posso analisar é se o referido indivíduo tem adequação com uma carreira artística, se tem talento, se tem um diferencial, enfim, minhas análises são estritamente baseadas em critérios técnicos, nada além disso! Agora, se Deus realmente te escolheu para levar a Palavra aos quatro cantos do planeta … então, com talento ou não, Ele simplesmente irá fazer isso! É uma questão simples de soberania. Ele tudo pode! E não é um A&Rzinho que irá barrar esta decisão. Não mesmo!

Sempre uso como exemplo o que aconteceu com o Irmão Lázaro. Se há tempos atrás o disco dele caísse em minhas mãos para ser avaliado, as chances de eu contratá-lo são as mais remotas possíveis! Tecnicamente, o disco que o catapultou ao estrelato no meio gospel anos atrás era de uma simplicidade absurda! Mas aí, entra um fator que nem eu nem qualquer profissional do mercado tem qualquer ingerência, a soberana vontade de Deus. Ele quis … simples assim! Resultado: mais de 1,5 milhão de discos vendidos de forma independente. O resto é história!

Então, já concluindo este texto, se você pretende seguir uma carreira artística saiba que a estrada é longa e muito difícil! Muito melhor e mais prazerosa é a opção de simplesmente sermos adoradores do Deus Vivo. Ele não nos pede nada, nem disco, nem estratégia, nem técnica, nem mesmo talento ou afinação, somente sinceridade em nossos lábios!

Vamos adorar, sempre!

Mauricio Soares, jornalista, consultor de marketing, adorador sem nunca ter gravado um CD, pai, blogueiro e um recém apaixonado pelas belezas naturais de Santa Catarina. Simplesmente top!

Talvez eu esteja sofrendo pela falta de rotina em publicar novos textos por aqui no blog. Este deve ser o quinto ou sexto texto que inicio para ser publicado no Observatório Cristão desde a minha última postagem, o que ocorreu no fim de 2013. Os demais, por enquanto, não julguei à altura dos textos publicados até hoje no blog e por isso mesmo permanecem em stand by até que uma lufada de inspiração e criatividade surjam.

 

Como os atletas em início de ano imagino que esteja vivendo aquele período de recondicionamento físico, neste caso, criativo. Então, para não criar nenhuma tensão desnecessária, vou dar-me o direito deescrever neste post, pequenos textos, comentários e afins. Talvez assim eu possa me animar e voltar a escrever textos mais elaborados.

 

Retorno de uma viagem curta para a capital paranaense. Durante o dia inteiro tive a companhia constante dos amigos do Megafone, banda que vem se destacando bastante no cenário artístico gospel no país. Entre tantas atividades na abafadíssima e quente Curitiba deste dia, pude visitar a Rádio Gospel FM. Como sempre, fui muito bem recebido por toda a equipe, mas o que me chamou a atenção foi um excelente papo com o diretor artístico da emissora, Fabiano Lazarino. Entre tantos temas, destaque para a forma como ele lida com alguns aspectos importantes no seu dia-a-dia. A questão da escolha de seu play list merece registro. Para Lazarino, o importante é valorizar o seu público, portanto, a preocupação émanter a programação sempre atualizada com os mais recentes lançamentos. A prioridade é a audiência, o ouvinte! Música para os meus ouvidos! Ah! Como seria outra a história nos arraiais gospel se todas as demais emissoras e mídias seguissem esta mesma (básica) estratégia! Em apenas 7 anos de estrada, a emissora saltou do absoluto ostracismo para a terceira posição entre as FMs mais escutadas de Curitiba, rivalizando com duas das mais populares rádios da capital. Ou seja, priorizou a qualidade da plástica e da programação e colheu resultados consistentes. Óbvio demais? Pois é, mas por que tanta ‘diretor’ e ‘dono de rádio’ gospel prefere seguir outra linha? Vai saber …

 

Aproveitando este gancho, não posso deixar de complementar este assunto sem mencionar algo que me incomoda há muito tempo e que surgiu em meio a uma conversa com um grande amigo e profissional que seguramente é um dos caras que mais conhece sobre rádio gospel pelo Brasil.Neste papo ele me dizia da dificuldade que encontrava em divulgar um determinado artista que já àquele momento figurava no cenário gospel como um sucesso nacional. Ele dizia: “Recebo ligações de diretores de rádio me pressionando por agendas para shows ou mesmo apresentações em igrejas. Eles me oferecem permutas para tocar nossa música ou como dizem ‘pra estourar o artista na região’. Aí atendemos ao convite. E muitas das vezes somos mal recebidos, ficamos em hotéis sem conforto algum, temos de nos apresentar em 2, 3 cultos num mesmo dia. Naquele período que antecede nossa apresentação, a música fica na liderança entre as mais pedidas. Só que no dia seguinte de participarmos do evento, a música simplesmente é abduzida da programação. A música some … assim do nada …”

 

Seguindo na conversa ele também comenta que quando um “convite” (só que não!) como este não é aceito porque a data estava ocupada ou algo do tipo, a represália sobre o seu artista é fortíssima! A rádio não só não toca mais nada como fazem questão de ‘queimar’ o artista junto aos pastores da região e até mesmo de outras emissoras. Ou seja, terror total!

 

Completando esse papo, lembramos daqueles donos de emissoras ou programas na TV, geralmente mega-ultra-blaster-líderes que diariamente vão aos seus canais de mídia pedir ajuda aos contribuintes, membros, patrocinadores e coisas do tipo. Quase chorando (alguns até chorando de fato, se debulhando em lágrimas, oh! quanta tristeza!) pedindo pela ajuda para pagar os investimentos de se manter o programa no ar. E aí, 100% das vezes o argumento fatídico é de que devemos contribuir para o REINO, afinal ele está ali para anunciar as boas novas (também para vender pacotes para Israel, livros, DVDs, seguro de vida, auxílio funeral, plano odontológico e o que mais surgir pela frente). A grande verdade é que eu nestes anos todos de estrada, desconheço veementemente que ‘reino’ é este … na verdade, o que vejo de verdade é cada um cuidando do seu próprio reino, ou feudo ou qualquer coisa do tipo.

 

Dias atrás o meu divulgador em São Paulo me mandou um email comemorando o agendamento de uma artista em pleno período de divulgação de seu novo trabalho em um programa de TV. O email dizia: Muito bom! Acabamos de agendar a artista XXXX no programa YYYYY. Exatos 5 minutos depois, outroemail surge em minha caixa postal. O mesmo divulgador me manda outra mensagem dizendo: Foi desmarcada a participação da cantora XXXXX no programa YYYYY. O motivo alegado é de que ela é ex-artista da gravadora ligada ao grupo empresarial – também conhecido como reino. E também porque ela agora faz parte da gravadora concorrente … o que eu posso responder numa situação destas? Simplesmente nada! Vamos viver!

 

Então, para concluir, até quando iremos ter que conviver com estas práticas? Quando vejo cristãos reclamando pelo pouco espaço para a música gospel nos canais seculares, o que me vem à mente de imediato é como podemos exigir melhor tratamento e maior espaço por parte dos ‘gentios’ se nem ao menos os nossos ‘domésticos da fé’, os líderes e grandes denominações evangélicas abrem espaço e tratam com o devido respeito os artistas do segmento?

 

Acho que cabe a nós um exercício mais analítico de tudo o que vem acontecendo no segmento evangélico brasileiro nestes tempos. não dá para simplesmente aceitar um monte de gororoba, de práticas abusivas, decoisas mal explicadas, de atitudes nada condizentes com os preceitos e doutrinas cristãs. Espero que 2014 seja melhor do que 2013, especialmente na questão de valorização da música cristã pelos líderes e ‘profissionais’ que estão à frente das mídias do segmento.

 

Pronto! Procedimento de descida iniciado. Até que a inspiração veio … deve ter sido o ar rarefeito … e outros temas já me vieram à mente. Que bom … parece que agora vai! Aproveito para agradecer o carinho de tantas pessoas que encontrei durante meu período de férias! Gente que confessou ler este blog e utilizá-lo como ferramenta de trabalho. É muito bom receber este feed back porquemuitas das vezes tenho a clara sensação de que escrevo e me comunico simplesmente comigo mesmo, o que não é de todo ruim! Desejo aos 66 (se é que eles ainda existem!) leitores um ano novo de muita paz, amor, bom humor e boa música!

 

Desligando o computador em 5, 4, 3, 2, 1 …

Mauricio Soares, publicitário, amante de bons papos, coach, jornalista, pai do Fernando, Leonardo e Benjamim, meu trio de ouro!

P.S. – Já tendo finalizado este texto, recebo um link do vídeo do Jonathan Nemer. Tomo a liberdade de inserir este vídeo neste post porque de alguma forma está ligado a alguns aspectos mencionados acima.

http://www.youtube.com/watch?v=KrqAvvN1TWA&feature=c4-overview&list=UUOOkCYthHdrpCZdytAT63GQ

Acho muito interessante como de tempos em tempos me pego repetindo mesmos assuntos para diferentes momentos e interlocutores. Me parece que há alguns temas que se tornam mais relevantes em determinadas épocas e com isso acabo sempre voltando ao tema em conversas com amigos. Talvez euseja mesmo repetitivo …

Ultimamente tenho falado muito sobre a diferença entre ‘fenômenos’ e artistas consolidados. Creio que pelo menos nas duas últimas semanas tive umas 5 ou 6 conversas especificamente para tratar deste tema. E com tantos subsídios, tomarei a liberdade para expor um pouco mais sobre esse assunto nas próximas linhas deste texto. Texto por sinal, escrito durante o voo entre a capital fluminense e Curitiba onde irei participar de algumas reuniões e à noite prestigiarei a inauguração de mais uma filial da Livraria Luz e Vida. Fico muito feliz em ver novos canais de venda sendo inaugurados, isso demonstra que estamos diante de um mercado em ebulição e franco crescimento.

A carreira artística talvez seja uma das mais inconstantes profissões que temos conhecimento. Longe da tranquilidade e estabilidade de um serviço público, a vida artística é algo mais instável do que ações da Bolsa após crises econômicas mundiais. Um artista vive essencialmente de sua capacidade de se reinventar e de trazer algo realmente interessante e atraente ao público, mídia e mercado. Temos inúmeros casos de artistas de “uma música só”, compositores que escreveram um único sucesso, cantores de uma determinada época e coisas do tipo. Se analisarmos alguns casos de sucesso não continuado poderemos perceber que boa parte destes tem uma similaridade em suas trajetórias de sucesso avassalador e fracassos retumbantes. Sem dúvida, a falta de um novo projeto artístico de qualidade na sequência é um fator bastante recorrente. É impressionante como determinados artistas e compositores foram capazes de interpretar e criar músicas antológicas, lançarem discos fantásticos e logo em seguida, decepcionarem atodos com uma nova produção sofrível. E para isso há uma série de aspectos que podem ser elencados de forma muito clara, tais como: arrogância pelo sucesso, erro na avaliação de um novo repertório, mudança radical de estilo, deslumbre, falta de estrutura de apoio, entre outros.

Mas além da questão artística propriamente dita, um outro aspecto precisa ser analisado em se tratando de uma carreira efêmera ou sólida. Talvez o planejamento de uma carreira artística seja tão ou mais importante do que a escolha de um repertório, produtor musical ou a parceria com uma gravadora. Em minhas andanças pelo país e conversando com centenas de cantores e aspirantes ao estrelato, percebo claramente a falta de um plano de ação para médio e longo prazos. Em geral, estes artistas não conseguem planejar mais do que 12 meses pela frente e, em geral, esse planejamento ‘de longo prazo’ (só que não!) está relacionado à data de lançamento de um novo CD. Nada a ver com investimentos, metas, objetivos, planos! E esta falta de avaliação das possibilidades futuras tem levado muitos artistas, especialmente do segmento gospel, a encurtarem sensivelmente as suas carreiras e seus respectivos potenciais de sucesso.

 

Uma decisão mal feita tem resultadosdiretos e muitas das vezes a curto, médio e longo prazos!

 

O grande desafio hoje em dia para um artista no meio gospel é primeiramente se destacar em meio a tantos outros. A ‘concorrência’ atualmente é típica de vestibular de medicina para faculdades federais. É muita gente querendo seu lugar no palco dos grandes eventos, igrejas, festividades. Recebo em média, 15 a 20 CDs por semana para avaliação. É gente de todo canto do Brasil e muitas das vezes de outros países. Pelo correio eletrônico de contato da gravadora, são em média 20 a 30 mensagens de apresentação por dia! É muita gente querendo ter uma carreira artística. E o mais interessante nestes casos são as estratégias e mensagens que recebo. Confesso que muitas das vezes dou gargalhadas intensas com as mensagens que nos chegam. Ontem mesmo recebi uma mensagem de um postulante a cantor que no título do e-mail estava em letrasgarrafais: “Sou o que vocês precisam!” – simplesmente fantástico! Um dia irei escrever um texto somente sobre essas ‘abordagens’.

Ultrapassado o desafio de romper com o anonimato, o artista está longe de ter alcançado o nirvana. Pelo contrário! A partir de um mínimo reconhecimento por parte do público e da mídia, o artista deve superar todas as expectativas e realmente mostrar o seu diferencial. Hoje em dia não adianta ter só talento, o artista precisa ter um diferencial, uma proposta própria que o destaque dos demais. Além de buscar sempre o melhor repertório, o artista tem que investir em sua carreira e divulgação. E aí é outro problema enorme, pois geralmente os investimentos são altos e a garantia de retorno inexiste. A contribuição de pessoas experientes no meio é fundamental para poupar de ações infrutíferas e dinheiro desperdiçado. Corra dos ‘vendedores de facilidades e ilusões’! Então, mesmo que você seja um jovem artista, a necessidade de um planejamento de carreira é fundamental. Estabeleça suas metas, prazos, avalie seus pontos fracos e fortes, pense sua carreira!

Hoje em dia o artista não precisa ter ‘só’ o talento. É necessário um diferencial!

A diferença entre um artista ‘fenômeno’ e ‘consolidado’ reside basicamente na forma de condução de sua carreira. Um artista ‘fenômeno’ geralmente é aquele que alcançou o sucesso num tempo menor do que o habitual. E por isso mesmo, muito do aprendizado que se adquire com o tempo é deixado de lado e com isso, muitos erros são cometidos ao longo do caminho. Há artistas neste naipe que conseguiram alcançar o sucesso em pouco tempo e nesta mesma velocidade conseguiram fechar portas com pastores, mídias, lojistas, promotores de shows e mais uma fila de gente. O alerta que semprefaço é de que o sucesso faz com que as pessoas acatem essa ou aquela falha do artista, afinal naquele momento ‘ele é o cara!’. Mas basta uma pequena oscilação ou mesmo queda de popularidade deste mesmo artista para que todosaqueles que simplesmente ‘engoliram’ o estrelismo do pop star, passem a deixá-lo de lado e mesmo fechar portas e oportunidades, no melhor estilo ‘roda gigante’.

O artista ‘fenômeno’ não pode se iludir imaginando que os tempos de ‘vacas gordas’ durarão ad eternum. Conversando com o cantor Leonardo Gonçalves e alguns amigos curitibanos em meio a um jantar super especial, justamente este tema veio àbaila. E uma das frases do Leonardo que me chamou a atenção foi justamente o tempo ‘de vida útil’ de um artista. Na opinião dele, uma carreira de um cantor dura em média uns 15 anos e das mulheres um tempo bem maior. E acreditando nisso, o próprio Leonardo já vem desde já se preparando para esta segunda fase de sua carreira. Isso é planejamento!

Ainda nesta mesma conversa, o próprio Gonçalves também comentou que o artista se ilude com o sucesso achando que isso ocorre basicamente por seu próprio desempenho. E de acordo com ele – e nisto eu concordo plenamente! – o sucesso se dá pela melodia, pela qualidade musical. Basta analisarmos alguns cases recentes de sucesso para chegar à conclusão de que a música tornou-se sucesso, muitas das vezes até mesmo, apesar do seu intérprete. Então, neste caso, fica ainda mais perceptível de que para um artista tornar-se consolidado, a preocupação na escolha das melhores músicas é questão de sobrevivência. Por isso, é injustificável que o artista inicie um disco sem ter o melhor repertório que possa selecionar. Não entendo como existem artistas que preocupam-se com o figurino, com as cordas de Praga, com o fotógrafo, com o designer e, em contrapartida, dão tão pouca importância ao processo de seleção de músicas para o repertório.

Especialmente no meio gospel, um artista consolidado é aquele que possui agenda intensa, com eventos em igrejas e grandes shows. Engana-se o artista que se jacta por ter apenas shows vendidos para prefeituras ou grandes festas. Nestes locais, o artista é apenas entretenimento, ou seja, é apenas uma atração. O lugar onde se forma público, onde se conquista respeito e admiração é justamente nas igrejas, independente se estas são megatemplos ou diminutas congregações de periferia. Ainda sobre a questão da agenda, o artista consolidado é aquele que deixa as portas abertas por onde passa. Diferente de alguns que simplesmente deixam um rastro por onde passam, ou seja, criam tantos problemas e inimizades que jamais pisarão novamente naquela cidade ou região. Isso é como um rastilho de pólvora! Um pastor ou promotor de evento maltratado, desrespeitado, não medirá esforços para divulgar e propagar a respeito da performance ou atitudes daquele determinado artista. Uma fama negativa em nada contribui para tornar um artista em consolidado.

Neste momento, o mercado fonográfico passa por profundas transformações. Especialmente no segmento gospel há uma série de alterações no quadro que merece muita atenção. Há um claro movimento de concentração de labels em parceria com grandes gravadoras. Também é perceptível a mudança de prioridades e postura de determinadas gravadoras, especialmente àquelas ligadas a denominações. Algumas destas gravadoras simplesmente estão sendo descontinuadas, outras mudaram o foco deixando de ser competitivas e priorizando apenas o consumo interno de seus fiéis e líderes. Há ainda empresas que insistem em seguir com estratégias que funcionaram muito bem no século passado, mas que hoje são absolutamente obsoletas e anacrônicas. Ou seja, cada vez teremos menos players neste mercado e também é motivo de atenção ao artista que pretende se tornar consolidado, saber optar pela melhor parceria com quem caminhar.

 

Fique atento às mudanças do mercado.Observe e antecipe-se às grandes transformações!

Este texto começou a ser escrito durante o voo para Curitiba e agora finalizo-o no saguão de embarque retornando à Cidade Maravilhosa. Um grande abraço a todos e espero contar com sua visita nos próximos dias!

 Mauricio Soares, publicitário, palestrante, consultor de marketing

Na Revista O Globo, suplemento dominical do Jornal O Globo, há uma seção que sempre leio antes de folhear toda a revista. Sigo rapidamente para a página da Seção Entre Ouvidos, uma espécie de registro sobre frases engraçadas, pitorescas, perspicazes docotidiano carioca. Ali tem espaço para o feirante filósofo, para a dona de casa, para o cobrador de ônibus, para a dondoca da zona sul, a aspirante a celebridade, o vendedor de mate nas areias da praia e por aí vai.

Então, como não consigodormir de jeito nenhum neste vôo de volta para o Brasil, resolvi reunir algumas frases que acho interessantes, outras que ouvi e ouço constantemente e ainda algumas pérolas …

“O som é algo meio Hillsong! Tem uma pegada bem pop rock gringa, saca?”– frase proferida por 11 entre 10 jovens artistas que querem impressionar dando a sensação de que estão fazendo algo absurdamente inovador, moderno e diferenciado. Geralmente o som não tem nada de inovador, mas um simples arremedo de tudo que já ouvimos por aí.

“Não ligue para mim. Se eu realmente gostar de seu trabalho, irei atrás de você!”  – tem coisa mais chata do que uma pessoa te entregar um CD e depois ficar ligando insistentemente para saber se já ouviu com ‘carinho’? Geralmente a cobrança vem acompanhada da frase: Eu sei que você deve receber dezenas de discos, tem muito trabalho … mas …” A verdade é que ao receber um CD ou DVD, automaticamente deveria ser entregue um cartão com a frase em destaque. Ou será que alguém tem dúvida de que se o artista realmente for diferenciado, um A&R vai deixar passar a oportunidade? O chato é ter que responder (sempre com educação) de que o referido projeto está aquém do critério ou perfil da gravadora.

“Eu estava pensando …” – se esta frase é proferida por um artista, prepare-se porque vem algo mirabolante pela frente e na verdade não tem nada de “pensando”, o fundo, ele está te dizendo: ”eu quero fazer isso, fazer aquilo” e a possibilidade da gravadora ter que arcar com os custos desta ideia é tão certa como pegar um engarrafamento na Marginal do Tietê às 10 da manhã em plena segunda-feira.

“Meu CD foi produzido por João Ouvido de Ouro, esse cara produziu Joana do Reteté, Maria do Monte, Dedé de Jeová … os grandes nomes da música gospel. Os músicos foram … o fotógrafo foi aquelesuper conceituado … clicou todas as grandes artistas e modelos … o projeto gráfico foi com Rangs Donner, conhece? E a masterização fiz lá em Nova Iorque com o mesmo engenheiro que fez Madonna, Beyoncé, Adele, Lady Gaga, Carmem Miranda, só gente fera!”– quando o artista fala mais da ficha técnica do que as suas músicas ou do projeto em si, é sinal de que realmente tem muito pouco a dizer!

“Não é pelo dinheiro! Eu quero uma proposta pra minha carreira, quero ver o que a gravadora pode fazer por meuministério. Se Deus confirmar, estou em paz!” – quando o artista começa com esta primeira frase, esqueça! Você pode ter um curso de oratória, experiência em negociações entre árabes e judeus, ter todo um projeto estratégico com slides, animações, vídeos, gráficos, ou demonstrar claramente que o mercado mudou, que não tem mais essa opção … nada! O dito cujo só vai querer mesmo ouvir o quanto de din-din irá tilintar em seu cofrinho! Não perca seu tempo!

“Tenho um artista que preciso te apresentar antes de mostrar para a gravadora XYZ … “ – geralmente essa é uma frase daquele cara que você não fala há uns dois anos e que te liga no fim de uma tarde de sexta-feira.Depois de alguns segundos ele te assegura que o artista tem alguém disposto a investir, que o artista está ‘arrebentando’ na região, que o menino é o novo Thalles Roberto e que ele está me dando essa indicação porque é meu amigo e no futuro irei agradecê-lo por este presente estupendo! Em 25 anos de labuta, raríssimos foram os ‘fenômenos’ que descobri desta forma. Na verdade, só 1 ou 2 … nada além disso!

“Todo mundo tem seu valor. Alguns têm até etiqueta de preço!” – me impressiona como tem gente que … deixa pra lá!

“Eu tenho já algumas propostas. A dona Clotilde Ferreira já me chamou pra conversar. O pastor Agamenon também …” – como na adolescência, o menino de espinha no nariz quer se sentir pretendido por todas as menininhas. Na minha remota adolescência lembro-me que disputávamos para saber quem tinha mais pretendentes e possibilidades de engatar num namoro. Meninices! Este é um approach pra lá de manjado e confesso que em meu caso, cansei de perguntar, o porquê dele estar na minha frente tendo tantas propostas interessantes. Geralmente o interlocutor disfarça, muda de assunto e acaba com a justificativa mais ‘cara de pau’ de que na verdade, acredita muito no nosso trabalho e blá blá blá …

“Quem tá feliz dá um grito de júúúúúúbilo” – frase gritada pelo artista quando este quer ouvir a participação do público. É uma espécie de mantra!

“Eu queria gravar um DVD … é o meu sonho!” – assim como tenho o sonho de ver meu Fluminense ser campeão da Libertadores e do Mundial da FIFA. Ou seja, no tempo certo o sonho pode virar realidade … ou não …

“Posso dar uma olhadinha nas fotos?” – esqueça! O que o artista quer te informar é que na verdade ele quer dirigir todo o projeto de desenvolvimento da capa. Na sequência, definir o single, criar a estratégia de marketing, decidir a tiragem inicial, estabelecer as ações digitais, fazer uma turnê no Brasil e no exterior e decidir quais programas de TV irá gravar. Ah! Já ia me esquecendo … temtambém a criação do roteiro do clipe, a escolha das locações, do figurino, a edição  das imagens e a coordenação de toda equipe de captação das imagens. É só pra dar uma ajudinha, viu?

“Eu mesmo me produzi. As composições são todas minhas. Se pudesse, tirava as fotos também!”  – alerta vermelho no mais alto grau! Chama o GATE, o Esquadrão Anti-Bombas. A possibilidade de nada dar certo é enorme! Tem gente que quando se olha no espelho se apaixona pela própria imagem, é mais ou menos por aí!

“Meu site? Estou reformulando. Minha fanpage? Já estamos fazendo” – como uma operadora de telemarketing falando tudo no gerúndio, quando nos deparamos com alguém nesse estilo isso quer dizer que nada está sendo feito. Pelo menos até agora, mas já vamos estar providenciando.

“Vou fazer uma turnê nos Estados Unidos! Pregar, evangelizar! Exercer o Ide … Ô glórias!” – balela! Vai fazer outlet todos os dias! Vai se empanturrar no Cheesecake Factory, alugar aquele carrão maneiro. Vai nos parques de Orlando, passear na International Drive e à noite cantar numa igrejinha para 50 pessoas porque precisa faturar uns trocadinhos para comprar aquela bolsa da Michael Kors … que bênção!

“Agora vira pro irmão do lado e diga …”  – esta é a versão gospel da antiga brincadeira “macaco mandou …”

“Trabalhando muito! Minha agenda está cheia até 2018!” – leia-se: estou cantando em tudo quanto é evento. É o autêntico: Me chama que eu vou! Enterro de anão, casamento de cachorro, grupo de senhoras, visita ao Lar do Idoso, não importa! O que está valendo é encher a agenda do site com um evento atrás do outro. É preciso passar a ideia de que todo mundo quer sua participação noseventos. É o sucesso! Teve um cantor que ficou tanto tempo fora de casa quequando retornou, o filho disse: Mãe tem um homem na sala!

“Quantos CDs você vendeu do último trabalho? Ah, não sei …” – em outras palavras: Vendi pouco, mas dessa vez tenho certeza de que vou vender 1 milhão de cópias! Eu tenho a promessa né? Não morrerei enquanto ela não se cumprir … Oh Aleluias!

“Ah, eu estou sim aberto a propostas. A desafios … acho que lá na gravadora onde estou não irei mais crescer. Além do mais, tudo é sempre para aqueles escolhidos, para os protegidos sabe?” – aí você conversa, conversa, conversa, faz uma proposta de trabalho. O artista coloca no Instagram, passa a te seguir em todas as redes sociais, curte suas fotos, manda mensagens engraçadinhas na timeline e dias depois, renova seu contrato com a antiga gravadora ganhando algum bônus extra. A tática é mais conhecida do que andar em pé e ainda funciona!

“Meu sonho um dia é gravar em espanhol ou inglês … eu tenho uma promessa de que eu teria minha voz nos quatro cantos deste planeta!” – posso afirmar categoricamente que a esmagadora maioria dos artistas que têm esse objetivopensam que é só entrar em estúdio e gravar um CD no autêntico portunhol ou embromation tipo Joel Santana. A grande maioria não tem sequer noção do que um trabalho no mercado latino significa e de quanto tempo de dedicação exclusiva o projeto internacional demanda.

“Já estou super feliz de estar entre os 500 indicados de minha categoria!” – traduzindo: o que eu quero de verdade é desbancar todo mundo e ganhar esse prêmio! Eu mereço! Se eu perder vou dizer pra quem quiser ouvir que é uma marmelada!

“Oi … alô … quem? (mudança de voz) … sim é o assessor dele … Euclides … “– cantor fingindo ser o assessor para atender a convites de agenda por telefone.

“Nós fomos cantar …” – marido de cantora se incluindo no ‘ministério’ como se ele e a esposa fossem uma mesma pessoa. Alguns psicólogos podem explicaresse fenômeno.

“Tenho mais de 300 composições. Vou mandar tudo pra você ouvir!” – ameaça real e perigosa de compositores que nunca conseguiram ter uma única música gravada por algum pop star. Está tudo catalogado, registrado … prontinho!

“Estou te mandando uma música maravilhosa! Sim! Ela é exclusiva pra você! Fiz pensando em você! Você me dá tantos mil reais e eu assino todos os documentos liberando pra você. Um monte de artista me pediu essa música, mas é sua! Você depois vai me agradecer por isto que estou fazendo pra você!” – um mês depois de gravar o CD e de escolher essa canção feita sob medida para ser o single nas rádios, você encontra uma, duas, três, … seis artistas que gravaram a mesma música! E quando esta música cai no repertório de um medalhão, descobre que a canção está editada (algumas vezes com data retroativa, mas isso é outra história) e que você pode até ter o risco de sofrer retaliações. Muy amigo!

“Agora só vocês …” – recurso do cantor que não alcança a nota ou que já não tem mais voz durante o show … e o povo segue cantando …

“E qual a expectativa por esse seu novo trabalho?” – indagação de boa parte dos jornalistas quando o estoque de perguntas chega perto do fim em meio à entrevista 

“E como você concilia tantas atividades? Pai, pastor, compositor, artista, voluntário de ONG, líder de caravana para a Terra Santa, marido, palestrante … seguida da indefectível e onipresente resposta: Ah! Deus é quem nos capacita! Temos um chamado, então isso tudo agente faz feliz né? É a obra! – outra pergunta indispensável numa entrevista.

“Estou anciosa para ouvir seu CD! Vai ser uma bença!” – declaração de fã nas redes sociais fazendo questão de ressaltar toda a admiração pelo artista e seu total desprezo para com nossa língua pátria! Temos ainda “trofél”, “cecular”, “adimiro”, mas de verdade, nada supera o “ancioso”!

“Me segue que eu te sigo de volta!” – é a nova versão digital da síndrome de perseguição. Tem coisa mais sem noção do que você ficar implorando pela atenção alheia como se sua vida fosse realmente interessante, empolgante e importante para os demais? É impressionante como tem gente que se humilha clamando para ser seguida, curtida, adicionada … se nem teu namorado te segue, você acha mesmo que está com essa bola toda?

Já estamos sobrevoando o estado de São Paulo. Não consegui dormir nem 10 minutos. Pelo menos aproveitei o tempo para escrever mais este texto. Quem tiver mais frases neste estilo pode contribuir na área de comentários. Tenho certeza de que algumas pérolas foram deixadas de lado.

 

Mauricio Soares, publicitário, observador do cotidiano, jornalista.

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Confesso que não é muito fácil manter a qualidade dos textos aqui publicados e mesmo encontrar temas interessantes depois de mais de 4 anos mantendo ativo este blog. Já tentei por inúmeras vezes convidar amigos para escrever no Observatório, mas raríssimas foram as contribuições que recebemos de terceiros nestes anos.

E aí paira uma dúvida, será que o blog é tão desinteressante que meus convites acabam tornando-se insultos para aqueles que foram convidados?

Ou será que simplesmente meus amigos são ainda mais ocupados do que eu e é impossível que dediquem alguns minutos de suas vidas para escrever algumas linhas para o blog? Sinceramente não sei qual a verdadeira razão dessa escassez de contribuições alheias, mas enquanto isso, sigo na minha labuta cotidiana tentando manter viva a audiência deste espaço com algumas novidades e textos inéditos.

Estou escrevendo este post a caminho de Porto Alegre. Já me informei de que por lá encontrarei a máxima de 6 graus, ou seja, para um autêntico carioca praiano, estou seguindo rumo ao continente antártico esperando ser recepcionado por leões marinhos, focas e pinguins simpáticos com seus fraques sempre alinhados.

Além do frio glacial, outra novidade é que nesta viagem estarei contando com a companhia de meu filho primogênito. Resolvi mostrar a ele in loco como é o dia a dia do seu pai em meio às reuniões, visitas e eventos. Pra mim a viagem já é uma delícia, mas para ele imagino que seja um pouco entediante. De qualquer forma, vou tentar que seja o melhor possível para que ele me acompanhe em outras oportunidades.

Já embarcado comecei a pensar qual deveria ser o texto que deveria escrever enquanto estivesse no ar. Me vieram algumas ideias à mente e entre todas, uma me aguçou a vontade. E sobre ela iremos tratar a seguir.

De 10 reuniões que tenho com artistas em processo de contratação, pelo menos 9 deles me falam sobre o desejo de gravar um projeto em DVD. É impressionante como ainda temos artistas, alguns já bem consagrados, que não têm um histórico rico de produções em vídeo.

Até bem pouco tempo atrás, tive a felicidade de gravar o primeiro clipe oficial e profissional da cantora Shirley Carvalhaes. Com mais de 35 anos de carreira é de se surpreender que uma artista do porte dela ainda não tivesse tido a oportunidade de gravar um clipe musical. Mesmo em DVD, se não me engano, a grande dama da música pentecostal tem apenas uma única produção e isso deve ter se realizado há pelo menos uns 10 anos atrás.

Assim como a minha querida Shirley, outros grandes nomes carecem por mais registros visuais de suas obras. Em contrapartida, há uma série de artistas que fazem questão de gravar um DVD para cada lançamento em DVD como se isto fosse absolutamente normal e necessário. Há artistas com pouco mais de 10 anos de carreira com 8, 9 projetos em DVD já lançados. Isso é demais!

Então, pra começo de conversa, é bom que todo artista compreenda que um projeto em DVD é importante para a sua carreira artística, mas que como um registro histórico, deve ser tratado de uma forma mais parcimoniosa.

Levando em consideração o exemplo de artistas internacionais populares, a regra é mais ou menos de 4 a 5 lançamentos em CD para uma gravação de DVD. No Brasil, especialmente no meio sertanejo, esta regra não se aplica. Geralmente os cantores deste segmento costumam gravar 2 CDs para 1 DVD e às vezes chegam à loucura de gravar um DVD para cada lançamento. Mas a única justificativa para essa produção em massa nestes casos, é que os artistas sertanejos utilizam estes DVDs como um importante portifólio para a venda de shows para prefeituras, festas agropecuárias e rodeios por todo o Brasil. Além disso, estes artistas costumam gravar os projetos a cada 2 a 3 anos, que é em média o tempo de uma turnê completa pelo país.

No meio gospel, poucos são os artistas que utilizam-se do conceito de turnês ligadas especificamente a projetos musicais. Geralmente um show gospel é composto de músicas de sucesso da carreira e mais algumas músicas do último trabalho. No meio secular, a turnê de um projeto conta com o repertório maciço do mais recente trabalho – que dá inclusive nome à turnê – com algumas canções de sucesso pinçadas no repertório histórico do artista. Então, o argumento dos artistas gospel de que o DVD será uma ferramenta para a venda do mesmo show para prefeituras é parcialmente aceito, pois na verdade, quando o artista vai mesmo para a estrada, pouca coisa ou praticamente nada do que se vê no DVD é reproduzido na turnê.

Seguindo nesta toada, vale ressaltar que os artistas seculares conseguem reproduzir na estrada os seus DVDs com toda aquela mega produção de som, cenários, luz e efeitos, porque os valores de seus shows são bastante elevados, contrapondo por completo o que observamos no meio gospel. Hoje uma dupla sertaneja de médio porte tem cachês vendidos a 50 mil reais e realizam cerca de 20 eventos por mês. Artistas do primeiro time têm cachês em torno de 150 a 250 mil reais. Hoje, com raríssimas exceções, boa parte dos artistas de nível médio e alto na música gospel trabalham com cachês de aproximadamente 20 a 25 mil reais e participam de 5 grandes shows por mês, na mais otimista das hipóteses! A diferença entre estes dois mundos já começa por aí!

Falando de repertório de um DVD, o ideal é que o público participe ativamente a cada canção apresentada no show. E isso só é possível quando a música é amplamente trabalhada nas rádios, os discos tenham alcançado boas vendagens ou então, depois de um grande trabalho de massificação do artista na região onde o projeto seja gravado. E isto, em qualquer uma das 3 hipóteses, só se alcança com o tempo. Portanto, apresento mais uma justificativa para que um DVD reúna ao menos as canções de 3 discos anteriormente lançados.

Ainda sobre o repertório de um DVD, se o artista pretende que este produto tenha vida útil prolongada, então é fundamental que junto aos grandes sucessos, ao menos 3 canções inéditas sejam incluídas no projeto. É comprovado na história do mercado fonográfico que DVDs que reúnam apenas os hits de um determinado artista não conseguem mais do que 6 meses de destaque nas

vendas e no interesse do público. As músicas inéditas permitem que o disco seja trabalhado nas rádios por pelo menos mais 1 ano e com isso, aumentam consideravelmente o apelo do produto. Mesmo em projetos diferenciados como releituras acústicas de antigos sucessos, a inclusão de algo novo, de algumas músicas inéditas é bastante saudável.

No mercado secular é prática comum que a gravadora contribua com uma parte dos custos da produção do DVD e que o artista e seu empresário participem com outro montante dos custos. Esta ‘parceria’ é coerente porque boa parte do retorno financeiro do projeto se dará através da venda de shows do artista e em muitos dos casos, as gravadoras não recebem nenhum percentual de participação na agenda do artista, ficando tão somente com as vendas físicas e digitais provenientes do produto, o que em muitas vezes se torna insuficiente para a recuperação dos investimentos. Este mesmo conceito já vem sendo difundido no meio das gravadoras do meio gospel. Não se sustenta mais que apenas as gravadoras custeiam todo o projeto de DVD de seu cast, porque efetivamente a possibilidade de recuperação do investimento é baixíssima!

E aí vou destacar um dado muito interessante. É notório que o público evangélico não consome com a mesma volúpia dos consumidores seculares, os projetos lançados no formato DVD. Não sei o porquê desta cultura de não-compra de DVD no meio gospel tupiniquim. Já tentei pesquisar, analisar, avaliar, mas até hoje não consegui chegar a um veredito final sobre os reais motivos desta falta de empatia do público gospel para este tipo de produto. No meio secular brasileiro se dá uma tendência inversa ao do mercado gospel.

A venda de DVDs é bastante considerável ao contrário da venda de CDs que vem caindo sistematicamente. Em lançamentos de um mesmo projeto no formato CD e DVD, a venda do formato áudio/vídeo supera em mais de 60% os resultados do formato áudio somente.

No meio gospel é bem diferente. Em média, de cada 100 CDs vendidos de um projeto, apenas 20 ou no máximo 30 serão no formato DVD. Ou seja, as vendas de DVD no mercado gospel são muito baixas se comparadas ao mercado secular.

Com isso, cada vez menos as gravadoras do segmento gospel têm investido neste tipo de projeto. Numa rápida pesquisa, isso é facilmente comprovado.

Basta analisar-se os lançamentos em DVD nos últimos 10 anos e veremos claramente a tendência na queda de lançamentos nos 2 a 3 anos mais recentes.

Outra preocupação que se deve ter em relação à gravação de um DVD tem a ver com o apelo do projeto em si. A impressão de deja vu é recorrente, especialmente no meio artístico gospel. Faltam projetos diferenciados, criativos e com roteiros que surpreendam o público. Posso enumerar uma lista interminável de DVDs gravados em igrejas com painéis de LED ao fundo, músicos se espremendo e lutando por espaço no palco, 89 vocais enfileirados cada qual fazendo uma infinidade de caras e bocas, naipes de cordas disfarçando que estão tocando alguma coisa, quando na verdade, 99% são apenas fake.

Artistas gritando palavras de ordem como: Dê um grito de júbiloooooooooooooooooooo! Ou ainda: Vire-se para o seu irmão e diga blá blá blá blá … ou seja, mais do mesmo, sempre!

Se é para gravar um DVD, então invista todo o tempo necessário para buscar cenários diferenciados. Saia do lugar comum! Um dos DVDs mais bonitos que assisti nos últimos tempos foi o projeto do Natirutis gravado no alto de uma comunidade do Rio de Janeiro (favela hoje em dia é comunidade!) com toda a paisagem deslumbrante da cidade maravilhosa. O DVD começou a ser gravado no meio da tarde e prosseguiu com um pôr do sol fantástico e se estendeu até o anoitecer. Não havia ali mais do que 300 felizardos cantando todas as músicas e sendo premiados com um cenário extasiante.

Acho que faltam ao nosso meio, DVDs gravados em lugares inusitados ou que tenham propostas diferenciadas. Não vejo como fundamental que todo DVD tenha público gigante, milhares de pessoas. Particularmente prefiro projetos mais intimistas. Quando sento para assistir a um DVD, minha expectativa é de conhecer melhor o artista e sua arte. Não me preocupo muito com efeitos e multidão. É óbvio que um belo e grandioso cenário impressionam, mas no meu caso, o efeito disso é bem efêmero. Prefiro ver o artista, conhecer seu talento, ouvi-lo falar. Observo detalhes. Não me prendo no macro, prefiro o menos.

Um dos DVDs mais vendidos do meio secular no Brasil foi um projeto intimista, bem de estúdio. Os Tribalistas, que contou com a parceria de Arnaldo Antunes, Marisa Monte e Carlinhos Brown, foi um projeto simples, despretensioso, mas que atingiu resultados fantásticos. Outro case de sucesso, foi o projeto Barzinho e Violão que reuniu diversos artistas da MPB interpretando músicas extremamente populares. O conceito era reproduzir o ambiente de um boteco onde amigos pegariam o violão e saiam cantarolando. Este projeto vendeu milhões de exemplares e gerou mais de 20 títulos em diferentes gêneros e parcerias. Uma ideia. Somente uma boa ideia. Nada de pirotecnia. Tenho algumas metas em minha vida profissional. E entre estas, sem dúvida, se encontram alguns projetos em DVD. Alguns projetos são bastante audaciosos, meio diferentes do que temos por aí. A maior dificuldade nem é executar estas ideias, mas encontrar um artista que a compre junto comigo. Com persistência e uma boa dose de papo eu creio que em breve conseguirei tirar do papel e de minha cabeça alguns destes projetos.

Já chegando ao fim deste texto, vale registrar alguns DVDs de nosso segmento que merecem registro especial. O Diante do Trono acaba de gravar um projeto no interior nordestino sob a direção do meu amigo e profissional da maior qualidade Alex Passos. Imagino que teremos boas novidades vindas daí como tem sido boa parte das produções que eles produzem. Outro DVD que merece atenção é o último trabalho do Juliano Son gravado na Igreja Bola de Neve em São Paulo. Com direção musical de Ruben di Souza e direção de vídeo de Hugo Pessoa, este projeto é um dos melhores já lançados no meio gospel em todos os tempos. Particularmente gosto muito do projeto Fé gravado por André Valadão em Vila Velha/ES. Participei ativamente deste DVD e orgulho-me do resultado deste projeto como um todo.

Um projeto que aguardo com muita expectativa é o DVD Princípio do Leonardo Gonçalves gravado recentemente no Teatro Bradesco em São Paulo, sob a direção de Hugo Pessoa. Em se tratando de Leonardo Gonçalves sempre esperamos um produto final de extrema qualidade e como pude participar de todo o processo de produção e gravação, já conferi que tudo ali está em primeira linha. Outro DVD especial, recentemente lançado é o novo projeto do Fernandinho gravado no HSBC Arena no Rio com a direção de Alex Passos. Ainda não pude assistir ao material, mas soube que está fantástico! Outro DVD que chegará ao mercado ‘causando’ é o primeiro registro em vídeo dus manos do Ao Cubo. No melhor estilo Black Eyed Peas com muitos figurinos modernosos, tecnologia em profusão, efeitos, figurantes e postura no palco, o quarteto fantástico da zona leste paulistana prepara um super produto que chegará às lojas nos próximos 2 meses.

Então, recapitulando um pouco do que comentamos neste texto, gostaria de destacar alguns aspectos para a análise e meditação dos meus diletos (e poucos, penso eu!) leitores.

– Cuidado para não banalizar seus projetos em DVD. Um DVD é um registro histórico e deve ser tratado como tal. O ideal é lançar ao menos 3 discos para cada DVD;

– Indispensável a inclusão de músicas inéditas no repertório;

– Cuidado com o orçamento do projeto. Boa parte dos investimentos em

DVD no meio gospel não são recuperáveis! Bom senso e canja de galinha não fazem mal a ninguém!

– Saia do lugar comum! Invista em projetos, ideias, locações e propostas diferenciadas para seu projeto em DVD. Neste caso, a participação de profissionais para dirigir o projeto da melhor forma, é fundamental!

Inicialmente pensei que este tema não fosse render tanto, mas me surpreendi.

Ainda há muita coisa para se comentar sobre DVDs, mas vou poupá-los por enquanto. Prometo retornar com esse assunto em outra oportunidade.

Vou despedindo-me neste momento com a aproximação dos pampas gaúchos. O piloto já iniciou o procedimento de descida e daqui já começo a pensar no meu almoço que certamente será um autêntico churrasco gaúcho. Também vou aproveitar a oportunidade e rever meus amigos da Tanlan. Mais uma vez insisto para todos os meus leitores para que conheçam o som dessa turma do sul.

Abraço a todos!

 Mauricio Soares, jornalista, publicitário, pai em tempo integral, completando em 2013 nada mais, nada menos do que 25 anos de labuta no mercado gospel. Um autêntico highlander!

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O maior sucesso do mercado fonográfico em 2012 foi um disco de apenas 4 faixas do cantor Roberto Carlos. Este tipo de projeto, chamamos de EP, que significa Extended Play, ou seja, é um disco mais extenso que um single e menor que um tradicional CD. Ancorado no hit “Esse Cara Sou Eu”, este projeto vendeu a impressionante marca de 2,5 milhões de unidades e figurou na lista de músicas mais executadas nas rádios do país durante semanas. Se você esteve no Brasil no fim do ano passado, eu duvido que passou imune ao refrão “Esse Cara Sou Eu …”

Na época do vinil, muitas gravadoras utilizavam a prática de lançar discos com apenas 2 faixas. Esse projeto tinha como objetivo apresentar de forma antecipada duas das principais canções do álbum do artista. Dependendo do impacto e performance do EP, as equipes de A&R e marketing faziam um ou outro ajuste, ou na melhor das hipóteses, intensificava ainda mais as ações de lançamento do álbum. Com a substituição do vinil pelo CD, essa prática caiu em desuso. Os CDs passaram a ser lançados no formato original, contendo em média 14 faixas.

O mercado fonográfico talvez seja uma das indústrias mais dinâmicas do planeta. As mudanças de hábito dos clientes é constante. O que é sucesso hoje, amanhã torna-se um perfeito artigo de museu. A volatilidade neste mercado atinge graus inimagináveis! E especialmente, ainda, é um mercado, uma indústria visceralmente influenciada pelas novidades tecnológicas. Muito mais do que uma mudança de hábito por parte dos consumidores, o fator determinante da substituição do vinil pelo CD deu-se em função da indústria de eletro-eletrônicos. Quando estes decidiram parar de fabricar as vitrolas e investir em aparelhos de reprodução de CD, ali estava determinado o fim do vinil. Neste momento temos algo semelhante acontecendo. Algumas montadoras de automóveis no mundo já aboliram a inclusão de um tocador de CD no sistema de sonorização de seus veículos. Os aparelhos de CD passam a ser substituídos por conexões HDMI ou afins. Se isto tornar-se padrão na indústria automobilística, aí definitivamente a transição entre mercado físico e digital será ainda mais rápida do que o esperado. As mudanças neste segmento são muito intensas!

Com o fortalecimento do iTunes no mundo, as gravadoras voltaram a trabalhar o conceito de singles e mesmo EPs digitais. Hoje em dia, boa parte das gravadora já utiliza a estratégia de lançar o single do álbum físico no formato digital com algumas semanas de antecedência. E aí surge uma nova tendência no meio físico por influência do mercado digital. As gravadoras hoje em dia estão voltando a lançar projetos no formato EP. Especialmente no Brasil, depois do avassalador sucesso de Roberto Carlos, todo o mercado mudou rapidamente os seus conceitos.

Antes de prosseguir neste texto, sendo redigido em meio a insistentes avisos sonoros estridentes no saguão de embarque do aeroporto de Brasília (haja concentração!!!), quero registrar que a sugestão para este tema partiu do amigo Alex Eduardo, editor do site Casa Gospel. Registrada a devida fonte deste texto, seguimos com mais algumas informações…

Um dos maiores problemas de um A&R no momento de fechamento e definição de repertório com um artista é justamente manter firme a posição quanto ao número de faixas a serem gravadas. Se depender de alguns artistas, o CD seria uma espécie de Ben Hur musical distribuído em 3 ou 4 discos, uma verdadeira epopéia! Particularmente acho que 10 faixas são o ideal para um disco. Como todos sabem, um disco comporta até 73 minutos de áudio, mesmo que muitos artistas acreditem que isso é lenda e que é possível espremer um pouco mais como se o disco fosse uma espécie de mala retornando de Orlando … sempre cabe mais um pouquinho … não! Não é! Mesmo comportando 73 minutos, penso que manter hoje em dia alguém com a devida atenção para um CD por mais de 60 minutos é algo absolutamente impensável. Então, por que arriscar e, principalmente, gastar além da conta no projeto de produção de um CD com 14, 16 faixas?

Já fiquei sabendo que uma determinada gravadora gospel estabeleceu como padrão, a gravação de 10 faixas em cada projeto. Caso o artista insista em incluir mais músicas, a conta fica para o próprio artista. Sinceramente acho uma posição um tanto radical, mas de algum modo é bastante coerente essa decisão. Se um artista não consegue passar sua mensagem em 10 músicas, será que irá conseguir em 12, 14 … 16 faixas? Acho impossível! Ainda nesta questão, é importante que o artista entenda que o mercado está em franca transformação e de que o controle orçamentário de um projeto é tão ou mais importante do que o planejamento estratégico de marketing. Então, gravar mais uma faixa só para agradar ao compositor ou porque a música é ‘bonitinha’ … É algo impensável hoje em dia.

Os hábitos de consumo no meio fonográfico estão mudando radicalmente. Com a chegada do mercado digital, a facilidade de compra permite que o consumidor opte em comprar faixas, em lugar de um álbum completo. E neste caso, o artista de uma música só corre um sério risco de vender tão somente o single e se deparar com o ‘encalhe’ das demais faixas. Tentando exercitar meu lado futurólogo, creio que cada vez mais os artistas lançarão EPs, sejam digitais ou físicos. Uma das minhas apostas é que o artista diminuirá o tempo entre o lançamento de projetos inéditos que hoje gira em torno de 18 a 24 meses, para períodos de 6 a 10 meses.

Uma das principais vantagens do EP é justamente ter um projeto enxuto, com músicas realmente fortes! Caso a tendência de lançar-se novos discos em menos tempo, a possibilidade de termos singles de divulgação também aumenta bastante. Hoje em dia, boa parte dos projetos lançados tem apenas um único single – por questões de qualidade e principalmente de fôlego financeiro por parte das gravadoras e artistas. Se o EP for lançado a cada 6 meses, por exemplo, é bem provável que o artista tenha um single sendo executado para cada novo semestre. Ou seja, a vitalidade de seu trabalho aumenta consideravelmente.

Particularmente sou bastante favorável ao lançamento de EPs, mas também reconheço que esta é uma mudança cultural bastante sensível que afeta não só os consumidores, mas também os lojistas e os próprios artistas. Um primeiro passo já foi dado e agora cabe somente saber quem irá seguí-lo. Observemos!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, colecionador de bikes em miniatura, tricolor, entusiasta das inovações do mercado fonográfico.