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No dia 20 de outubro a gravadora Sony Music lançou um projeto inédito e inovador, uma nova forma de lidar com a música dentro do conceito de divulgação e entretenimento através da web. O projeto Sony Music Live é uma grande aposta da empresa e tem tudo para ser também implantado nas filiais da companhia em outros países. A expectativa pelo sucesso do projeto é enorme e levando-se em conta os primeiros resultados e impressões de quem já conferiu e entendeu a iniciativa, as projeções são as mais positivas. O projeto que começou junto à área de música gospel já foi devidamente incorporado para toda a empresa, ou seja, nas próximas semanas teremos episódios do Sony Music Live com artistas cristãos e seculares em diferentes dias da semana.

O insight para este projeto surgiu durante minha última visita à sede da Provident, braço de música cristã da Sony Music localizada em Nashville, EUA. Numa reunião com os executivos da companhia questionei-os sobre a ausência de lançamentos de projetos de DVDs e a resposta deles foi categórica: “Não gravamos mais DVDs! Não há mercado mais para este formato. O DVD além de muito custoso rapidamente é disponibilizado na web. Ou seja, ficou um projeto inviável economicamente. Temos investido cada vez mais em conteúdo para a internet!” Ouvi atentamente aquela explicação e passei a pesquisar mais a respeito desta mudança no formato.

Nas semanas seguintes passei a freneticamente pesquisar modelos de clipes e afins, uma infinidade de conteúdos artísticos disponíveis na web. Percebi que nem sempre os clipes mais elaborados eram os mais acessados. Há um vídeo emblemático que sempre cito quando conto às pessoas sobre todo meu processo de pesquisa. Um determinado artista pop do primeiro time da música mundial, ganhador de diversos prêmios, com milhões de discos vendidos, inúmeros hits no topo da parada de rádios, pois bem esse mega pop star tem alguns vídeos quase caseiros, um dos quais gravado numa pequena livraria, com apenas uma câmera, sendo acompanhado por 2 músicos, inclusive o tecladista com uma mochila pendurada às costas. Em suma, a preocupação com a produção em si era a menor possível, o conceito é apresentar o artista e principalmente, sua arte em primeiro plano. Este vídeo tem mais de 50 milhões de views. Isso mesmo! Mais de 50 milhões de visualizações, o que certamente trouxe uma monetização absurda, tornando aquele simples vídeo uma ferramenta não só de divulgação, mas principalmente de geração de receita.

Em paralelo à pesquisa na web, comecei a estudar os números do mercado digital e observando linha a linha as receitas que aferimos em nosso projeto local constatei de que mais de 60% da receita digital de minha área era proveniente das plataformas YouTube/Vevo. Algo interessante começava a tomar forma naquele momento. Muitas reuniões depois com a equipe de New Business da gravadora comecei a formatar o projeto com meu parceiro de ‘viagens criativas’, Hugo Pessoa. Chegamos a uma ideia mais elaborada e apresentamos o projeto à gravadora com embasamentos técnicos, criativos e principalmente econômicos. Projeto e budget aprovados partimos para uma terceira fase, a realização do projeto em si e aí mais uma vez analisamos quais deveriam ser os artistas mais adequados para uma primeira fase do projeto. A dúvida era entre artistas muito populares ou artistas com relevância nas redes sociais e visualizações. Listas e seleções feitas, chegamos a um cast inicial de 10 nomes.

Mais reuniões, mais análises, muitas ideias foram surgindo nas reuniões de brainstorming com a equipe de Marketing Digital e New Business até que chegamos ao formato final que irá disponiblizar conteúdo inédito sempre às terças-feiras a partir das 18h no canal Sony Music Live no YouTube. Após acessar ao canal, o público irá migrar automaticamente para a plataforma VEVO onde ficarão os vídeos alocados nas páginas dos respectivos artistas. Por semana serão lançados entre 3 a 4 novos vídeos de um mesmo artista. A cada semana um novo artista será apresentado com episódios inéditos. Gabriela Rocha, Paulo César Baruk, Salomão do Reggae, Marcela Taís, Trazendo a Arca, Priscilla Alcântara, Leonardo Gonçalves, Os Arrais, são alguns dos artistas já confirmados na série que conecta pessoas e artistas dentro e fora dos palcos. O processo de seleção dos artistas passa prioritiariamente pelo grau de potencial de visualizações que cada artista traz em si. Neste item, alguns jovens nomes saem bem à frente se comparados com alguns medalhões do mainstream gospel.

Sony Music Live não é um DVD e muito menos um clipe. A cada episódio a série é gravada em um cenário inédito e exclusivo que nunca se repetem. Cada artista tem um conceito próprio e isso é respeitado pelos diretores de cada episódio, ou seja, manter uma proposta artística de acordo com o estilo de cada intérprete. Então, a cada semana o público sempre terá surpresas e muitas novidades. Após a estréia, cada episódio ficará disponível no canal oficial da série no YouTube e também nos canais exclusivos de cada artista na VEVO.

Sony Music Live é uma nova forma da indústria fonográfica lidar com as novas culturas, novas tecnologias, novos hábitos. Uma nova experiência se apresenta onde o público terá oportunidade de assistir a conteúdo de qualidade de uma forma diferente. Não costumo usar o blog para falar de projetos pessoais, mas neste caso abro mão de minha própria regra, afinal este é, sem dúvida, um projeto que tem tudo para sinalizar um caminho bastante interessante no mercado fonográfico, nada mais pertinente para o espírito deste blog.

Tenho me repetido muito ultimamente e batido sempre na tecla de que a música hoje em dia é totalmente visual. A própria expressão “você ouviu?” já foi alterada para “você assistiu?” tamanha a importância do vídeo na experiência do público com a música. Esta nova relação é o conceito gênese do projeto Sony Music Live, proporcionar ao público uma mudança no contato com o artista e sua música. Se você ainda não conferiu este projeto, fica a dica!

Enjoy!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, diretor artístico e alguém ainda apaixonado pela música em suas diferentes formas e ambientes. Viva a boa música! Sempre!

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Nestes últimos dias venho tentando escrever algum texto que valha a pena ser publicado por aqui. O nível de exigência de meus 66 leitores é relativamente alto, então preciso sempre me empenhar em merecer tal atenção desta turma que me segue nos últimos 8 anos. Neste exato instante tenho 4 textos inacabados. Há um momento em que o meu nível de criatividade está próximo ao da popularidade da presidente Dilma, então como não tenho o recurso das pedaladas fiscais, a única opção é parar com tudo e esperar que num momento qualquer a inspiração retorne com força. O problema é que na contramão da alta do dólar, meus insights estão lá embaixo.

Nestas horas o melhor a se fazer é justamente não fazer nada. E de repente num papo informal e despretensioso pode surgir uma assunto, uma ideia e aí tudo flui numa naturalidade assombrosa. E ontem, em meio a uma reunião importante, anotei dois temas que poderiam servir como mote para um novo texto. Vou optar por um dos assuntos e tentarei nos próximos minutos seguir com o texto. Espero que ao fim, tenhamos um post à altura de tantos outros aqui publicados.

Lá no meio do século passado, as gravadoras trabalhavam muito com o lançamento de discos com singles. A gravadora produzia um disco, muitas das vezes com conteúdo apenas em um lado da bolacha, às vezes até o mesmo conteúdo em ambos os lados, para testar junto ao público consumidor a força da canção. Algumas vezes eram discos sazonais, como por exemplo, as animadas marchinhas de carnaval. O senso de oportunidade na época era algo que norteava muitos destes lançamentos. Se de repente um fato marcante na política chamava a atenção da opinião pública, imediatamente a gravadora mobilizava seus músicos e artistas – sim, as gravadoras tinham estúdios, artistas e mesmo músicos próprios dedicados – e rapidamente sacava uma canção para ser lançada ao mercado.

Nesta época a rádio tinha o poder de comunicação de massa mais eficiente. Especialmente a Rádio Nacional localizada na capital federal, Rio de Janeiro, ditava a moda, lançava os grandes artistas, transformava uma canção em sucesso nacional. O sonho de todo artista de então, era poder participar dos programas de auditório ao vivo e interpretar suas canções que poderiam do dia para a noite tornarem-se o grande hit do país.

Depois as gravadoras foram abandonando esta estratégia de lançamento de singles, a bolacha passou a ter mais canções. O trabalho de divulgação aos poucos foi migrando do rádio para a TV e tudo se transformou décadas depois. Aí veio o CD e a música voltou a ter seu consumo aumentado em escalas inimagináveis. A possibilidade de uma melhor portabilidade, qualidade, durabilidade e mesmo a sensação de uma inovação tecnológica acabaram mais uma vez transformando a realidade do mercado. Quando todos imaginavam que as coisas estavam perfeitas, eis que nos deparamos com mais uma mudança radical com a chegada do mundo digital.

E é a partir de agora que quero seguir no tema central do post. Além das mudanças na forma de consumo, da portabilidade, na popularização do conteúdo, uma das mudanças mais radicais neste novo ambiente é justamente um revival ao formato que foi amplamente utilizado há décadas atrás, o single. Se antigamente atrás os artistas e mesmo o público consumidor valorizava a quantidade de faixas em cada disco, o atual momento aponta para o caminho oposto onde a obra passa a ser individualizada, única, uma experiência diferenciada de todo o contexto de um álbum. Em suma, a música assume uma força exclusiva que antes era diluída em meio a um repertório.

Cerca de 6 semanas atrás lançamos a música “Acredito” com o fenomenal Leonardo Gonçalves. Pra quem esteve no leste europeu ou nos rincões da Ásia nestas semanas e não sabe do que se trata essa canção, informo que esta música faz parte da trilha do filme “Você Acredita?” que está nos cinemas de todo o país e conseguiu a proeza de levar mais de 300 mil pessoas às salas, configurando o recorde de bilheteria de um filme cristão no país. Pois bem, esta única música alcançou o topo de vendas do iTunes no Brasil, tanto no período de pré-vendas como no seu lançamento. A versão em clipe também ficou no topo da mesma plataforma. A faixa teve mais de 58 mil streamings no Spotify em uma semana, um sucesso absoluto! Agora, o vídeo está prestes a superar 2 milhões de views no YouTube/Vevo. A música também está entre as mais executadas nas FMs do segmento no país. Ou seja, bastou apenas uma música de qualidade, interpretada por um artista de qualidade e relevância, com o suporte de uma gravadora que desempenha com maestria o marketing digital e tradicional (modéstia à parte!) para que os resultado fossem alcançados.

O lado positivo desta mudança está justamente em alguns dos mesmos fatores de quando a indústria fonográfica trabalhava com as bolachas de vinil. A facilidade em colocar uma canção no momento certo dá ao artista uma agilidade e senso de oportunidade maior. Não precisa mais que o artista hiberne por meses dentro de um estúdio para reunir 12, 14, 16 canções naquele repertório que ele julga como sendo o definitivo em sua carreira. Isso é desnecessário hoje em dia! Com a facilidade de produção, o artista pode reunir sua ‘tropa’ e gravar um single (o ideal é que este single seja lançado já com um clipe!) colocando-o nas plataformas digitais dias depois. Isso é simplesmente fantástico!

Se a fase for boa e criativa, não há impedimento algum que este single se torne um EP com mais 2 ou 3 outras faixas. O importante é que o artista entenda esta nova configuração do mercado e principalmente do público consumidor. O serviço digital que mais cresce no mundo é justamente o streaming, com destaque para o Spotify, e neste ambiente, o que impera são as playlists, ou seja, uma seleção de singles de diferentes artistas ou não, divididos por temas ou segmentos. Ou seja, mais uma vez o conceito de single chega com força!

Então, se você ainda é daqueles que estão esperando reunir um monte de músicas para lançar um álbum, que tal poupar esforço, tempo e dinheiro e começar a trabalhar de uma forma diferente e atual? Pense seriamente na possibilidade de lançar singles ou EPs, deixando claro que todo lançamento deve vir acompanhado de uma estratégia intensa de marketing digital. Ultimamente tenho conversado com artistas que colocaram seus projetos nas plataformas digitais através de agregadores como se isto fosse a parte mais importante do processo. Ledo engano. Colocar sua música no Spotify entre outras 30 milhões de canções sem um trabalho específico de promoção é mais ou menos como a ideia da agulha no palheiro, ou seja, praticamente impossível que alguém consiga encontrar seus conteúdos. Então, além de mudar o formato do trabalho, as estratégias e ações também precisam ser reavaliadas.

Ufa! Consegui chegar até o fim. Mais um texto para o deleite (ou não) dos 66 leitores.

Antes de finalizar este post quero incentivar a todos aqueles que curtem música de qualidade para estarem atentos ao dia 02 de outubro. Nesta data estaremos lançando as pré-vendas no iTunes dos novos álbuns de Os Arrais (EP Paisagens Conhecidas) e Priscilla Alcântara (Até Sermos Um). Uma semana depois, oficialmente em todas as plataformas digitais estes produtos estarão disponíveis. Como A&R que sou, conto com o privilégio de conferir estes projetos antecipadamente e posso garantir que são fenomenais!
Mauricio Soares, jornalista, publicitário, profissional de marketing, blogueiro, palestrante, diretor artístico, pai, marido, precisando de férias urgente!

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Impactado com o enorme alcance do último texto demorei-me um pouco mais para escrever um post inédito porque meu nível de exigência fica em grau máximo depois de publicar algo que realmente foi bem aceito por meus 66 leitores do blog. Mesmo não tendo muitos comentários na área destinada para este fim no próprio blog, este último texto foi pródigo em comentários nas redes sociais, emails, telefones e mesmo bate papos ao vivo e a cores. Alguns dos mais chegados disseram inclusive de que eu estaria dando ideias para a concorrência e afins, mas neste caso prefiro olhar pela ótica de que o que escrevi ali já está mais do que claro a quem realmente trabalha com seriedade e competência no meio, então aqueles que já não haviam atentado para os ‘toques’ dados na consultoria 0800 é porque não merecem muita atenção mesmo, certamente continuarão na mesma toada de sempre.

Mas quero falar de um assunto que já faz muito tempo deveria virar um post aqui no Observatório Cristão. Por motivos que fogem ao meu controle alguns assuntos demoram semanas, até meses para oficialmente estrearem no blog. E este é um caso clássico de “deixado para trás”. Há uns 4 ou 5 anos escrevi aqui no blog sobre a necessidade de termos mentores, pessoas com um pouco mais de experiência que serviriam como ‘professores’, ‘líderes’, ‘exemplos a serem seguidos’ e de como infelizmente em boa parte de minha trajetória profissional fui tolido de ter esta oportunidade. Praticamente tornei-me um auto-didata do meio fonográfico gospel pela mais absoluta falta de profissionais que servissem como mentores em minha área.

E talvez por esse ‘trauma’ pessoal eu tenha tanto prazer em dividir um pouco de meu conhecimento e experiências. Vez ou outra quando viajo para algumas cidades sou convidado a encontrar com jovens músicos, estudantes de comunicação ou mesmo amigos para poder dar dicas, tirar dúvidas e coisas do tipo. Mesmo em meio a viagens estafantes este tipo de convite jamais foi negado por mim pelo simples fato de eu gostar demais destes eventos e por entender a importância de momentos como este na formação profissional de jovens. A própria existência deste blog nada mais é do que um exercício permanente de troca de experiência e doação de meu tempo para o crescimento intelectual e informativo dos leitores. Portanto, creio na importância de termos exemplos e facilitadores em nossa vida pessoal e profissional.

E aí, analisando o meio artístico gospel, percebo que esta prática não é em nada disseminada. Qual artista jovem foi apoiado intensamente por outro artista já estabelecido no meio gospel tupiniquim nos últimos 10 anos? Me esforço para pensar em alguns nomes e confesso que nem um único nome me vem à mente. Talvez vocês possam me ajudar e indicar algum artista do segmento que tenha ‘aberto portas’ para outro artista iniciante no meio gospel, porque eu mesmo não consigo elencar um único nome. E por que essa falta de atitudes neste sentido?

O ‘apadrinhamento’ não é raro no meio artístico secular. O hoje consolidado Zeca Pagodinho foi lançado e cuidado por sua mentora Beth Carvalho, grande dama do samba. Nomes como Ivone Lara, Luan Santana, Seu Jorge, Lulu Santos foram apoiados por ‘padrinhos’ até conquistarem o seu espaço no cenário artístico. Atualmente a banda Donica e Mosquito são duas recentes novidades que contam com o apoio de ninguém menos do que Caetano Veloso.

Há uns 3 ou 4 anos atrás surgiu uma jovem cantora no meio gospel que participara de um DVD de um grande astro do meio. Ali poderia ter surgido um apadrinhamento clássico de um artista consolidado abrindo espaço para uma jovem promessa, mas bastaram uns 2 a 3 shows juntos para que a parceria se desfizesse sem maiores explicações. Não sei se o que falta no nosso meio é apenas esse alerta ou se realmente os medalhões estão realmente só focados em seu próprio projeto, ou pra usar o jargão do evangeliquês, seu ministério.

A verdade é que precisamos de mais padrinhos na música gospel. Imagine só um artista que chegasse ao mercado com o apoio e respaldo de um artista do naipe de Aline Barros, André Valadão, Fernandinho, Damares, Shirley Carvalhaes, Cassiane, entre outros. No mínimo este apadrinhamento traria uma espécie de selo de qualidade e enorme expectativa do público pelo trabalho do jovem artista. Precisamos de mais mentores em nosso meio! Precisamos que os artistas consolidados ajudem a quem está chegando a romper com alguns obstáculos!

Da parte dos contratantes acho que não teria problema algum em fechar o pacote do grande nome e do jovem artista apadrinhado. Geralmente estes jovens artistas estão na estrada em busca de experiência e divulgação, então os custos extras certamente não serão impeditivos aos contratantes. E para o artista top, o fato de ter uma banda ou artista fixo abrindo seus shows garante uma série de vantagens como por exemplo a diminuição de estresses entre as equipes técnicas. Além disso há um claro benefício na imagem do artista consolidado dando força para artistas da nova geração. Isso é fato! Isso sem falar nas questões econômicas onde o escritório do artista consolidado pode também administrar os shows e cachês do apadrinhado, o que é algo absolutamente natural. Ou seja, só vejo vantagens nesta ação entre amigos.

O meio artístico é naturalmente competitivo. Não tem como negar isso! Pode até mesmo ser considerada uma característica inerente entre pessoas deste estilo, mas o despojamento e altruísmo também é aspecto comum neste ambiente. Sinceramente acho que no meio gospel este comportamento ainda não se tornou mais comum pela falta de um ‘estalo’ talvez … quem sabe?

Então considere esse texto como um alerta, um ‘se liga irmão!’, um ‘estalo’ … vai que funciona?

Boa semana!

 

Mauricio Soares, publicitário, bom de papo, jornalista, consultor de marketing.

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Há quase dois anos venho desenvolvendo junto à minha companhia o conceito de um selo digital especificamente para o conteúdo cristão. Em paralelo, a área secular também vem trabalhando no mesmo sentido e neste período já é uma importante linha de negócios na operação local servindo como modelo para as filiais do grupo em outros país. Temos inclusive alguns artistas que hoje fazem parte do cast da gravadora no formato tradicional que começaram justamente através do selo digital. Ao longo deste tempo estamos analisando com muita atenção o desenrolar do mercado, das tendências e tentando estabelecer uma estratégia e cultura para este novo conceito de gravadora.

O mercado digital é muito recente, especialmente no Brasil. E como tudo que é novo até que se conheçam os detalhes da operação, é muito natural que se faça uma política de erros, acertos, tentativas até que seja possível visualizar e entender uma lógica mais racional. E depois de 2 anos nesta labuta já posso começar a enxergar de forma um pouco mais clara uma dinâmica para essa tendência. E é com base nessas experiências que dedicarei meus próximos minutos para tentar estabelecer algumas características e possibilidades deste campo a se desbravar.

Quando começamos a falar internamente a respeito da ideia de se lançar um selo digital, o discurso comum e repetido à exaustão era de que os jovens artistas e projetos diferenciados seriam lançados inicialmente no formato digital e caso tivessem uma repercussão positiva, estes passariam para um novo patamar, sendo tratados como artistas ‘normais’ do cast da gravadora. Entendendo que à época estávamos bastante inseguros quanto ao negócio em si, este discurso e pensamento eram até aceitáveis. Como eu disse, ‘era’, porque hoje em dia a ideia de que o artista está passando por uma prova do ENEM digital para somente no caso de ser aprovado passar a ser considerado um artista de verdade no mundo real, não se ajusta ao pensamento das gravadoras que perceberam a importância de lidar com as oportunidades do novo ambiente.

Recentemente vi uma entrevista de um executivo de uma gravadora a respeito do lançamento de um selo digital e dizendo com o peito estufado de que os artistas passariam por este estágio no selo digital e sendo aprovados, depois teriam seus projetos lançados no formato físico. Este discurso adequa-se perfeitamente lá no passado, porque hoje já demonstra anacronismo e miopia do ponto de vista do negócio em si. O primeiro aspecto que devemos considerar neste caso é quanto ao tratamento dado ao artista. Não dá para tratar o artista de selo digital como um cidadão de segunda classe. Não mesmo! Então este conceito de passar por um estágio até atingir o Nirvana deve ser evitado a todo custo.

Outra questão importante, já que falamos tanto do crescimento do mercado digital, de que é o futuro e tudo mais … aí afirmamos com todas as letras de que o artista tornando-se relevante no meio digital como prêmio ele receberá o passaporte para o mundo do CD? É isso mesmo? Não seria este estágio um salto para trás? Então se o artista digital se tornar sucesso também na venda de CDs ele vai ganhar o cartão Diamante Plus e ter acesso a lançar seus projetos também em vinil? Depois em mais um upgrade terá direito ao lançamento em cassetes? Esta é a ‘evolução’ que o mercado fonográfico propõe a seus artistas? Não acho que o caminho e principalmente o discurso devam ser estes. Temos que descobrir e investir em artistas digitais e fazê-los crescer e tornarem-se relevantes no ambiente digital. O fato de disponibilizar o álbum também no formato físico pode e deve ser um ato contínuo, mas jamais usar o conceito de que é uma segunda fase, um prêmio ao artista.

Um selo digital deve ter sua curadoria artística própria. Deve ter seu conceito artístico próprio, assim como sua própria estratégia de marketing e promoção. Estamos diante de uma transformação radical nas estruturas internas das gravadoras. Funções que até então eram fundamentais, tornam-se secundárias e às vezes até desaparecem. Já outras novas áreas e funções surgem com força como New Business & Digital que trata da operação e negociações com as plataformas e parceiros digitais e o departamento de Marketing Digital que estabelece e executa as estratégias e ações promocionais junto aos parceiros, artistas e redes sociais.

E qual deve ser o perfil do artista para um selo digital? O mundo digital é bastante democrático apesar de que, sem dúvida, surge um perfil mais apropriado de artistas que podem se destacar neste ambiente. Sem dúvida há estilos e propostas artísticas com maior apelo para o mundo digital e especialmente para determinadas plataformas. Tome-se como exemplo as operadoras de telefonia. No Brasil um dos mais importantes serviços nesta área é o ringbacktone. Pra quem não é iniciado nesta área cabe uma explicação do que se trata. Sabe quando você liga para um determinado amigo e em vez de você aquele toque normal de chamada surge uma determinada canção? Pois é, aquilo ali é um ringbacktone, um serviço de assinatura oferecido pelas operadores a todos os seus clientes. Então, o RBT é um serviço onde tradicionalmente artistas mais populares são os campeões de vendas. Aí destacam-se sertanejos com seus refrões onomatopeicos, funks, hits internacionais e representando a classe, também músicas evangélicas. Só pra registro, Damares tem mais de 1,3 milhão de aparelhos celulares com suas músicas sendo executadas a cada toque de chamada. Já em plataformas de streaming como Spotify e Deezer, pra citar algumas, o must são as músicas internacionais e uma pegada meio indie. Recentemente algumas (ainda poucas é verdade) gravadoras do meio gospel lançaram playlists próprias e deverão seguir nesta estratégia pela frente. Nas plataformas de vídeo há de tudo um pouco, tornando-as um espaço mais democrático.

Com relação ao perfil ideal de artista para este segmento, posso elencar algumas características como a relevância nas redes sociais – falaremos mais desse tema à frente – identificação com o público mais jovem, sonoridade moderna e sempre antenada às tendências, além de uma forte estrutura e apoio de marketing.

Se tempos atrás o clipe era tão somente uma ferramenta de divulgação, hoje em dia assume uma nova importância no mercado fonográfico. Com a monetização dos conteúdos em vídeo, os clipes, Lyric Vídeos, Pseudo Vídeos passam a ser uma importante fonte de receita. A música neste momento deixa de ser apenas sonora para tornar-se também visual. Uma música de qualidade terá seu alcance potencializado a partir que ela também tenha sua versão em vídeo. Recentemente conversei com um diretor de uma produtora de vídeos e afirmei com toda segurança de que se um de meus filhos quisesse seguir na área artística, o incentivaria a estudar cinema ou algo do tipo tamanha a gama de oportunidades que este mercado abrirá de agora em diante.

Então, se você pretende chamar a atenção de uma gravadora hoje em dia, é mais do que fundamental que se invista em bons conteúdos em vídeo e que consiga uma boa visualização destes. Se antigamente os A&R procuravam pesquisar a agenda, frequência em rádios e mesmo a quantidade de discos vendidos, hoje em dia o primeiro ato de um diretor artístico é procurar pelos vídeos do artista, analisando seus views e na sequência, seu número de seguidores nas redes sociais. Esta atenção será ainda maior na pesquisa do alcance de vídeos se a intenção do A&R for pelo cast do selo digital.

Outra característica importante do novo formato e das relações entre artista/gravadora/público tem a ver com o tamanho dos projetos e do tempo de lançamento. Se antigamente um artista precisava produzir 12, 14 faixas para lançar um novo álbum, agora esta realidade é completamente outra. Os singles e EPs ganham força e passam a fazer parte com mais frequência das estratégias de artistas e gravadoras. O consumo de música digital passa a ser individual, principalmente nas plataformas de streaming. Com isso cai por terra a necessidade de uma maior produção de faixas, diminuindo também a distância entre os lançamentos. Desta forma, o artista poderá manter-se em constante processo criativo, o que pode melhorar ainda mais a qualidade da produção musical.

Como prova da força do formato single, dias atrás lançamos a nova canção do Leonardo Gonçalves, a faixa “Acredito” que será a trilha do filme “Você Acredita?” que estréia nos cinemas em 03 de setembro. Em sua estréia no iTunes esta faixa alcançou a quarta posição entre os mais vendidos, sendo a melhor colocação de um artista nacional naquele momento e ainda permaneceu por 4 dias consecutivos no topo da categoria vídeo clipe. Só aí já constatamos a mudança no hábito de consumo. Pra completar, o clipe da mesma música superou 200 mil views menos de 48 horas de seu lançamento. Ou seja, uma única canção destacou-se em diferentes plataformas e diferentes formatos e em todos gerou receita para a gravadora.

Como já mencionamos nas linhas acima, o artista adaptado ao novo cenário digital precisa também estar muito atento às estratégias de marketing e saber-se relacionar perfeitamente com as redes sociais. E aí quando afirmamos sobre o relacionamento com as redes sociais é lidar de forma técnica, analítica, planejada e principalmente objetivando maior visibilidade de seu projeto e monetização. Um artista que tem 1 milhão de seguidores e não consegue ter um bom posicionamento de vendas nas plataformas é porque tem algo bem errado na estratégia de marketing. Se bem que ainda temos gravadoras gospel que têm grandes artistas com enorme relevância nas redes sociais e sequer está presente em uma plataforma importante como o Spotify. Uma verdadeira lástima!

Definitivamente não há mais tempo para protelar decisões, mudar o foco ou acreditar na manutenção do status quo no mercado fonográfico. A impressão que tenho é que estamos diante de um enorme dique, cheio de água e muita pressão e a barreira começa a sofrer com várias infiltrações. O tempo que este dique suportará a pressão ninguém pode garantir. O certo é que num determinado momento ele cederá e aí as mudanças acontecerão de forma muito rápida, profunda e irreversível. Pra bom entendedor, meia infiltração basta!

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, testemunha ocular da 2a grande transformação do mercado fonográfico que começou pelo LP, passou pelo CD e agora segue no digital.

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Praticamente todos os dias recebo o clipping de notícias sobre artistas, música e o mercado fonográfico. Achei muito importante este texto e resolvi compartilhar por aqui no blog. Leia com atenção.

Gravadoras seguem relevantes na era do streaming, diz presidente da ABPD

Paulo Rosa comenta o crescimento de serviços de música online no país.
Associação de gravadoras do Brasil indica mercado digital maior que físico.

Apesar do nome, a Associação Brasileira de Produtores de Discos está de olho não só nos disquinhos físicos, mas em suas versões online. A entidade que reúne as maiores gravadoras no Brasil compara, a pedido do G1, o mercado de CDs e DVDs comparado aos downloads e streaming no primeiro semestre de 2015. A conclusão é que o digital já supera o físico.

“Mesmo com o mercado digital, a música gravada de forma profissional e visando atingir relevância artística e de público de forma sustentável, demanda expertise, investimento e uma rede nacional e internacional que as gravadoras de modo geral têm, e continuarão a ter”, diz o presidente da ABPD, Paulo Rosa. Veja a entrevista completa:

G1 – Em 2014, o mercado digital do Brasil ficou quase empatado com o físico (48% do total). Já é possível dizer que no 1º semestre de 2015 o digital superou o físico?

Paulo Rosa – Sim. As estatísticas de mercado de janeiro a maio deste ano indicam, ao menos até agora, que as receitas com música digital serão maiores no ano completo de 2015, do que aquelas relacionadas às vendas de suportes físicos.

G1 – Para você, qual é o potencial do streaming no Brasil? Acha que pode ser a principal forma de consumo de música nos próximos anos?

Paulo Rosa – O potencial é enorme no Brasil, considerando que temos uma base de aproximadamente 60 milhões de smartphones em franca expansão e uma população cada vez mais conectada.

Apesar de o streaming gerar receitas de publicidade nas versões gratuitas (freemium), é com a assinatura do serviço que produtores, artistas e autores são remunerados em grande parte. Portanto, é imprescindível para este novo mercado, que os usuários que comecem pela versão grátis experimentem e passem rapidamente para subscrição mensal. Isso permite a quem se utiliza do streaming inúmeras funcionalidades que a versão gratuita não tem.

E, sim, acho que o streaming pode vir a ser a principal forma de consumo de música nos próximos anos. As estatísticas de mercado no Brasil e no mundo sugerem claramente esta tendência, além de termos casos de sucesso em outras indústrias criativas, como o Netflix para cinema e televisão.

G1 – A ABPD tem se reunido com empresas de streaming e outros atores deste mercado?

Paulo Rosa – Temos reuniões e desenvolvemos projetos em conjunto com empresas de streaming, assim como com qualquer outro setor do mercado musical interessado em promover cada vez mais o mercado legítimo de música gravada no Brasil.

G1 – Quais são os entraves para o mercado de streaming no Brasil?

Paulo Rosa – Não vejo nenhum entrave significante, seja de ordem comercial, legal ou técnica. O grande desafio é, na minha visão, convencer o público consumidor, especialmente nas faixas de idade mais jovens, que o mercado de subscrição para streaming oferece uma relação custo/benefício excelente e que vale a pena pagar, ainda que pouco, pelo acesso irrestrito a qualquer música, em qualquer lugar e a qualquer hora.

G1 – Muitos artistas têm reclamado do percentual das gravadoras em seus contratos. O que você acha disso?
Paulo Rosa – Vejo este assunto de uma forma completamente diferente: o mercado de streaming é muito recente, incipiente ainda, e carece de uma melhor compreensão, tanto pelas gravadoras quanto pelos artistas, imprensa e o público em geral. No mundo todo há atualmente menos de 45 milhões de usuários pagantes em todos os operadores de streaming, o que é muito pouco em relação ao potencial deste mercado. Portanto, a receita gerada é pequena enquanto o universo de gravações de fato tocadas pelos usuários é praticamente ilimitado.

Isto faz com que cada “tocada” em determinado operador de streaming gere só uma fração de centavo, o que pode dar a impressão aos artistas que o streaming remunera mal. Na verdade, e na minha opinião, o mercado de streaming, para ser sustentável a médio e longo prazo, depende de escala de volume de usuários pagantes e de uma geração de receitas com publicidade que, apesar de crescentes, ainda estão longe de poder gerar dinheiro que possa ser percebido como relevante por todos os titulares.

G1 – Com a expansão do streaming, você acha que que a ideia de compilar várias canções em um álbum tende a acabar?
Paulo Rosa – Não necessariamente. Sempre haverá artistas dispostos a lançar uma safra de novas canções ao mesmo tempo. Juntas ou separada, em formato “álbum” ou não. Acho que nada com relação ao futuro do mercado da música pode ser decretado assim com tanta simplicidade e precisão.

Se fosse assim, o mercado de CDs teria acabado lá pela metade da década passada de acordo com as previsões dos futurólogos de plantão. Acho perfeitamente possível e saudável que formatos físicos para a comercialização de música gravada continuem a existir no futuro, o que já acontece hoje, independentemente do crescimento do mercado digital em geral e do streaming em particular. O mesmo raciocínio vale para o álbum.

G1 – Neste mercado digital, é possível que as gravadoras tenham um papel menor do que tiveram no passado?

Paulo Rosa – Antes da Internet as gravadoras no Brasil e no mundo já terceirizavam a fabricação e a distribuição de produtos físicos e se concentravam na descoberta e desenvolvimento de artistas e no marketing e promoção dos mesmos. Mesmo com o mercado digital, a música gravada de forma profissional e visando atingir relevância artística e de público de forma sustentável, demanda expertise, investimento e um network nacional e internacional que as gravadoras de modo geral têm, e continuarão a ter.

G1 – Daqui a dez anos, você acha que o CD e o DVD e formatos físicos vão desaparecer do mercado ou ainda terá seu público?

Paulo Rosa – Como já disse acima, não acredito que os formatos físicos desapareçam. Veja o caso do vinil por exemplo, crescendo a taxas absurdas nos principais mercados do mundo. Não é só fetiche passageiro, item promocional ou de colecionador. É demanda do mercado que até fez voltar os toca-discos, inclusive aqui no Brasil. Na realidade, as gravadoras se transformaram em empresas multimodais de negócios, atuando em diversas áreas do business musical, e monetizando a música gravada de várias formas, inclusive vendendo CDs, DVDs e outros formatos físicos.

 

Fonte: G1, em São Paulo | Por: Rodrigo Ortega

 

Todo santo dia e aqueles nem tão santos assim, temos lido, ouvido, assistido os noticiários dando conta da crise pela qual o país vem passando neste momento. Não há um único índice econômico em que o Brasil esteja hoje melhor do que estava há alguns anos atrás. Nesta manhã, logo cedo, ao me preparar para mais um dia de trabalho recebo a notícia de que o índice de desemprego no país é o maior dos últimos 16 anos. Coincidência ou não, nesta mesma fatídica manhã também ouço na rádio que o índice de aprovação da presidente Dilma é de 7%, repetindo o viés de queda já que na última pesquisa este índice era de 11% da população brasileira.

A TAM, empresa aérea nacional, já divulgou o cancelamento de diversas linhas regionais e internacionais, além de uma redução de cerca de 10% de sua estrutura. A Petrobrás reduziu drasticamente seus investimentos previstos para os próximos anos. Taxas de juros seguem tendência de alta, bolsa de valores em sentido oposto, de queda, já o dólar segue em alta passando de R$ 3,20. A taxa de ocupação da rede hoteleira no Rio de Janeiro está abaixo de 50% em plena alta temporada e inverno com 34 graus, ou seja, convidativo ao turismo e ao lazer.

Prestes a completar 46 anos de idade posso garantir que voltar a viver com as preocupações de inflação, recessão e desemprego não me agradam em nada. Vivi o auge da inflação do ‘des-governo’ Sarney com reposição salarial de 76% ao mês e inflação sem controle. Depois sobrevivemos à URV, às conversões diárias de moeda, mudança de nome de nossa moeda e toda a loucura que só quem viveu aquela época pode entender. Mas na verdade, não estou aqui para analisar a atual situação econômica, em encontrar culpados (até porque disso não tenho a menor dúvida!), ou projetar tendências sobre a economia do nosso país ou mundial.

O texto de hoje tem a ver com uma outra questão. Na verdade, se tem um mercado que vem apanhando, sofrendo, muitas vezes descrito como um doente terminal aguardando a extrema unção, esse é o mercado fonográfico. Que apesar de todos os prognósticos negativos e contrários segue se reinventando e reerguendo como a mitológica Íbis em meio ao caos. Este post tem como objetivo incentivar a todos que trabalham no mercado cristão a enfrentar com criatividade, tenacidade e principalmente planejamento e foco, este momento de crise no país. E quero trazer a todos estes profissionais o exemplo que temos do próprio mercado fonográfico, que é pródigo em driblar tendências catastróficas.

Vamos aos fatos. Na década de 80, as grandes companhias fonográficas dominavam o circuito artístico. Grandes nomes nacionais e internacionais vendiam milhões de discos, na época LP. Já na década seguinte uma grande mudança aconteceu com a chegada do CD. O que para muitos parecia ser um grande risco pela transformação, acabou tornando-se num primeiro momento numa oportunidade fantástica! As gravadoras começaram a vender milhões de discos de dezenas de artistas nacionais. Grandes festivais e turnês internacionais começaram a incluir o país no circuito. O dinheiro rolava aos borbotões tanto que as próprias gravadoras incentivavam os artistas de seus casts a montarem escritórios próprios para as questões de shows e agendas, já que esta era uma parte de menor lucratividade para as companhias e onde se concentravam boa parte dos problemas de administração e logística. Depois desse boom aconteceu o que todo mundo sabe, a pirataria se disseminou e com ela a queda nas vendas. Mais uma vez esperou-se pelo pior, pela quebradeira geral das gravadoras e do fim do mercado fonográfico. Passado o susto, eis que surge uma nova onda, o mercado digital e como toda mudança de formato e de hábitos, ninguém tinha certeza do que iria acontecer e mais uma vez, os profetas apocalípticos determinavam o fim do mercado.

Ufa! Depois de mais um tsunami, eis que o mercado fonográfico mundial frustrando as tendências pessimistas já aponta para um novo período de grande crescimento e oportunidades. Costumo dizer quando questionado sobre o mercado fonográfico gospel que hoje temos muito mais oportunidades do que tempos atrás. E para reforçar minha linha de raciocínio basta comparar com os canais de distribuição que tínhamos até tempos atrás, algo como 1500 pontos de venda em todo o Brasil, entre lojas, igrejas, distribuidores e até mesmo colportores, que são os atuais revendedores porta a porta. Pois bem, se antes tínhamos esta rede de distribuição, hoje além destes 1500 pontos ainda temos 273 milhões de aparelhos de celular e mais de 120 milhões de brasileiros com acesso à web em seus lares. Ou seja, hoje em dia, as gravadoras têm muito maior potencial de vendas do que a tempos atrás.

A grande questão é como lidamos com as dificuldades, as oportunidades e principalmente com as transformações. Dependendo de nossa reação, os resultados podem ser fantásticos ou deprimentes!

E aí quero incluir no meu foco, os livreiros que trabalham com o mercado gospel no nosso país. Se tem uma pessoa que conhece a realidade e, em especial, livrarias evangélicas em todo o país, esse ‘cara sou eu’, parafraseando Roberto Carlos. Nos últimos 26 anos de minha vida, conheci e venho conhecendo livrarias cristãs em todas as cidades por onde estive. Tenho especial prazer em entrar numa loja e observar a qualidade do atendimento, a disposição dos móveis, a vitrine, a disponibilidade de produtos e lançamentos, entre outros detalhes.

Estamos diante de um momento crucial para o mercado livreiro. Ou enfrentamos essa crise com criatividade, inteligência e muito trabalho ou sucumbimos à derrota total. Dias atrás promovi mais um Encontro de Mídias e Lojistas, desta vez na cidade de São Paulo. Investimos tempo e dinheiro nesta iniciativa e no fim colhemos só bons resultados por esta ação. Mais um exemplo! Ou nos entregamos, ou enfrentamos as adversidades. Ou cruzamos os braços ou arregaçamos as mangas e trabalhamos duro! A verdade é que estamos num momento muito interessante e quero pedir-lhe encarecidamente apenas mais alguns minutos de sua atenção.

Tradicionalmente os momentos de crise econômica ou social acabam levando mais pessoas em busca de algo sobrenatural, ao exercício da fé. Não cabe a mim questionar a motivação, mas que efetivamente nestas horas de crise o povo se apega mais a Deus, isso é um fato! Ou seja, se nas últimas décadas a igreja evangélica já vem crescendo em ritmo intenso, tudo indica que este crescimento será ainda mais vigoroso caso tenhamos (espero que não!) um período mais crítico na economia e na própria sociedade brasileira. Do ponto de vista comercial, quanto mais pessoas passam a frequentar as igrejas cristãs, teoricamente o público consumidor de produtos segmentados cresce em igual proporção.

Há uma pesquisa exaustivamente repetida nos últimos anos de que a cada 10 evangélicos, apenas 3 tem o hábito de ir periodicamente em livrarias cristãs, ou seja, há muita gente nos bancos das igrejas que não frequentam livrarias. Com isso, abre-se uma oportunidade e tanto! O mercado livreiro já pensou e executou estratégias para trazer estas pessoas para suas lojas, ou então, na possibilidade de estas lojas estarem mais perto do público? Cada vez mais lojas on line serão uma excelente opção de compra e distribuição de produtos para este segmento. Ou seja, diante da crise a melhor opção é agir, é trabalhar! Até porque muito provavelmente seu concorrente seguirá o caminho inverso, abrindo cada vez mais espaço para quem quer fazer de forma diferente.

Sempre gosto de repetir a experiência que vivi há alguns anos em uma de minhas viagens ao Nordeste. Pela manhã fui visitar o gerente de uma rede de lojas que até então tinha 9 filiais. Sentado numa mesa velha, empoeirada, o gerente transpirando em bicas, me recebeu com uma cara de velório. Num canto da sala, um ventilador de pé meio capenga tentava refrescar o ambiente. Sentei-me para ouvir as notícias e numa cantilena modorrenta o gerente começou a desfiar seu rosário de lamentações como se fosse uma carpideira do sertão. Das 9 lojas, já na próxima semana 2 seriam fechadas. Outras 3 sofreriam redução de tamanho e aquela que seria a sede da rede de lojas seria dividida ao meio dando lugar a alguns boxes numa espécie de mini-shopping popular. Demorei-me naquele lugar por mais 1 hora, não mais do que isso … na verdade, se eu não fosse um otimista por natureza, sairia dali direto para o aeroporto, tamanho baixo astral reinante naquele lugar. A loja tinha uns 3 ou 4 clientes, funcionários mal humorados, muitos com sandálias de dedo, com fardas (no nordeste eles usam essa expressão para uniformes) surradíssimas … ou seja, o clima era de fim de festa!

Saí daquela loja, respirei ar puro na avenida e pus-me a caminhar pelo calçadão do centro da cidade. O burburinho do povo, dos camelôs, do comércio de rua, demonstrava uma realidade bem diferente do que o gerente queria me passar. Mas enfim, segui meu rumo em direção a outro grande amigo e cliente que tinha naquela cidade. Quando cheguei na loja, fui recepcionado por um segurança extremamente simpático que fez questão de abrir a porta para mim e desejar-me uma boa estada na loja. Na livraria com ar condicionado o clima estava muito agradável. Tudo muito bem arrumado. Funcionários devidamente uniformizados, seções bem definidas e sinalizadas. Caminhei por alguns segundos na loja até ser contactado por um vendedor que colocou-se à minha disposição caso precisasse de alguma ajuda. Fiz questão de ficar alguns minutos ali sem me apresentar, justamente para analisar a qualidade do atendimento e tudo mais. No entanto, em poucos minutos o gerente da loja me reconheceu e foi ao meu encontro. Uma festa! Conversamos muito sobre o mercado, sobre as oportunidades, sobre a situação do comércio local … ele fez questão de me mostrar seus planos, suas ideias num entusiasmo empolgante e contagiante. Fiquei por ali pelo menos umas 4 horas e só fui embora porque teria outro compromisso mais tarde.

Aquelas duas visitas numa mesma cidade foram diametralmente opostas. Se um gerente vislumbrava o apocalipse, o outro via oportunidade. Enquanto um remoía suas frustrações, o outro vibrava com suas conquistas. Esta experiência eu vivi há uns 5 anos atrás ou mais um pouco. Neste ano tive a oportunidade de novamente visitar estes dois clientes. O primeiro, encontrei sentado na mesma mesa empoeirada de anos atrás. A diferença é que das 9 lojas, restavam apenas 2, sendo que a maior delas reduzida a 30% da área original. E seguindo sua toada de outrora, o gerente mantinha sua postura inerte e garantia que em mais alguns meses o negócio seria fechado em definitivo. Minha visita não durou mais do que 20 minutos, por educação. Já o segundo gerente, reencontrei-o em meio a um evento que reuniu mais de mil pessoas em sua loja numa sessão de lançamento de um artista de música gospel. A fila dobrava o quarteirão e as pessoas estavam ali desde cedo para um evento que se iniciaria às 16h. Mais uma vez deparei-me com um profissional entusiasmado e visionário, cheio de ideias e planos. Naquele momento ele me falou sobre a abertura de mais uma filial em um importante shopping center na região. Sua meta era manter presença em todas as principais cidades e micro-regiões do Estado. Saí de lá feliz por ver como aquele profissional havia superado as adversidades e tornado-se uma referência.

Neste momento de crise é que conhecemos os profissionais valorosos. Administrar em tempos de fartura é mais tranquilo, mas é no tempo das vacas magras onde surgem os grandes profissionais. Estamos diante de um momento muito especial em nosso país e a mensagem que eu gostaria de deixar aos meus 66 leitores é de incentivo e para que possam, cada qual em sua área de atividades, desempenhar da melhor forma o seu ofício buscando sempre a excelência.

Finalizo este texto perplexo por receber no dia de hoje um flyer de divulgação de uma determinada gravadora que acaba de fechar um contrato com uma das plataformas streaming disponíveis no país e afirmando que com isso estava conquistando algo muito especial. Faltou dizer que essa plataforma já existe por aqui faz mais de 3 anos, portanto, não tem nada de grandioso e fantástico nisso! Especialmente as gravadoras de nosso segmento precisam urgentemente agir para não terem o mesmo triste fim do nosso gerente e sua mesa empoeirada.

Bom trabalho!

Mauricio Soares, casado, pai de 3 meninos muito acima da média, talvez um jornalista-abaixo-da-média, um profissional-de-marketing-na-média (ou não!!!!), um publicitário-abaixo-da-média e, ainda, um consultor-de-marketing-abaixo-da-média. Só o tempo dirá …

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Muitos problemas poderiam ser simplesmente evitados se o entendimento dos fatos, uma melhor compreensão dos resultados e, principalmente do conceito em si das atividades fosse melhor compreendido. No nosso último post falamos sobre o conceito da atividade de assessoria de imprensa e do profissional de marketing digital, duas áreas que observamos neste momento um aumento de demanda, com enorme potencial de crescimento, mas que pela falta de uma melhor definição do que realmente é notamos uma série de confusões e expectativas frustradas.

Seguindo o tema anterior gostaria de continuar falando sobre conceito. Neste momento em que cruzo boa parte do país saindo do Rio de Janeiro para a capital cearense espero aproveitar as 3 horas de vôo para explicar e contribuir para um melhor entendimento em algumas questões. Ontem conversando durante o almoço com meus dois maiores parceiros na companhia falamos sobre a diferença entre empresário e vendedor de shows. Falávamos de um determinado profissional que tem o dom de fechar contratos, de abrir portas e fazer grandes ações de booking, que é no jargão do meio, aquele que oferece, negocia e administra a venda de shows. Só que este determinado profissional se via além de um excelente vendedor de shows. Em sua própria concepção ele já havia passado para o estágio superior, julgando-se um empresário artístico. E aí, entre uma e outra garfada fomos discutindo as atribuições de uma e outra função.

Antes de mais nada, vale a pena registrar que o meio artístico gospel é absolutamente carente de empresários. Isso é fato! Em contrapartida, este mesmo segmento está lotado de vendedores de datas. Nada de mal nisso! O problema é quando estes profissionais se imaginam e procuram atuar nas diferentes áreas de atuação. Em bom português, uma coisa é vender shows e outra completamente diferente é ser um empresário. O primeiro é aquele profissional operacional, do dia a dia de contatos, senso de oportunidade, muita disposição para negociar, organização e excelente noção de logística, produção e planejamento. Um vendedor de shows deve ter uma excelente rede de relacionamentos. Deve manter contato permanente com contratantes e produtores locais de shows. Não raras as vezes, este profissional deve acompanhar as viagens do artista, analisando as condições do evento e mesmo analisando a capacidade do contratante na realização dos eventos a que se propõe.

Agilidade, organização e bom senso são fundamentais no perfil do bom vendedor de shows. Hoje em dia em que a tecnologia contribui para o contato e para facilitar as atividades, este profissional deve  ser capaz de no menor tempo possível responder às demandas que surgirem. É assustador como alguns artistas são prejudicados por não terem uma assessoria de qualidade nesta área. Tempos atrás perdi a paciência com um determinado artista porque simplesmente era impossível manter contato com ele. O seu site ‘oficial’ estava completamente desatualizado. Os números de telefone estavam errados ou simplesmente tocavam até cair a ligação. O email era uma caminho sem volta no melhor estilo buraco negro, em que simplesmente ninguém recebia retorno de nada. Resumindo a história, não por coincidência este determinado artista foi minguando, minguando até chegar a um estágio próximo do mais completo ostracismo.

A função principal do vendedor de shows é – por mais óbvio que possa parecer – fechar bons contratos para seu artista. E neste quesito temos casos absurdos em nosso meio que não posso deixar de citar. Há alguns anos atrás jantando com uma artista e seu esposo o telefone tocou. O esposo parou a conversa com cara de poucos amigos, atendeu a ligação e começou a falar numa rispidez de assustar. Em poucos segundos encerrou a conversa e voltou ao papo à mesa. Completamente chocado pela cena que havia assistido perguntei se estava tudo bem e ele candidamente respondeu: “Não aguento mais! Toda hora me liga alguém pra marcar agenda. Povinho chato esse …”. Pra encurtar esta história, naquele instante praticamente obriguei-os a montar um escritório próprio e proibi-o de atender qualquer ligação de agenda. Um vendedor de shows obrigatoriamente tem que ser uma pessoa agradável, educada e disponível. Mesmo quando não tiver como atender ao convite, o vendedor deve gentilmente declinar da proposta e em muitos casos sugerir uma nova data. Jamais deve desmerecer ou tratar de forma deseducada a um cliente. Básico não? Mas infelizmente há muito vendedor grosso, mal humorado, arrogante, mal educado em nosso meio, incrível mas é fato!

O ato de vender shows deve ser algo leve, transparente e facilitado. Outro dia em contato com um escritório de venda de shows passei 3 solicitações de datas de diferentes eventos. Como estes contratantes eram todos muito próximos a mim e já têm uma boa experiência e tradição no meio, esforcei-me em ajudá-los indicando alguns nomes para seus respectivos eventos. Então, como facilitador no primeiro contato passei todas as informações dos eventos, dos próprios contratantes e até mesmo uma noção mais clara sobre os valores de cachê e tudo mais. Liguei para um dos escritórios, expliquei tudo em detalhes, passei todas as coordenadas. Depois de quase 10 minutos ou mais de ligação, o (impublicável) vendedor me falou na maior cara de pau: Ah! Que legal. Pede para esse contratante então ligar pra mim. Depois das 14h e antes das 18h.” Confesso que fiquei alguns segundos estático tentando digerir a informação e de forma automática e quase inocente perguntei de volta o porquê dele não ligar direto para o contratante e aí fui obrigado a ouvir:  “Estou com muitos emails pra responder. Muita coisa aqui pra fazer e também porque por orientação do artista, não fazemos mais ligações. Somente em último caso. Se este contratante quiser mesmo levar o artista, ele precisa ligar pra nós! Ah … não esquece que entre 14h e 18h, ok? Agora vou almoçar …”

Acho que a figura do vendedor de shows já está bem definida, mas e o empresário artístico? Bem, o empresário é antes de mais nada um investidor. Sim, um investidor, aquele que vai colocar dinheiro, tempo e dedicação no sucesso de um artista. No meio gospel tupiniquim onde os termos são constantemente alterados no sentido de espiritualizar tudo, no melhor estilo ‘gospelmente correto’, a palavra investidor é algo que pode assustar a muitos. Mas deixando de lado a hipocrisia purista reinante, o fato é que estamos diante de um mercado potencial, em crescimento, se consolidando a cada dia e onde o dinheiro circula em diferentes atividades. Nada mais natural que o mercado gospel chame a atenção de investidores. O problema não é ter um investidor no meio artístico gospel, mas a falta de transparência nesta ação. De outro lado, o investidor precisa entender que o mercado tem muitas peculiaridades e como tal, é fundamental ter sensibilidade, bom senso e principalmente um planejamento sério nas questões custo x benefícios, breakeven, retorno, tempo, oportunidades.

Resolvidas estas questões mencionadas acima, voltemos ao conceito do empresário artístico. Em primeiro lugar, este profissional deve ter lastro financeiro e segurança. Assim como em qualquer negócio, os riscos são inerentes. Não é porque o artista é uma bênção, talentoso, simpático, bom rapaz, músico virtuoso, com boa aparência e que fala 5 línguas, inclusive as espirituais, que ele vai dar certo. Qualquer aposta é sempre uma aposta. Pode dar certo ou não. E aí é fundamental que o empresário não coloque todas as suas fichas na expectativa do retorno. Muitas das vezes o retorno pode vir, mas é necessário um bom tempo de investimento e maturação. Neste caso, um bom budget para o projeto é fundamental! Outra questão importante, o empresário deve ser alguém que privilegie relacionamentos. Um bom networking é condição sine qua non para um profissional gabaritado nesta área. O empresário precisa estar na rua, em campo, participando dos grandes eventos, buscando oportunidades diferenciadas para seu artista. E neste networking é fundamental que o empresário mantenha uma relação saudável e de parceria com a gravadora caso seu artista faça parte do cast de alguma empresa. Aquele empresário que age de forma individual na condução de um artista que esteja vinculado a uma gravadora acaba mais atrapalhando do que ajudando. Um bom empresário é aquele que trabalha lado a lado com a gravadora buscando oportunidades, traçando metas e objetivos e principalmente planejando ações em conjunto.

No meio secular a figura do empresário é muito comum. Em muitos casos a gravadora sequer mantém contato direto com o artista, reservando toda a comunicação exclusivamente para o escritório empresarial. O empresário, como já mencionado anteriormente, é aquele que busca alternativas de fontes de renda e contratos. Entre estas oportunidades estão as ações de publicidade, licenciamento e mesmo de contratos comerciais. Por que os artistas do meio gospel praticamente são nulos em campanhas de publicidade? Não só no caso de produtos e projetos seculares, mas principalmente de produtos de consumo para o próprio segmento gospel. Por que essa ausência de artistas em campanhas de mídia? A resposta é simples e direta, ou seja, não há profissionais buscando contratos junto ao meio, às agências de publicidade. Ou seja, faltam empresários em nosso meio à procura de oportunidades!

Em praticamente 100% dos casos no meio gospel a negociação de contrato ou de renovação de vínculo entre o artista e a gravadora é feita diretamente entre as partes. Esta relação muitas das vezes é desgastante e o artista cria expectativas bem distantes da realidade do mercado. Com a participação do empresário, geralmente alguém mais antenado com as tendências e realidades do meio, a negociação flui de forma mais direta, objetiva e transparente, facilitando todo o processo. Ao longo de 25 anos de mercado posso assegurar que em muitos casos, negociações das quais participei seriam bem mais tranquilas pela simples participação de um empresário. Muitas das vezes ter que negociar com marido, esposa, o próprio artista, cunhada, pai e similares acaba mais prejudicando do que ajudando. A relação nestes casos passa muito mais a ser algo pessoal, até mesmo passional do que profissional e nestas horas o fundamental é ter transparência e segurança poupando assim de eventuais dores de cabeça, frustrações e perda de tempo.

O empresário deve ter uma visão macro do mercado. Não pode jamais reduzir seu campo de visão para o próprio universo. O ideal é que o empresário tenha uma boa percepção de oportunidades e tendências. Contratar um artista no início da trajetória, prestes a ‘estourar’ é para poucos observadores e geralmente estes são os que efetivamente têm sucesso no mercado. É o tradicional ‘investir na baixa para colher na alta”. E aí, é óbvio que oportunidades não batem à porta do escritório, ou seja, é necessário estar em constante deslocamento, participando de shows regionais, congressos, antenado na internet, enfim, buscando informação o tempo todo, todo o tempo.

Um bom empresário é aquele que procura orientar seu artista. E aí há um detalhe importante. Naturalmente boa parte dos artistas crêem veementemente de que são a oitava maravilha do mundo e que não carecem de tantos ajustes, orientações e conselhos. Coitados! Então, o empresário antes de mais nada precisa de paciência (muita!), firmeza na condução e um bom planejamento. Não pode faltar argumento quando se necessita orientar o artista sobre ações, estratégias e caminhos a seguir. Aí neste caso, muito desta credibilidade será adquirida com o passar dos anos. É uma questão de tempo e de cases de sucesso para conquistar-se o devido respeito do mercado e do próprio artista. Caso o empresário ainda não tenha essa bagagem que só o tempo pode trazer, o ideal é investir na ajuda externa de consultores. Aí, neste caso, é fundamental saber a quem pedir a tal consultoria porque nosso meio está recheado de bicões e sem noção que prometem o que não cumprem!

Antes de partir para a finalização do texto gostaria de descrever meu prazer enorme de ouvir enquanto produzo este post o disco de Salomão do Reggae. Na minha modestíssima opinião, estamos diante de um dos maiores letristas e poetas de nosso meio dos últimos tempos. A qualidade da caneta do Salomão é absurda e faz parecer fácil escrever versos como o que ele transformou em canções neste projeto. Além da criatividade com as palavras, o tal do Salomão ainda é um intérprete de mão cheia, instrumentista e tem um carisma sobrenatural. Quero muito estar certo nas minhas projeções e de verdade creio que estamos diante de um artista completo que será sucesso nacional em não mais do que 2 a 3 anos. Este projeto deverá ser lançado entre agosto e setembro e sairá pelo selo Balaio Music com distribuição exclusiva pela Sony Music. Enquanto isso, o prazer de ouvir este material fica restrito a poucas pessoas e ainda bem que estou entre estas!

Voltando ao texto, acho que conseguimos definir bem o conceito de vendedor de shows e o empresário artístico. Acho que em se tratando do universo gospel brasileiro temos muito a crescer, a melhorar, a desenvolver. No caso dos vendedores o desafio é tornar essa atividade mais profissional. Há demanda de eventos crescente. Imagino que no país, cada vez mais as prefeituras irão investir em shows de música gospel. No Brasil temos mais de 5 mil municípios, ou seja, muitas oportunidades. Além da demanda de shows, há a própria necessidade de suporte por parte dos artistas. Já não comporta mais que alguns grandes artistas ainda insistam na solução caseira com pai, mãe, marido, atendendo às ligações e negociando os cachês. Já temos no mercado algumas empresas que desempenham com qualidade este tipo de trabalho, basta uma boa pesquisa.

Em contrapartida, se temos muitos vendedores, já não podemos afirmar o mesmo para a categoria de empresários artísticos. Há algumas semanas atrás conversei com um empresário da área do samba que cada vez mais está antenado com o segmento gospel. Neste mesmo período já tive reuniões com empresários do segmento sertanejo, católico e até mesmo do pop rock. Todos mostraram-se muito curiosos em entender melhor o ambiente da música gospel. A percepçào de que estão diante de uma oportunidade interessante pela frente é inequívoca, mas que também necessitam aprofundar o conhecimento sobre este universo. Ou seja, não nos surpreendamos se escritórios de artistas populares muito em breve também abrirem um setor exclusivo para atendimento a artistas e eventos do meio gospel. De verdade acredito que em mais alguns meses já teremos essa novidade em nossos arraiais.

Por hoje é só!

 

Mauricio Soares, viajante contumaz, publicitário, amante da boa música, observador atento, incentivador do mercado gospel, profissional de marketing, jornalista e alguém que não participa de campanhas mirabolantes como Embelezamento de Altíssimo em 7 semanas, Fronhas do Sonhos de Deus, Sabonete com Óleo e sincretismos afins.