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Um risco que qualquer pessoa passa ao conversar comigo, seja numa reunião ou mesmo de forma descontraída num restaurante, é que algo dito por ela torne-se tempos depois o pontapé para um texto aqui no blog. Às vezes, uma simples frase já pode tornar-se o estopim para um insight e depois materialize-se num texto do Observatório Cristão. Pois dias atrás, em conversa com um grande amigo do mercado, ele me comentou sobre algo que gostaria de dividir com os nossos 69 leitores (vocês estão aí?) nas próximas linhas.

Este amigo, assim como eu, tem alguns bons anos de mercado fonográfico e naquele dia estávamos um pouco saudosos, recordando nossas muitas histórias, casos engraçados e muito pitorescos. Rimos muito. Muito mesmo! Até que ele soltou a frase que servirá como nosso tema de hoje. “Soares, a gente está comemorando a mudança do físico pro digital, mas na verdade, agora, nosso trabalho não acaba nunca! Já não basta o Temer querer que a gente aposente já velhinho, agora no digital, não temos direito mais de parar” … a frase de efeito veio acompanhada de uma risada gostosa, daquela em que ficamos sem ar … e todo o corpo ri junto. Em meio às gargalhadas, só me coube concordar e dizer quase que num lamúrio: “Pior é que é, estamos fritos!” e sem seguida, mais gargalhadas …

Pra quem não entendeu ainda o que dissemos acima, vou tentar explicar de forma bem didática. Nos tempos ancestrais em que as vendas físicas (CD, DVD,Playback) ditavam o mercado, as gravadoras atuavam desde o início do processo. Contratava o artista, definia o repertório, cuidava da produção do disco em estúdio, músicos, arranjos, enfim, todo o processo de elaboração do projeto. Em paralelo havia as sessões de foto, figurino. Depois a criação, o design do produto, escolha de capa, embalagem, ficha técnica, revisão de texto, escolha das fotos, os intermináveis textos de agradecimento dos artistas, que muitas das vezes pareciam verdadeiros testamentos de tão grandes, até que com tudo aprovado, partia-se para a fábrica, após mix e masterização e, claro, a palavra final da própria gravadora e artista. O trabalho depois seguia numa outra área: vendas e marketing. O produto era apresentado ao mercado através de uma campanha de divulgação, o artista seguia em turnê por algumas capitais e o disco chegava às lojas. Neste momento, o foco era todo em ‘tirar o produto da prateleira’ para que o lojista pudesse providenciar a reposição de estoque, o que muitas das vezes não acontecia, neste caso o produto ficava literalmente ‘encalhado’ pegando poeira até uma liquidação de Bota Fora. Todo este enorme trabalho, de fato acabava quando o consumidor final ia até o ponto de venda e adquiria o CD ou DVD. A partir dali, teoricamente a gravadora encerrava seu trabalho. Digo teoricamente porque havendo reposição de estoque e procura pelo mercado, o trabalho de vendas e divulgação seguia normalmente até que a força do produto em si, acabasse de vez ou fosse substituída por um novo produto do mesmo artista.

O fato é que após o consumidor comprar seu disco na loja, para a gravadora não faria diferença alguma se ele fosse escutar o disco por 500 vezes seguidas, fosse ouvir apenas uma faixa, geralmente a música de trabalho, ou mesmo se ele esquecesse o CD ainda embalado no criado mudo do quarto. O simples ato da compra, encerrava de vez a relação da gravadora com o produto em si.

E aí voltamos à conversa com meu querido amigo no início deste texto. Quando ele comenta de que hoje, com a mudança do formato físico para o digital o trabalho da gravadora não acaba nunca, significa que o foco neste momento é de que TODOS OS DIAS o consumidor ouça aquele determinado conteúdo porque somente assim, teremos receita sobre o produto. As plataformas de streaming atuam como as antigas lojas e distribuidores de discos, mas em vez de pagarem em contrapartida pela compra dos discos, neste momento elas pagam mediante o uso do conteúdo, ou seja, são parceiros diários do negócio. Explicando ainda de forma mais clara, toda vez que o consumidor ouve ou assiste uma música pelos aplicativos de áudio e streaming por no mínimo 30 segundos, a plataforma direciona um valor para as gravadoras e, por conseguinte, os artistas, compositores e toda a cadeia produtiva. Então, se antes, nosso objetivo era tirar o produto das prateleiras, o foco atual é fazer com que o consumidor aperte o play (por pelo menos 30 segundos) para ter acesso DIARIAMENTE ao conteúdo e, se possível, mais de uma vez por dia.

Ou seja, o trabalho em tempos digitais não acaba NUNCA! Não há feriado, fim de semana ou descanso!

E esta questão é fundamental e merece ser entendida por todos os players do que chamamos de mercado da música. Especialmente artistas e equipes de marketing digital. Antigamente, os artistas mantinham-se focados no lançamento num período que compreendia 3 a 6 meses, no máximo! Após este período de maior pressão pela divulgação do novo projeto, os artistas costumavam pegar a estrada em turnês, shows … alguns tiravam umas férias e outros já começavam a pensar na produção de um novo projeto iniciando mais um período, repetindo-se tudo o que vivenciou nos últimos meses. Vale lembrar que muitos artistas lançavam projetos de 15, 16 … até 20 faixas em períodos de 1 ano, criando para si uma cultura de produção em sequência quase frenética. E aí, vale ressaltar que nesta época, produzia-se uma quantidade enorme de faixas e o foco permanecia em apenas uma única canção, a famigerada ‘faixa de trabalho’ colocando para o limbo do ostracismo todas as demais canções. Desperdício em nível máximo, de tempo, de qualidade e dinheiro.

Atualmente a música é individual, ou seja, todas as faixas de um projeto tornaram-se ‘música de trabalho’. O single assumiu lugar de destaque no mercado e, por isso mesmo, demanda um trabalho semelhante de divulgação, nos mesmos moldes do que havia na época do disco. Divulgação nas mídias, entrevistas, promoções, turnê de divulgação, maratona de rádios … o escopo de divulgação segue o modelo de antes. A grande diferença tem a ver com periodicidade desta divulgação que deixou de ser por um período curto e passa a ser contínua, diária e por alguns meses. O lançamento de um novo single não exclui o single anterior, pelo contrário, os dois projetos passam a ser complementares, a divulgação de um conteúdo reforça o outro servindo como escada para novos projetos. É como um fio condutor … uma música boa traz expectativa para um novo lançamento e por aí vai …

A questão é que este trabalho de incentivo ao consumidor para ouvir ou assistir a canção deve ser diária. Vou repetir, não tem férias em tempos digitais. A meta é ter ao menos 30 segundos de atenção do consumidor para somente assim garantir uma receita ao fim do mês. Especificamente sobre este emblemático tempo de meio minuto, vale aqui a dica de que estão ‘proibidas’ introduções intermináveis acima de alguns segundos, pois o risco do consumidor dar um skip na canção e pular para a próxima aumentam consideravelmente à medida em que a música não se apresenta de fato nos segundos iniciais.

Conversando com outro amigo do mercado, ele me comentou de que dados e pesquisas apontavam uma queda considerável no número de streams de conteúdo gospel nos sábados e domingos. Em contrapartida, o pico de consumo de música sertaneja é bem maior nos fins de semana do que durante os dias úteis. O consumo de conteúdo gospel às segundas-feiras é enorme, colocando o estilo musical entre os principais consumidos neste dia. Estas análises servem para que estrategicamente algumas ações sejam tomadas e neste momento estamos elaborando uma campanha para que o consumo de música gospel permaneça alto nos fins de semana. É uma questão de foco e trabalho, porque não creio que justo nestes dias, os evangélicos ou simpatizantes de música cristã passem a curtir outros estilos musicais, é mais uma questão de hábito, de cultura, de incentivo para que o público insira a música gospel nestes dias, mesmo sabendo que são dias de reuniões, eventos e cultos dominicais. A música nestes dias não precisa ser colocada de lado, pelo contrário!

Então, finalizando este texto, #ficaadica, não perca o foco! Mantenha-se permanentemente incentivando o público pelo consumo através dos apps de streaming, jamais baixar a guarda! O número de ouvintes mensais no Spotify, por exemplo, é uma informação que deve ser acompanhada sempre, pois é um importante registro do comportamento de consumo de conteúdos do artista. Assim como as ferramentas que a Deezer disponibiliza no controle do número de streams. Falando de Deezer, em breve será lançada a ferramenta Backstage que irá ajudar muito na busca por informações aos artistas, assim como já existe o Spotify for Artists.

Aproveito para informar aos 69 leitores que em 2018 iremos, em parceria com a On Off Marketing Digital, promover alguns workshops em algumas cidades pelo país abordando assuntos relacionados ao mercado da música, marketing digital, oportunidades e ferramentas. Muito possivelmente, a primeira cidade em que faremos este projeto será Recife, depois Vitória, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e São Paulo. Mais notícias em breve.

Foco!

Mauricio Soares, diretor artístico, publicitário, jornalista, palestrante e alguém que já percebeu que a aposentadoria ou o descanso tornaram-se algo bem distante. Vamos trabalhar!

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Se não me engano, desde o fim de 2017 não publico algo novo por aqui no blog … e de uma forma muito humilde quero justificar-me que o ofício de escrever, de publicar meus textos, seja aqui mesmo ou em outros veículos de comunicação, sempre foi encarado por mim muito mais como um lazer, um hobby ou principalmente, um prazer pessoal, do que algo mais oficial ou uma obrigação. Há momentos em que minha produção de textos é intensa … já em outras oportunidades, por falta de tempo e mesmo de inspiração, vivenciei períodos de estiagens intensas. No entanto, uma pausa tão longa como a que tivemos nestes últimos 90 dias, creio que seja algo inédito nos 11 anos de existência do Observatório Cristão e minha grande justificativa, até por respeito aos nossos diletos 69 leitores, é única, a saber: absoluta falta de vontade de escrever algo relevante mesmo tendo muitos insights e temas pensados ao longo deste período.

Dias atrás entreguei um texto para uma revista digital que será lançada em breve. O editor desta revista havia feito o convite a mim desde o fim do ano passado e pelas mesmas justificativas citadas acima, protelei ao máximo a entrega do texto inédito, até que por insistência do editor, me impus parar tudo e atender ao pedido. No texto dei um rápido resumo sobre o que vivemos no mercado da música em 2017 com a efetiva transição do consumo físico para digital. A experiência de sentar-me à frente da tela do computador, talvez tenha sido o estopim para que neste momento, a bordo de um voo entre o Rio de Janeiro, em plena intervenção federal, e a capital mineira, eu esteja teclando este texto … que na verdade, confesso, ainda não sei qual tema irei discorrer nas próximas linhas. O importante é que de alguma forma, parece-me que a vontade de romper com o ócio criativo está sendo combatido neste momento. É pra aplaudir de pé igreja!

Ainda sobre este tempo de escassez de textos, me surpreendi (continuo achando que minha relevância e audiência no blog são bem abaixo do que a realidade insiste em demonstrar) com a enorme quantidade de mensagens de amigos, alguns conhecidos e até mesmo gente que só conheço virtualmente, me perguntando sobre a ausência de novos textos ou ainda, relatando a necessidade de atualizações do blog. Confesso que este interesse me deixou bastante feliz e até mesmo lisonjeado. Desde quando começamos a publicar nossos textos há mais de uma década, a intenção do blog sempre foi de contribuir de alguma forma para um melhor entendimento do mercado e temas relacionados ao marketing, comunicação, vendas e estratégias. Nos últimos 3 anos, tive a grata oportunidade de contribuir com 9 projetos de TCC e já em 2018, recebi o pedido de mais 2 formandos. Ou seja, creio que o Observatório Cristão de forma direta ou indireta vem contribuindo para um melhor entendimento, especialmente sobre o mercado da música como um todo.

Então, aproveitando o texto que escrevi ontem, gostaria de seguir este novo post – com uma enorme introdução, me desculpem! – abordando alguns aspectos que me chamaram a atenção no último ano. Em primeiro lugar, creio que daqui 10 anos, quando olharmos os livros de história ou textos jornalísticos, o ano de 2017 poderá ser considerado como o marco oficial da transição do consumo de música. Efetivamente foi neste ano em que houve o grande salto do consumo da música pelos aplicativos de áudio streaming revertendo de uma vez por todas o modelo de consumo por parte do público. Estima-se que no mercado brasileiro, cerca de 97% do faturamento entre as majors – principais gravadoras – será proveniente de operações digitais em contraste às vendas físicas de CDs e DVDs. Falando de meu dia a dia, no ano de 2017 tivemos a oportunidade de lançar apenas 2 produtos físicos e 238 projetos exclusivamente digitais, ou seja, a disparidade entre os formatos é absoluta e irrevogável.

Então, o que era apenas futuro, tornou-se presente! A música agora é oficialmente digital!

Com esta nova cultura, podemos observar mudanças profundas no meio fonográfico e porque não dizer, no ambiente artístico como um todo. Gostaria de aproveitar para destacar alguns destes novos aspectos. Em primeiro lugar, a forma de apresentação dos conteúdos para o mercado e público sofreram várias mudanças. Sai o álbum com 12, 14 faixas para dar lugar a singles e EPs … tudo sempre acompanhado da versão em vídeo, seja através de clipes, Lyric Videos, Live Sessions ou mesmo Pseudo Vídeos (quando é só a capa estática do produto). Com isso o ritmo de produção e mesmo o intervalo entre os lançamentos é alterado sistematicamente, pois se antes uma produção demorava em média 6 meses e outros 18 meses de trabalho, neste atual cenário, o tempo de produção pode chegar a dias, em caso de um single e o tempo de divulgação demanda não mais do que 90 dias, em raríssimas exceções. Agora o artista não pode se dar ao luxo de grandes espaços sem novidades … a necessidade de constantemente lançar conteúdos torna o trabalho muito mais intenso (um dos meus últimos textos aqui publicados trata bem deste assunto, vale a leitura!).

Eis que tudo se fez novo … de novo! Atualize-se urgentemente para não correr o risco de ficar para a história ou mesmo no mais puro ostracismo e esquecimento!

Uma mudança neste novo cenário e que merece destaque neste momento tem a ver com a democratização em nomes, geografia e estilos. Tentando resumir esta afirmação, acho melhor dissecá-la, então explicando, até alguns anos atrás vivíamos uma escassez de novos talentos, basicamente em função dos altos custos para transformar uma promessa em sucesso, pela própria característica reativa e pouco audaciosa de boa parte das gravadoras do segmento gospel no país e, ainda pela falta de disposição de emissoras de rádio em abrir espaço para novos nomes e novas propostas musicais. Ou seja, vivíamos um círculo vicioso sempre com os mesmos artistas no topo, os mesmos estilos musicais repetidos à exaustão, mesmos produtores musicais, mesmos compositores e assim seguia a mesma toada numa falta de novidades irritante. Basta lembrar que o último artista que surgiu nos últimos anos, com nova proposta musical, foi o cantor Thalles Roberto no longínquo ano de 2008/09. Em comparação com os dois ou três últimos anos, tivemos uma profusão de novidades de estilos e de nomes, de propostas musicais e sonoridades. Isto deve-se basicamente ao novo formato de consumo através dos aplicativos de vídeo e áudio streaming.

Hoje é muito mais fácil tornar-se conhecido e relevante. As tecnologias aproximam as pessoas, encurtam os caminhos e têm capacidade de transformar uma carreira. No entanto, talento, qualidade e conhecimento técnico são indispensáveis, sempre, estejam atentos a isto!

A democratização não se limitou ao estilo ou mesmo aos artistas, mas também alargou substancialmente as fronteiras, ou melhor, o digital eliminou por completo as barreiras, tornando o consumo global e de igual forma, as chances de artistas de regiões fora do eixo Rio-São Paulo tornaram-se reais, algo inconcebível tempos atrás. Para ilustrar esta afirmação neste momento tenho trabalhado com artistas do sul do país, assim bem como artistas do Centro Oeste, inclusive residindo em Palmas, Tocantins. Trabalho ainda com artistas do interior da Bahia, de Aracaju, interior de São Paulo e até mesmo em Seattle, EUA, caso de Arthur Calazans, front man do Ministério CFC. Enfim, não há mais dificuldades na distância porque as distâncias simplesmente inexistem neste momento. E isso é fantástico!

Não há mais distância ou grandes entraves! O que impede um artista atingir seu público é qualidade de conteúdo e investimento da forma correta!

Outra questão que observamos em 2017 e que merece atenção é o encolhimento de alguns artistas. É notório que alguns medalhões do meio gospel estão vivenciando tempos estranhos com o advento do mercado digital. A grande maioria destes artistas que viveram o ápice na carreira atrelada à venda de discos carece da vontade em se readequar a um novo cenário, aliada a uma falta de profissionais capacitados à volta e mesmo um estímulo extra, por parte de suas respectivas gravadoras. Outro dia parei para analisar números de vários artistas no tocante a streams e o susto foi grande. Artistas com 3 anos de carreira superando outros com 20 anos de estrada … e o mais impressionante é que este fenômeno já passa a ser percebido também no line up dos grandes shows de música gospel pelo país, ou nas programações das emissoras de rádio. Enfim, quem imaginava que teria uma carreira longeva e tranquila no melhor ‘céu de brigadeiro’ após ter alcançado o sucesso anos atrás, é bom mudar este conceito, arregaçar as mangas, tirar o ‘escorpião do bolso’ – em bom português, investir mesmo! – e se atualizar sobre ferramentas e estratégias. Ou seja, trabalhar com foco, simples assim.

Vamos trabalhar! Chega de ficar no sofá da sala achando que as coisas acontecerão normalmente!

Ou seja, o mercado da música está talvez num dos seus melhores momentos das últimas décadas. Como profissional do segmento há alguns anos, vivo hoje uma experiência incrível de mesmo após tanto tempo de mercado, ainda aprender e sentir-me estimulado a crescer e a trabalhar mais e mais. Vejo claramente que há artistas que estão vibrando com este cenário, que estão trabalhando muito e, consequentemente estão colhendo resultados incríveis. Já outros estão literalmente ‘correndo atrás’ … não do prejuízo, até porque não sei quem cunhou esta expressão tão louca … afinal, devemos correr atrás é do lucro, porque do prejuízo corre-se dele e não para ele, mas enfim … há artistas que estão buscando adaptar-se às novas demandas e outros que simplesmente resolveram aposentar as chuteiras e deixarem-se se levar pela correnteza ladeira abaixo … o recado está dado! Vamos trabalhar e colocar a música gospel de fato no local em que deveria estar no mundo digital nos últimos tempos.

Finalizo este texto com uma boa notícia e uma mensagem de parabéns. O excelente trabalho que Lincoln Baena, editor de música cristã da Deezer Brasil vem realizando nos últimos anos chamou a atenção do board da companhia no mundo e desde o início de 2018, o editor brazuca assumiu o posto de editor da Deezer na América Latina para o mercado cristão. Agora, Baena coordena 20 países dentro da plataforma. Parabéns!

Enjoy!

Mauricio Soares, diretor artístico da Sony Music, publicitário, jornalista e palestrante. Agora, voltando com tudo para o blog!

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Há algum tempo atrás era bem comum encontrar adesivado em vidros dos carros pelas grandes cidades uma campanha que dizia “Seguro, só com corretor de seguros”. Tempos depois passamos a nos deparar com outras categorias profissionais em campanhas semelhantes onde o conceito que se repetia era sempre o mesmo, ou seja, cerque-se de profissionais credenciados e de qualidade para somente assim garantir que não terá problemas futuros. Existe um ditado popular que diz: “Diga-me com quem andas e te direi quem és”. Em uma palestra ouvi do preletor a seguinte afirmação: ‘Muito pior do que ter um funcionário passivo, lento, sem iniciativa, não criativo … é ter um idiota voluntarioso, o estrago costuma ser bem maior!”

Estava conversando com um amigo profissional da indústria fonográfica, alguém com pouco mais de 10 anos de mercado, portanto já com uma relativa experiência em nosso meio e ele me relatava a respeito de uma experiência traumatizante que havia vivenciado dias atrás. No meio de um processo de renegociação de contrato, este profissional viu-se diante de uma situação constrangedora onde o artista simplesmente recusava-se a negociar diretamente com a gravadora e havia determinado um interlocutor de seu staff para tratar de todo o processo. Até aí, nada demais … muitos artistas (especialmente no meio secular) possuem empresários e managers que cuidam de todas as questões relativas a números, contratos, percentuais, venda de shows etc. Só que neste caso, o tal interlocutor imposto pelo artista era alguém completamente despreparado, sem experiência do mercado fonográfico, sem ‘tempo de estrada’, que não havia participado do processo de construção daquele projeto/artista desde o início e, o pior, com uma arrogância tamanha que praticamente inviabilizou todo o processo de conversação entre aquele artista e a gravadora.

Quase que como um terapeuta, fui ouvindo as queixas e decepções daquele profissional (que tem meu máximo respeito!) pela forma com que todo aquele processo havia sido conduzido. Era latente de que aquele artista havia errado de várias formas na condução da negociação e o principal fator neste erro, sem dúvida, foi a colocação de alguém sem a menor condição de representá-lo. E aí voltamos ao primeiro parágrafo deste texto que escrevo em meio a uma ponte aérea entre Rio e São Paulo. Há uma carência de profissionais que realmente estejam preparados para conduzir carreiras artísticas no meio gospel e católico no Brasil. Vivemos uma profusão de maridos, esposas, cunhados, primos que surgiram não se sabe de onde … filhos, vizinhos e até sogras que de uma hora para outra imaginam-se como sendo Dodi Sirena, Poladian ou outros empresários de sucesso no show business. Isto é mais comum do que se possa imaginar para tristeza daqueles (como eu!) que precisam sentar-se à mesa de negociação para tratar de contratos e do gerenciamento de carreiras. O nível de conhecimento no ambiente dos ‘empresários’ do meio gospel é perto do pré-sal e não falo isso para diminuir ninguém, mas justamente para estimular ao crescimento, ao entendimento, à maior capacitação e busca de conhecimento. Simples assim!

Meses atrás reuni-me com um destes empresários-maridos-de-cantora-gospel e o nível de desconhecimento do mercado da música, do ambiente digital, em especial, beirava o nível máximo de ‘vergonha-alheia’. O marido sequer conseguia pronunciar Spotify, Deezer, ou palavras mais comuns como views e single … quando não conseguia mencionar estas palavras, recorria ao surrado ‘essas coisas’ … e confesso que nunca ouvi tantas vezes ‘essas coisas’ numa conversa de pouco mais de 1 hora de duração. Mas aí você deve se perguntar, mas será que todo mundo nasce sabendo? Tem algum mal em ser empresário e marido da cantora? De pronto respondo que não! Não há problema alguma em unir a filiação ou o vínculo familiar com o trabalho de gestor de uma carreira artística, mas o DNA não pode ser mais importante o que o conhecimento! Jamais! Pra começo de conversa, o que mais temos hoje em dia é informação ao alcance das mãos. Basta um tempo de dedicação, pesquisa, leitura e observação in loco dos processos, para se formar conhecimento. No caso de gestores de carreiras artísticas, uma boa dica é buscar conhecer outros profissionais do meio e aprender com eles. De fato, sugar ao máximo o conhecimento e adaptar à realidade de seu artista tudo o que foi aprendido.

A verdade é que tem muita gente em nosso meio querendo ser o que de fato não é … e neste momento, contar estória já não leva ninguém a lugar algum! Ou se sabe com propriedade ou então, é melhor ficar quieto. O que não ocorreu em uma recente reunião em que participei e um jovem com seu blazer surrado disse que uma determinada artista havia trazido mais de 1.000% de lucro para a gravadora. E o rapazinho falou isso com a maior sem-cerimônia como se fosse normal um artista alcançar tal lucratividade, ou seja, deveria ter ficado calado (e comprar um blazer novo!). O ruim para ele é que nesta reunião tinham apenas profissionais mega experientes do mercado da música e aquela sua intervenção, praticamente o desabilitou no restante da reunião. Ninguém mais o levou a sério!

O mercado da música seguirá crescendo pelos próximos anos! Isso é fato! Especialmente no Brasil com um delay significativo em termos de qualidade de acesso aos conteúdos digitais. Neste momento, estar inserido no cast de uma gravadora faz toda a diferença para qualquer artista e contar com o suporte de profissionais irá garantir resultados que certamente irão contribuir e, muito, para uma carreira de sucesso e maior longevidade. Então, minha sincera dica é “Seguro, só com corretor de seguro!”

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, 30 anos de mercado gospel e alguém que não curte gente que finge que entende e na verdade não entende nada, mas que sabe fingir o que não sabe.

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Hoje em meio a uma conversa despretensiosa durante o almoço, meu parceiro de A&R, o querido e competente Bruno Baptista, entre uma e outra garfada de um belo Bacalhau Espiritual, fez um comentário a respeito de um produtor musical ganhador de vários prêmios ao longo da carreira de décadas, profissional muito respeitado pelo mainstream, artistas e músicos:
“Estou no meu limite com ele … se ele não entender que as coisas mudaram, acho que é o fim de linha dele na companhia, na verdade, não só na nossa empresa, mas também no mercado como um todo. Este tipo de atitude dele apenas reflete um tipo de profissional que não se adequa mais ao que vivemos no mercado!”

E aí, você curioso leitor do blog deve estar se perguntando: mas o que este produtor fez ou deixou de fazer para receber uma sentença tão dura como esta? Em rápidas palavras, o laureado produtor que coleciona inúmeros projetos de sucesso com milhões de discos vendidos, tendo trabalhado para boa parte do primeiro time da MPB, segue não mantendo prazos, extrapolando orçamentos e agindo como se fosse mais artista do que os próprios artistas. Ou seja, o que antes poderia ser entendido como algo excêntrico ou mesmo um ‘preço a se pagar pela genialidade e resultados’, hoje em dia é tido tão somente como falta de responsabilidade com um bom toque de falta de noção da atual realidade do mercado.

Utilizei-me deste exemplo em meio a um almoço com o amigo e profissional de outro segmento para corroborar com algo que há muito tempo penso em publicar por aqui no blog. As coisas no meio artístico mudaram muito e entre tantas alterações, a falta de paciência com o amadorismo tornou-se ainda maior. Em outras palavras, a indústria fonográfica trabalha num novo ritmo, muito mais racional e que demanda prazos, planejamentos, datas, estratégias, ações e metas.

Como já escrevi em outros posts aqui publicados, as plataformas digitais trouxeram uma nova dinâmica ao mercado fonográfico. Hoje o que menos importa é colocar seu projeto nas plataformas, no Spotify, Deezer ou Apple Music … isso, com todo respeito, qualquer serviço de agregador de conteúdo é capaz de fazer, até mesmo sem qualquer tipo de relacionamento entre o artista e a empresa. A grande meta das gravadoras hoje é conseguir destaque para os seus projetos no momento de lançamento nas plataformas digitais. E este destaque é conseguido prioritariamente pela relevância do artista, pela força da gravadora junto aos parceiros e através de um planejamento de entrega e ações de promoção com antecedência. O tempo ideal para que o produto seja trabalhado pela gravadora junto aos parceiros digitais é de 45 dias, depois disso, tudo vai ficar mais complicado!

E aí, voltamos aos produtores musicais … sim! Afinal de que adiantará a gravadora buscar o melhor destaque para o lançamento de um determinado artista ou mesmo na elaboração das estratégias de marketing, se o dito cujo do produtor resolve não cumprir com os prazos e metas pré-determinadas? No meio gospel há casos folclóricos de produtores com atrasos de 120, 180 dias de entrega de suas produções. Outros que são reconhecidos por cobrarem ‘lebres’ e entregarem ‘gatos’, ou seja, cobrarem custos de produções prometendo os melhores músicos, os melhores estúdios e no fim, limitarem-se a produções quase caseiras. Há profissionais de produção que são reconhecidos por assumirem 10 projetos simultaneamente e seguirem trabalhando num processo de ‘pirâmide’ onde um artista acaba pagando a produção de outro numa miscelânea louca e com resultados sempre catastróficos! Não podemos deixar de citar os produtos temperamentais que dão chiliques de estrela como se fossem eles os clientes e não os artistas e/ou gravadoras. Enfim, posso listar uma infinidade de modelos de produtores musicais com suas falhas, suas esquisitices e principalmente com a falta de profissionalismo, mas por compaixão aos 69 leitores, fico por aqui mesmo.

A verdade é que este tipo de profissional, inconsequente, desorganizado, sem compromisso, amador e que mais traz chateação do que alegrias, está com os dias contados, ao menos entre as majors e os grandes artistas. O que posso garantir, pelo menos referindo-me à minha pessoa, é que cada vez iremos priorizar mais os produtores que mantêm o compromisso de qualidade sem perder o foco na pontualidade. Que isto sirva como um mantra para todos aqueles que querem se manter no mercado musical!

E o mesmo se aplica aos diretores e produtores de conteúdo de vídeo! Prazo dado é prazo cumprido, como diria o A&R Capitão Nascimento. Enfim, num momento em que os conteúdos chegam às dezenas (às vezes, centenas) a cada semana nas plataformas digitais, garantir o destaque e contar com a parceria destas mesmas empresas é algo fundamental! Por isso, garantir a manutenção dos prazos é a primeira garantia de sucesso do projeto!
Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, publicitário, neurótico por prazos, jornalista, palestrante, profissional de marketing

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Boa parte das informações que publico neste blog, que está prestes a completar uma década de existência (até hoje me impressiono com toda esta longevidade e mais ainda pela quantidade de temas e assuntos publicados!), resulta de experiências pessoais, impressões, observações e da fantástica oportunidade que tenho como profissional de participar de reuniões, seminários, conferências, convenções ou mesmo, em simples bate papos com alguns dos mais influentes e antenados profissionais do mercado fonográfico. Como mencionei aqui mesmo no blog, recentemente tive a oportunidade de participar de minha oitava convenção internacional com pessoas de diferentes países, culturas e experiências do mercado fonográfico. Cada uma destas experiências acaba criando um arcabouço de conhecimento tão incrível, que não me sinto no direito de reter estas informações e é exatamente por este motivo que durante tanto tempo dedico algumas horas, às vezes poucos minutos para escrever alguns textos para o Observatório Cristão.

Na semana passada participei de um evento muito específico, na verdade, uma apresentação de resultados e novidades, exclusivo para as equipes de digital marketing, A&R e digital sales das gravadoras. Este evento foi realizado por uma das plataformas de áudio streaming em atividade no país. Em meio a um turbilhão de informações, planilhas, slides, consegui anotar algumas questões que me chamaram a atenção e as quais eu gostaria de dividir com os 69 leitores de nosso blog.

Você por acaso já ouviu falar em SKIP ou Taxa de SKIP?

Certamente você já ouviu falar sobre o poder do controle remoto, que é a liberdade plena que o consumidor tem de decidir o que irá assistir ou mesmo ouvir. Este “poder” foi potencializado a uma escala sem precedentes com a popularização das TVs por assinatura, afinal com o aumento das opções de conteúdo esta liberdade de escolha tornou-se ainda maior. Basta uma falta de interesse e automaticamente o consumidor aperta a tecla na busca de outro canal, outro conteúdo. Em alguns casos, este empoderamento se torna doentio a ponto do dito cujo ter crises de abstinência pela distância do controle remoto. Freud explicaria, sem dúvida! Mas voltando ao SKIP … este termo passa a ser recorrente entre os profissionais de marketing e sales, principalmente no ambiente de streaming e mais ainda, em se tratando de playlists. Explicando: SKIP é o ato do usuário de pular a música demonstrando assim sua rejeição àquela canção. Esta simples ação de pular a faixa acende alertas importantes nas equipes de análise e performance das plataformas digitais. Este é o recado mais claro e direto por parte do consumidor de que aquela determinada música não o agradou. Quando uma música é inserida numa playlist, além do número de streams ou de vezes em que a canção é ouvida pelos usuários, a quantidade de SKIPs também tem um peso enorme na avaliação e manutenção da música naquela determinada playlist.

Em playlists como “Novidades”, “Top 50” e outras onde a relevância é fator de permanência, o SKIP tem fator preponderante pela presença das faixas na seleção musical. Em alguns casos, determinado artista ou canção pode ser testado pela equipe editorial da plataforma. Seria mais ou menos como colocar uma canção de André e Felipe, dupla sertaneja gospel, em meio à playlist “Baladas Sertanejas” no meio de Henrique e Juliano, Fernando e Sorocaba, Matheus e Kauan, entre outros. Se não houver uma alta taxa de SKIP, muito possivelmente esta canção se manterá na playlist. Recentemente os singles do DJ PV, especialmente a faixa “Eu Sei” com participação do Mauro Henrique, foram incluídas em playlists de música eletrônica no Brasil e no exterior, e até agora, se mantém por lá pela baixa taxa de SKIP.

Você sabe o que é stream? E como é considerado um stream para efeito de monetização?

O stream é o simples ato de se executar a faixa musical através de uma plataforma digital, que pode ser tanto de áudio como de vídeo. As mais conhecidas plataformas de áudio em operação no Brasil são o Deezer, o Spotify, Apple Music, Napster. Há indícios firmes de que até o meio de 2018 teremos o desembarque da Amazon em terras Brasilis. Já as plataformas de vídeo streaming são o popular YouTube e seu parceiro premium, VEVO. Para quem não está ambientado às plataformas, vale ressaltar que há importantes diferenças entre a VEVO e o YouTube. A VEVO é uma plataforma exclusiva de conteúdo musical, enquanto que o YouTube vai de música a como fritar ovo com perfeição. Outra diferença está na introdução de conteúdo onde no YouTube qualquer usuário pode abrir uma conta e despejar qualquer coisa, já na VEVO este conteúdo precisa ser ratificado pela plataforma.

Tanto para o áudio como para o vídeo, bastam 30 segundos de execução da faixa para que esta gere monetização. A monetização não é um valor fixo, a publicidade obtida no vídeo, sua audiência e outras relevâncias são somadas e no fim, geram um valor de monetização. Nos últimos 4 anos, o valor de monetização de vídeos no Brasil despencou absurdamente, muito em função da crise econômica e da queda nos investimentos de publicidade. A receita gerada pelo YouTube no mundo, ficou abaixo ao valor gerado pela venda de vinis, sim isso mesmo! Os velhos bolachões geraram mais receita para a indústria fonográfica mundial do que os trilhões de views do YouTube. Não por coincidência, a indústria está em pé de guerra com o YouTube em escala mundial exigindo melhores receitas desta parceria.

E aí, temos uma dica muito especial aos artistas e principalmente produtores musicais. Com a taxa de SKIP e a monetização contando apenas os 30 segundos iniciais, aquelas músicas com introduções intermináveis correm sério risco de derrubar a performance das canções. Em bom português, não há espaço para músicas que demoram a dizer para o que vieram. Sejam diretos em apresentar a força da canção para reter a atenção do usuário já nos primeiros segundos da faixa. #FicaaDica

Qual a importância do artista ter sua playlist?

A palavra da vez é playlist e para quem não está ainda por dentro do isso significa, basta lembrar do século passado onde gravávamos as melhores canções num fita cassete. Lembro-me que alguns amigos eram experts em seleções musicais e ganhavam um dinheirinho extra copiando suas compilações para terceiros. Tinha de tudo um pouco, do punk rock aos temas de novelas, da MPB ao heavy metal, passando ao rock brazuca dos anos 80 ou às melosas músicas românticas que tocavam no Good Times 98, programa que fez história no rádio brasileiro. Pois bem, esta seleção é o que em tempos virtuais chamamos de playlists.

Há playlists com milhões de seguidores. As mais influentes no Brasil são as ligadas ao sertanejo, funk, eletrônica e pop. No gospel, todas as plataformas já possuem playlists específicas com alguns milhares de seguidores. A cantora Priscilla Alcântara é a única artista brasileira a ter uma playlist pessoal entre as 200 maiores do país e já esteve por algumas semanas entre o top 70, verdadeira marca a ser batida ainda. Atualmente ela comemora mais de 45 mil seguidores na playlist “Pra Chorar com Jesus” no Spotify e outros 15 mil na Deezer (esta última em apenas 5 dias no ar). Ainda falando da antenada Priscilla Alcântara, como usuária do Spotify, era muito natural que ela focasse suas ações exclusivamente para esta plataforma. Mas, não podemos deixar de lembrar que como artista e formadora de opinião, não se pode privilegiar uma plataforma em detrimento de outras. Então, nossa equipe sugeriu que a artista criasse uma conta na Deezer e Apple Music para também criar esta mesma playlist nas outras concorrentes.

É fundamental que o artista esteja presente a ativo em TODAS as plataformas digitais. Não é caso de preferência. É caso de atender ao público da artista que por motivos diversos e pessoais preferiu esta e não aquela plataforma. Vale ressaltar que a menos que a pessoa seja um heavy user digital todas as pessoas costumam lidar com apenas uma plataforma no seu dia a dia. Mesmo entendendo que o usuário pode ter contas gratuitas no Spotify ou Deezer. No dia a dia, o consumidor sempre elegerá uma plataforma e, por isso mesmo, o artista deve ser plural na visão e ação para comunicar-se com o seu público em todos os ambientes.

O fã, o seguidor, aquele que curte determinado artista também se interessa muito em conhecer as referências e hábitos musicais dos artistas com que se identificam. Portanto, playlists de conteúdo diverso são sempre muito interessantes e dão um retrato mais humano ao artista. É muito legal, por exemplo, ouvir o que Leonardo Gonçalves ou Gabriela Rocha curtem ouvir em seus momentos de lazer. Outro dia estava vendo a playlist pessoal da Damares e me surpreendi ao ver que ela curte (muito mesmo!) o som do Ao Cubo. Interessante, não? Nestes casos, o artista precisa ser bastante criterioso porque está agindo como um curador artístico e seu ponto de vista poderá influenciar milhares de pessoas. Se uma playlist é feita sem qualquer critério, a frustração do público será total e certamente o alcance será mínimo, ou seja, não atenderá em nada ao objetivo primordial da ação.

Mas numa playlist pessoal o artista pode incluir uma música sua?

Se nem ele mesmo curte sua música, quem irá curtir? Claro que o artista pode (e deve) incluir algumas faixas de seu próprio projeto, mas isso requer bom senso e parcimônia. Não dá para numa playlist de 20 faixas, o ególatra incluir 10 faixas próprias. A proporção aceitável é de mais ou menos 10% de conteúdo próprio numa playlist pessoal. Nestes casos, o artista pode colocar a sua faixa predileta entre as 5 primeiras canções da playlist, sem maiores traumas.

Quais conceitos para se criar uma playlist?

Há vários critérios para se criar uma playlist. As mais comuns são estilos musicais e as que têm relação com alguma atividade do dia. A Discopraise, por exemplo, criou playlists específicas para o momento da malhação (sim, o crente faz academia!), para o momento de relax, para curtir com a família e por aí vai … não é muito produtivo sair criando um momento de playlists no perfil do artista. O ideal é focar no crescimento de uma, duas no máximo, playlists. À medida que as playlists forem crescendo, pode-se buscar a criação de outra compilação. Vale ressaltar também que as playlists podem ao longo do tempo mudar seus respectivos nomes e conceitos. Há também playlists específicas para datas comemorativas como Dia das Mães, Dia dos Namorados … nestes casos, pode-se manter a playlist, alterando um pouco o perfil mais adiante.

Um detalhe muito importante em se tratando de playlist tem a ver com a escolha do nome. É claro que nosso lado Olivetto ou Guanaes sempre tende a aflorar em momentos como este, mas a verdade é que nestes casos, quanto mais simples e óbvio melhor será o resultado. Por exemplo, se eu fosse criar uma playlist de músicas pentecostais automaticamente pensaria em algo como “As Melhores do manto”, “As ungidas do reteté”, “Canelinha de fogo”, “Fogo Puro, ou algo do tipo, agora por mais simpáticas, criativas e até adequadas ao linguajar das igrejas e consumidores pentecostais, a verdade é que estes nomes não ajudariam em absolutamente nada no projeto de Busca das plataformas digitais. Um nome simples como “Músicas Pentecostais” ou “Sucessos Pentecostais” já seria o suficiente para que minha playlist encabeçasse os resultados de procura e isto, certamente, potencializaria em muito a possibilidade de angariar seguidores. #FicaaDica

Ainda sobre playlists, uma observação merece todo cuidado! É muito comum o artista (e os usuários comuns) se empolgarem no momento de conhecimento e início de relação com uma plataforma digital, até mesmo pela facilidade que é a interação entre o usuário e as inúmeras ferramentas disponíveis. Me lembro que nos primeiros dias em que comecei a usar minha conta pessoal em uma plataforma de áudio streaming, saí que nem um faminto atrás de prato de comida montando playlists dos mais variados assuntos. Também saí seguindo um monte de artistas. Minha relação no início foi meio compulsiva, frenética mesmo! Mas com o passar do tempo, fiquei só como usuário dos conteúdos da própria plataforma. Acabei deixando de lado minhas playlists, meus projetos … mesmo sendo um profissional da música, na verdade, sou um usuário comum em se tratando de plataformas digitais. Não me considero um formador de opinião e, mais do que isso, não esforço nem um pouco para sê-lo. Nem mesmo nas redes sociais tenho este empenho mesmo contando com alguns milhares de seguidores. No entanto, no caso de artistas, as plataformas digitais precisam ser tratadas como importantes (fundamentais, eu diria) ferramentas de impulsionamentos de resultados. E com este entendimento, o artista precisa cuidar de suas playlists de uma forma muito atenciosa e ativa. As atualizações precisam ser periódicas. Vou repetir para ficar ainda mais claro: não se pode criar uma playlist, divulga-la e depois deixá-la abandonada num canto, sem carinho, sem atenção, sem atualização! Os próprios seguidores perceberão que o ‘dono’ não dá a mínima atenção para sua cria, então porque ele deveria manter-se seguindo aquela playlist?

Quando uma pessoa passa a seguir uma determinada playlist, automaticamente ela passa a fazer parte de um grupo de pessoas que será periodicamente impactado por tudo o que acontecer naquela playlist. Ou seja, entrou uma música nova na playlist, TODOS os seus seguidores serão informados. Uma simples alteração de posição de faixa na playlist já é suficiente para que os seguidores sejam impactados pela novidade. Por falar em posição, saiba que em playlist não existe esta história de que os últimos serão os primeiros, não mesmo! Os últimos serão os últimos e muitas das vezes sequer serão notados. Então, uma boa colocação em playlists é fundamental para uma boa audiência para a faixa. Uma playlist deve ter no mínimo 20 faixas e o número limite não existe, mas como cada playlist tem um consumo diferente, o ideal é que se respeite o tamanho da playlist com a expectativa do consumo. Por exemplo, uma aula fitness numa academia dura em torno de 50 minutos, então uma seleção de músicas para esta finalidade não pode ter 5 horas e 32 minutos … a não ser que seja feita exclusivamente para os marombeiros e marombeiras fanáticos e com muito tempo de sobra. Uma playlist que se destina a viagens (eu tenho uma que chama-se “Na Estrada”) não pode ter poucos minutos de duração. O ideal é que este tipo de playlist dure no mínimo 2 a 3 horas.

Vou ficando por aqui. Acredito que este foi um post bastante informativo. Caso você curtiu este texto, queria te incentivar a colocar suas opiniões em nosso espaço de comentários na parte inferior desta página. Aos meus 69 leitores gostaria de indicar uma playlist que estou seguindo e que estou curtindo muito, “13 Razões” com o Kemuel. Através desta seleção conheci alguns artistas estrangeiros que passei inclusive a seguir. A seleção de músicas é formidável. O cuidado com que eles estão lidando na playlist tem sido louvável e até a capa do projeto eu curti demais. Nota 10 para o Kemuel. Lembrando que boa parte destas mudanças de comportamento dos artistas Sony Music no mundo digital são fruto de 2 anos de treinamento e intensa troca de informações com a equipe Sales e Marketing Digital da gravadora. A todos da equipe, meu muito obrigado pela parceria e meus parabéns ao cast que vem fazendo a diferença no segmento.

Enjoy!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, curador de música gospel informal para as plataformas digitais e curador oficial da playlist Música Gospel de Qualidade.

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Seguindo rumo a São Paulo para mais uma maratona de reuniões, encontros e muito trabalho. O fim de semana será de muito trabalho. Tentando aproveitar ao máximo o tempo e tentando colocar as postagens do blog em dia, sigo me ‘distraindo’ e escrevendo alguns textos para deleite dos 69 leitores do Observatório Cristão. Às vezes tenho tantos insights, tantas ideias de temas que acabo ficando paralisado e não produzindo nada efetivamente porque sempre me paira uma dúvida sobre qual assunto devo abordar … e, aí na falta de uma decisão mais contundente, mantenho-me no estado inercial. Então pra romper essa paralisia produtiva, vou comentar a respeito de um fato ocorrido na última noite e madrugada dos dias 18 para 19 de maio, a saber: o vídeo da canção “Ninguém Explica Deus” do Preto no Branco ultrapassou a incrível marca de 100 milhões de visualizações, algo até então inédito no segmento de música gospel em todo o mundo na plataforma VEVO. É pra aplaudir de pé igreja!!!!!

Como já comentei outras vezes, esta canção é o exemplo mais bem acabado de uma música gospel que rompeu todos as barreiras do próprio gueto, atingindo pessoas não-evangélicas, ou o que comumente chamamos de mercado gospel. De uma hora para outra, pessoas que não têm contato com o segmento evangélico, com a música gospel, passaram a cantarolar os versos desta canção … “do crente ao ateu, ninguém explica Deus”. Postagens nas redes sociais, vídeos de artistas como Luan Santana, Wesley Safadão, Nego do Borel, a dupla Mateus e Kauan, o YouYuber Whinderson, todo mundo cantando e se emocionando com a força desta canção. “Ninguém Explica Deus” entra no seleto grupo dos hits da música gospel que de fato fizeram o autêntico crossover, ou seja, ultrapassaram os limites do mercado gospel, sendo reconhecida como um hit popular. Neste grupo, podemos reunir não mais do que umas 5 canções interpretadas por Lázaro, Aline Barros, Thalles, Régis Danese e agora, Preto no Branco. No entanto, não quero comentar sobre este sucesso fenomenal, fruto do talento dos intérpretes Clóvis Pinho e Gabriela Rocha. Ou ainda, da perfeita simbiose entre qualidade e estratégia desenvolvida por toda a equipe de profissionais envolvida no projeto, tornando o Preto no Branco a mais perfeita produção de um artista gospel em tempos e formato digitais até então. O tema que quero desenvolver pelas próximas linhas surgiu através da indagação de um profissional de marketing digital em um dos inúmeros grupos de whatsapp de que participo atualmente.

Já há alguns dias estávamos acompanhando com muita atenção a performance deste vídeo nas plataformas de vídeo streaming. Quando ainda faltavam cerca de 8 milhões de views para a marca dos 100 milhões, nosso alerta já estava ligado e projeções eram feitas imaginando a data em que romperíamos a meta proposta. E aí, justamente no grupo de profissionais de marketing digital dividi minha alegria pela proximidade do grande feito. Muitos emoticons de sorrisos, aplausos, olhos esbugalhados, comentários efusivos e impressionados dos participantes e em meio a tudo isso, uma pergunta que servirá de mote principal para este post, a saber: Mas este resultado é impulsionado ou orgânico?

Para quem não está muito ambientado aos termos e jargões do marketing digital, o que o jovem profissional queria saber era se houve de nossa parte algum investimento para aumentar a visualização do vídeo ou se este resultado foi espontâneo, natural, ou como falamos hoje no linguajar mais técnico, orgânico. Antes mesmo de eu responder ao questionamento, outro profissional do mesmo grupo imediatamente entrou na conversa e tratou de opinar com a seguinte palavra: Independente de orgânico ou impulsionado, a verdade é que o resultado é incrível, que milhões e milhões de pessoas assistiram e que o clipe e a estratégia funcionaram perfeitamente. A realidade é que a música se tornou um hit!

Esta conversa virtual gerou vários insights sobre este mesmo assunto. A realidade é que tem muita gente confundindo resultados fakes com alcances estratégicos devido a investimentos realizados com extrema eficácia e assertividade. Não podemos confundir investimento para alcance do maior número de pessoas com aqueles aplicativos e ferramentas que potencializavam em escala astronômica os seguidores de redes sociais. Do dia para a noite o cantor do interior de Mato Grosso saía do absoluto anonimato para incríveis 500, 800, 1 milhão de fãs … e mais do que isso, com amigos em todas as partes do mundo como Chechênia, Butão ou Croácia, São Gabriel das Missões. O cara ganhava mais amigos do dia para a noite do que vencedor da Mega Sena da Virada! Incrível!

Quando se fala em impulsionamento de música ou de vídeo o objetivo é que aquele conteúdo alcance o maior número de pessoas para que estas mesmas pessoas contribuam com a divulgação da canção, aí sim, de forma espontânea e orgânica. É assim que as coisas funcionam! Se a música tiver qualidade, a possibilidade de depois de um ‘empurrão’ a faixa tornar-se viral é absurdamente grande! Em contrapartida, em meio a tantos conteúdos que hoje contam com estes investimentos, a chance de uma música crescer e se tornar conhecida de forma natural, no boca a boca é bastante limitada porque diariamente as pessoas são impactadas por diferentes conteúdos e aí, de fato, não sobra muito espaço para quem não faz investimentos.

O mundo artístico tem algumas questões que constantemente precisam ser ajustadas. Hoje mais cedo conversei com um cantor que participa de um ministério de louvor de uma igreja bastante relevante no país. O material deles tem muita qualidade em vídeo, produção e repertório. Mas o resultado efetivo está longe de ser comemorado. Aí bem cedo este artista me direcionou uma troca de mensagens entre seu pastor e ele. Resumindo a história, o pastor questionava sobre o que estava faltando ao seu ministério para que não alcançasse os resultados esperados já que em termos de qualidade julgavam-se dentro de um bom nível. Minha resposta a esta indagação foi bastante simples e direta: faltava o marketing digital, os investimentos nas plataformas. Só assim, aquele conteúdo teria alcance e relevância junto ao público que interessava. Ressalte-se que esta é uma questão inequívoca e que não traz em si nenhum juízo de qualidade, pelo contrário, tanto as produções de alto apuro estético quanto outras músicas ruins do ponto de vista artístico (vide a enxurrada de hits vindos do funk paulista que estão no ranking de streamings no Brasil) seguem tornando-se sucesso devido aos investimentos em marketing digital.

Piloto avisando de nossa chegada…

Antes que o comissário me peça para fechar a mesa e desligar o computador gostaria de dizer que neste momento, contar com a assessoria de um profissional de marketing digital passa a ser tão importante como investir naquele produtor top de linha ou no diretor de vídeo com prêmios em Cannes … se não tiver alguém pra divulgar corretamente seu conteúdo será mais ou menos como aquele ditado do nadar, nadar e morrer na praia … bem por aí …

O comissário vem se aproximando …

Bye!

Mauricio Soares, publicitário, consultor de marketing, jornalista e pai … neste momento curtindo muito o novo single de Priscilla Alcântara (Tanto Faz) e o álbum “Lado B” da Discopraise … todo meu respeito aos rapazes do Planalto Central!!!!

Para quem me acompanha em alguma das inúmeras redes sociais em que divido parte de meu dia a dia, deve ter percebido que recentemente participei de uma mega convenção em Miami com alguns dos mais importantes profissionais do mercado artístico e fonográfico. E nos próximos textos que irei postar por aqui, tentarei esmiuçar um pouco mais de tudo o que foi comentado, apresentado, informado naqueles dias tão intensos. O objetivo de nosso blog desde sua criação há quase 10 anos atrás sempre foi de dividir um pouco de nosso conhecimento ajudando na capacitação dos artistas, mídias, profissionais que gravitam em torno do mercado cristão musical.

Os assuntos são vários e irei postá-los sem necessariamente seguir uma ordem de importância. Anotei vários insights, informações, dicas e observações sobre o que está acontecendo e o que provavelmente acontecerá nos próximos anos no exterior e no mercado brasileiro e sobre estas questões é que iremos tratar daqui em diante. Vasculhando meu caderno me deparo com um destes insights e literalmente o que escrevi ali foi “Atenção para a importância do repertório. Ideia de cooperativa ou criação colaborativa, pessoas reunidas especificamente para composição de hits”.

Este assunto surgiu em uma das apresentações dos países que participaram de nossa convenção. O projeto tinha como objetivo juntar alguns dos mais ativos e renomados compositores, arranjadores, produtores e a equipe do A&R da gravadora em sessões de brainstorming em busca de hits. O resultado desta iniciativa que mereceu destaque foi uma fusão de estilos, produção de qualidade e uma grande interação entre os profissionais que atuam num mesmo objetivo, mas que não necessariamente caminhavam juntos. Em poucas semanas de trabalho, algumas canções foram escritas, produzidas e apresentadas aos grandes artistas da companhia que se encontravam em fase de seleção de repertório. Já posso adiantar que alguns dos hits que tocarão exaustivamente nas rádios e playlists do mundo, serão fruto deste trabalho inovador.

Mudando o foco para o nosso dia a dia no mercado da música cristã no Brasil, vejo o quanto necessitamos de atitudes como esta proposta descrita acima. Falando em tom pessoal, vejo como é difícil selecionar repertórios de qualidade para artistas de nosso meio neste momento de certa escassez criativa e autoral. Tenho casos clássicos em que o artista e seu produtor nos apresentaram mais de 200 canções para no fim, serem selecionadas 2 a 3 canções de forma convicta e mais umas 2 ou 3 outras faixas sem tanta empolgação. Basta analisarmos as fichas técnicas dos mais recentes projetos dos grandes nomes do jet set gospel pra percebermos a escassez de novidades entre os nomes dos compositores e, principalmente, de temas, assuntos, propostas artísticas. Somos um meio em que um grande sucesso acaba influenciando por anos e anos os demais artistas, estilos e produções. Vale lembrar que quando Fernandinho estourou com “Faz Chover”, todo mundo gravou em seguida falando de ‘águas’, ‘chuvas’ e por aí vai … o mesmo aconteceu quando o Toque no Altar explodiu com “Restitui” e aí o assunto se tornou assunto recorrente rivalizando com o Leão do Imposto de Renda. Ter uma música de Anderson Freire no repertório de um disco significava um atestado ISO9002 de Sucesso, o que na verdade não se tornava realidade tamanha quantidade de músicas semelhantes sendo gravadas por artistas de norte a sul do país.

Os artistas precisam entender de uma vez por todas é que TODO projeto de sucesso se inicia através de uma boa música! O grande hitmaker Michael Sullivan repete sempre a mesma cantilena de que no fim, tudo se baseia na música! E eu concordo plenamente nisso! Não adianta ter uma estratégia bem elaborada, bons contatos, agenda intensa de shows e nem mesmo muita grana pra se investir e não ter a música! Há o caso recente de um artista que investiu muito dinheiro em rádios, em estrutura de shows, bom networking, produção no exterior, e tudo mais, para no fim não chegar a lugar algum! Especificamente neste caso, além da ausência de um hit, também considero a falta de carisma como o grande responsável pelo não sucesso do projeto, mas isto é tema para outro post.

Ações como esta cooperativa de compositores é uma iniciativa muito bem vinda em nosso meio. Melhor ainda é o conceito de produtores trabalhando lado a lado com estes profissionais. Na verdade, os produtores do meio gospel precisam rever suas respectivas atuações e forma de trabalho, pois em sua imensa maioria o que temos na verdade são arranjadores e não produtores que pensam de forma estratégica e analítica seus projetos. E, de verdade, acho que ultimamente (ou desde sempre) as tendências em nosso meio artístico gospel seguem de uma forma muito natural, ou pra usar a expressão da moda, de forma orgânica. Pouco se pensa. Pouco se analisa. Pouco se observa. Nada ou quase nada se pesquisa e busca por novas referências. E esta inércia acaba afetando diretamente o que se é produzido em nosso segmento. Até pouco tempo atrás, o estilo Cold Play (ops!), Hillsong de misturar louvor congregacional com rifs de guitarras, pop rock londrino e ministrações em meio a momentos de profundo mantra, tornou-se mais comum do que ouvir o depoimento do Senhor Excelentíssimo Ex-Presidente Lula afirmando que não sabia de nada.

Nestes dias de convenção, tive acesso a artistas do Leste Europeu, da Inglaterra, Alemanha, Áustria, dos Estados Unidos, Espanha, Portugal, Itália e, claro de nossos hermanos latinos do México, Colômbia, Uruguai, Chile, Argentina, Porto Rico, República Dominicana e tantos outros países, culturas e influências. À medida que tinha contato com seus trabalhos, anotava atentamente quais artistas de nosso cast gospel no Brasil tinham alguma sinergia com aquele artista internacional. Em alguns casos, mandava os links no próprio momento dos seus pocket shows ou apresentações. Esta troca de experiências, referências, sonoridades, é o que faz com que o artista cresça e torne-se relevante em meio ao marasmo criativo ululante da cena cultural.

Já postei aqui pelo blog alguns textos falando a respeito da importância da produção, do cuidado na escolha do repertório. Uma das minhas dicas sempre é investir no conhecimento, na cultura geral, e em nosso caso específico, no conhecimento da Palavra. Compositor que não tem o hábito da leitura é como guarda vidas que não sabe nadar, as coisas não se encaixam perfeitamente. Meu incentivo com este post é para que valorizemos a criatividade, a qualidade, novos sons, novas propostas musicais e artistas. Que a palavra seja valorizada em detrimento aos refrões de fácil assimilação. Que a poesia esteja presente e faça as pessoas pensarem e, principalmente, se emocionarem. Que os profissionais deste segmento valorizem encontros em busca de algo melhor, mais bem acabado e que atenda às demandas do público, do mercado, do segmento como um todo.

Fica a dica!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e atualmente curtindo os sons de James Arthur, Os Arrais (novo projeto que já estou tendo o prazer de ouvir de forma exclusiva), Monsieur Periné e o novo single do DJ PV ft. Mauro Henrique.

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Depois de uma semana intensa de produção em meio ao feriado carnavalesco, volto à labuta para dedicar-me por alguns minutos à prática de escrever textos para nosso dileto blog. Outro dia um amigo cantor me perguntou assustado como eu consigo fazer tantas coisas no meu dia a dia e ainda arrumar tempo para escrever para o Observatório Cristão. A resposta sincera e imediata foi um simples: não sei também! Mas a verdade é que, especialmente nos últimos anos e ainda mais intensamente nos derradeiros meses, o blog tem contribuído muito para que eu apresente informações ao grande público, artistas principalmente, de uma forma mais didática e atualizada.

Hoje não tenho mais tanta falta de assuntos. O que me falta mesmo é o tempo para trazê-los à baila em nossos textos. E este texto de hoje, que começo a escrever depois de um dia intenso de trabalho e aguardando sair do escritório para mais um compromisso que irá seguir noite adentro, tem como base algumas das últimas pesquisas sobre resultados de streaming no Brasil e no mundo. Semanalmente recebo reports de desempenho de músicas nas principais plataformas de audio streaming do mundo. Também diariamente pesquiso em alguns sites e ferramentas que tenho à disposição sobre o desempenho de vídeos nas duas principais plataformas, YouTube e VEVO. Ou seja, meu dia a dia hoje, além de reuniões, audições, planejamentos, encontros e ações estratégicas, vem sendo tomado por planilhas, estudos, projeções e tendências. Imagino que nunca a indústria da música no mundo trabalhou com tantas informações, estatísticas e conteúdos para análise dos profissionais de diferentes áreas. No entanto, o texto de hoje não irá por este caminho, já falei há alguns posts atrás sobre o Business Inteligence e de como esta área vem crescendo e irá tornar-se fundamental no mercado do entretenimento em geral. Vamos falar dos dados que venho observando nestes rankings que recebo periodicamente.

Além da tendência mundial de hits baseados em loops, efeitos e traquitanas da música eletrônica, outra característica me chama a atenção neste momento que é a proliferação de músicas com participações especiais também conhecidos como Feat ou simplesmente ft., que é a versão mais comum no meio artístico. Neste momento, entre as 10 faixas mais ouvidas nas plataformas de audio streaming nada menos do que 6 são duetos ou mesmo trios. Entre as músicas mais executadas no Brasil neste ano, destaque para Nego do Borel cantando com Anitta e Wesley Safadão. Esta prática é especialmente disseminada entre os cantores sertanejos, muitos dos quais contratados de um mesmo escritório de management, o que acaba facilitando as parcerias e principalmente, servindo como mais uma estratégia de posicionamento e divulgação dos artistas, especialmente aqueles mais jovens.

Antigamente, na época dos discos físicos, as participações especiais de artistas em projetos figuravam apenas a partir da terceira faixa em diante. Muito dificilmente a música com a participação de outro artista seria a música principal do disco como divulgação, não se gravavam clipes, enfim, aquele registro ficava meio perdido em meio a tantas outras faixas. A razão de se ter uma participação especial remetia mais à admiração daquele determinado artista ao convidado do que a qualquer outra estratégia mais elaborada de marketing. Só que hoje em dia as parcerias são muito mais do que um simples registro. Estes encontros passaram a ser fundamentais para a expansão do artista em busca de uma maior divulgação de seu trabalho, do maior alcance de sua música em busca de novos públicos (leia-se também neste caso, maior número de seguidores em redes sociais e plataformas) e ainda, em maior espaço nas mídias já que esta tendência tornou-se verdadeira febre não só no Brasil como no mundo todo.

Focando em nosso mundo gospel tupiniquim, basta lembrarmos que a música mais executada em 2016 nas rádios do segmento foi justamente “Ninguém Explica Deus”, sucesso avassalador do Preto no Branco com participação de Gabriela Rocha. A mesma Gabriela Rocha amealhou até agora 19 milhões de visualizações e comemorou mais um hit em sua carreira num dueto com Leonardo Gonçalves na música “Nossa Canção”. Outro artista, Paulo César Baruk também ultrapassou 15 milhões de views na canção “Santo Espírito” em dueto com Leonardo Gonçalves, tornando-se esta a sua faixa de maior visualização em toda a carreira. Voltando um pouco mais no tempo, a música “A dracma e seu dono” com Damares e participação de Thalles Roberto foi um um hit em 2015 e conta com mais de 17 milhões de views. Ou seja, mesmo no gospel que sempre é um pouco mais resistente às tendências e inovações, a prática de participações especiais tornou-se bastante interessante neste momento.

Há artistas internacionais que nos últimos lançamentos de seus singles, todos contaram com participações especiais. Por exemplo, o cantor colombiano Maluma, jovem estrela da música latina, gravou músicas com Ricky Martin, Shakira e mais recentemente a brasileira Anitta. Nos 3 casos, sucessos acachapantes! Na discografia do jovem cantor há muitos outros encontros musicais que juntos garantem milhões e milhões de audio e video streamings.

E a regra das participações musicais me parece que é justamente não ter regra alguma. Basta uma boa música, um excelente vídeo, estratégias bem definidas de marketing e promoção e a participação total dos envolvidos na música junto às redes sociais. Mesmo quando a música pertence a determinado artista, o ideal é que o artista convidado participe ativamente de toda a promoção da faixa usando ao máximo sua própria rede social e canais. Recordo-me que quando convidei o cantor Thalles para gravar uma faixa no disco da pentecostal Damares, um dos meus argumentos à época era justamente a fusão de públicos, afinal os 2 naquele tempo eram altamente populares em diferentes estilos musicais e públicos bem distintos. A fusão foi excelente e tanto Damares como Thalles conseguiram agregar novos admiradores aos seus respectivos trabalhos. Hoje em dia, os argumentos são muito mais elaborados e técnicos do que este simples ‘fusão de públicos” e tem muito a ver com relevância nas redes e plataformas digitais. O alcance de músicas com participações é aumentado bastante e isto acaba repercutindo positivamente em diferentes áreas do universo digital.

Numa próxima produção, que tal pensar em uma participação mais do que especial?

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, editor do blog Observatório Cristão nos últimos 9 anos.