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Geralmente escrevo meus textos em saguões de aeroportos ou mesmo durante voos. No entanto, creio que nunca escrevi estando dentro do avião em plena pista aguardando a liberação do aeroporto de destino. Neste momento estou por mais de uma hora pacientemente aguardando na pista do aeroporto de São José dos Pinhais, PR, para que meu avião decole no sentido do aeroporto de Santos Dumont, Rio de Janeiro. O problema é que neste instante cai um verdadeiro dilúvio na Cidade Maravilhosa. Então para tornar um pouco produtiva minha espera, estarei escrevendo o texto a seguir.

Especialmente nas últimas 3 semanas tenho falado muito sobre tendências do mercado fonográfico. Pra quem acompanha este blog, pelo menos há uns 4 a 5 anos, este incansável editor vem falando sobre a mudança de comportamento do consumidor de música pelo advento da web e especialmente das novas plataformas digitais. Desde muito tempo alerto para o fato de que num momento estaríamos diante da substituição ou alteração radical do formato de consumo de música. As mídias físicas, CDs e DVDs perderiam a cada dia mais espaço para diferentes plataformas como YouTube, AppleMusic, Deezer, Vevo, Spotify, Google Play, entre outras, até que num dia deixassem de ser a principal forma de consumo de música.

Já faz um bom tempo que venho alertando para que artistas e principalmente gravadoras estejam preparadas para as grandes transformações. E agora, oficialmente as vendas digitais entre as majors atuantes no Brasil já superaram as vendas tradicionais. Mais especificamente, o mercado da música no Brasil encontra-se com 60% de vendas digitais contra 40% de vendas de discos. Esta tendência segue de igual forma na esmagadora maioria de regiões em todo o mundo. Esta curva é irreversível e a grande dúvida neste momento é quando e onde irá se estabilizar. Na minha modesta opinião e ciente do grau de ‘achismo’ ou ‘profetada’, imagino que as vendas físicas em até 3 anos chegarão num patamar de 15 a 20% das vendas do mercado fonográfico no país. Na Suécia, país símbolo da mudança digital, as vendas atualmente já são 98% do faturamento total do mercado fonográfico. Um verdadeiro assombro, mas longe de representar a realidade de nosso mercado, nem mesmo daqui algumas décadas. Portanto, algo mais aceitável é acreditar que daqui uns anos, as vendas digitais no Brasil ficarão com 80 a 85% do faturamento.

Interessante neste momento é a volta do mercado de vinis, os famosos LPs, a ponto de gravadoras ressuscitarem departamentos e selos específicos para atender a este nicho de mercado. Mas acredito nesta tendência mais como uma excentricidade e oportunismo, do que verdadeiramente um caminho consistente e pródigo. Ainda mais em se tratando de mercado gospel, esta tendência não vejo com a mínima possibilidade de se consolidar, primeiro pelo perfil do público e segundo, pelas próprias gravadoras do segmento que se destacam pela falta de audácia em suas atividades e estratégias. É assustador nos depararmos com a falta de um cuidado com a história da música cristã no Brasil. Mesmo em tempos de mundo digital onde o catálogo de raridades ganha força nas plataformas de streaming, é praticamente inexistente a presença de álbuns lançados nas décadas de 70, 80 e até mesmo 90. Ou seja, somos um segmento praticamente sem memória … infelizmente!

No meio digital a bola da vez é o streaming que tomou o lugar das plataformas de vídeo como principal canal de monetização. No recente passado, a rentabilidade de vídeos no YouTube e Vevo era superior às demais plataformas. Isso se dava em função do grande número de empresas investindo em publicidade nestes canais, especialmente em ano de Copa do Mundo no país. Com a retração na economia (graças a anos de incompetência petista e ladroagem desenfreada desta corja que está no poder há mais de uma década) no país, o mercado publicitário recolheu seus investimentos nas plataformas de vídeo. Com isso, as plataformas de streaming tornaram-se o espaço mais rentável para artistas e gravadoras.

Com esta mudança, as estratégias também devem ser alteradas num movimento que comprova a importância de se ter sempre acompanhamento, pesquisa e análise crítica de tendências do mercado. Se até algum tempo atrás, as gravadoras focavam na produção em escala de vídeos, clipes e Lyric Videos, o momento agora é totalmente voltado à criação e divulgação de playlists. Pra quem ainda não está ambientado com os termos técnicos, playlist nada mais é do que uma seleção de músicas para facilitar a experiência do consumidor. Boa parte das playlists são criadas de acordo com temas específicos, como por exemplo, o melhor da música pop dos anos 70, ou uma seleção de reggae roots, músicas para meditação, uma seleção de músicas para queimar calorias em academias de ginástica (esta é uma das mais populares em todo o mundo!) e por aí em diante. A playlist é uma facilitadora para o consumidor de música e pode ser seguida pelos assinantes das plataformas como uma espécie de mídia social. É muito comum que formadores de opinião criem suas playlists e que arrebanhem centenas de milhares de seguidores. Ou seja, estamos diante de uma verdadeira transformação de costumes e possibilidades para o mercado da música.

Entre as plataformas de streaming há diversos pacotes de assinatura e utilização. Há contas gratuitas com inserção de publicidade entre a veiculação de músicas, há contas premium com acesso ilimitado de músicas sem qualquer interferência de publicidade, há o serviço de conta “família” onde mais de uma pessoa pode acessar à plataforma simultaneamente em diferentes canais. Em suma, há opções para todos os tipos e bolsos e particularmente optei por uma assinatura do Spotify onde tenho acesso a mais de 30 milhões de músicas. Minha relação com a experiência musical mudou significativamente com o advento das plataformas de streaming. Hoje praticamente fico on line durante boa parte do dia e minha curiosidade por novos sons, novos nomes e novos estilos aguçou-se ao nível máximo.

Depois de horas de espera, eis que o piloto já avisou sobre o procedimento de descida no Rio de Janeiro. O recado está dado! Sugiro aos 66 leitores do Observatório Cristão que pesquisem sobre estas novidades do meio digital. Enjoy!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista. Este texto quero dedicar especialmente ao meu pai que descansou no Senhor exatamente no momento em que eu estava chegando ao Rio de Janeiro e finalizando este texto. Com ele aprendi a ser uma pessoa melhor, a buscar meus objetivos sem precisar negociar a ética e a valorizar a família, amigos e Deus. Siga em paz. Saudades.

Já faz um bom tempo que não paro minhas atividades e lazer para dedicar alguns minutos para escrever para o blog. É bem verdade que boa parte dos 66 leitores não sentiu a mínima falta de novas postagens, mas ainda assim sigo na meta de conseguir conquistar o maior número de leitores para o Observatório Cristão.

Início de ano, período de arrumar gavetas, jogar coisas fora, organizar outras, estabelecer metas, objetivos, prometer a si mesmo que neste ano a dieta sai, o sedentarismo vai embora e tudo se fará novo … E especialmente neste 2016, começo cheio de expectativas pessoais porque pior do que o ano que se foi acho difícil que se supere. Que ano terrível!

Entre as boas coisas de 2015, do ponto de vista artístico posso destacar o belo trabalho “Moderno à Moda Antiga” da cantora Marcela Taís co-produzido pelo mestre Michael Sullivan. O disco é agradável, bem equilibrado, letras inteligentes, arranjos modernos, temas interessantes … parece que a ‘moderna’ Marcela em parceria com o ‘experiente’ Sullivan conseguiram uma simbiose maravilhosa. Nota 10 para este trabalho. A cantora em 2015 deu um importante passo para alcançar uma relevância e destaque em meio ao competitivo mercado gospel tupiniquim. Outro projeto prá lá de especial e de bom gosto é o EP “Paisagens Conhecidas” dos irmãos Os Arrais. A dupla vem ganhando reconhecimento nacional a cada dia e agora, com a mudança do Tiago Arrais para o Brasil, o trabalho de divulgação dos projetos se torna um pouco mais facilitado. Já o André, irmão caçula, permanece residindo nos EUA. O disco conta com canções de letras inteligentes, sonoridade gringa, arranjos elaborados e apuro estético lá nas alturas. Pra completar, o projeto foi lançado num kit que contém um DVD gravado em meio a nevascas e paisagens gélidas norte americanas sob a batuta da direção de Hugo Pessoa.

Do ponto de vista artístico, 2015 foi o ano de Leonardo Gonçalves. Com uma energia impressionante, Leo percorreu o país e exterior com uma agenda simplesmente alucinante! O DVD “Principio”, sem dúvida, alavancou sua carreira e o colocou no patamar dos grandes artistas do cenário cristão nacional. Pra completar, Gonçalves participou de programas de TV, grandes festivais e interpretou a canção do filme que foi sucesso nas salas de cinema, “Você Acredita?” na versão do NewsBoys,e teve milhões de views nas plataformas de vídeo. Este single ainda ficou no topo de vendas do iTunes e Google Play por dias, tornou-se hit nas rádios do segmento em todo o país. Sem dúvida, 2016 promete para o talentoso Leonardo Gonçalves.

Outro destaque interessante em 2015 foi o lançamento do projeto Sony Music Live, uma nova forma de promoção e rentabilização baseado em vídeos exclusivos de diversos artistas. O projeto funciona como uma web série que é veiculada a partir das terça-feiras como um programa semanal. Pelo SML, que já ultrapassou 9 milhões de views, participaram artistas como Gabriela Rocha, Preto no Branco, Salomão, Paulo César Baruk, Cristina Mel, Marcela Taís, Juninho Black e Trazendo a Arca. O projeto superou todas as expectativas e nas próximas semanas será lançada a segunda temporada do Sony Music Live já com as participações confirmadas de Leonardo Gonçalves, Damares, Priscilla Alcântara, Os Arrais, Soraya Moraes, Mariana Valadão, entre outros.

No finzinho do ano, outro disco que foi lançado merece destaque: “Até Sermos Um” com a cantora Priscila Alcântara. A menina veio como uma tsunami varrendo o país de norte a sul com um disco ultra bem produzido e agradável, extremamente moderno e intenso. Em pouco mais de 2 meses, Priscilla esteve em diversas capitais do país lançando o projeto e arrebatando multidões de jovens por onde passou. Em algumas cidades, suas tardes de autógrafos reuniram mais de 1500 pessoas que se ficavam horas na fila para uma foto, um abraço, um autógrafo. A cantora teve seu projeto no topo do iTunes, seus vídeos passam a casa dos milhões de views e sua agenda segue intensa. Acho que 2015 foi só o ‘esquenta’ porque o estouro mesmo será neste ano. Fiquem atentos!

Um outro projeto que assisti e curti foi o DVD da cantora Aline Barros, lançado no apagar das luzes de 2015. Uma mega produção que impressiona até os mais acostumados com o show business. Ela continua sendo uma referência no meio gospel quando se trata de carisma, qualidade e hits. Por falar em DVD, na área pentecostal, ninguém superou Damares com seu mega projeto gravado no fim de 2014 e lançado no ano seguinte. A cantora segue como o principal nome no segmento e parece não perder espaço e foco! Ainda no quesito DVD, o projeto “Preto no Branco” foi a grande estréia do selo Balaio Music. Com o encaixe perfeito de artistas do naipe de Clóvis Pinho, Wesley Santos, Juninho Black e a participação de Eli Soares, o projeto reúne black soul music, samba, adoração MPB, pop, reggae, hip hop … tudo com muita qualidade, unção e criatividade. Quem ainda não teve oportunidade de conferir, deve fazer o mais rápido possível!

O ano de 2015 registrou a mudança do mercado fonográfico no Brasil. Pela primeira vez as vendas digitais superaram as vendas de CDs e DVDs. A proporção atual é de 60% a 40%, ou seja, mais da metade do faturamento das majors da indústria musical no país são provenientes das plataformas digitais como YouTube, Spotify, Vevo, Deezer, Apple Music e as operadoras de telefonia. Para as empresas que insistem em não adequar-se à nova realidade, os tempos vindouros não serão nada auspiciosos. Conversando dias atrás com um artista ligado a uma destas gravadoras que insistem em negar a transformação do mercado, me assustei ao saber que este amigo não recebia um único tostão de vendas digitais e de que sua ‘amada’ gravadora seguia com o discurso de que digital era apenas promoção, não configurava uma nova e importante fonte de rentabilidade. #Medo …

Para 2016 alguns nomes merecem especial atenção (e torcida também!). Começo a lista pela talentosa (de quem sou fã!) Gabriela Rocha que começa o ano gravando seu primeiro DVD. Este ano promete pra ela! Outros nomes para se ficar atento são Sarah, uma cantora baiana residindo no interior de SP que está lançando um projeto com produção de Fábio Aposan, também Roberta Spitaletti que lançará um álbum inédito em breve, Deise Jacinto que recentemente lançou um novo projeto muito agradável e que merece ser pesquisado, Clóvis Pinho ex-Renascer Praise que lançará seu primeiro disco pelo selo Balaio Music/Sony Music misturando pop, MPB, soul e muita poesia. Outro que deve se destacar em 2016 é Eliezer de Társis, multi instrumentista, super carismático, talentoso e que vem conquistando visibilidade cada vez maior no cenário nacional.

Vou ficando por aqui. Confesso que estou ainda enferrujado. Espero urgentemente poder recuperar o pique para escrever mais posts daqui em diante.

Que venha 2016!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista.

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Sempre deixei o blog aberto a contribuições de terceiros. Infelizmente as participações têm sido bem raras nestes 8 anos de blog. Não me perguntem o motivo de receber tão poucos textos dos amigos, até porque numa certa época eu quase que implorava para alguns destes me enviarem suas postagens. Depois de anos de espera, fui abordado na Gospel Fair em Goiânia pela Mônica Chagas. Em meio ao papo ela me ofereceu um texto sobre técnica vocal e afins. Imaginei que aquele oferecimento fosse cair no esquecimento, de que ela teria se empolgado com o papo e se comprometido além da conta. Eis que dias atrás recebi seu e-mail com o texto abaixo. Então, convido a ler e aprender um pouco mais sobre as questões relacionadas à voz e seu uso.

Boa leitura!

Mauricio Soares

 

Cuidando da voz com o devido respeito que merece!

Eu canto pop rock…eu canto heavy metal…ah, meu estilo é sertanejo…eu já gosto mesmo é de MPB. Esse é meu estilo musical, qual técnica devo usar? Essa é uma questão que permeia muitos cantores: qual técnica usar? Ou quais técnicas usar?

Diante de uma gama tão grande de estilos musicais e até de tipos vocais, muitas vezes, o cantor se encontra perdido sobre qual técnica deve usar e até mesmo recai sobre ele o medo de que determinada técnica altere sua voz ao ponto de inviabiliza-lo para atender ao seu estilo. Pensando sobre isso, gostaria de postular cinco questionamentos que considero serem mais comuns sobre esse tema.

Existe uma técnica vocal que seja específica para o meu estilo?

Respondendo a essa questão e também ao tema proposto neste texto, creio que a melhor resposta é que existem técnicas vocais que podem ou não serem combinadas e vão me levar a ter um conforto vocal e uma boa performance.

Quais as técnicas vocais mais comuns?

As técnicas vocais mais conhecidas são, primeiramente, as do canto erudito. Podemos citar as principais escolas sendo a Italiana, Alemã, Inglesa e Francesa. Essas escolas se diferem, principalmente, no aspecto fisiológico da respiração, que por sua vez, irá influenciar no apoio, sustentação e impostação do canto.

Mais recente, juntamente com o teatro musical, especialmente com os musicais da Broadway, irá surgir uma técnica vocal chamada Belting que está mais próxima da voz falada, e ao contrário da técnica erudita irá manter a laringe um pouco mais alta mesmo nos agudos.

Temos hoje uma gama de “técnicas” que surgiram da experiência vocal e da necessidade de sons que se adequem ao perfil e estilo musical do cantor. Podemos citar técnica do Vocal Fry que é aplicada a sons mais guturais, temos os melismas que são esquemas feitos em escalas musicais e é muito usado no Soul. Tais técnicas devem ser aplicadas sob estudo científico e supervisão profissional.

Qual a técnica que devo usar?

Responder essa pergunta não é algo simples. Porque o uso da técnica vocal irá depender de uma série de fatores: estilo musical, fisiologia do cantor, conhecimento profissional do preparador vocal, ambiente em que a voz será utilizada (irá utilizar microfone? É um cantor que canta por horas consecutivas? Precisa de muita projeção ao cantar? etc…). A dica que posso te dar sobre essa escolha é que uma boa técnica vocal jamais irá prejudicar seu aparelho vocal, então, se está sentindo desconforto, se fica rouco após uma apresentação, se está apresentando problemas vocais … talvez seja muito importante rever a técnica vocal que está utilizando.

Posso cantar afinado e até “bonitinho”, mas será que está errado?

Infelizmente sim! Pode estar errado mesmo estando afinado e bonito. Primeiro porque afinação é apenas um dos parâmetros que o cantor necessita ter, em segundo, beleza é algo extremamente relativo! Não significa que um som sendo bonito aos meus ouvidos, seja saudável e corresponda até mesmo ao que meu público deseja ouvir. Lembro novamente que uma voz adequada é aquela que não traz prejuízos vocais.

Qual profissional devo procurar para ser meu preparador vocal?

Eu acredito que o tipo de profissional que tem que ser procurado é aquele que tenha uma formação acadêmica para poder te atender sem prejudicar sua saúde e afetar sua musicalidade. Pense bem! Ninguém procura uma ajuda para tratar do coração se o médico diz que apenas ouviu falar tudo sobre coração e sempre teve a prática sobre o assunto….isso é um absurdo! Certo!? Você com certeza vai em um cardiologista formado, com indicações e a especialização correta. Por que quando pensamos em cuidar da nossa voz aceitamos um preparador que diz ter experiência (prática) mas nunca sentou em uma cadeira de universidade? A voz é algo extremamente complexo, para falar e cantar acionamos inúmeros músculos, as pregas vocais são muito sensíveis. Como alguém que só tem prática poderá te ajudar de forma embasada cientificamente? Então vamos rasgar os diplomas dos médicos, dos odontólogos, dos enfermeiros, etc … estamos lidando com o corpo, e no caso, com o seu corpo e com sua voz que é seu instrumento de comunicação e de vida social, trabalho, etc.

Então, qual profissional procurar? Há dois tipos de profissionais que indico como preparadores vocais:

– Fonoaudiólogos: irão te preparar clinicamente, lhe dando suporte muscular, melhorando sua respiração, auxiliando no desenvolvimento das estruturas físicas que envolvem a voz. (É importante que esse fonoaudiólogo tenha experiência com voz, porque há muitas áreas dentro da fonoaudiologia!).

– Professores de Canto: trabalham especialmente a parte musical da voz. Parâmetros como respiração, impostação, apoio, ressonância são treinados sob uma perspectiva fisiológica, mas especialmente para uma dinâmica musical e não clínica. Assim como o médico e o fonoaudiólogo, o professor de canto deve ter também uma formação acadêmica, deve passar pela universidade e não basta ser um instrumentista. O professor de canto tem que ser formado em canto! Um professor de violão, de piano, de saxofone…jamais irá compreender o que um cantor necessita como um professor que seja formado em canto.

Então, para concluirmos, fique atento em como está usando sua voz e quem está te ajudando nesse processo de treinamento. A nossa voz é única por isso temos que usá-la muito, mas cuidando para que a cada dia ela se torne melhor e mais saudável.

Um grande abraço e até a próxima!

Dias atrás tive a grata felicidade de poder conferir no Rio de Janeiro o show da turnê “Estratosférica” com a cantora Gal Costa. A cantora de 70 anos está em pleno trabalho de lançamento de seu mais novo projeto pela Sony Music. Uma série de shows estão programados pelo país, muitos dos quais com a bilheteria esgotada. A mídia especializada vem tecendo elogios rasgados ao novo projeto da grande diva da MPB, representante da Tropicália e que neste álbum se cercou de jovens músicos e compositores como Marcelo Camelo e tantos outros expoentes da nova geração. A simbiose entre Gal e a sua banda formada unicamente por baixo, guitarra, bateria e teclados é simplesmente perfeita. Durante cerca de 1 hora e meia, Gal Costa cantou canções do novo disco mesclando com grandes sucessos que marcaram sua carreira. Foi uma noite muito especial para mim. Do camarote reservado à equipe da gravadora pude conferir uma artista com muitas histórias de vida, grandes experiências e uma alegria enorme de estar no palco apresentando-se numa casa completamente lotada.

À medida em que o show foi transcorrendo algumas observações me vieram à mente. Em primeiro lugar o que me chamou a atenção foi como fez bem para a cantora aquela parceria com a moçada mais jovem. Imagino como foram os encontros entre uma cantora ícone de uma geração e aqueles jovens músicos trabalhando na busca de uma perfeita sintonia. A troca de experiências e referências, sem dúvida alguma trouxe uma jovialidade, uma vitalidade ao projeto e isso ficou evidenciado no palco. E a delicadeza de Gal ao referir-se aos músicos e parceiros apenas comprovou sua admiração a todos aqueles que contribuíram pelo resultado final.

Outra questão que vale destacar é o perfeito timing da intérprete em falar na hora e na dose certa. Suas intervenções eram curtas, diretas, bem humoradas, sua interação com o público era permanente e atenta, a ponto de sacar de vez em quando uma tirada inteligente em resposta a um ou outro comentário emitido pela platéia. Delírio total. O clima do show era leve, intenso, agradável, a ponto de chegarmos ao momento do bis completamente satisfeitos, sem aquela sensação de ‘ok, já deu!’, pelo contrário, ela ainda poderia continuar por mais alguns minutos tamanha qualidade do show. Na abertura do show, Gal limitou-se tão somente a cantar de forma direta 3 canções, sem interrupções. Apenas ao fim da terceira música é que ela se dirigiu à platéia para agradecer a presença e comentar um pouco mais do que viria pela frente. No meio do show ainda houve espaço para agradecimentos pontuais, tiradas inteligentes e alguns rápidos comentários sobre as músicas.

Estive recentemente num determinado show em que a artista falava longamente entre uma e outra canção esforçando-se para explicar e contextualizar o significado de cada música. Além de estender em mais de 30 a 40 minutos o tempo de duração do show, esta estratégia acaba trazendo um ritmo lento ao show e muitas das vezes uma impressão de montanha-russa, onde o show cresce, pique lá em cima pra minutos depois ficar bem light. Uma gangorra de emoções, sem dúvida. Além do fato de subestimar o público tendo que se explicar a cada música. Deixe que cada um tire suas próprias conclusões!

Voltando ao show da Gal, outro fato que me chamou a atenção foi a qualidade da voz da intérprete. O que foi aquilo? Uma segurança absurda nos graves, uma clareza na dicção, notas perfeitas e, claro, como deixar de mencionar os agudos incisivos, ali … no alvo, firmes, seguros … meu nome é Gal … meu nome é Gaaaaaaaaaaaaaaaal …”. Vendo e principalmente ouvindo alguns artistas jovens que após 2 a 3 músicas já não mantém a qualidade, chutando todas na trave (às vezes chutando para fora do estádio como Nelinho fez no Mineirão), ouvir uma cantora de 70 anos mantendo esse nível já valeu pelo ingresso. Nota 10!

Aproveitando esse gancho, gostaria de apenas pontuar alguns insights para que os artistas cristãos que porventura estejam lendo este texto aproveitem este exemplo para aplicarem em suas carreiras.

–       A troca de experiências é algo sempre muito importante! O artista que acredita que já sabe tudo, que não precisa de ninguém ou que acha que está sempre certo, este certamente corre um risco enorme de ficar desatualizado e distante das novas tendências. Especialmente aos artistas mais experientes, ter acesso a músicos e compositores jovens é uma atitude bastante inteligente.

–       Na maior parte das vezes o ‘menos é mais’. Muitos artistas confundem quantidade com qualidade. Menos melismas, menos blá blá blá, menos caras e bocas, menos atitudes santarrônicas milimetricamente pensadas. E no quesito menos é mais, a questão do tempo de ministração e a própria apresentação devem ser bem dosados.

–       A voz é um instrumento e como tal deve ser cuidado com toda atenção. Acho impressionante como muitos artistas que vivem da voz dão tão pouca atenção a este instrumento. De vez em quando vejo alguns artistas recorrendo aos serviços de preparadores vocais ou fonoaudiólogos para recuperar a voz após maratonas de shows ou mesmo depois de uma gripe ou algo do tipo. É importante que todos saibam que melhor do que buscar o ‘pronto socorro da voz’ o ideal mesmo é manter-se permanentemente sendo atendido por um profissional da área. Artistas como Cristina Mel e Soraya Moraes são exemplos de cantoras que sempre se preocuparam com as suas respectivas vozes, não é coincidência o fato destas duas manterem em alto nível seus timbres, trinados e agudos.

Preciso parar por aqui, pois o piloto já anunciou a descida no Santos Dumont, Cidade Maravilhosa. Aproveito para agradecer ao carinho enorme que recebi nestes dias em Goiânia. Parabéns ao pessoal da Gospel Fair pela organização deste evento que tem tudo para consolidar-se no cenário cristão nacional. Agradeço também ao pessoal das mídias que tão bem representaram o segmento e que a cada dia tornam-se mais relevantes em nosso mercado – Rádio Paz, Rádio Vinha Fm, Jovem X, Rádio Voz, TV ADNP, Garagem Gospel, Super Gospel e tantos outros! Aos 66 leitores e mais uns gatos pingados que seguem observando conosco! Meu muito obrigado!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, cronista do mundinho evangélico tupiniquim.

No dia 20 de outubro a gravadora Sony Music lançou um projeto inédito e inovador, uma nova forma de lidar com a música dentro do conceito de divulgação e entretenimento através da web. O projeto Sony Music Live é uma grande aposta da empresa e tem tudo para ser também implantado nas filiais da companhia em outros países. A expectativa pelo sucesso do projeto é enorme e levando-se em conta os primeiros resultados e impressões de quem já conferiu e entendeu a iniciativa, as projeções são as mais positivas. O projeto que começou junto à área de música gospel já foi devidamente incorporado para toda a empresa, ou seja, nas próximas semanas teremos episódios do Sony Music Live com artistas cristãos e seculares em diferentes dias da semana.

O insight para este projeto surgiu durante minha última visita à sede da Provident, braço de música cristã da Sony Music localizada em Nashville, EUA. Numa reunião com os executivos da companhia questionei-os sobre a ausência de lançamentos de projetos de DVDs e a resposta deles foi categórica: “Não gravamos mais DVDs! Não há mercado mais para este formato. O DVD além de muito custoso rapidamente é disponibilizado na web. Ou seja, ficou um projeto inviável economicamente. Temos investido cada vez mais em conteúdo para a internet!” Ouvi atentamente aquela explicação e passei a pesquisar mais a respeito desta mudança no formato.

Nas semanas seguintes passei a freneticamente pesquisar modelos de clipes e afins, uma infinidade de conteúdos artísticos disponíveis na web. Percebi que nem sempre os clipes mais elaborados eram os mais acessados. Há um vídeo emblemático que sempre cito quando conto às pessoas sobre todo meu processo de pesquisa. Um determinado artista pop do primeiro time da música mundial, ganhador de diversos prêmios, com milhões de discos vendidos, inúmeros hits no topo da parada de rádios, pois bem esse mega pop star tem alguns vídeos quase caseiros, um dos quais gravado numa pequena livraria, com apenas uma câmera, sendo acompanhado por 2 músicos, inclusive o tecladista com uma mochila pendurada às costas. Em suma, a preocupação com a produção em si era a menor possível, o conceito é apresentar o artista e principalmente, sua arte em primeiro plano. Este vídeo tem mais de 50 milhões de views. Isso mesmo! Mais de 50 milhões de visualizações, o que certamente trouxe uma monetização absurda, tornando aquele simples vídeo uma ferramenta não só de divulgação, mas principalmente de geração de receita.

Em paralelo à pesquisa na web, comecei a estudar os números do mercado digital e observando linha a linha as receitas que aferimos em nosso projeto local constatei de que mais de 60% da receita digital de minha área era proveniente das plataformas YouTube/Vevo. Algo interessante começava a tomar forma naquele momento. Muitas reuniões depois com a equipe de New Business da gravadora comecei a formatar o projeto com meu parceiro de ‘viagens criativas’, Hugo Pessoa. Chegamos a uma ideia mais elaborada e apresentamos o projeto à gravadora com embasamentos técnicos, criativos e principalmente econômicos. Projeto e budget aprovados partimos para uma terceira fase, a realização do projeto em si e aí mais uma vez analisamos quais deveriam ser os artistas mais adequados para uma primeira fase do projeto. A dúvida era entre artistas muito populares ou artistas com relevância nas redes sociais e visualizações. Listas e seleções feitas, chegamos a um cast inicial de 10 nomes.

Mais reuniões, mais análises, muitas ideias foram surgindo nas reuniões de brainstorming com a equipe de Marketing Digital e New Business até que chegamos ao formato final que irá disponiblizar conteúdo inédito sempre às terças-feiras a partir das 18h no canal Sony Music Live no YouTube. Após acessar ao canal, o público irá migrar automaticamente para a plataforma VEVO onde ficarão os vídeos alocados nas páginas dos respectivos artistas. Por semana serão lançados entre 3 a 4 novos vídeos de um mesmo artista. A cada semana um novo artista será apresentado com episódios inéditos. Gabriela Rocha, Paulo César Baruk, Salomão do Reggae, Marcela Taís, Trazendo a Arca, Priscilla Alcântara, Leonardo Gonçalves, Os Arrais, são alguns dos artistas já confirmados na série que conecta pessoas e artistas dentro e fora dos palcos. O processo de seleção dos artistas passa prioritiariamente pelo grau de potencial de visualizações que cada artista traz em si. Neste item, alguns jovens nomes saem bem à frente se comparados com alguns medalhões do mainstream gospel.

Sony Music Live não é um DVD e muito menos um clipe. A cada episódio a série é gravada em um cenário inédito e exclusivo que nunca se repetem. Cada artista tem um conceito próprio e isso é respeitado pelos diretores de cada episódio, ou seja, manter uma proposta artística de acordo com o estilo de cada intérprete. Então, a cada semana o público sempre terá surpresas e muitas novidades. Após a estréia, cada episódio ficará disponível no canal oficial da série no YouTube e também nos canais exclusivos de cada artista na VEVO.

Sony Music Live é uma nova forma da indústria fonográfica lidar com as novas culturas, novas tecnologias, novos hábitos. Uma nova experiência se apresenta onde o público terá oportunidade de assistir a conteúdo de qualidade de uma forma diferente. Não costumo usar o blog para falar de projetos pessoais, mas neste caso abro mão de minha própria regra, afinal este é, sem dúvida, um projeto que tem tudo para sinalizar um caminho bastante interessante no mercado fonográfico, nada mais pertinente para o espírito deste blog.

Tenho me repetido muito ultimamente e batido sempre na tecla de que a música hoje em dia é totalmente visual. A própria expressão “você ouviu?” já foi alterada para “você assistiu?” tamanha a importância do vídeo na experiência do público com a música. Esta nova relação é o conceito gênese do projeto Sony Music Live, proporcionar ao público uma mudança no contato com o artista e sua música. Se você ainda não conferiu este projeto, fica a dica!

Enjoy!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, diretor artístico e alguém ainda apaixonado pela música em suas diferentes formas e ambientes. Viva a boa música! Sempre!

Estou neste momento retomando o caminho de casa após quase uma semana intensa de muito trabalho em Portugal. O meu objetivo nestes dias foi unicamente conhecer o atual cenário da música cristã e analisar a viabilidade de um projeto nos mesmos moldes do que desenvolvemos no Brasil com grande êxito nos últimos 5 anos. Em curtíssimos 5 dias foram mais de 50 encontros numa maratona estafante e intensa. Conversei com artistas, compositores, produtores musicais, músicos, profissionais do meio fonográfico, líderes, padres, pastores, profissionais de mídias (as pouquíssimas que existem por lá), ou seja, uma raríssima e rica experiência de intercâmbio intercultural.

Coincidentemente este mesmo tipo de viagem fiz a pouco mais de 20 anos atrás, justamente para Portugal. A diferença é que naquela época meu foco era o mercado editorial e não o fonográfico. No entanto, o objetivo era bem parecido, ou seja, entender o mercado cristão português para uma análise sobre a viabilidade de se investir ou não além-mar. Naquela oportunidade minha impressão e conclusão era de que deveríamos focar tão somente o mercado brasileiro, já que em Portugal o mercado evangélico era muito incipiente e sem projeções de crescimento.

Regresso os mais de 7 mil quilômetros entre Lisboa e o Rio de Janeiro neste momento com uma convicção diferente da que tive ainda no século passado. No entanto, engana-se quem imagina que minha decisão deve-se à alguma mudança alvissareira do mercado cristão português. Não, definitivamente não temos um cenário de crescimento por lá. Em alguns aspectos, a impressão que tenho é de que o segmento evangélico português permanece no mesmo patamar de décadas atrás. E isso não é força de linguagem, infelizmente, pelo contrário, é um fato. A diferença motivadora em minha decisão de outrora e atual não tem a ver com a situação daquele país, mas porque hoje sou uma pessoa bem diferente daquele jovem iniciando uma carreira profissional no mercado evangélico. Confesso que sou um cara meio idealista, às vezes um tanto quanto quixotesco lutando contra moinhos em prol do crescimento do mercado cristão. E este espírito é o que me motiva neste momento a seguir com a ideia de se investir na intenção de implantar um label de música gospel na região ibérica.

Nestes dias tive reuniões com artistas espanhóis, moçambicanos, angolanos, brasileiros e até portugueses (rs). Minha intenção era muito mais ouvir do que falar, mas é óbvio que os encontros acabaram virando pequenos debates e muito mais mini-palestras sobre o mercado fonográfico, mundo digital, estratégias de marketing, gerenciamento de carreira e temas a fim. Todas estas conversas serviram para que eu tivesse uma noção e uma visão mais clara da realidade do mercado cristão em Portugal. Ainda no meu penúltimo dia em Lisboa, tive oportunidade de apresentar meu relatório à equipe da gravadora e felizmente o projeto foi aprovado e em breve teremos boas novidades!

No entanto, mais do que qualquer questão econômica, estrutural ou logística, o que mais me chamou a atenção nestes dias foi a situação do cenário artístico cristão. Do ponto de vista da qualidade da música que vem sendo produzida por lá confesso que me surpreendi positivamente por tudo que vi e ouvi. A influência anglo da música se faz bem presente em Portugal, não somente no meio gospel mas também no secular. A música brasileira, especialmente no meio secular, perdeu muito em importância e relevância, coincidentemente seguindo a diminuição da presença das telenovelas da Globo. As TVs portuguesas investiram muito na produção de telenovelas o que consequentemente restringiu-se o espaço para as produções brasileiras e isso acabou diminuindo também a influência da cultura e música tupiniquim.

No meio cristão, a música brasileira ainda tem alguma influência. Inevitavelmente entre os brazucas essa referência é bem maior. Já entre os portugueses a maior referência está em artistas de língua inglesa com predominância para o onipresente Hillsong. Entre os africanos há um misto de música brasileira, worship e influência norte-americana eletrônica e hip hop. Fiquei particularmente feliz em ver que jovens cantores brasileiros como Gabriela Rocha, Daniela Araújo e Anderson Freire são nomes bastante populares por estas praias. Os já consagrados, Aline Barros, Fernandinho, Thalles, Marquinhos Gomes, Damares, Fernanda Brum, também foram constantemente lembrados. Alguns não necessariamente somente por suas virtudes musicais.

Então, na parte musical e de produção, o cenário português cristão está bem representado. Artistas como Ana Mari, Voz de Júbilo, Ministério de louvor da igreja CCC, Carla Alexandra e mais alguns nomes têm talento e qualidade. O mesmo ocorre no meio gospel espanhol. O problema está presente em duas a três questões que me trouxeram certo susto e apreensão. Em primeiro lugar, a igreja evangélica portuguesa está estagnada já faz algumas décadas.

Se no Brasil o segmento evangélico representa cerca de 30% da população, do outro lado do Atlântico não ultrapassa míseros 4%.

E pior, sem registrar crescimento significativo nas últimas décadas. Na verdade, nos últimos anos, com o regresso de muitos brasileiros ao país de origem ou mesmo o êxodo para outros países na Europa, o que se observa é a diminuição da população evangélica, chegando inclusive ao fechamento de muitas igrejas. Não há como comparar um mercado de 60 milhões de consumidores com outro de 400 mil, por isso mesmo a comparação é percentual e não absoluta. De um jeito ou de outro a distância entre uma realidade e outra é bem maior do que os milhares de quilômetros que no separam pelo Atlântico.

Coincidência ou não, a igreja portuguesa é muito restritiva aos artistas e à própria música em seus territórios. Soube inclusive de que uma determinada denominação proíbe – sim, é isso mesmo! Não é metáfora, mas uma lei oficial da igreja imposta pelo pastor-presidente – os artistas da própria igreja de se apresentarem e comercializarem discos em eventos ou pós-cultos. Com esta “lei-anti-artista-gospel” o que se observa é um desestímulo reinante entre os músicos daquela denominação. Muitos acabaram migrando para o mercado secular para que sua arte tivesse algum espaço ou reconhecimento. E isto é mais comum do que se possa imaginar por lá. Atualmente um dos mais proeminentes e populares jovens artistas do cenário português é um jovem, filho de pastor, que se viu obrigado a seguir numa carreira secular com sua banda após anos e anos sem qualquer apoio por parte da igreja evangélica. Ele inclusive me confidenciou já ter viajado mais de 300 Km para participar de um evento em que sequer o pastor ofertou-lhe o dinheiro da gasolina.

Diferentemente do Brasil, as igrejas evangélicas são poucas em Portugal. Estima-se que exista uma população de 400 mil evangélicos num universo de 10 milhões de habitantes. O perfil médio das igrejas por lá é de comunidades que reúnam entre 50 a 100 pessoas. Uma igreja com 500 pessoas é considerada enorme no meio evangélico lusitano. E muito desta timidez de números e estagnação do segmento deve-se à cultura européia racional, à tradição católica enraizada no país, aos escândalos e problemas proporcionados por alguns líderes evangélicos em décadas anteriores, à pequena quantidade de mídias de massa do segmento no país, entre outros aspectos. Pra exemplificar a questão das mídias, há apenas uma única emissora FM 100% evangélica ou mesmo católica em toda a Portugal com programação ao vivo. Não há um único canal de TV para o segmento, raros são os programas em canais de menor expressão e alcance limitado. E, pasmem!, não há um único site especializado em música cristã portuguesa. Ou seja, a música cristã praticamente sobrevive em termos de divulgação ao milenar boca a boca. Algo assustadoramente anacrônico em tempos digitais.

Confesso que se pudesse eu escreveria uma espécie de CARTA ABERTA aos evangélicos de Portugal, principalmente aos artistas e líderes, pedindo, na verdade clamando, por uma maior atenção e uma mudança de postura com a música cristã naquele país. Infelizmente uma esmagadora parcela da liderança evangélica portuguesa não entendeu que a música tem um poder enorme de transformação e que pode ser a grande ferramenta que esteja faltando ser utilizada para atingir mentes e corações da sociedade lusitana.

A música cristã pode levar a mensagem das Boas Novas para muitas pessoas que recusam-se a ouvir uma pregação, ou mesmo a entrar numa igreja.

Em minha curta passagem por lá tive oportunidade de ouvir dois portugueses confessarem que se converteram ao ouvir determinadas músicas evangélicas. A música tem essa força! Por outro lado, ouvi também testemunhos emocionados de alguns artistas falando a respeito da dificuldade que se é ter um ministério musical naquele país pela mais absoluta falta de apoio por parte das igrejas. Alguns destes testemunhos eram recheados de relatos vergonhosos da mais incrível falta de respeito ao músico cristão. Inclusive há casos de artistas que praticamente já haviam ‘entregue os pontos’ dedicando-se a outros projetos, até mesmo por questões de sobrevivência.

Em determinado momento me vi como uma espécie de psicólogo tentando reverter essa maré de pessimismo e desânimo. Será coincidência o fato de que a igreja evangélica vive anos de estagnação e o tipo de relação que esta tem com a música cristã? Ou mesmo a questão do pouco número de mídias segmentadas com a pouca influência da igreja na sociedade? Não tenho a menor dúvida de que se os líderes começarem a incentivar seus músicos, abrindo mais espaço para o intercâmbio para a classe artística, realizando mais eventos em suas igrejas, de que este ‘investimento’ será revertido no crescimento da própria igreja! Isso sem falar na expansão das mídias evangélicas. Está tudo relacionado entre si, há uma simbiose entre estes diferentes cenários e certamente quando um se desenvolve todo o resto cresce junto. Parece óbvia esta constatação e de fato é … e talvez de tão simples a solução, as pessoas imaginem não ser a mais correta nestes casos.

Em minha CARTA ABERTA certamente eu diria aos pastores e líderes sobre a responsabilidade que eles têm pelo não-crescimento da população evangélica naquele país. E não venham me falar em crise, em dificuldades … nada disso justifica a inércia. E, no caso da crise, pelo contrário isso não é justificativa, mas oportunidade pois já é sabido de que sociedades em crise costumam ser mais sensíveis às questões relacionadas à fé. Também focaria meu texto aos artistas que pretendem levar à sério este chamado, seus ministérios. Pelo que vi e ouvi nestes dias há um absoluto desconhecimento sobre as questões de marketing, universo digital, organização, planejamento, promoção e afins. A artista gospel com maio número de seguidores numa fanpage possui pouco mais de 30 mil fãs, algo ínfimo, mesmo em se tratando do universo português. Outro dado que me assustou é de que poucos são aqueles que possuem outras redes sociais além do próprio Facebook e, mesmo assim, com utilização completamente equivocada desta ferramenta. Atualizem-se urgentemente!

Alguns importantes artistas do segmento cristão com menos de 5 mil seguidores no Facebook disseram claramente “não mexer com essas coisas” ou “não ter tempo”, como se isto fosse possível, algo como sendo um simples passatempo e não uma ferramenta crucial hoje em dia. Entre estes ‘perdidos no tempo e no espaço’ há gente que lidera centenas de pessoas em suas comunidades. E a minha pergunta era sempre a mesma: não há um único miúdo ou adolescente em sua igreja que curta estas questões de internet e que possa ajudá-lo e cuidar de suas redes sociais?

Ressalte-se que até agora não falei de dinheiro e nem de investimento, estou falando somente de estratégia, atitude, vontade de mudar, entendimento, disposição, bom senso … questões muito mais pessoais do que estruturais.

Sempre gosto de receber o feedback das pessoas com quem converso. E nestes dias procurei saber posteriormente o resultado de minhas conversas, às vezes verdadeiras palestras, em alguns casos clássicos ‘puxões de orelhas’. E em todas o retorno foi bastante positivo. Recebi em meu último dia de trabalho o email de um importante artista do cenário cristão português agradecendo-me por ter dedicado meu tempo a eles. Neste email ele inclusive já me contava sobre algumas atitudes que havia tomado após conversar conosco e que aquilo já trazia uma motivação diferente ao seu dia a dia. Em outro destes feedbacks um jovem pastor também ligado à música contou-me que pretende investir mais na realização de encontros e que já havia marcado para gravar alguns vídeo-clipes usando a capital lusitana como cenário. Estas informações e impressões são o que de verdade me motivam a deixar minha família, meus afazeres no escritório e dedicar-me por alguns dias a pessoas que até então nem conhecia. E sinceramente espero que minha passagem por Portugal tenha contribuído de alguma forma para dar uma sacudida nas mentes daquelas pessoas para que em seguida possam levar a Palavra com mais empenho e somente assim transformação aquela sociedade.

Aos pastores e artistas brasileiros minha oração é de que olhem para Portugal com outros olhos. Temos que apoiá-los com o sentimento missionário e cristão, investindo tempo e dinheiro para que aquele povo possa conhecer a mensagem libertadora da cruz. Especialmente aos artistas brasileiros gostaria de incentivá-los a facilitar ao máximo as condições quando receberem convites para se apresentarem por lá. De verdade, espero mesmo até que alguns que já tão bem sucedidos economicamente que dediquem alguns dias de suas agendas intensas para irem até Portugal abençoar a igreja evangélica por lá.

Quando um português decide seguir a Cristo, a professar publicamente como seu único e suficiente Salvador, ingressando numa igreja evangélica, esta é uma decisão consciente e permanente. Não se brinca de crente!

Não se esqueçam que neste momento a Europa passa por uma crise de imigrantes saindo da África e Oriente Médio, com uma imensa maioria muçulmana. Se formos a Londres ou mesmo Paris temos a impressão de estarmos na Arábia Saudita, Dubai ou qualquer outro país da região tamanha a quantidade de muçulmanos presentes. Ouvi de uma pessoa de que esta imigração é uma espécie de Cavalo de Tróia onde de forma não explícita a fé muçulmana vai tomando espaço na sociedade européia.  Muita atenção a estes fatos! E por fim, creio como a Bíblia nos ensina de que quando todos tiverem acesso à mensagem de Cristo este será o tempo para que ele venha e resgate sua igreja. Se verdadeiramente queremos viver este tempo, então precisamos agir, mudar nossas atitudes e conceitos para que sua Palavra seja difundida. Um dia a menos evangelizando é um dia a mais de espera por este momento.

Força!

P.S. – Quero aproveitar e agradecer ao imenso carinho e comprometimento de toda equipe Sony Music em Portugal. Vocês são uma malta muito fixe! E em especial ao novo grande amigo, super produtor, pastor, compositor, arranjador, cantor, David Neutel, uma espécie de catalisador do cenário cristão em Portugal e Espanha. Sem sua ajuda, gajo, nada disso seria possível! Tu és boa onda!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, idealista, mais novo torcedor do Sporting (por influência do meu chefe português!)e alguém que torce pela mudança de certas culturas que ainda emperram o crescimento do Evangelho no mundo. 

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Alguns temas que surgem no nosso dia a dia muitas vezes acabam tornando-se pautas por aqui no Observatório Cristão. Há insights que rendem um belo texto, alguns até mais do que um único post e tantos outros merecem especial atenção mas não se sustentam para mais do que 2 ou 3 parágrafos. Então, numa tentativa de não deixar de lado estes temas nanicos, o post de hoje será composto por vários pequenos assuntos que estão diretamente relacionados ao nosso mundinho e cotidiano gospel.

Começamos pelo marketing-carona. Nunca ouvi esse termo sendo utilizado, então posso jactar-me de criar esse novo formato de ação estratégica de marketing. Longe de sentir-me um marqueteiro ‘acima da média’ vou ‘baixando minha bolinha’ e explicando de bate pronto o que vem a ser isto. Hoje em dia este recurso vem sendo amplamente utilizado, em sua grande maioria por cantores jovens e sem expressão e, nada mais é do que a postagem de vídeos e clipes nas áreas de comentário nas redes sociais. Já vi marketing-carona no Instagram, no Twitter, mas especialmente no Facebook ele se alastra como uma sarna. É um tal de “confira o clipe do fulano de tal”, “veja o clipe da cantora tal” … e tudo isso rivalizando em atenção com o post original publicado.

Muitas das vezes essa ‘estratégia’ é usada à exaustão! Outro dia entrei na fanpage oficial da empresa em que trabalho e estava ali postado nas últimas 20 inserções dos artistas e notícias da gravadora, um famigerado vídeo de um artista do norte do país que se dizia ser a grande sensação do arrocha gospel … pânico total! Parecia uma espécie de maldição … por onde eu clicava aparecia aquele vídeo horroroso como se fosse uns zumbis de walking dead.

Então, que fique bem claro aos artistas e seus “açessores”: fanpage é algo pessoal, intransferível e não se deve invadir, mesmo que seja para pedir ajuda para as crianças albinas da Etiópia. Marketing carona é over demais! Cafona demais! Além de ser um claro atestado de mediocridade e oportunismo desclassificado. Fui claro?

Outro assunto que merece ser destacado no blog é sobre a inclusão de clássicos da música gospel e regravações. Estava eu ouvindo dias atrás um disco de uma jovem cantora que eu tinha enorme curiosidade em conhecer e no meio de um EP com 6 faixas, eis que me deparo com uma versão revisitada de um hino do Cantor Cristão ou Harpa Cristã para os mais pentecas. Alguém pode me explicar o motivo de no meio de um projeto de estréia de uma artista, o produtor incluiu uma canção pra lá de gravada e interpretada? Não seria mais interessante seguir no objetivo de mostrar a artista e toda sua versatilidade, investindo em músicas inéditas e novas propostas?

Um jovem artista precisa mostrar pra que veio ao mundo artístico. E definitivamente não será com uma canção tradicional, amplamente conhecida e regravada que ele mostrará seus dotes artísticos. A não ser que a proposta do disco seja de revisitar os clássicos (o que por si só não me agrada a ideia), deixar de gravar algo inédito para incluir aquela canção que todo mundo já ouviu, não me soa nada bem!

Ainda no tema repertório, outra questão que eu gostaria de comentar tem a ver com a inclusão de versões internacionais. Acho que o artista e seu respectivo produtor precisam fazer um pouco mais de esforço em pesquisa para buscar referências e canções internacionais que realmente mereçam ser regravadas como versões. É muito chato, diria até meio cômico ver uma mesma música ser regravada por 10 artistas brasileiros num mesmo momento. Já teve caso de 2 artistas na mesma gravadora lançarem versões internacionais idênticas num intervalo de 3 meses.

Um dos problemas que percebo em nosso meio é que as referências são as mesmas. Ou seja, tem o artista da moda e todo mundo sai gravando as músicas daquele determinado nome. O que acontece é que o que poderia ser bom, acaba saturando tamanha a quantidade de versões gravadas. Hillsong, Jesus Adrian Romero, Kari Jobe, Amy Grant, Michael W Smith, Sandi Patty … estes são alguns dos artistas que já foram exaustivamente versionados no Brasil. E a ‘culpa’ disso, principalmente em tempo digital onde tudo está ao alcance de poucos cliques, é basicamente a preguiça de pesquisar por novas sonoridades, novos nomes, referências e informação.

O quarto assunto deste post miscelânea é com relação às participações especiais. Quais são ou deveriam ser os critérios para as participações especiais num disco? Sinceramente não tenho uma lista sobre este assunto, mas analisando alguns projetos que contavam com participações especiais acabei criando algumas opiniões a respeito. Em primeiro lugar, num disco de 10 faixas em média, não dá para ter mais do que 2 participações, por mais que o artista tenha um enorme ciclo de amizades. Não se esqueça de que o artista principal deve ter máxima exposição no seu próprio projeto.

Outra questão neste tema é que espera-se um mínimo de relacionamento entre o artista e o seu convidado. Não entendo muito bem como pode funcionar a química entre os intérpretes se alguns acabam se conhecendo no próprio estúdio no dia da gravação ou às vezes, sequer se encontram quando suas agendas não permitem que gravem numa mesma sessão. É fundamental que um mínimo de afinidade os artistas tenham entre si. Assim como já mencionei sobre as versões internacionais, da falta de referências e da repetição de nomes, acho que esta mesma preocupação precisa se ter quando o assunto é participação especial. Acho que daria para fazer algumas coletâneas de CDs só com participações de Baruk, Leonardo Gonçalves, Adhemar de Campos, Pregador Luo, para citar somente alguns. Acho que o artista deve ter um senso crítico ao convidar determinados artistas que estão nesta fase ‘arroz de festa’. É melhor pensar em outras opções para que a participação realmente seja especial.

Ainda sobre as participações … tempos atrás fui obrigado a comentar com uma artista que em toda entrevista, toda postagem, qualquer oportunidade que surgia fazia questão de enfatizar a maravilhosa, a espetacular, a estupenda participação do determinado artista. Menos! Não precisa falar mais da participação do que do seu próprio trabalho. Isso demonstra, antes de mais nada, uma tremenda insegurança, o que não é nada bom!

Vou ficando por aqui. À medida que fui escrevendo este texto uma série de outros assuntos e caminhos foram surgindo, então não se assustem se voltarmos a falar com mais profundidade sobre um destes temas aqui apresentados.

Por hoje é só!

 

Mauricio Soares, jornalista, diretor artístico com mais de duas décadas de bons serviços ao mercado gospel e cada vez mais impressionado e maravilhado com as oportunidades que surgem no meio artístico.

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Muitos problemas poderiam ser simplesmente evitados se o entendimento dos fatos, uma melhor compreensão dos resultados e, principalmente do conceito em si das atividades fosse melhor compreendido. No nosso último post falamos sobre o conceito da atividade de assessoria de imprensa e do profissional de marketing digital, duas áreas que observamos neste momento um aumento de demanda, com enorme potencial de crescimento, mas que pela falta de uma melhor definição do que realmente é notamos uma série de confusões e expectativas frustradas.

Seguindo o tema anterior gostaria de continuar falando sobre conceito. Neste momento em que cruzo boa parte do país saindo do Rio de Janeiro para a capital cearense espero aproveitar as 3 horas de vôo para explicar e contribuir para um melhor entendimento em algumas questões. Ontem conversando durante o almoço com meus dois maiores parceiros na companhia falamos sobre a diferença entre empresário e vendedor de shows. Falávamos de um determinado profissional que tem o dom de fechar contratos, de abrir portas e fazer grandes ações de booking, que é no jargão do meio, aquele que oferece, negocia e administra a venda de shows. Só que este determinado profissional se via além de um excelente vendedor de shows. Em sua própria concepção ele já havia passado para o estágio superior, julgando-se um empresário artístico. E aí, entre uma e outra garfada fomos discutindo as atribuições de uma e outra função.

Antes de mais nada, vale a pena registrar que o meio artístico gospel é absolutamente carente de empresários. Isso é fato! Em contrapartida, este mesmo segmento está lotado de vendedores de datas. Nada de mal nisso! O problema é quando estes profissionais se imaginam e procuram atuar nas diferentes áreas de atuação. Em bom português, uma coisa é vender shows e outra completamente diferente é ser um empresário. O primeiro é aquele profissional operacional, do dia a dia de contatos, senso de oportunidade, muita disposição para negociar, organização e excelente noção de logística, produção e planejamento. Um vendedor de shows deve ter uma excelente rede de relacionamentos. Deve manter contato permanente com contratantes e produtores locais de shows. Não raras as vezes, este profissional deve acompanhar as viagens do artista, analisando as condições do evento e mesmo analisando a capacidade do contratante na realização dos eventos a que se propõe.

Agilidade, organização e bom senso são fundamentais no perfil do bom vendedor de shows. Hoje em dia em que a tecnologia contribui para o contato e para facilitar as atividades, este profissional deve  ser capaz de no menor tempo possível responder às demandas que surgirem. É assustador como alguns artistas são prejudicados por não terem uma assessoria de qualidade nesta área. Tempos atrás perdi a paciência com um determinado artista porque simplesmente era impossível manter contato com ele. O seu site ‘oficial’ estava completamente desatualizado. Os números de telefone estavam errados ou simplesmente tocavam até cair a ligação. O email era uma caminho sem volta no melhor estilo buraco negro, em que simplesmente ninguém recebia retorno de nada. Resumindo a história, não por coincidência este determinado artista foi minguando, minguando até chegar a um estágio próximo do mais completo ostracismo.

A função principal do vendedor de shows é – por mais óbvio que possa parecer – fechar bons contratos para seu artista. E neste quesito temos casos absurdos em nosso meio que não posso deixar de citar. Há alguns anos atrás jantando com uma artista e seu esposo o telefone tocou. O esposo parou a conversa com cara de poucos amigos, atendeu a ligação e começou a falar numa rispidez de assustar. Em poucos segundos encerrou a conversa e voltou ao papo à mesa. Completamente chocado pela cena que havia assistido perguntei se estava tudo bem e ele candidamente respondeu: “Não aguento mais! Toda hora me liga alguém pra marcar agenda. Povinho chato esse …”. Pra encurtar esta história, naquele instante praticamente obriguei-os a montar um escritório próprio e proibi-o de atender qualquer ligação de agenda. Um vendedor de shows obrigatoriamente tem que ser uma pessoa agradável, educada e disponível. Mesmo quando não tiver como atender ao convite, o vendedor deve gentilmente declinar da proposta e em muitos casos sugerir uma nova data. Jamais deve desmerecer ou tratar de forma deseducada a um cliente. Básico não? Mas infelizmente há muito vendedor grosso, mal humorado, arrogante, mal educado em nosso meio, incrível mas é fato!

O ato de vender shows deve ser algo leve, transparente e facilitado. Outro dia em contato com um escritório de venda de shows passei 3 solicitações de datas de diferentes eventos. Como estes contratantes eram todos muito próximos a mim e já têm uma boa experiência e tradição no meio, esforcei-me em ajudá-los indicando alguns nomes para seus respectivos eventos. Então, como facilitador no primeiro contato passei todas as informações dos eventos, dos próprios contratantes e até mesmo uma noção mais clara sobre os valores de cachê e tudo mais. Liguei para um dos escritórios, expliquei tudo em detalhes, passei todas as coordenadas. Depois de quase 10 minutos ou mais de ligação, o (impublicável) vendedor me falou na maior cara de pau: Ah! Que legal. Pede para esse contratante então ligar pra mim. Depois das 14h e antes das 18h.” Confesso que fiquei alguns segundos estático tentando digerir a informação e de forma automática e quase inocente perguntei de volta o porquê dele não ligar direto para o contratante e aí fui obrigado a ouvir:  “Estou com muitos emails pra responder. Muita coisa aqui pra fazer e também porque por orientação do artista, não fazemos mais ligações. Somente em último caso. Se este contratante quiser mesmo levar o artista, ele precisa ligar pra nós! Ah … não esquece que entre 14h e 18h, ok? Agora vou almoçar …”

Acho que a figura do vendedor de shows já está bem definida, mas e o empresário artístico? Bem, o empresário é antes de mais nada um investidor. Sim, um investidor, aquele que vai colocar dinheiro, tempo e dedicação no sucesso de um artista. No meio gospel tupiniquim onde os termos são constantemente alterados no sentido de espiritualizar tudo, no melhor estilo ‘gospelmente correto’, a palavra investidor é algo que pode assustar a muitos. Mas deixando de lado a hipocrisia purista reinante, o fato é que estamos diante de um mercado potencial, em crescimento, se consolidando a cada dia e onde o dinheiro circula em diferentes atividades. Nada mais natural que o mercado gospel chame a atenção de investidores. O problema não é ter um investidor no meio artístico gospel, mas a falta de transparência nesta ação. De outro lado, o investidor precisa entender que o mercado tem muitas peculiaridades e como tal, é fundamental ter sensibilidade, bom senso e principalmente um planejamento sério nas questões custo x benefícios, breakeven, retorno, tempo, oportunidades.

Resolvidas estas questões mencionadas acima, voltemos ao conceito do empresário artístico. Em primeiro lugar, este profissional deve ter lastro financeiro e segurança. Assim como em qualquer negócio, os riscos são inerentes. Não é porque o artista é uma bênção, talentoso, simpático, bom rapaz, músico virtuoso, com boa aparência e que fala 5 línguas, inclusive as espirituais, que ele vai dar certo. Qualquer aposta é sempre uma aposta. Pode dar certo ou não. E aí é fundamental que o empresário não coloque todas as suas fichas na expectativa do retorno. Muitas das vezes o retorno pode vir, mas é necessário um bom tempo de investimento e maturação. Neste caso, um bom budget para o projeto é fundamental! Outra questão importante, o empresário deve ser alguém que privilegie relacionamentos. Um bom networking é condição sine qua non para um profissional gabaritado nesta área. O empresário precisa estar na rua, em campo, participando dos grandes eventos, buscando oportunidades diferenciadas para seu artista. E neste networking é fundamental que o empresário mantenha uma relação saudável e de parceria com a gravadora caso seu artista faça parte do cast de alguma empresa. Aquele empresário que age de forma individual na condução de um artista que esteja vinculado a uma gravadora acaba mais atrapalhando do que ajudando. Um bom empresário é aquele que trabalha lado a lado com a gravadora buscando oportunidades, traçando metas e objetivos e principalmente planejando ações em conjunto.

No meio secular a figura do empresário é muito comum. Em muitos casos a gravadora sequer mantém contato direto com o artista, reservando toda a comunicação exclusivamente para o escritório empresarial. O empresário, como já mencionado anteriormente, é aquele que busca alternativas de fontes de renda e contratos. Entre estas oportunidades estão as ações de publicidade, licenciamento e mesmo de contratos comerciais. Por que os artistas do meio gospel praticamente são nulos em campanhas de publicidade? Não só no caso de produtos e projetos seculares, mas principalmente de produtos de consumo para o próprio segmento gospel. Por que essa ausência de artistas em campanhas de mídia? A resposta é simples e direta, ou seja, não há profissionais buscando contratos junto ao meio, às agências de publicidade. Ou seja, faltam empresários em nosso meio à procura de oportunidades!

Em praticamente 100% dos casos no meio gospel a negociação de contrato ou de renovação de vínculo entre o artista e a gravadora é feita diretamente entre as partes. Esta relação muitas das vezes é desgastante e o artista cria expectativas bem distantes da realidade do mercado. Com a participação do empresário, geralmente alguém mais antenado com as tendências e realidades do meio, a negociação flui de forma mais direta, objetiva e transparente, facilitando todo o processo. Ao longo de 25 anos de mercado posso assegurar que em muitos casos, negociações das quais participei seriam bem mais tranquilas pela simples participação de um empresário. Muitas das vezes ter que negociar com marido, esposa, o próprio artista, cunhada, pai e similares acaba mais prejudicando do que ajudando. A relação nestes casos passa muito mais a ser algo pessoal, até mesmo passional do que profissional e nestas horas o fundamental é ter transparência e segurança poupando assim de eventuais dores de cabeça, frustrações e perda de tempo.

O empresário deve ter uma visão macro do mercado. Não pode jamais reduzir seu campo de visão para o próprio universo. O ideal é que o empresário tenha uma boa percepção de oportunidades e tendências. Contratar um artista no início da trajetória, prestes a ‘estourar’ é para poucos observadores e geralmente estes são os que efetivamente têm sucesso no mercado. É o tradicional ‘investir na baixa para colher na alta”. E aí, é óbvio que oportunidades não batem à porta do escritório, ou seja, é necessário estar em constante deslocamento, participando de shows regionais, congressos, antenado na internet, enfim, buscando informação o tempo todo, todo o tempo.

Um bom empresário é aquele que procura orientar seu artista. E aí há um detalhe importante. Naturalmente boa parte dos artistas crêem veementemente de que são a oitava maravilha do mundo e que não carecem de tantos ajustes, orientações e conselhos. Coitados! Então, o empresário antes de mais nada precisa de paciência (muita!), firmeza na condução e um bom planejamento. Não pode faltar argumento quando se necessita orientar o artista sobre ações, estratégias e caminhos a seguir. Aí neste caso, muito desta credibilidade será adquirida com o passar dos anos. É uma questão de tempo e de cases de sucesso para conquistar-se o devido respeito do mercado e do próprio artista. Caso o empresário ainda não tenha essa bagagem que só o tempo pode trazer, o ideal é investir na ajuda externa de consultores. Aí, neste caso, é fundamental saber a quem pedir a tal consultoria porque nosso meio está recheado de bicões e sem noção que prometem o que não cumprem!

Antes de partir para a finalização do texto gostaria de descrever meu prazer enorme de ouvir enquanto produzo este post o disco de Salomão do Reggae. Na minha modestíssima opinião, estamos diante de um dos maiores letristas e poetas de nosso meio dos últimos tempos. A qualidade da caneta do Salomão é absurda e faz parecer fácil escrever versos como o que ele transformou em canções neste projeto. Além da criatividade com as palavras, o tal do Salomão ainda é um intérprete de mão cheia, instrumentista e tem um carisma sobrenatural. Quero muito estar certo nas minhas projeções e de verdade creio que estamos diante de um artista completo que será sucesso nacional em não mais do que 2 a 3 anos. Este projeto deverá ser lançado entre agosto e setembro e sairá pelo selo Balaio Music com distribuição exclusiva pela Sony Music. Enquanto isso, o prazer de ouvir este material fica restrito a poucas pessoas e ainda bem que estou entre estas!

Voltando ao texto, acho que conseguimos definir bem o conceito de vendedor de shows e o empresário artístico. Acho que em se tratando do universo gospel brasileiro temos muito a crescer, a melhorar, a desenvolver. No caso dos vendedores o desafio é tornar essa atividade mais profissional. Há demanda de eventos crescente. Imagino que no país, cada vez mais as prefeituras irão investir em shows de música gospel. No Brasil temos mais de 5 mil municípios, ou seja, muitas oportunidades. Além da demanda de shows, há a própria necessidade de suporte por parte dos artistas. Já não comporta mais que alguns grandes artistas ainda insistam na solução caseira com pai, mãe, marido, atendendo às ligações e negociando os cachês. Já temos no mercado algumas empresas que desempenham com qualidade este tipo de trabalho, basta uma boa pesquisa.

Em contrapartida, se temos muitos vendedores, já não podemos afirmar o mesmo para a categoria de empresários artísticos. Há algumas semanas atrás conversei com um empresário da área do samba que cada vez mais está antenado com o segmento gospel. Neste mesmo período já tive reuniões com empresários do segmento sertanejo, católico e até mesmo do pop rock. Todos mostraram-se muito curiosos em entender melhor o ambiente da música gospel. A percepçào de que estão diante de uma oportunidade interessante pela frente é inequívoca, mas que também necessitam aprofundar o conhecimento sobre este universo. Ou seja, não nos surpreendamos se escritórios de artistas populares muito em breve também abrirem um setor exclusivo para atendimento a artistas e eventos do meio gospel. De verdade acredito que em mais alguns meses já teremos essa novidade em nossos arraiais.

Por hoje é só!

 

Mauricio Soares, viajante contumaz, publicitário, amante da boa música, observador atento, incentivador do mercado gospel, profissional de marketing, jornalista e alguém que não participa de campanhas mirabolantes como Embelezamento de Altíssimo em 7 semanas, Fronhas do Sonhos de Deus, Sabonete com Óleo e sincretismos afins.