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Durante os festejos momescos em que eu e minha família optamos em nos isolar numa casa de praia, entre um mergulho e outro, entre uma relaxante ducha, banhos de piscina, um tempinho de sauna, almoços e jantares mega agradáveis com amigos e toda minha prole, dei-me a incumbência de dedicar algum tempo de meu dia para conferir canais que normalmente não assisto em meu pacote de TV por assinatura. A casa em que me hospedei tinha uma ‘assinatura’ (entre aspas mesmo!) de alguma operadora que além dos canais abertos tradicionais contava com outras opções não tão ortodoxas e atrativas como diversos canais rurais com uma enxurrada de propagandas de defensivos agrícolas e equipamentos e uma infinidade de outros canais de programação religiosa, a saber: católica e evangélica. Nada de filmes, séries, documentários … um suplício!
Fiquei durante uns 3 dias revezando-me entre Datena, Marcelo Rezende, William Bonner e uma saga interminável de pastores, missionários, bispos, querubins, apóstolos e outros santíssimos com suas vozes roucas, ternos mal cortados, mãos endurecidas, discursos rasos, sudorese em extremo, cabelos com gel e teologias estranhas que tirariam qualquer Lutero ou Calvino do sério! É impressionante como durante estes dias não consegui encontrar um único pregador que, de verdade, me chamasse a atenção a ponto de manter-me interessado por alguns minutos. Confesso que minha boa vontade foi além da conta, até porque em meio ao carnaval as opções na TV são pra lá de escassas pra quem não quer ficar com o baticundum chacoalhando na mente.
Assisti de tudo. Tudo mesmo! Fui de um missionário cearense com cara de índio boliviano que usava uma túnica dourada e um chapéu tibetano com pontas para cima aos tradicionais pastores que se revezam com suas vozes roucas divulgando onde estarão com suas reuniões milagrosas do poder pelos próximos dias. Este tal missionário cearense que parecia o Evo Morales em seus trajes cerimonialistas, que mais parecia um gárgula de filme de terror falava coisas desconexas para um público ainda mais estranho com seus roupões e suas fisionomias cansadas como de seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos. Ele pregava sobre o fim dos tempos, sobre o Anti-Cristo e de como a sociedade devia mudar, inclusive deixando de ser influenciada pela TV – mas ele mesmo estava se usando deste expediente para, como assim dizer, influenciar as pessoas. As imagens que mais pareciam ter sido gravadas em VHS com seus tons desbotados e falta de sincronização entre o som e o vídeo conseguiam transmitir o ambiente tosco e esquisito daquele lugar que se auto-denominava como sede mundial daquela igreja. Consegui ficar naquele canal por uns 20 minutos e depois fui obrigado a mudar assim que começaram os cânticos … a música era apresentada por uma senhora de 1,50m, vestida com uma túnica verde claro, coque no alto da cabeça, 8 dentes na boca e que entoava alguma coisa entre uma ladainha das carpideiras do Nordeste e o Hino da Harpa Cristã no ritmo das benzedeiras da região do Jequitinhonha, Minas Gerais.
Segui em meu propósito e mudando de canal me encontrei com uns bonecos gigantes, sem expressão facial, ou melhor, com seus rostos congelados, cabeças completamente desproporcionais, personagens estereotipados (o boneco negro era jogador de futebol e vestia amarelo com azul), se remexendo como se estivessem numa rave matinal ensandecida e frenética. Aqueles personagens deveriam animar as crianças … deveriam porque na verdade, causavam pânico! Chamei meu filho caçula pra dar seu veredicto e ele candidamente disse: Bonecos feios! Eles não mexem a cara não? Prefiro a Patrulha Canina! Em meio aos personagens tinha um boneco ‘adulto’ com terno e gravata, mega adequado ao universo infantil #sqn … o dito cujo mais parecia com aqueles bonecos gigantes do carnaval de Olinda … por mim já deu … muda de canal …
No canal seguinte voltamos ao script tradicional com um pastor, este já com um terno mais bem cortado, uma barba bem feita, dando todos os indicativos de que foi abençoado e prosperou acima dos demais. Este pastor começa a conclamar as pessoas a estarem com ele numa reunião onde “Os milagres vão acontecer! Quem bebe vai deixar de beber! Quem fuma vai deixar de fumar! Quem está falido, vai ver a maré mudar! Basta você ir na igreja XYZ que é onde o Deus Vivo está presente! Onde as coisas acontecem de verdade! E aí ele quebra tudo! Vou tentar ser o mais literal possível. “Aqui na igreja XYZ está a verdadeira unção. As outras podem te prometer um monte de bênçãos mas aqui na XYZ nós prometemos e cumprimos porque o nosso Deus não nos deixa na mão! A gente determina e ele cumpre!” Assim mesmo, como se Deus fosse apenas um mero atendente das vontades, caprichos e desejos dos líderes daquela determinada denominação. No fim, o mesmo pastor se dirige com voz grutural, gestos cênicos e muita emoção para conclamar a todos participarem da obra que não pode parar! Contribua através do Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Itaú, Santander, Rede Shop, Visa, CitiBank, carnê mensal, toalhinha ungida ou diretamente em uma de nossas filiais espalhadas por todo o país …
Comecei a sentir falta das notícias de assalto, sequestro, acidentes do Cidade Alerta e seus programas correlatos … corta pra 18!
Mas ainda tinha mais. Em outra troca à procura de novos canais, deparei-me com um canal voltado à juventude cristã. Que lindo! Ufa! Agora vai … teremos uma programação mais moderna, mais leve e dinâmica … na volta do intervalo vejo imagens do que deveria ser um congresso de jovens em alguma grande igreja de São Paulo. Os jovens presentes, todos, essencialmente TODOS vestidos com a mesma camiseta alusiva ao próprio congresso. Nada mais estranho do que ver jovens e adolescentes uniformizados! Mas ok, tudo bem … vamos seguir assistindo … no palco, 8 ou 10 meninas fazendo a coreografia de uma música do querido DJ PV que agora não me recordo mais qual seria, mas era do PV, sem dúvida. A coreografia era uma espécie de street dance ou algo do tipo. Como cada uma fazia num tempo próprio, não sei se seria uma coreografia com delay ou se era apenas falta de ensaio e sincronismo mesmo. Dei um tempo, fui até a cozinha pegar algo pra comer e quando retornei a coreografia havia acabado. Naquele momento, um jovem de seus 30 e poucos anos assumia o microfone e começava a pregar a respeito do papel do jovem na sociedade e sua relação com Deus. Completamente desconcertado o jovem pregador tentava de todas as formas manter um clima ameno, com piadinhas pra lá de sem graça, alguns trejeitos estranhos e colocações que pudessem trazer aquele texto bíblico para a realidade daqueles jovens. Quando a câmera focava os jovens, a impressão era de que estavam diante de um professor de física quântica tamanha a impressão de que ninguém estava entendendo absolutamente nada! Eu também não estava entendendo nada e depois de alguns minutos desliguei a TV e fui viver minha vida.
Por 3 dias seguidos fiz este exercício. Em um dia específico fiquei à cata de musicais nestes canais de TV e aí pude assistir também a alguns programas católicos. A experiência não foi das melhores. Vi uns grupos tocando uma espécie de axé com letras religiosas (devia ser por influência do carnaval), alguns padres cantando umas músicas de arranjos simples, quase uma toada e, no fim, vi um esforçado cantor tentando animar a plateia formada essencialmente por jovens de 60 a 70 anos. Como tenho conhecido cada vez mais o universo da música católica produzida no Brasil, reconheço que ali na TV não pude constatar o que há de melhor neste segmento. Artistas como Tony Allison, Rosa de Saron, Ziza Fernandes, Olivia Ferreira, Diego Fernandes e a novata Lucimare têm se esforçado (e conseguido!) em apresentar uma música católica de maior qualidade. No entanto, o que vemos habitualmente nos canais do segmento tem sido um desfile de qualidade duvidosa em se tratando de música.
Nesta busca por algo de qualidade, especialmente na área musical, assisti ao Caixa de Música, programa tradicional da Rede Novo Tempo. Entre um ou outro artista da própria gravadora da casa, pude conferir clipes de Os Arrais, Estêvão Queiroga, Felipe Valente, Deise Jacinto, Gabriel Iglesias … alguns nomes internacionais que eu nem conhecia, enfim, uma boa lufada de qualidade em meio ao desfile de musicais de gosto discutível. Respeitando a filosofia do canal, o senão fica apenas pela falta de alguns artistas de outras linhas na programação da emissora.
Como ainda insisti em seguir na minha campanha hercúlea enfrentando as programações religiosas na TV durante meu tempo de descanso, o destino me levou a mais um canal onde um tal pastor pregava sobre conceitos bíblicos, uma espécie de Escola Bíblica Dominical no ar … a questão nem consistia no conteúdo apresentado, mas na qualidade das imagens. Como na verdade a Palavra de Deus não muda, o tal pregador resolveu aproveitar seus vídeos gravados nos longínquos anos 80, com suas costeletas, gravatas enormes e grafismos psicodélicos. Era uma espécie assim de Túnel do Tempo … como o vintage está na moda, talvez esse programa retrô tenha seu charme … ou não.
No mais, muita campanha, muito sacrifício, muita toalha ungida, óleo ungido, sabonete ungido, símbolos da cultura judaica, danças estranhas, apelos por ofertas, sapatos de bico fino, gravatas espalhafatosas e lenços combinados, muito gel na cabeça, apelos por ofertas, camisas com marca de pizza embaixo do braço, interpretações estranhas da Bíblia, linguajar todo próprio criando quase um dialeto particular, apelos por ofertas, testemunhos, música incidental de terror e tensão, verdadeiros assassinatos à língua portuguesa, principalmente na concordância (como gostam de comer o “S”, oh Lord!), choros em demasia, relatos emocionantes, pregações exclusivamente sobre o Velho Testamento (não sei o que esta turma tem contra Jesus e o Novo Testamento!), teologias próprias, apelos por ofertas, música ruim, artistas sem expressão, clipes toscos (assisti um tiozão cantando para uma plateia especialmente formada por pessoas da terceira idade. Ele cantava uma canção num ritmo que tentava chegar a uma bachata ou algo mais latino. Talvez esta tenha sido a tentativa original. O tiozão parecia o boneco do posto se saracoteando num ritmo too próprio e estranho), vinhetas da década de 70, imagens amareladas e apelos por ofertas.
Ou seja, sinceramente acho que está tudo muito confuso. Há alguns anos atrás, um amigo me pediu algumas indicações de programa de TV ou mesmo alguma igreja para em palavras próprias: entender um pouco de Jesus. Pensei por alguns segundos e dei-lhe uma primeira dica: pra começar, não assista a nenhum destes programas da TV … esta dica eu dei já faz uns 7 a 8 anos e acho que se ele novamente me pedisse uma ajuda neste sentido, muito possivelmente minha resposta seria a mesma. Em minha modesta opinião, creio que teríamos um país muito melhor, muito mais justo, muito mais amoroso, ético, acolhedor, pacífico e humanizado se efetivamente a mensagem libertadora da graça de Jesus fosse pregada não só nos púlpitos das igrejas pelo país como também nas telas das TVs e mesmo pela web que cada vez assume mais papel de destaque dentro da comunicação de massa. Perde-se muito tempo em defesa das instituições, no levantamento de recursos e campanhas de arrecadação, na venda de produtos (outro dia cronometrei 18 minutos de ‘vendas’ num programa de 30 minutos de duração, ou seja, mais de 50% do tempo útil do programa) e, pasmem, na rixa entre esta ou aquela liderança, entre esta e aquela igreja. Isso é terrível, triste e melancólico!
Minha esperança e torcida é para que a comunicação no meio evangélico no Brasil seja transformada nos próximos anos. Que a qualidade seja uma busca incessante. Que a mensagem seja embasada na verdadeira e simples mensagem da Cruz. Que esta mensagem alcance e seja compreendida pelas pessoas. Que os interesses pessoais sejam sobrepostos pelo bem comum e maior. Que o Evangelho pregado em nosso país seja verdadeiramente a Boa Nova que muda a vida das pessoas e que influencie positivamente nossa sociedade como um todo.
Voltando ao Jornal Nacional em 3, 2, 1 …

Mauricio Soares, formado em Comunicação Social, bacharelado em Jornalismo e Propaganda & Publicidade, atuando há 28 anos no mercado gospel no Brasil e sobrevivente após algumas horas assistindo a programas religiosos na TV durante o feriado do Carnaval.

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Nas últimas semanas o nosso blog esteve mais parado do que o de costume, afinal não temos hábito ficar mais de 2 semanas sem textos e postagens inéditas. Em função de alguns contratempos, mesmo com alguns textos já finalizados e prontos para a publicação, ficamos sem novidades no blog, mas pra compensar este hiato, acabamos liberando de uma única vez logo os 3 últimos textos publicados recentemente. E tudo é uma questão de hábito, de repente me peguei numa tremenda falta de escrever mais textos, sem muito estímulo pra continuar dedicando alguns minutos, horas talvez, pra criação de novos conteúdos … confesso que estava quase sucumbindo à tentação de tirar umas férias prolongadas (tipo o Leonardo Gonçalves pra 2017) sem data de retorno. No entanto, bastaram uns dias fora das quatro paredes do escritório, em contato com pessoas que nem sempre tenho oportunidade de conviver no meu dia a dia, para que o desejo de seguir em frente publicando novos textos ressurgisse novamente.

Durante uns dias em Goiânia tive oportunidade de conversar com muitas pessoas, na verdade, revi alguns amigos e conheci dezenas de outras pessoas que até então não conhecia. E boa parte destas pessoas fazia questão de dizer que eram leitores do Observatório Cristão, que curtiam nossos textos, seguiam nossas dicas e que até mudavam sua forma de pensar e agir baseados em informações que recebiam pelo blog. Este tipo de contato é fantástico pra mim! Serve mesmo como um grande estímulo pra seguir adiante mesmo após quase 9 anos de publicações ininterruptas.

E quero aproveitar um pouco mais dos próximos minutos de sua preciosa atenção para comentar sobre algo que tenho falado muito nas últimas semanas. Vale lembrar que boa parte dos temas e assuntos aqui publicados são, na verdade, oriundos do meu cotidiano como profissional da área de música, de experiências vividas e observações acuradas de meu dia a dia. E especialmente nestes dias tenho falado (e ouvido muito) sobre o sucesso ‘meteórico’ do projeto Preto no Branco. Pra quem não os conhece ainda, vou apresentá-los … o Preto no Branco é uma criação do engenhoso, dinâmico e criativo Alex Passos, sócio-diretor-faz-tudo da Balaio Music. Há 2 anos e pouco atrás ele me procurou pra dividir algumas ideias de um projeto musical. Durante muitos anos, Alex Passos foi o apresentador do programa de TV Balaio, transmitido pela Rede Super de Televisão, canal da Igreja Batista da Lagoinha de BH. Ele me apresentou o projeto, aprovei na hora e a partir dali seguimos cuidando de todos os detalhes. O Preto no Branco é o encontro de 4 artistas solistas, multi-instrumentistas, compositores e extremamente talentosos. O grupo inicialmente era formado por Wesley Santos, Juninho Black e Clóvis e contava com a participação especial de Eli Soares. No fim de 2014 eles se reuniram para gravar um projeto inédito e este projeto só chegou ao mercado no fim do ano seguinte. Agora, já quase no fim de 2016, portanto com menos de 12 meses de seu lançamento, o Preto no Branco é um verdadeiro fenômeno de popularidade superando 100 milhões de visualizações de seus vídeos, algo bastante raro no meio gospel tupiniquim, principalmente em se tratando de um projeto tão recente.

Mudança de cena …

Recentemente Leonardo Gonçalves gravou uma música que tornou-se tema para o filme “Você Acredita?”, que foi um sucesso estrondoso nos cinemas pelo Brasil. A música “Acredito”, versão de uma canção da banda norte-americana New Boys (We Believe) está com mais de 25 milhões de visualizações tendo sido lançada cerca de 1 ano atrás. A versão original, com 2 anos de publicada, conta com 18 milhões de views, ou seja, um caso raríssimo de versão que suplantou em popularidade a canção original. Esta música em português interpretada brilhantemente por Leonardo Gonçalves talvez fosse a cereja do bolo que faltava para coroar de vez o sucesso e unanimidade de reconhecimento que o artista precisava após lançar seu projeto “Princípio”, DVD que marcou em definitivo a carreira do Leonardo Gonçalves. Esta música entrou no repertório do cantor a ponto de rivalizar em preferência com outras canções tradicionais do artista como Getsêmani e Sublime, apenas para citar duas músicas.

Nova mudança de cena …

No mês de julho deste ano estava em Fortaleza participando da Expo Evangélica, hoje seguramente a maior feira de produtos evangélicos do país. Lembro-me que vi esta feira crescer há 11 anos atrás, ainda num espaço que comportava (muito quente e apertado) no máximo umas 2 mil pessoas e hoje me deparo com um Centro de Convenções climatizado e com capacidade para 15 mil pessoas completamente abarrotado. Que felicidade ver um projeto crescer, acreditar onde ninguém via nada e depois deparar-me com algo sólido e confiável. Mas voltando ao mês de julho, como apoiador da Expo, fiz questão de levar uma quantidade enorme de artistas de meu cast, de diferentes estilos, de diferentes públicos e de diferentes etapas no estágio da carreira artística. Todos os nossos artistas tiveram oportunidade de cantar no palco principal da feira e pra minha grata (e enorme) surpresa, o público cantava a plenos pulmões cada uma das canções ali interpretadas. E não era no refrão ou no fim das frases, o povo cantava tudo, inclusive com vocais, voltinhas, melismas e tudo mais! Mas aí você deve estar pensando: a gravadora investiu um caminhão de dinheiro nas rádios de Fortaleza pra garantir toda esta popularidade!

Concluindo a cena …

Mas o que tem em comum Preto no Branco com Leonardo Gonçalves e ainda a Expo Evangélica de Fortaleza com os queridos cearenses fazendo dueto com os artistas? Muito simples! Nem o Preto no Branco, nem a canção “Acredito” do Leonardo Gonçalves ou mesmo os artistas do cast que se apresentaram na Expo Evangélica, tiveram seus trabalhos divulgados prioritariamente nas FMs evangélicas pelo país. Ou seja, nestes 3 casos (mas poderia listar outros mais) o caminho da música e seu respectivo reconhecimento do grande público não se deu pelo tradicional caminho de tocar nas rádios do segmento. Se até alguns anos atrás as rádios tinham a primazia (quase uma ditadura!) no sucesso de um determinado artista ou canção, hoje em dia, em tempos digitais e de mobilidade plena, as rádios perderam sua hegemonia no processo de se criar o sucesso. Não estou dizendo que as rádios não são importantes! Não mesmo! O que estou dizendo é que elas não são mais o caminho exclusivo e hoje dividem em importância com a internet e as plataformas digitais. E isso, é muito saudável porque traz para os artistas, gravadoras e principalmente o público a oportunidade de ter acesso a conteúdos diferenciados que até então não tinham espaço nas grades de programação das rádios. Aí cabe até uma puxada de orelha gospel … no nosso meio religioso esta democratização, sem dúvida, desestabilizou algumas emissoras que até então se jactavam de deter a hegemonia em suas regiões. Não posso deixar de comentar sobre determinada rádio de um grande centro do país que só tocava artistas que atendiam suas demandas próprias como eventos na igreja ou outras parcerias comerciais. O dono daquela emissora gostava de alardear aos quatro ventos de que naquela região se quisesse ser conhecido deveria pagar o pedágio a ele … algo mais feudal, impossível!

Em suma, vivemos um momento único na área musical como um todo. Através destes novos canais de consumo de música, artistas até então ligados a determinados nichos (sem acesso às grandes mídias) foram sendo descobertos por novos públicos e ampliaram consideravelmente o alcance de sua mensagem e arte. Especialmente as plataformas de audio streaming contribuíram muito para esta maior interação entre diferentes estilos, públicos e artistas porque todo este conteúdo está num mesmo local entre 30 a 40 milhões de músicas ao simples alcance de uma busca.

Tanto “Acredito” como Preto no Branco são fenômenos da internet que depois foram ‘descobertos’ pela grande mídia. Tive recentemente contato com um diretor de uma grande rádio que me confidenciou não conhecer o Preto no Branco mesmo eles já contando com milhões de views na web, agenda lotada pelo Brasil e milhares de seguidores em suas redes sociais e canais oficiais. Ouvindo este comentário, só pude dizer que as coisas estavam mudando e que os programadores de rádio deveriam incluir buscas na internet como atividades corriqueiras para entender o que o público estava escutando naquele momento. Não só ele entendeu o recado como já vem trabalhando diretamente junto ao YouTube, redes sociais e as plataformas de audio streaming acompanhando os números diariamente.

Pra concluir, vivemos um tempo de grandes transformações. De novos hábitos, novas expectativas, novas estratégias. É fundamental que os artistas, principalmente a nova geração, saiba que hoje todos estão praticamente num mesmo nível, não importando se possui uns poucos anos de estrada ou décadas de música gospel nas costas … a verdade é que tudo voltou à estaca zero e por isso, todos têm capacidade para se estabelecer com sucesso e vigor no cenário artístico gospel. O mesmo digo para os medalhões, artistas que viveram o auge do mercado fonográfico … não adianta de nada anos e anos de estrada se não entenderem que tudo mudou e que é necessário se reeducar, reinventar, adquirir novos hábitos, buscar conhecimento. Uma das provas desta mudança é esta mesma que eu citei nas linhas acima, pois quem imaginaria que artistas surgiriam atropelando tudo sem que suas músicas sequer tocassem nas rádios? A internet está aí … o mundo digital é realidade … novos nomes estão surgindo no cenário musical … tudo novo!

Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, blogueiro, profissional de marketing, jornalista e observador de novas tendências.

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Estava assistindo a algumas matérias na TV sobre as manifestações deste fim de semana, teoricamente contra o governo Temer e a forma como a quadrilha petista foi apeada do poder depois de 13 anos de incompetência e muita corrupção. O que me chamou a atenção foi observar a participação de jovens sem muito a dizer a não ser as manjadas palavras de ordem e uma beligerância acima do normal. Aí, deparei-me com o texto abaixo de Luis Felipe Condé que resume perfeitamente minha visão e opinião sobre este momento de mimimi juvenil. Resolvi reproduzí-lo em nosso blog pra começar a semana com uma boa leitura. Vamos ao texto!

 

Nosso mundo contemporâneo é cheio de fetiches sobre seu próprio avanço em relação ao passado. Hoje vou dar dois exemplos de fetiches típicos. O primeiro a ver com a ideia de crítica e de pessoas críticas. O segundo a ver com a ideia de revolução, mais precisamente a revolução sexual.

O primeiro fetiche proponho chamarmos de fetiche da crítica. Este é um dos mais comuns e mais bobos do mundo contemporâneo. Nunca vi gente mais longe de qualquer pensamento que valha a pena do que gente “crítica”. Não conheço gente mais chata do que gente “crítica”.

Ricardo Cammarota/Folhapress


O fetiche da crítica aparece muito associado à educação, à arte e à cultura. Você pode ouvir gente falando dele em todo lugar em que muita gente se reúna para pensar a educação, a arte e a cultura.

Como fazer um aluno crítico? Como criar uma arte crítica? Como produzir uma cultura crítica? Minha primeira aposta é que, se você perguntar diretamente para um desses defensores de uma educação crítica, de uma arte crítica e de uma cultura crítica o que é ser crítico, ele vai responder mostrando uma selfie dele numa manifestação na Paulista.

Eu vou dizer para você uma coisa: não conheço aluno mais fechado ao diálogo do que alunos que se consideram críticos. Ser “crítico” nesse caso, basicamente, significa falar mal do capitalismo, do patriarcalismo e dos EUA. Uma banalidade que se ensina em qualquer aula barata de filosofia e sociologia.

Mas uma coisa me chama a atenção nos tais jovens críticos: sua intolerância. Torquemada ficaria com complexo de inferioridade. Não conte com nenhuma autocrítica em gente crítica. Normalmente lê pouco, é afogado em certeza banais do tipo “o mundo seria melhor se fosse como eu descrevi em minha tese”, e tem pouco afeto pelo estudo profundo de qualquer coisa.

Aí vai uma característica chocante em gente crítica: não gosta de estudar de fato. Quando fala, fala a partir de uma posição inquestionável. Acho que o motivo dessa atitude é justamente aquele tipo de ignorância marcante em quem conhece pouco de qualquer coisa. Por isso, acho mais importante procurarmos levar um aluno a entender o que um texto quer dizer simplesmente e não levá-lo a ser “crítico”. Antes de tudo, podemos perguntar: crítico do que, se, normalmente, mesmo os professores não são críticos de nada a não ser daquilo de que não gostam?

Portanto temo pela educação, pela arte e pela cultura quando se busca formar críticos. O fetiche os leva ao gozo porque, usando essa palavra “crítica”, você pode dizer qualquer banalidade que ela soa ungida pelo véu da inteligência.

De minha parte, acho que devemos evitar a palavra “crítica” da mesma forma que devemos evitar palavras como “cabala” ou “energia”. Em si, as duas são coisas sérias, mas, no mundo do fetiche da informação como o nosso, as duas não significam muito mais do que palavras vazias de sentido.

Outro fetiche é o da revolução. Toda pessoa crítica faz uma revolução por fim de semana. Mas, entre todas, a mais ridícula é a revolução sexual, aquela que matou o desejo e o afeto entre homens e mulheres. Quando, no futuro, estudarem nossa época, perceberão que, entre as baixas causadas pela gente crítica, estarão o afeto e o desejo. Nunca ambos foram tão falados e tão combatidos a pauladas. Afogados na banalidade das quantidades.

Vejo mesmo uma manifestação de gente crítica e revolucionária na Paulista no futuro. Essa manifestação que tenho na cabeça acontecerá em poucos anos. Se focarmos melhor nossas câmeras, veremos alguns cartazes, claro, todos revolucionários. Perguntará o leitor ingênuo: “A favor do que ou contra o quê?” Gente crítica e revolucionária sempre é a favor de algo ou contra algo.

Alguns desses cartazes dirão frases assim: “Pelo incesto como forma de crítica sexual!”, “Por que não posso amar a minha mãe sexualmente?”, “Freud morreu: viva o incesto como forma plena do desejo antiedípico!”. Teses pelo mundo afora discutirão a nova forma de amor livre: o direito ao incesto.

E, no meio dos cartazes, um outro: “Pelo direito de casar com o meu dobermann!”.

 

Luis Felipe Pondé, filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistomologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.

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Insights para temas das postagens surgem das mais variadas situações. Aqui mesmo no blog, o Mauricio Soares conta frequentemente de situações inusitadas que trazem ideias para temas que posteriormente são publicados.

Ontem vivi isso “pescoçando” (termo gaúcho para espiando) o Facebook. Em meio a tantas e tantas postagens do Dia das Mães vi um vídeo completamente fora do contexto que me chamou a atenção, tratava-se de uma apresentação da linha de montagem das guitarras Gibson. O vídeo muito bem produzido, obviamente ao bom som de guitarras, apresentava a linha de produção da Gibson desde a seleção das chapas de madeira que construíam o corpo e braço das guitarras, até a exposição do produto. Realmente muito bacana ter uma noção de como é o processo construtivo em série de uma guitarra.

Agora você pode estar pensando que esta postagem tem por objetivo vender guitarra. Lhe garanto que não, já vamos chegar em nosso tema.

Penso que quando Orville Gibson, um luthier da pequena cidade de Kalamazoo, localizada no estado americano de Michigan, em 1902, fundou sua empresa, ele queria fazer história, deixar seu nome marcado como empresário e empreendedor.

Agora sim! Agora você deve estar certo que essa postagem vai tratar de dicas empresariais, empreendedorismo ou mesmo de administração. Mas não, não é isso também.

Antes de chegar no tema quero falar sobre o antônimo dele, que são dois transtornos, se é que se pode chamar assim, dos quais devemos fugir em qualquer âmbito de nossas vidas, mas infelizmente, são frequentes no meio artístico, inclusive no cristão, são: a megalomania e o narcisismo. A primeira vista podem parecer a mesma coisa mas são diferentes, de acordo com Bertrand Russell, a megalomania pode ser facilmente distinguida do narcisismo “O megalomaníaco se difere do narcisista pelo fato de que pretende ser poderoso ao invés de charmoso; temido ao invés de amado”.

Agora que temos isso bem claro podemos finalmente entrar em nosso tema: Legado.

Legado é uma palavra que tem sido muito usada nesses últimos tempos, mas pouco colocada em prática.

No meio artístico manter-se distante da megalomania e do narcisismo é um desafio e tanto, requer não só consciência de que isso é uma cilada para carreira, como para a vida pessoal e espiritual do artista. Fatos recentemente nos mostraram artistas que não estavam atentos a isso e foram do topo ao fundo do poço em pouco tempo.

Em Colossenses 1:16 lemos: “que porquanto Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou dominações, sejam governos ou poderes, tudo foi criado por Ele e para Ele.” Se vivermos isso de forma verdadeira, estaremos livres do risco da megalomania e do narcisismo, pois entenderemos que temos e onde chegamos é para glória Dele, mas isso ainda não garante que vamos deixar um legado.

Para isso volto a Orville Gibson, qual seria a motivação do jovem luthier? Creio que desejos de fama e poder não eram. Quem constrói uma empresa com intenção de posicioná-la como referência mercadológica tem visão no futuro e quer sim deixar um legado. Isso não é construído de um dia para outro, requer dedicação, cuidado com a qualidade do seu produto/trabalho e principalmente, desprendimento, pois quem quer deixar um legado tem que estar ciente de que algumas vezes, não serão eles, mas seus sucessores que colherão os frutos de seu empenho.

Na música isso não é diferente. Você tem que ter ciência de que suas interpretações, composições e letras vão influenciar pessoas, posicionamentos, ações, decisões e outros tantos aspectos. Seu trabalho sairá do alcance de seus olhos, passará a ocupar o dia a dia das pessoas, entrará em seus carros, casas, igrejas, playlists e tantos outros lugares, ou seja, a responsabilidade do que fazemos hoje impacta o amanhã, isso é um legado.

Se fizermos nosso trabalho por Ele, para Ele e estivermos preocupados em fugir da megalomania e narcisismo e ainda preocupados em deixar um legado de real valor, posso garantir que teremos o trabalho mais feliz do mundo e os frutos certamente aparecerão.

Lembre-se de o músico é um influenciador, é gerador de opinião e, quer queira quer não, é uma referencia para quem acompanha seu trabalho e portanto, tem responsabilidades sobre tudo que faz.

 

Jeferson Baick, publicitário, empreendedor e que vive no constante desafio de deixar um legado de valor, ainda mais agora que será pai de gêmeos! Hoje especialmente feliz com o legado do hexacampeão gaúcho Spot Clube Internacional.

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Nosso meio não é pródigo em reflexões transparentes e sinceras, então quis postar aqui no nosso blog esse vídeo do Zé Bruno da Banda Resgate e pastor da Igreja Casa da Rocha em SP. Sempre é válido parar e analisar atitudes, modismos, tendências e unanimidades.

Dias atrás tive a grata felicidade de poder conferir no Rio de Janeiro o show da turnê “Estratosférica” com a cantora Gal Costa. A cantora de 70 anos está em pleno trabalho de lançamento de seu mais novo projeto pela Sony Music. Uma série de shows estão programados pelo país, muitos dos quais com a bilheteria esgotada. A mídia especializada vem tecendo elogios rasgados ao novo projeto da grande diva da MPB, representante da Tropicália e que neste álbum se cercou de jovens músicos e compositores como Marcelo Camelo e tantos outros expoentes da nova geração. A simbiose entre Gal e a sua banda formada unicamente por baixo, guitarra, bateria e teclados é simplesmente perfeita. Durante cerca de 1 hora e meia, Gal Costa cantou canções do novo disco mesclando com grandes sucessos que marcaram sua carreira. Foi uma noite muito especial para mim. Do camarote reservado à equipe da gravadora pude conferir uma artista com muitas histórias de vida, grandes experiências e uma alegria enorme de estar no palco apresentando-se numa casa completamente lotada.

À medida em que o show foi transcorrendo algumas observações me vieram à mente. Em primeiro lugar o que me chamou a atenção foi como fez bem para a cantora aquela parceria com a moçada mais jovem. Imagino como foram os encontros entre uma cantora ícone de uma geração e aqueles jovens músicos trabalhando na busca de uma perfeita sintonia. A troca de experiências e referências, sem dúvida alguma trouxe uma jovialidade, uma vitalidade ao projeto e isso ficou evidenciado no palco. E a delicadeza de Gal ao referir-se aos músicos e parceiros apenas comprovou sua admiração a todos aqueles que contribuíram pelo resultado final.

Outra questão que vale destacar é o perfeito timing da intérprete em falar na hora e na dose certa. Suas intervenções eram curtas, diretas, bem humoradas, sua interação com o público era permanente e atenta, a ponto de sacar de vez em quando uma tirada inteligente em resposta a um ou outro comentário emitido pela platéia. Delírio total. O clima do show era leve, intenso, agradável, a ponto de chegarmos ao momento do bis completamente satisfeitos, sem aquela sensação de ‘ok, já deu!’, pelo contrário, ela ainda poderia continuar por mais alguns minutos tamanha qualidade do show. Na abertura do show, Gal limitou-se tão somente a cantar de forma direta 3 canções, sem interrupções. Apenas ao fim da terceira música é que ela se dirigiu à platéia para agradecer a presença e comentar um pouco mais do que viria pela frente. No meio do show ainda houve espaço para agradecimentos pontuais, tiradas inteligentes e alguns rápidos comentários sobre as músicas.

Estive recentemente num determinado show em que a artista falava longamente entre uma e outra canção esforçando-se para explicar e contextualizar o significado de cada música. Além de estender em mais de 30 a 40 minutos o tempo de duração do show, esta estratégia acaba trazendo um ritmo lento ao show e muitas das vezes uma impressão de montanha-russa, onde o show cresce, pique lá em cima pra minutos depois ficar bem light. Uma gangorra de emoções, sem dúvida. Além do fato de subestimar o público tendo que se explicar a cada música. Deixe que cada um tire suas próprias conclusões!

Voltando ao show da Gal, outro fato que me chamou a atenção foi a qualidade da voz da intérprete. O que foi aquilo? Uma segurança absurda nos graves, uma clareza na dicção, notas perfeitas e, claro, como deixar de mencionar os agudos incisivos, ali … no alvo, firmes, seguros … meu nome é Gal … meu nome é Gaaaaaaaaaaaaaaaal …”. Vendo e principalmente ouvindo alguns artistas jovens que após 2 a 3 músicas já não mantém a qualidade, chutando todas na trave (às vezes chutando para fora do estádio como Nelinho fez no Mineirão), ouvir uma cantora de 70 anos mantendo esse nível já valeu pelo ingresso. Nota 10!

Aproveitando esse gancho, gostaria de apenas pontuar alguns insights para que os artistas cristãos que porventura estejam lendo este texto aproveitem este exemplo para aplicarem em suas carreiras.

–       A troca de experiências é algo sempre muito importante! O artista que acredita que já sabe tudo, que não precisa de ninguém ou que acha que está sempre certo, este certamente corre um risco enorme de ficar desatualizado e distante das novas tendências. Especialmente aos artistas mais experientes, ter acesso a músicos e compositores jovens é uma atitude bastante inteligente.

–       Na maior parte das vezes o ‘menos é mais’. Muitos artistas confundem quantidade com qualidade. Menos melismas, menos blá blá blá, menos caras e bocas, menos atitudes santarrônicas milimetricamente pensadas. E no quesito menos é mais, a questão do tempo de ministração e a própria apresentação devem ser bem dosados.

–       A voz é um instrumento e como tal deve ser cuidado com toda atenção. Acho impressionante como muitos artistas que vivem da voz dão tão pouca atenção a este instrumento. De vez em quando vejo alguns artistas recorrendo aos serviços de preparadores vocais ou fonoaudiólogos para recuperar a voz após maratonas de shows ou mesmo depois de uma gripe ou algo do tipo. É importante que todos saibam que melhor do que buscar o ‘pronto socorro da voz’ o ideal mesmo é manter-se permanentemente sendo atendido por um profissional da área. Artistas como Cristina Mel e Soraya Moraes são exemplos de cantoras que sempre se preocuparam com as suas respectivas vozes, não é coincidência o fato destas duas manterem em alto nível seus timbres, trinados e agudos.

Preciso parar por aqui, pois o piloto já anunciou a descida no Santos Dumont, Cidade Maravilhosa. Aproveito para agradecer ao carinho enorme que recebi nestes dias em Goiânia. Parabéns ao pessoal da Gospel Fair pela organização deste evento que tem tudo para consolidar-se no cenário cristão nacional. Agradeço também ao pessoal das mídias que tão bem representaram o segmento e que a cada dia tornam-se mais relevantes em nosso mercado – Rádio Paz, Rádio Vinha Fm, Jovem X, Rádio Voz, TV ADNP, Garagem Gospel, Super Gospel e tantos outros! Aos 66 leitores e mais uns gatos pingados que seguem observando conosco! Meu muito obrigado!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, cronista do mundinho evangélico tupiniquim.

Já estamos caminhando para o nono ano de atividades no Observatório Cristão. Por aqui tivemos muitos textos relevantes, outros nem tanto, muita informação, algumas projeções que tornaram-se realidade tempos depois, muito humor, dicas, críticas. Enfim, de tudo um pouco. O que me motiva a reservar um tempo de meu dia a dia para dividir minhas experiências, conhecimento e observações é a sensação prazerosa de poder contribuir aos nossos 66 leitores com um melhor entendimento do que nos cerca no meio artístico, fonográfico e religioso. O dia em que eu sentir que minha contribuição já não é mais tão importante, da mesma forma com que surgi, certamente irei sumir, sem deixar muitas explicações ou explicações.

O texto que escrevo neste momento já foi iniciado, interrompido e abortado, pelo menos umas 6 ou 7 vezes nas últimas 3 semanas. O tema esteve claro à minha mente por estes dias, mas o desenrolar do texto não seguiu a mesma tendência e por isso, travei … não consegui concluir a tarefa com a qualidade que me auto-imponho como padrão do blog. Então, mais uma vez tentarei tecer algumas linhas que falem sobre MOTIVAÇÃO. Espero que consiga chegar ao fim com a satisfação de ter entregue algo de valor aos meus seletos ‘observadores’.

Dias atrás conversei com um artista do meio gospel. O jovem tem uma agenda intensa de apresentações em igrejas, shows, congressos. Em meio a uma ou outra viagem, pausas para atender mídias, gravar vinhetas, atender pessoas. A rotina é intensa e estafante. Ele me conta sobre alguns casos engraçados entre tantas viagens, alguns outros ‘perrengues’ como viagens em monomotores, estradas de terra e coisas do tipo. A sua aparência é de alguém no limite do cansaço e da estafa, no entanto, em nenhum momento ouço queixas de sua parte pela rotina massacrante dos últimos dias. Pelo contrário, só ouço comentários efusivos de sua parte e relatos emocionados do que Deus tem feito através de sua vida. Acho interessante porque um dos indicadores do resultado de seu trabalho não é a quantidade de pessoas em seus eventos, mas sim, o número de testemunhos e conversões em cada evento. E engana-se quem imagina que este referido artista seja um destes jovens iniciantes, cheios do primeiro amor, de idealismo e expectativas. Estou falando de uma pessoa com muitos prêmios, com grandes sucessos, com agenda intensa, uma carreira sólida e de credibilidade.

Também recentemente conversei com outro artista e ele me relatava a mesma experiência, ou seja, agenda cheia, muitos compromissos, muitas entrevistas, participação em programas de TV, muito trabalho. A diferença consistia nos comentários pessoais sobre toda esta rotina. Em vez de comemorar as conquistas, o cantor apenas reclamava de que estava no limite, de que em algumas vezes o valor do cachê não fora suficiente para suas expectativas, de que o tempo de deslocamento para algumas apresentações era enorme e por esta toada seguia numa lamentação sem fim até que num determinado momento começou a reclamar da obrigação de ter que ficar tirando foto com todos que o pediam por uma selfie. Ouvi aquilo tudo com um misto de tristeza e decepção por constatar in loco o quanto aquele jovem artista estava distante da real motivação de um artista cristão

A carreira artística por si só não é fácil. Sempre me assustei com a ideia de repetir um mesmo roteiro por 1, 2 até 3 anos inteiros. É exatamente isso o que acontece com o artista. Ele repete um mesmo repertório por loooooooooongos meses até que o substitua por outras canções. Há artistas que interpretam a mesma música por décadas e são reconhecidos por isso. Eu não consigo me ver nesta situação, tendo que repetir-me inúmeras vezes com o mesmo script. Além disso, o artista é obrigado a conviver com deslocamentos constantes por aeroportos nada confortáveis, vôos com horários tresloucados, conexões desconexas, atrasos sistemáticos, bagagens extraviadas e por aí vai. Tem ainda a questão de dormir fora de casa enfrentando desde hotéis 5 estrelas a quartos/pousadas de beira de estrada, passando ainda a casas de irmãos (já passei por isso e vivenciei coisas inimagináveis) e outras roubadas.

Já a questão gastronômica é um capítulo à parte. Nos meus tempos de integrante de um grupo musical já fomos agraciados com cachorro quente de carne moída após horas e horas de viagem, macarrão sem molho, refrigerante quente, estrogonofe de batata palha, entre outras iguarias. Não são raras as vezes em que o artista vai jantar após um evento já pela madrugada tendo que seguir viagem apenas poucas horas depois. Em suma, a vida artística é uma sucessão de experiências inusitadas e poucos são aqueles que podem chegar a um determinado momento em que podem decidir excluir-se de toda e qualquer agenda mais arriscada. No geral, é uma vida de sacrifício e muita dedicação.

A grande questão é: como encarar a carreira artística, em especial, no meio cristão? Se for só pela grana, arrisco a dizer que assim como no futebol onde temos craques como Neymar, Ronaldo, Kaká, entre outros vivendo muito bem, a verdadeira realidade é que a esmagadora maioria dos atletas vive com no máximo 2 salários mínimos. O glamour da vida artística não condiz com a realidade de boa parte dos cantores e cantoras, seja no meio secular como também no segmento religioso. Então, se a sua expectativa e principal motivação para ingressar no universo artístico for uma estabilidade financeira, arrisco a dizer que você pode estar seguindo uma trajetória perigosa e que no futuro traga frustrações e problemas maiores.

Um artista cristão deve antes de tudo ter uma motivação clara e dela não se afastar um único instante. A principal motivação de um artista religioso deve ser que ele seja um instrumento para que a Palavra de Deus seja pregada ao maior número de pessoas. Este é o ponto! Qualquer coisa diferente disso certamente estará fora do foco do que Deus quer para a vida e ministério de um artista cristão. Tudo o mais será resultado desta motivação e em nenhum momento, por mais benefícios que possa alcançar, nada será mais valoroso do que ver o resultado de todo seu esforço atingindo e transformando vidas. A motivação de um artista cristão jamais deve ser o reconhecimento pessoal, jamais deve ser a remuneração financeira (que virá naturalmente pela qualidade do trabalho), jamais deve ser a visualização e reconhecimento de seu próprio trabalho. Antes de qualquer outra questão, a motivação deve ser o próximo e a mensagem libertadora e transformadora de Cristo. Todo é resto será sempre o resto, nada mais do que o resto.

Minha palavra de hoje é de que todos possam reavaliar suas reais motivações, metas e objetivos. Se o EU estiver à frente de qualquer uma destas motivações, é hora de rever seus conceitos. Se o PRÓXIMO estiver à frente das motivações, tudo indica que esteja no caminho certo. Infelizmente, vivendo neste mundo artístico por tantos anos, já tive que lidar com situações absurdas onde o EU imperou por inúmeras vezes causando desapontamentos e decepções homéricas. E este texto não foca somente nos artistas cristãos, mas para qualquer pessoa, em diferentes áreas de atuação, pois a mensagem de Deus é clara e abrangente, não- excludente, democrática, ampla, geral e irrestrita.

Ainda dá tempo de mudar suas motivações. Pense nisso!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, blogueiro.

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Constantemente tenho dito sobre a necessidade de artistas e profissionais buscarem maior conhecimento e entendimento do universo digital. Neste texto que escrevo durante minha curta passagem em Goiânia sigo nesta mesma linha de raciocínio, mas numa vertente um pouco diferente. Há algumas semanas atrás participei de um programa de TV e entre alguns assuntos propostos o diretor me pediu para falar de pirataria no mercado fonográfico, em especial no meio gospel. Olhei para ele como se se estivesse diante de algum náufrago que ficou anos distante da realidade comentando sobre notícias que haviam caducado fazia um bom tempo.

“ – Como pirataria? Pirataria do que?” – indaguei eu tentando entender a proposta do diretor. Ele seguiu sua explicação: “ – Ah, pirataria de CDs … como as gravadoras lidam com a pirataria de discos no meio gospel aqui no Brasil?”, insistiu ele. Ainda me refazendo do choque procurei explicar a todos ali presentes que este seria um tema defasado, ultrapasado, fora de tempo, afinal as gravadoras estão neste momento (ou deveriam estar!) focadas no mercado digital, nas novas plataformas, na mudança de consumo, na nova relação do consumidor e o conteúdo, ou seja, ninguém mais está preocupado com pirataria de discos! Acho que nem mesmo quem ‘sobrevivia’ desse comércio ilegal.

Também recentemente dei entrevista para uma revista de circulação nacional. O jornalista, um dos mais competentes de nosso segmento, queria entender a quantas anda o mercado fonográfico dando ênfase ainda ao segmento gospel no país. Umas das primeiras perguntas foi novamente sobre a famigerada pirataria de discos. E aí fui obrigado a novamente falar sobre a mudança do mercado, sobre os novos focos do meio fonográfico e das possibilidades que as tecnologias abrem para a música e a arte em geral. Já na segunda pergunta, o jornalista insiste em afirmar que o mercado fonográfico vive dias de crise, passa por problemas e blá blá blá … na verdade, essa é uma ideia que foi passada anos atrás e vem sendo repetida numa cantilena sem fim … Não! O mercado fonográfico não está em crise! Ele está em transformação. A crise só chega para as empresas que não se atualizam e insistem em repetir fórmulas que deram certo no passado mas que hoje são inócuas!

Com muita calma e um ar professoral fui explicando que há tempos atrás as gravadoras trabalhavam com 2 a 3 mil pontos de distribuição em todo o Brasil e hoje temos um mercado com 280 milhões de aparelhos celulares, mais de 90 milhões de pessoas com acesso a internet de qualidade, mais de 60 plataformas digitais oferecendo conteúdo ao consumidor e ainda assim, mantendo contato com mais de 1,5 mil lojas, mercados, lojas especializadas. Ou seja, em vez de retrair-se, o mercado só cresceu nestes últimos anos. Então onde está a crise?

Estes exemplos são para alertar, principalmente aos jornalistas que atuam no segmento gospel sobre a necessidade de se buscar conhecimento sempre! Já tive a infeliz experiência de participar de um programa de rádio onde o locutor não tinha a menor noção do artista que estava à sua frente para ser entrevistado. Não que o artista fosse um ‘ilustre desconhecido’, longe disso! O locutor é que não tinha feito seu ‘dever de casa’ e estudado o mínimo que fosse, a respeito da história e carreira do artista. Isso é básico e infelizmente não raro em nosso meio.

Estudar a respeito do assunto que se queira enfocar é fundamental. Um jornalista bem embasado do ponto de vista da informação é condição primária no exercício da profissão.

Ouço muita gente reclamar de que nosso meio é amador. E de fato creio que há mesmo muito a se melhorar. Mas no meio de um ambiente amador é ainda mais fácil daqueles que levam a sério suas atividades se destacarem ante aos demais. Nada a ver com o discurso de um artista do mundinho gospel de dias atrás, estou falando de busca e valorização do conhecimento. Em especial no meio jornalístico gospel precisamos ter mais gente capacitada para valorizar a área e a própria profissão. Recentemente foi publicado por um importante site de notícias cristãs brasileiro e imediatamente replicado por sites de fofocas gospel (Como fofoca gospel?!?!? Pode isso Arnaldo?) uma notícia envolvendo uma igreja importante no exterior. A notícia foi pinçada diretamente de outro site no exterior e traduzida para o português. Não houve dolo algum por parte do site brasileiro, a falha é que não houve uma melhor apuração sobre o assunto. O que deveria ter sido feito neste caso era o jornalista do site procurar a igreja no exterior diretamente ou seus representantes no Brasil, ou ainda, apenas citar a fonte da notícia. Checar a veracidade das notícias faz parte do dia a dia de um bom jornalista para que este não se torne apenas uma fonte de boatos ou coisas do tipo.

Pesquisar. Duvidar. Trazer uma interpretação aos fatos é papel primordial da imprensa. Quem simplesmente repete notícias é máquina copiadora, não jornalista!

Outro dia soube de uma pessoa que trabalha no segmento e que comentou sobre uma determinada empresa que não dava a devida valorização à classe jornalística gospel. No conceito ‘investimento’ leia-se não distribuir passagens aéreas para os jornalistas irem em eventos, não distribuir brindes que não fossem seus próprios lançamentos, não oferecer banquetes com camarões VG e nem investir verba de publicidade sem critério e análise nos veículos de comunicação do segmento.

Enquanto os veículos de comunicação sujeitarem seu espaço editorial às questões comerciais, sua autonomia estará em risco! Isso vale para revista, jornal, rádio, blogs, enfim, um veículo de comunicação deve priorizar seu papel de levar informação de qualidade para o seu público-alvo. O resultado comercial é fruto antes de mais nada da credibilidade e alcance do veículo. Ao colocar seu espaço editorial no balcão de negócios o veículo claramente desvaloriza seu próprio projeto e dá sinais claros ao seu público de que o respeito à sua inteligência é mínimo. Basta folhear algumas revistas e jornais do nosso meio para constatar com tristeza de que essa é uma prática usual. Numa rápida conferida você irá ver que boa parte, senão todas as matérias ditas ‘editoriais’ estão diretamente relacionadas à presença de anúncios das mesmas empresas citadas nos textos. Isso, na minha modesta opinião, é uma clara afronta à inteligência do público consumidor daquele veículo.

Quero deixar claro aqui que não tenho nada contra revistas-catálogo-tipo-páginas-amarelas ou jornais neste mesmo estilo. Esta pode ser uma modalidade de negócios e deve ser tratada como tal. A questão que volto a frisar é sobre a transparência desta operação. Não dá para querer enganar o público e mesmo o mercado travestindo-se de veículo informativo quando na verdade o objetivo é tão somente comercial. E não me venha com o blá blá blá de que é para o Reino porque por mais que o discurso seja recheado de boas intenções, o foco é pagar as contas no fim do mês e não há nada de errado nisso! Mais uma vez, o erro está em não fazer as coisas às claras!

Será que a classe jornalística cristã quer ser tratada com esta distinção do pagou-virou-meu-amigo? Ou será que os profissionais querem ter suas atividades devidamente respeitadas por todos e seguindo os códigos de conduta e ética que devem ser modelo, independente da fé que se professa?

Outra questão que gostaria de inserir nesse texto que finalizo no caminho de volta para o Rio de Janeiro é com relação à linguagem utilizada por alguns veículos em nosso meio. Se o objetivo da imprensa e mesmo como cristãos é de levar a mensagem para o maior número de pessoas, temos que ter muito cuidado com a forma de nossa comunicação. Como no meu dia a dia tenho contato com muitas pessoas que não são evangélicas e não dominam o linguajar ‘crentês’ procuro traduzir muitos dos nossos termos para expressões que podem ser facilmente compreendidos por quem não é deste segmento. Esta atitude precisa ser replicada com mais frequência nos veículos de comunicação cristã. Ouvindo programas de rádio pelo Brasil fico observando a quantidade de termos específicos do linguajar que apenas servem para reforçar o estereótipo do crente. Precisamos trazer uma linguagem menos hermética, mais coloquial para atingir e comunicar pessoas de fora de nosso ambiente. Em sites e revistas também vemos essa cultura do ‘crentês’ utilizada à exaustão. Me divirto ao ler algumas resenhas e análises de lançamentos de discos repletos de adjetivos ‘crentescos’ … realmente é muita bênção irmão!?!?!?

Todo cuidado com a forma de expressar-se! Evite termos que só mesmo os crentes podem entender. Lembre-se que a notícia precisa ser entendida pelo maior número de pessoas.

Mas ainda assim tenho muita esperança. Principalmente numa turma jovem que está chegando ao mercado e que vem buscando excelência e conhecimento para ser usado no meio cristão. Vejo que temos muito a progredir, especialmente em se tratando do jornalismo cristão. Num ambiente complicado como o de rádios, já começo a ver executivos de emissoras evangélicas tratando com todo respeito que o próprio veículo merece, valorizando sua programação, os artistas e principalmente seu público. Na mídia impressa, cabe meu registro e respeito o trabalho que Mário Fernando, editor da Revista Comunhão vem há 18 anos desenvolvendo no Estado do Espírito Santo, assim como as revistas Ultimato e Cristianismo Hoje. No meio digital, alguns poucos sites que optam por não seguir a cartilha do Ctrl C Ctrl V, também têm feito diferença.

Finalizo o texto querendo deixar uma palavra de incentivo a todos aqueles que querem dedicar suas vidas ao jornalismo no meio cristão. Que levem com a maior seriedade o trabalho que Deus coloca em suas mãos, que optem por seguir o caminho da excelência e relevância para que assim e, somente assim, o mercado publicitário os reconheça e os trate com o devido respeito.

Vamos em frente!

 

 

Mauricio Soares, jornalista, cristão, sem muita paciência pra mimimi.