Home Reflexão

2 324

Últimos dias bastante corridos e praticamente tornando impossível a produção de novos textos para o blog. Aproveitando um curto vôo entre o Rio de Janeiro e Curitiba, gostaria de já partir diretamente para o tema do curto texto que pretendo escrever nos próximos minutos.

Um dos hábitos que procuro manter e que em tempos virtuais torna-se ainda mais fácil, acessível, é conferir os comentários do público sobre projetos que estamos à frente, sobre assuntos do cotidiano, polêmicas, descobertas, enfim, posso considerar-me um observador contumaz, o que por um lado é muito interessante, muito importante do ponto de vista da análise sobre estratégias, ações e sobre opiniões que podem nos ajudar para corrigir rotas ou mesmo seguir em frente. Já este tipo de hábito também pode nos fazer muito mal, à medida em que nos deparamos com opiniões absolutamente descabidas, sem o mínimo de lógica e pior, recheadas de ódio, preconceito, agressividade e visão obtusa de tudo que nos cerca. Para estas pessoas foi cunhada a expressão “haters”, mas prefiro no bom e tradicional português, defini-los como pessoas sem ter o que fazer, preocupados com o que não lhes diz respeito, recalcados e a imensa maioria, simplesmente invejosos.

Esta pequena introdução tem a ver com algo que vem acontecendo repetidas vezes e que, se não chega a incomodar, a tirar-me do sério, pelo menos me impulsiona a expressar minha humilde opinião neste espaço tão nobre para mim. Minha singela pergunta é: onde está escrito ou quando foi determinado que pseudo sites e blogs de notícias passaram a ter livre acesso e controle sobre o ir e vir de pessoas, especialmente cantores de música gospel? Quando se deu a autorização para que pessoas sem qualquer vínculo pudessem controlar o que se deve falar, agir ou pensar? Quem foi que determinou se esta ou aquela atitude deve servir como padrão e, portanto, ser seguida por todos? O próprio Senhor Jesus, não nos impôs absolutamente nada! Ele simplesmente pede para que nos miremos nEle e em seus ensinamentos, em sua conduta, que entendamos o sentido da Cruz e que busquemos a santificação dia a dia. Ele próprio esteve em festas, na companhia de gentios, de prostitutas, políticos, gente que num primeiro (e um segundo, terceiro …) momento não deveria ser para se andar perto … e aí fica uma dúvida, se Jesus estivesse entre nós hoje, será que deixaria de ir a grandes eventos? Será que ele iria em algum destes grandes templos luxuosos e gigantescos que surgem dia a dia não só no Brasil, mas em vários lugares do planeta?

O Pr. Felippe Valadão, pastor sênior da Igreja Batista Lagoinha em Niterói, igreja da qual tenho a honra e prazer de congregar, disse uma frase que me chamou muito a atenção e da qual tomo a liberdade de reproduzi-la mais ou menos adaptada. “O fato de Judas ter traído Jesus não mudou em nada … Jesus continuou sendo o mesmo! A atitude de Judas apenas revelou, de verdade, quem era Judas”. Ou seja, adaptando mais diretamente ao que tenho dito por aqui, não é o ambiente que irá determinar o que eu sou ou o que penso, ou ainda, a minha postura, a minha conduta. Se uma pessoa cristã muda sua forma de agir ou pensar porque está num ambiente diferente, num show, numa casa de espetáculos ou algo que o valha, a verdade é que esta pessoa ainda não entendeu o que é ser verdadeiramente um cristão convicto.

Falo por experiência própria, afinal como diretor de uma gravadora multinacional, faz parte de meu dia a dia relacionar-me com pessoas com pensamentos, posturas, realidades, absolutamente diferentes de mim, de minhas crenças, dos meus valores. Nem por isso mantenho-me numa bolha isolado do mundo ou saio apontando o dedo como uma metralhadora giratória. E, ainda, não deixo de ser respeitado pelos demais e em nenhum momento sinto que o ambiente pode mudar naquilo que me motiva dia a dia a seguir firme ao lado de Jesus. Então, quando um artista de música gospel sente-se à vontade de participar de um show ou um festival como o Rock in Rio, Lolapalooza ou qualquer outro evento de música, não vejo o mínimo problema por esta iniciativa. Não mesmo! Pelo contrário, como profissional, tenho tido a excelente oportunidade de participar de todos estes grandes eventos e espetáculos, não só no Brasil como no exterior e, posso afirmar categoricamente, de que estas experiências ajudaram a formar uma visão diferente sobre qualidade dos shows, logística, performance e o próprio entendimento do que é o mercado musical, artístico, de entretenimento e o show business.

Quando tenho a oportunidade de assistir a alguns artistas de música gospel e seus respectivos shows, não são raras as vezes em que fico decepcionado com a qualidade de tudo que ali é apresentado. Cenário pobre, músicos mal vestidos e mal ensaiados, discurso do artista no melhor padrão “Quem tá feliz diz amém!”, músicas com arranjos pobres … ou seja, vergonha alheia em grau máximo! E aí me pergunto, será que sendo uma oferta de louvor a Deus, não devemos nos esforçar e oferecer o melhor que nossas mãos e talentos podem produzir? Reflita bem sobre isso … e analise se não precisamos aprender com os profissionais ‘seculares’ que buscam sempre a inovação, criatividade e qualidade? E como aprender com eles se nos mantivermos distantes, escondidos em nossas bolhas, nossos ambientes hermeticamente fechados e asseados?

Comentei em meu Twitter dias atrás … você sendo um médico, não busca o aprimoramento e crescimento profissional participando de congressos? Não procura treinar e aprender participando de cirurgias? O mesmo não se aplica para engenheiros, militares, enfim, qualquer outra profissão? Pois bem, eventos como estes grandes festivais, servem para que os profissionais evangélicos ligados à música tenham oportunidade de aprender e conquistar novas referências. Simples assim …

Quero ressaltar que esta é uma opinião pessoal, de alguém com mais de 30 anos de mercado cristão e quase 35 anos de convertido. Se você ainda não segura a onda de ir a eventos de música secular para fortalecer sua expertise, por favor, procure no máximo assistir pela TV, mas claro, se isto não te transformar ou mudar sua forma de agir e pensar. Afinal, “Quem não sabe brincar, não desce pro Play!”

Termino apenas deixando um último comentário … bem simples e direto. Tem muita gente na igreja, levantando as mãos com discurso e cara de crente, que está completamente distante do que se espera de um verdadeiro cristão. Ou seja, não compre ninguém pela embalagem, analise o interior e principalmente as atitudes!

E segue o jogo!

Mauricio Soares, profissional do mercado fonográfico, cristão, pai de 3 meninos, casado por mais de 20 anos, alguém que já esteve em vários festivais de música secular (queria ter ido a bem mais!), outros tantos de música gospel, e um indivíduo que não tem paciência para lidar com fofocas ou opiniões alheias não solicitadas.

5 2407

Estes meus dois últimos dias têm sido de muita correria, viagem internacional, preparativos, reuniões e … tristeza. Desde a madrugada da última segunda para terça-feira meu telefone não para de receber mensagens, links, notícias, comentários … alguns amigos mais chegados me enviam áudios e ligações. Todos fomos surpreendidos pelas notícias e num misto de estupefação e tristeza, tentamos entender os motivos para que uma pessoa bem-sucedida em sua carreira profissional colocasse tudo a perder por uma questão tão distante da realidade de uma pessoa que professa e divulga a fé e a doutrina cristã. Mas não quero me ater na pessoa em si, mesmo tendo algumas percepções bem definidas sobre o que pode ter contribuído para este desfecho tão trágico. Quero dedicar estes próximos minutos para tecer alguns comentários, que poderão ser aplicados a todas as pessoas que pretendem ou que já seguem uma carreira artística. Com algumas adaptações, estas mesmas observações também se aplicam a nós, simples mortais no dia a dia de nossas vidas cotidianas.
 
Presença constante em aeroportos, viagens, entrevistas, shows, cultos, apresentações, ensaios, deslocamentos, visibilidade, redes sociais, gravações … a vida de um artista de música cristã é intensa. Acompanho esta rotina faz quase 30 anos e sei o quão cansativo e intenso é … o quanto demanda de atenção, disposição, dedicação, força de vontade e até preparo físico. Quem pensa que vida de artista é moleza, deveria passar uma semana acompanhando de perto a rotina sacrificante de compromissos com data e hora marcadas, a necessidade de estar sempre sorrindo e simpático (mesmo quando se dorme 3h apenas ou se alimenta mal e coisas do tipo!). No entanto, mesmo com todos estes compromissos há uma questão que não deve ser negociada ou relegada a um plano de menor importância, a saber: a necessidade de estar em comunhão e atuante em uma igreja local. Infelizmente tenho percebido muitos artistas que estão trabalhando intensamente pelo Reino, caminhando de forma solitária, autônoma, alguns até se auto proclamando pastores e pastoras, como se o título bastasse para suprir o tempo de convívio e cuidado de líderes. Este é um erro fatal! Todos nós precisamos estar inseridos numa igreja local. Temos que ter o suporte de um pastor, de um líder, precisamos ter ‘tempo de banco’ para aprender mais, para ouvir, ser discipulado, conviver com outras pessoas e dividir experiências. Todo artista precisa saber controlar sua agenda para que as oportunidades não atrapalhem o tempo de relacionamento com a igreja local.
 
Estar constantemente em ambientes religiosos não é suficiente para atender carências e demandas individuais que são só supridas na igreja local, onde o artista é tratado como uma pessoa comum, com suas idiossincrasias, necessidades e falhas inerentes a qualquer ser humano.
 
Portanto, se você é artista e não tem participado com certa regularidade das atividades de sua igreja local, resolva esta questão o quanto antes. Muitos artistas optam por reservar ao menos um domingo por mês para estar em suas respectivas igrejas locais. Outros reservam cultos semanais para estarem presentes de forma fixa. E vale lembrar que estar na igreja local não significa participar do ministério de louvor ou fazer solos durante o culto, o correto é estar na igreja local como um simples membro, sentado no meio da congregação, recebendo naturalmente a Palavra, sem ser sequer notado pelos demais. Isso faz toda a diferença!
 
É importante salientar de que ser um artista de música cristã não é para qualquer um, afinal a música tem um papel muito importante na propagação do Evangelho, no agir do Espírito Santo e, por isso mesmo, atua em regiões espirituais de grande impacto. Não querendo discutir doutrina ou religião, o fato é que quem se habilita a usar seu talento artístico para Deus deve estar preparado para enfrentar grande oposição espiritual. E como aguentar o tranco se não houver preparo? Como enfrentar demandas opostas se não estivermos cheios do Espírito Santo, cheios de conhecimento da Palavra, discernindo claramente as ciladas do inimigo? Não podemos ser obscuros de pensamento e acreditarmos que sozinhos poderemos ser suficientes para lidar com toda a pressão e opressão no trabalho de propagação da mensagem de Cristo. Quando uma referência comete um ato negativo inesperado, o alcance negativo de suas atitudes parece que é potencializado ao máximo! Basta vermos o impacto deste acontecimento por estes dias, chegando ao Trend Topics do Twitter, sendo matéria em sites e blogs seculares.
 
Neste momento me vem à mente a imagem de uma manada de antílopes e leões à espreita analisando onde dar o bote para garantir sua refeição … o leão não vai de encontro à massa, ele observa quem está desgarrado, muitas das vezes filhotes sem experiência de vida ou mesmo algum animal doente, debilitado … ele jamais irá enfrentar os mais fortes, os mais ágeis, os mais astutos. O foco dele será sempre o mais vulnerável. E o mesmo acontece em nossa vida espiritual. O diabo não irá afrontar quem está cheio do Espírito Santo, pelo contrário, o alvo dele será os mais débeis, os mais fracos, os mais cheios de si, aqueles que se julgam espertos e que podem caminhar sozinhos tornando-se presas fáceis. A necessidade de estarmos todos inseridos em igrejas locais não é uma tradição, mas uma atitude de auto-preservação, uma atitude de maturidade e humildade espiritual. Estejam todos atentos a isto!
 
Ainda sobre este momento tão triste para todos nós tenho percebido reações muito distintas, não só do público como dos artistas. Vivemos dias difíceis e muito estranhos, sem dúvida. Tempo em que o ódio se torna corriqueiro e as pessoas não dissimulam sua vontade de destruir o próximo, mesmo quando este nem está tão próximo assim, quando sequer se conhece ou tem relacionamento mais íntimo. Todos se julgam capazes e liberados para expor suas opiniões e julgamentos. A própria existência de um site com foco em divulgar notícias negativas, em expor a vergonha e falhas alheias é algo surreal para o meio cristão. Não há nada bíblico que justifique isso! Mas o que de fato me chama a atenção é a tremenda falta de amor e de compaixão com a fraqueza do outro como se todos nós fôssemos suficientemente fortes, coesos, coerentes. Não mesmo! Todos, indistintamente temos nossas fraquezas, nossas falhas e o que nos faz diferentes é identifica-las e saber mantê-las controladas. Quando julgamos o outro, de uma forma indireta estamos dizendo que somos superiores a ele, de que este tipo de problema não nos atingiria e de que temos controle total de nossos atos e pensamentos. Quando na verdade, o próprio Senhor Jesus nos ensina na passagem da mulher adúltera de que ninguém está livre para julgar o outro. O que Ele nos ensina é que devemos ter compaixão de quem está em pecado e que devemos ser instrumentos para a mudança e não para o seu sepultamento ou apedrejamento. Fico imaginando quem são os pastores desta patuléia que resolve atirar pedras para todos os lados? Qual igreja esta turma frequenta? Por que certamente quero manter máxima distância! Muita mesmo!
 
Em contrapartida tenho visto muitas manifestações solidárias. Pelas redes sociais muitos artistas mandando mensagens de apoio, oferecendo suas orações, carinho e respeito. Isto é o que me faz ainda acreditar em algo melhor do que estamos vivendo por estes dias. O que precisamos é disseminar o amor, o amor transbordante, aquele amor que constrange a ponto de por si só transformar uma situação terrível e para muitos irreversível. Estamos diante de um momento único onde, diria até que de forma surpreendente face ao espírito beligerante e acusatório reinante, podemos fazer uma diferença tremenda sobre as expectativas. Se orarmos, se acolhermos, se demonstrarmos carinho ilimitado, creio que tudo pode ser revertido. E eu digo isso com muita certeza de que seria exatamente desta forma que cada um de nós gostaria de ser acolhido caso estivesse vivendo situação semelhante.
 
Espero que nos próximos dias possamos orar especificamente por esta vida e por tantas outras que se encontram em situação análoga, escondidas pelo cotidiano de suas infelizes rotinas. Que possamos demonstrar todo nosso amor e preocupação e que nossas atitudes sejam para reerguer e não apedrejar! Minha sugestão é para que cada um de nós assuma uma posição de não expor mais ninguém, mas sim de proteger, de acolher. Esta é uma palavra que neste momento surge com muita força em meu coração, acolher. Sendo pai de 3 meninos, minha vida toda foi de pegá-los no colo (faço isso ainda hoje mesmo com 2 homenzarrões maiores do que eu), abraça-los forte e fazê-los sentir protegidos, acolhidos. Estes momentos são únicos e sei o quanto são importantes para meus filhos. Que façamos o mesmo neste momento, ou melhor, sempre, com aqueles que estão perto e com aqueles que sequer conhecemos.
 
Façamos a diferença!  
 
P.S. – para complementar este texto não creio que exista uma música tão perfeita como “A Lei e o Amor” brilhantemente escrita e interpretada por Séo Fernandes. 
 
 
Mauricio Soares, pai e esposo.

0 849

Durante os festejos momescos em que eu e minha família optamos em nos isolar numa casa de praia, entre um mergulho e outro, entre uma relaxante ducha, banhos de piscina, um tempinho de sauna, almoços e jantares mega agradáveis com amigos e toda minha prole, dei-me a incumbência de dedicar algum tempo de meu dia para conferir canais que normalmente não assisto em meu pacote de TV por assinatura. A casa em que me hospedei tinha uma ‘assinatura’ (entre aspas mesmo!) de alguma operadora que além dos canais abertos tradicionais contava com outras opções não tão ortodoxas e atrativas como diversos canais rurais com uma enxurrada de propagandas de defensivos agrícolas e equipamentos e uma infinidade de outros canais de programação religiosa, a saber: católica e evangélica. Nada de filmes, séries, documentários … um suplício!
Fiquei durante uns 3 dias revezando-me entre Datena, Marcelo Rezende, William Bonner e uma saga interminável de pastores, missionários, bispos, querubins, apóstolos e outros santíssimos com suas vozes roucas, ternos mal cortados, mãos endurecidas, discursos rasos, sudorese em extremo, cabelos com gel e teologias estranhas que tirariam qualquer Lutero ou Calvino do sério! É impressionante como durante estes dias não consegui encontrar um único pregador que, de verdade, me chamasse a atenção a ponto de manter-me interessado por alguns minutos. Confesso que minha boa vontade foi além da conta, até porque em meio ao carnaval as opções na TV são pra lá de escassas pra quem não quer ficar com o baticundum chacoalhando na mente.
Assisti de tudo. Tudo mesmo! Fui de um missionário cearense com cara de índio boliviano que usava uma túnica dourada e um chapéu tibetano com pontas para cima aos tradicionais pastores que se revezam com suas vozes roucas divulgando onde estarão com suas reuniões milagrosas do poder pelos próximos dias. Este tal missionário cearense que parecia o Evo Morales em seus trajes cerimonialistas, que mais parecia um gárgula de filme de terror falava coisas desconexas para um público ainda mais estranho com seus roupões e suas fisionomias cansadas como de seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos. Ele pregava sobre o fim dos tempos, sobre o Anti-Cristo e de como a sociedade devia mudar, inclusive deixando de ser influenciada pela TV – mas ele mesmo estava se usando deste expediente para, como assim dizer, influenciar as pessoas. As imagens que mais pareciam ter sido gravadas em VHS com seus tons desbotados e falta de sincronização entre o som e o vídeo conseguiam transmitir o ambiente tosco e esquisito daquele lugar que se auto-denominava como sede mundial daquela igreja. Consegui ficar naquele canal por uns 20 minutos e depois fui obrigado a mudar assim que começaram os cânticos … a música era apresentada por uma senhora de 1,50m, vestida com uma túnica verde claro, coque no alto da cabeça, 8 dentes na boca e que entoava alguma coisa entre uma ladainha das carpideiras do Nordeste e o Hino da Harpa Cristã no ritmo das benzedeiras da região do Jequitinhonha, Minas Gerais.
Segui em meu propósito e mudando de canal me encontrei com uns bonecos gigantes, sem expressão facial, ou melhor, com seus rostos congelados, cabeças completamente desproporcionais, personagens estereotipados (o boneco negro era jogador de futebol e vestia amarelo com azul), se remexendo como se estivessem numa rave matinal ensandecida e frenética. Aqueles personagens deveriam animar as crianças … deveriam porque na verdade, causavam pânico! Chamei meu filho caçula pra dar seu veredicto e ele candidamente disse: Bonecos feios! Eles não mexem a cara não? Prefiro a Patrulha Canina! Em meio aos personagens tinha um boneco ‘adulto’ com terno e gravata, mega adequado ao universo infantil #sqn … o dito cujo mais parecia com aqueles bonecos gigantes do carnaval de Olinda … por mim já deu … muda de canal …
No canal seguinte voltamos ao script tradicional com um pastor, este já com um terno mais bem cortado, uma barba bem feita, dando todos os indicativos de que foi abençoado e prosperou acima dos demais. Este pastor começa a conclamar as pessoas a estarem com ele numa reunião onde “Os milagres vão acontecer! Quem bebe vai deixar de beber! Quem fuma vai deixar de fumar! Quem está falido, vai ver a maré mudar! Basta você ir na igreja XYZ que é onde o Deus Vivo está presente! Onde as coisas acontecem de verdade! E aí ele quebra tudo! Vou tentar ser o mais literal possível. “Aqui na igreja XYZ está a verdadeira unção. As outras podem te prometer um monte de bênçãos mas aqui na XYZ nós prometemos e cumprimos porque o nosso Deus não nos deixa na mão! A gente determina e ele cumpre!” Assim mesmo, como se Deus fosse apenas um mero atendente das vontades, caprichos e desejos dos líderes daquela determinada denominação. No fim, o mesmo pastor se dirige com voz grutural, gestos cênicos e muita emoção para conclamar a todos participarem da obra que não pode parar! Contribua através do Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Itaú, Santander, Rede Shop, Visa, CitiBank, carnê mensal, toalhinha ungida ou diretamente em uma de nossas filiais espalhadas por todo o país …
Comecei a sentir falta das notícias de assalto, sequestro, acidentes do Cidade Alerta e seus programas correlatos … corta pra 18!
Mas ainda tinha mais. Em outra troca à procura de novos canais, deparei-me com um canal voltado à juventude cristã. Que lindo! Ufa! Agora vai … teremos uma programação mais moderna, mais leve e dinâmica … na volta do intervalo vejo imagens do que deveria ser um congresso de jovens em alguma grande igreja de São Paulo. Os jovens presentes, todos, essencialmente TODOS vestidos com a mesma camiseta alusiva ao próprio congresso. Nada mais estranho do que ver jovens e adolescentes uniformizados! Mas ok, tudo bem … vamos seguir assistindo … no palco, 8 ou 10 meninas fazendo a coreografia de uma música do querido DJ PV que agora não me recordo mais qual seria, mas era do PV, sem dúvida. A coreografia era uma espécie de street dance ou algo do tipo. Como cada uma fazia num tempo próprio, não sei se seria uma coreografia com delay ou se era apenas falta de ensaio e sincronismo mesmo. Dei um tempo, fui até a cozinha pegar algo pra comer e quando retornei a coreografia havia acabado. Naquele momento, um jovem de seus 30 e poucos anos assumia o microfone e começava a pregar a respeito do papel do jovem na sociedade e sua relação com Deus. Completamente desconcertado o jovem pregador tentava de todas as formas manter um clima ameno, com piadinhas pra lá de sem graça, alguns trejeitos estranhos e colocações que pudessem trazer aquele texto bíblico para a realidade daqueles jovens. Quando a câmera focava os jovens, a impressão era de que estavam diante de um professor de física quântica tamanha a impressão de que ninguém estava entendendo absolutamente nada! Eu também não estava entendendo nada e depois de alguns minutos desliguei a TV e fui viver minha vida.
Por 3 dias seguidos fiz este exercício. Em um dia específico fiquei à cata de musicais nestes canais de TV e aí pude assistir também a alguns programas católicos. A experiência não foi das melhores. Vi uns grupos tocando uma espécie de axé com letras religiosas (devia ser por influência do carnaval), alguns padres cantando umas músicas de arranjos simples, quase uma toada e, no fim, vi um esforçado cantor tentando animar a plateia formada essencialmente por jovens de 60 a 70 anos. Como tenho conhecido cada vez mais o universo da música católica produzida no Brasil, reconheço que ali na TV não pude constatar o que há de melhor neste segmento. Artistas como Tony Allison, Rosa de Saron, Ziza Fernandes, Olivia Ferreira, Diego Fernandes e a novata Lucimare têm se esforçado (e conseguido!) em apresentar uma música católica de maior qualidade. No entanto, o que vemos habitualmente nos canais do segmento tem sido um desfile de qualidade duvidosa em se tratando de música.
Nesta busca por algo de qualidade, especialmente na área musical, assisti ao Caixa de Música, programa tradicional da Rede Novo Tempo. Entre um ou outro artista da própria gravadora da casa, pude conferir clipes de Os Arrais, Estêvão Queiroga, Felipe Valente, Deise Jacinto, Gabriel Iglesias … alguns nomes internacionais que eu nem conhecia, enfim, uma boa lufada de qualidade em meio ao desfile de musicais de gosto discutível. Respeitando a filosofia do canal, o senão fica apenas pela falta de alguns artistas de outras linhas na programação da emissora.
Como ainda insisti em seguir na minha campanha hercúlea enfrentando as programações religiosas na TV durante meu tempo de descanso, o destino me levou a mais um canal onde um tal pastor pregava sobre conceitos bíblicos, uma espécie de Escola Bíblica Dominical no ar … a questão nem consistia no conteúdo apresentado, mas na qualidade das imagens. Como na verdade a Palavra de Deus não muda, o tal pregador resolveu aproveitar seus vídeos gravados nos longínquos anos 80, com suas costeletas, gravatas enormes e grafismos psicodélicos. Era uma espécie assim de Túnel do Tempo … como o vintage está na moda, talvez esse programa retrô tenha seu charme … ou não.
No mais, muita campanha, muito sacrifício, muita toalha ungida, óleo ungido, sabonete ungido, símbolos da cultura judaica, danças estranhas, apelos por ofertas, sapatos de bico fino, gravatas espalhafatosas e lenços combinados, muito gel na cabeça, apelos por ofertas, camisas com marca de pizza embaixo do braço, interpretações estranhas da Bíblia, linguajar todo próprio criando quase um dialeto particular, apelos por ofertas, testemunhos, música incidental de terror e tensão, verdadeiros assassinatos à língua portuguesa, principalmente na concordância (como gostam de comer o “S”, oh Lord!), choros em demasia, relatos emocionantes, pregações exclusivamente sobre o Velho Testamento (não sei o que esta turma tem contra Jesus e o Novo Testamento!), teologias próprias, apelos por ofertas, música ruim, artistas sem expressão, clipes toscos (assisti um tiozão cantando para uma plateia especialmente formada por pessoas da terceira idade. Ele cantava uma canção num ritmo que tentava chegar a uma bachata ou algo mais latino. Talvez esta tenha sido a tentativa original. O tiozão parecia o boneco do posto se saracoteando num ritmo too próprio e estranho), vinhetas da década de 70, imagens amareladas e apelos por ofertas.
Ou seja, sinceramente acho que está tudo muito confuso. Há alguns anos atrás, um amigo me pediu algumas indicações de programa de TV ou mesmo alguma igreja para em palavras próprias: entender um pouco de Jesus. Pensei por alguns segundos e dei-lhe uma primeira dica: pra começar, não assista a nenhum destes programas da TV … esta dica eu dei já faz uns 7 a 8 anos e acho que se ele novamente me pedisse uma ajuda neste sentido, muito possivelmente minha resposta seria a mesma. Em minha modesta opinião, creio que teríamos um país muito melhor, muito mais justo, muito mais amoroso, ético, acolhedor, pacífico e humanizado se efetivamente a mensagem libertadora da graça de Jesus fosse pregada não só nos púlpitos das igrejas pelo país como também nas telas das TVs e mesmo pela web que cada vez assume mais papel de destaque dentro da comunicação de massa. Perde-se muito tempo em defesa das instituições, no levantamento de recursos e campanhas de arrecadação, na venda de produtos (outro dia cronometrei 18 minutos de ‘vendas’ num programa de 30 minutos de duração, ou seja, mais de 50% do tempo útil do programa) e, pasmem, na rixa entre esta ou aquela liderança, entre esta e aquela igreja. Isso é terrível, triste e melancólico!
Minha esperança e torcida é para que a comunicação no meio evangélico no Brasil seja transformada nos próximos anos. Que a qualidade seja uma busca incessante. Que a mensagem seja embasada na verdadeira e simples mensagem da Cruz. Que esta mensagem alcance e seja compreendida pelas pessoas. Que os interesses pessoais sejam sobrepostos pelo bem comum e maior. Que o Evangelho pregado em nosso país seja verdadeiramente a Boa Nova que muda a vida das pessoas e que influencie positivamente nossa sociedade como um todo.
Voltando ao Jornal Nacional em 3, 2, 1 …

Mauricio Soares, formado em Comunicação Social, bacharelado em Jornalismo e Propaganda & Publicidade, atuando há 28 anos no mercado gospel no Brasil e sobrevivente após algumas horas assistindo a programas religiosos na TV durante o feriado do Carnaval.

3 1556

Nas últimas semanas o nosso blog esteve mais parado do que o de costume, afinal não temos hábito ficar mais de 2 semanas sem textos e postagens inéditas. Em função de alguns contratempos, mesmo com alguns textos já finalizados e prontos para a publicação, ficamos sem novidades no blog, mas pra compensar este hiato, acabamos liberando de uma única vez logo os 3 últimos textos publicados recentemente. E tudo é uma questão de hábito, de repente me peguei numa tremenda falta de escrever mais textos, sem muito estímulo pra continuar dedicando alguns minutos, horas talvez, pra criação de novos conteúdos … confesso que estava quase sucumbindo à tentação de tirar umas férias prolongadas (tipo o Leonardo Gonçalves pra 2017) sem data de retorno. No entanto, bastaram uns dias fora das quatro paredes do escritório, em contato com pessoas que nem sempre tenho oportunidade de conviver no meu dia a dia, para que o desejo de seguir em frente publicando novos textos ressurgisse novamente.

Durante uns dias em Goiânia tive oportunidade de conversar com muitas pessoas, na verdade, revi alguns amigos e conheci dezenas de outras pessoas que até então não conhecia. E boa parte destas pessoas fazia questão de dizer que eram leitores do Observatório Cristão, que curtiam nossos textos, seguiam nossas dicas e que até mudavam sua forma de pensar e agir baseados em informações que recebiam pelo blog. Este tipo de contato é fantástico pra mim! Serve mesmo como um grande estímulo pra seguir adiante mesmo após quase 9 anos de publicações ininterruptas.

E quero aproveitar um pouco mais dos próximos minutos de sua preciosa atenção para comentar sobre algo que tenho falado muito nas últimas semanas. Vale lembrar que boa parte dos temas e assuntos aqui publicados são, na verdade, oriundos do meu cotidiano como profissional da área de música, de experiências vividas e observações acuradas de meu dia a dia. E especialmente nestes dias tenho falado (e ouvido muito) sobre o sucesso ‘meteórico’ do projeto Preto no Branco. Pra quem não os conhece ainda, vou apresentá-los … o Preto no Branco é uma criação do engenhoso, dinâmico e criativo Alex Passos, sócio-diretor-faz-tudo da Balaio Music. Há 2 anos e pouco atrás ele me procurou pra dividir algumas ideias de um projeto musical. Durante muitos anos, Alex Passos foi o apresentador do programa de TV Balaio, transmitido pela Rede Super de Televisão, canal da Igreja Batista da Lagoinha de BH. Ele me apresentou o projeto, aprovei na hora e a partir dali seguimos cuidando de todos os detalhes. O Preto no Branco é o encontro de 4 artistas solistas, multi-instrumentistas, compositores e extremamente talentosos. O grupo inicialmente era formado por Wesley Santos, Juninho Black e Clóvis e contava com a participação especial de Eli Soares. No fim de 2014 eles se reuniram para gravar um projeto inédito e este projeto só chegou ao mercado no fim do ano seguinte. Agora, já quase no fim de 2016, portanto com menos de 12 meses de seu lançamento, o Preto no Branco é um verdadeiro fenômeno de popularidade superando 100 milhões de visualizações de seus vídeos, algo bastante raro no meio gospel tupiniquim, principalmente em se tratando de um projeto tão recente.

Mudança de cena …

Recentemente Leonardo Gonçalves gravou uma música que tornou-se tema para o filme “Você Acredita?”, que foi um sucesso estrondoso nos cinemas pelo Brasil. A música “Acredito”, versão de uma canção da banda norte-americana New Boys (We Believe) está com mais de 25 milhões de visualizações tendo sido lançada cerca de 1 ano atrás. A versão original, com 2 anos de publicada, conta com 18 milhões de views, ou seja, um caso raríssimo de versão que suplantou em popularidade a canção original. Esta música em português interpretada brilhantemente por Leonardo Gonçalves talvez fosse a cereja do bolo que faltava para coroar de vez o sucesso e unanimidade de reconhecimento que o artista precisava após lançar seu projeto “Princípio”, DVD que marcou em definitivo a carreira do Leonardo Gonçalves. Esta música entrou no repertório do cantor a ponto de rivalizar em preferência com outras canções tradicionais do artista como Getsêmani e Sublime, apenas para citar duas músicas.

Nova mudança de cena …

No mês de julho deste ano estava em Fortaleza participando da Expo Evangélica, hoje seguramente a maior feira de produtos evangélicos do país. Lembro-me que vi esta feira crescer há 11 anos atrás, ainda num espaço que comportava (muito quente e apertado) no máximo umas 2 mil pessoas e hoje me deparo com um Centro de Convenções climatizado e com capacidade para 15 mil pessoas completamente abarrotado. Que felicidade ver um projeto crescer, acreditar onde ninguém via nada e depois deparar-me com algo sólido e confiável. Mas voltando ao mês de julho, como apoiador da Expo, fiz questão de levar uma quantidade enorme de artistas de meu cast, de diferentes estilos, de diferentes públicos e de diferentes etapas no estágio da carreira artística. Todos os nossos artistas tiveram oportunidade de cantar no palco principal da feira e pra minha grata (e enorme) surpresa, o público cantava a plenos pulmões cada uma das canções ali interpretadas. E não era no refrão ou no fim das frases, o povo cantava tudo, inclusive com vocais, voltinhas, melismas e tudo mais! Mas aí você deve estar pensando: a gravadora investiu um caminhão de dinheiro nas rádios de Fortaleza pra garantir toda esta popularidade!

Concluindo a cena …

Mas o que tem em comum Preto no Branco com Leonardo Gonçalves e ainda a Expo Evangélica de Fortaleza com os queridos cearenses fazendo dueto com os artistas? Muito simples! Nem o Preto no Branco, nem a canção “Acredito” do Leonardo Gonçalves ou mesmo os artistas do cast que se apresentaram na Expo Evangélica, tiveram seus trabalhos divulgados prioritariamente nas FMs evangélicas pelo país. Ou seja, nestes 3 casos (mas poderia listar outros mais) o caminho da música e seu respectivo reconhecimento do grande público não se deu pelo tradicional caminho de tocar nas rádios do segmento. Se até alguns anos atrás as rádios tinham a primazia (quase uma ditadura!) no sucesso de um determinado artista ou canção, hoje em dia, em tempos digitais e de mobilidade plena, as rádios perderam sua hegemonia no processo de se criar o sucesso. Não estou dizendo que as rádios não são importantes! Não mesmo! O que estou dizendo é que elas não são mais o caminho exclusivo e hoje dividem em importância com a internet e as plataformas digitais. E isso, é muito saudável porque traz para os artistas, gravadoras e principalmente o público a oportunidade de ter acesso a conteúdos diferenciados que até então não tinham espaço nas grades de programação das rádios. Aí cabe até uma puxada de orelha gospel … no nosso meio religioso esta democratização, sem dúvida, desestabilizou algumas emissoras que até então se jactavam de deter a hegemonia em suas regiões. Não posso deixar de comentar sobre determinada rádio de um grande centro do país que só tocava artistas que atendiam suas demandas próprias como eventos na igreja ou outras parcerias comerciais. O dono daquela emissora gostava de alardear aos quatro ventos de que naquela região se quisesse ser conhecido deveria pagar o pedágio a ele … algo mais feudal, impossível!

Em suma, vivemos um momento único na área musical como um todo. Através destes novos canais de consumo de música, artistas até então ligados a determinados nichos (sem acesso às grandes mídias) foram sendo descobertos por novos públicos e ampliaram consideravelmente o alcance de sua mensagem e arte. Especialmente as plataformas de audio streaming contribuíram muito para esta maior interação entre diferentes estilos, públicos e artistas porque todo este conteúdo está num mesmo local entre 30 a 40 milhões de músicas ao simples alcance de uma busca.

Tanto “Acredito” como Preto no Branco são fenômenos da internet que depois foram ‘descobertos’ pela grande mídia. Tive recentemente contato com um diretor de uma grande rádio que me confidenciou não conhecer o Preto no Branco mesmo eles já contando com milhões de views na web, agenda lotada pelo Brasil e milhares de seguidores em suas redes sociais e canais oficiais. Ouvindo este comentário, só pude dizer que as coisas estavam mudando e que os programadores de rádio deveriam incluir buscas na internet como atividades corriqueiras para entender o que o público estava escutando naquele momento. Não só ele entendeu o recado como já vem trabalhando diretamente junto ao YouTube, redes sociais e as plataformas de audio streaming acompanhando os números diariamente.

Pra concluir, vivemos um tempo de grandes transformações. De novos hábitos, novas expectativas, novas estratégias. É fundamental que os artistas, principalmente a nova geração, saiba que hoje todos estão praticamente num mesmo nível, não importando se possui uns poucos anos de estrada ou décadas de música gospel nas costas … a verdade é que tudo voltou à estaca zero e por isso, todos têm capacidade para se estabelecer com sucesso e vigor no cenário artístico gospel. O mesmo digo para os medalhões, artistas que viveram o auge do mercado fonográfico … não adianta de nada anos e anos de estrada se não entenderem que tudo mudou e que é necessário se reeducar, reinventar, adquirir novos hábitos, buscar conhecimento. Uma das provas desta mudança é esta mesma que eu citei nas linhas acima, pois quem imaginaria que artistas surgiriam atropelando tudo sem que suas músicas sequer tocassem nas rádios? A internet está aí … o mundo digital é realidade … novos nomes estão surgindo no cenário musical … tudo novo!

Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, blogueiro, profissional de marketing, jornalista e observador de novas tendências.

0 573

Estava assistindo a algumas matérias na TV sobre as manifestações deste fim de semana, teoricamente contra o governo Temer e a forma como a quadrilha petista foi apeada do poder depois de 13 anos de incompetência e muita corrupção. O que me chamou a atenção foi observar a participação de jovens sem muito a dizer a não ser as manjadas palavras de ordem e uma beligerância acima do normal. Aí, deparei-me com o texto abaixo de Luis Felipe Condé que resume perfeitamente minha visão e opinião sobre este momento de mimimi juvenil. Resolvi reproduzí-lo em nosso blog pra começar a semana com uma boa leitura. Vamos ao texto!

 

Nosso mundo contemporâneo é cheio de fetiches sobre seu próprio avanço em relação ao passado. Hoje vou dar dois exemplos de fetiches típicos. O primeiro a ver com a ideia de crítica e de pessoas críticas. O segundo a ver com a ideia de revolução, mais precisamente a revolução sexual.

O primeiro fetiche proponho chamarmos de fetiche da crítica. Este é um dos mais comuns e mais bobos do mundo contemporâneo. Nunca vi gente mais longe de qualquer pensamento que valha a pena do que gente “crítica”. Não conheço gente mais chata do que gente “crítica”.

Ricardo Cammarota/Folhapress


O fetiche da crítica aparece muito associado à educação, à arte e à cultura. Você pode ouvir gente falando dele em todo lugar em que muita gente se reúna para pensar a educação, a arte e a cultura.

Como fazer um aluno crítico? Como criar uma arte crítica? Como produzir uma cultura crítica? Minha primeira aposta é que, se você perguntar diretamente para um desses defensores de uma educação crítica, de uma arte crítica e de uma cultura crítica o que é ser crítico, ele vai responder mostrando uma selfie dele numa manifestação na Paulista.

Eu vou dizer para você uma coisa: não conheço aluno mais fechado ao diálogo do que alunos que se consideram críticos. Ser “crítico” nesse caso, basicamente, significa falar mal do capitalismo, do patriarcalismo e dos EUA. Uma banalidade que se ensina em qualquer aula barata de filosofia e sociologia.

Mas uma coisa me chama a atenção nos tais jovens críticos: sua intolerância. Torquemada ficaria com complexo de inferioridade. Não conte com nenhuma autocrítica em gente crítica. Normalmente lê pouco, é afogado em certeza banais do tipo “o mundo seria melhor se fosse como eu descrevi em minha tese”, e tem pouco afeto pelo estudo profundo de qualquer coisa.

Aí vai uma característica chocante em gente crítica: não gosta de estudar de fato. Quando fala, fala a partir de uma posição inquestionável. Acho que o motivo dessa atitude é justamente aquele tipo de ignorância marcante em quem conhece pouco de qualquer coisa. Por isso, acho mais importante procurarmos levar um aluno a entender o que um texto quer dizer simplesmente e não levá-lo a ser “crítico”. Antes de tudo, podemos perguntar: crítico do que, se, normalmente, mesmo os professores não são críticos de nada a não ser daquilo de que não gostam?

Portanto temo pela educação, pela arte e pela cultura quando se busca formar críticos. O fetiche os leva ao gozo porque, usando essa palavra “crítica”, você pode dizer qualquer banalidade que ela soa ungida pelo véu da inteligência.

De minha parte, acho que devemos evitar a palavra “crítica” da mesma forma que devemos evitar palavras como “cabala” ou “energia”. Em si, as duas são coisas sérias, mas, no mundo do fetiche da informação como o nosso, as duas não significam muito mais do que palavras vazias de sentido.

Outro fetiche é o da revolução. Toda pessoa crítica faz uma revolução por fim de semana. Mas, entre todas, a mais ridícula é a revolução sexual, aquela que matou o desejo e o afeto entre homens e mulheres. Quando, no futuro, estudarem nossa época, perceberão que, entre as baixas causadas pela gente crítica, estarão o afeto e o desejo. Nunca ambos foram tão falados e tão combatidos a pauladas. Afogados na banalidade das quantidades.

Vejo mesmo uma manifestação de gente crítica e revolucionária na Paulista no futuro. Essa manifestação que tenho na cabeça acontecerá em poucos anos. Se focarmos melhor nossas câmeras, veremos alguns cartazes, claro, todos revolucionários. Perguntará o leitor ingênuo: “A favor do que ou contra o quê?” Gente crítica e revolucionária sempre é a favor de algo ou contra algo.

Alguns desses cartazes dirão frases assim: “Pelo incesto como forma de crítica sexual!”, “Por que não posso amar a minha mãe sexualmente?”, “Freud morreu: viva o incesto como forma plena do desejo antiedípico!”. Teses pelo mundo afora discutirão a nova forma de amor livre: o direito ao incesto.

E, no meio dos cartazes, um outro: “Pelo direito de casar com o meu dobermann!”.

 

Luis Felipe Pondé, filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistomologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.

0 623

Insights para temas das postagens surgem das mais variadas situações. Aqui mesmo no blog, o Mauricio Soares conta frequentemente de situações inusitadas que trazem ideias para temas que posteriormente são publicados.

Ontem vivi isso “pescoçando” (termo gaúcho para espiando) o Facebook. Em meio a tantas e tantas postagens do Dia das Mães vi um vídeo completamente fora do contexto que me chamou a atenção, tratava-se de uma apresentação da linha de montagem das guitarras Gibson. O vídeo muito bem produzido, obviamente ao bom som de guitarras, apresentava a linha de produção da Gibson desde a seleção das chapas de madeira que construíam o corpo e braço das guitarras, até a exposição do produto. Realmente muito bacana ter uma noção de como é o processo construtivo em série de uma guitarra.

Agora você pode estar pensando que esta postagem tem por objetivo vender guitarra. Lhe garanto que não, já vamos chegar em nosso tema.

Penso que quando Orville Gibson, um luthier da pequena cidade de Kalamazoo, localizada no estado americano de Michigan, em 1902, fundou sua empresa, ele queria fazer história, deixar seu nome marcado como empresário e empreendedor.

Agora sim! Agora você deve estar certo que essa postagem vai tratar de dicas empresariais, empreendedorismo ou mesmo de administração. Mas não, não é isso também.

Antes de chegar no tema quero falar sobre o antônimo dele, que são dois transtornos, se é que se pode chamar assim, dos quais devemos fugir em qualquer âmbito de nossas vidas, mas infelizmente, são frequentes no meio artístico, inclusive no cristão, são: a megalomania e o narcisismo. A primeira vista podem parecer a mesma coisa mas são diferentes, de acordo com Bertrand Russell, a megalomania pode ser facilmente distinguida do narcisismo “O megalomaníaco se difere do narcisista pelo fato de que pretende ser poderoso ao invés de charmoso; temido ao invés de amado”.

Agora que temos isso bem claro podemos finalmente entrar em nosso tema: Legado.

Legado é uma palavra que tem sido muito usada nesses últimos tempos, mas pouco colocada em prática.

No meio artístico manter-se distante da megalomania e do narcisismo é um desafio e tanto, requer não só consciência de que isso é uma cilada para carreira, como para a vida pessoal e espiritual do artista. Fatos recentemente nos mostraram artistas que não estavam atentos a isso e foram do topo ao fundo do poço em pouco tempo.

Em Colossenses 1:16 lemos: “que porquanto Nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos ou dominações, sejam governos ou poderes, tudo foi criado por Ele e para Ele.” Se vivermos isso de forma verdadeira, estaremos livres do risco da megalomania e do narcisismo, pois entenderemos que temos e onde chegamos é para glória Dele, mas isso ainda não garante que vamos deixar um legado.

Para isso volto a Orville Gibson, qual seria a motivação do jovem luthier? Creio que desejos de fama e poder não eram. Quem constrói uma empresa com intenção de posicioná-la como referência mercadológica tem visão no futuro e quer sim deixar um legado. Isso não é construído de um dia para outro, requer dedicação, cuidado com a qualidade do seu produto/trabalho e principalmente, desprendimento, pois quem quer deixar um legado tem que estar ciente de que algumas vezes, não serão eles, mas seus sucessores que colherão os frutos de seu empenho.

Na música isso não é diferente. Você tem que ter ciência de que suas interpretações, composições e letras vão influenciar pessoas, posicionamentos, ações, decisões e outros tantos aspectos. Seu trabalho sairá do alcance de seus olhos, passará a ocupar o dia a dia das pessoas, entrará em seus carros, casas, igrejas, playlists e tantos outros lugares, ou seja, a responsabilidade do que fazemos hoje impacta o amanhã, isso é um legado.

Se fizermos nosso trabalho por Ele, para Ele e estivermos preocupados em fugir da megalomania e narcisismo e ainda preocupados em deixar um legado de real valor, posso garantir que teremos o trabalho mais feliz do mundo e os frutos certamente aparecerão.

Lembre-se de o músico é um influenciador, é gerador de opinião e, quer queira quer não, é uma referencia para quem acompanha seu trabalho e portanto, tem responsabilidades sobre tudo que faz.

 

Jeferson Baick, publicitário, empreendedor e que vive no constante desafio de deixar um legado de valor, ainda mais agora que será pai de gêmeos! Hoje especialmente feliz com o legado do hexacampeão gaúcho Spot Clube Internacional.

0 565

Nosso meio não é pródigo em reflexões transparentes e sinceras, então quis postar aqui no nosso blog esse vídeo do Zé Bruno da Banda Resgate e pastor da Igreja Casa da Rocha em SP. Sempre é válido parar e analisar atitudes, modismos, tendências e unanimidades.

Dias atrás tive a grata felicidade de poder conferir no Rio de Janeiro o show da turnê “Estratosférica” com a cantora Gal Costa. A cantora de 70 anos está em pleno trabalho de lançamento de seu mais novo projeto pela Sony Music. Uma série de shows estão programados pelo país, muitos dos quais com a bilheteria esgotada. A mídia especializada vem tecendo elogios rasgados ao novo projeto da grande diva da MPB, representante da Tropicália e que neste álbum se cercou de jovens músicos e compositores como Marcelo Camelo e tantos outros expoentes da nova geração. A simbiose entre Gal e a sua banda formada unicamente por baixo, guitarra, bateria e teclados é simplesmente perfeita. Durante cerca de 1 hora e meia, Gal Costa cantou canções do novo disco mesclando com grandes sucessos que marcaram sua carreira. Foi uma noite muito especial para mim. Do camarote reservado à equipe da gravadora pude conferir uma artista com muitas histórias de vida, grandes experiências e uma alegria enorme de estar no palco apresentando-se numa casa completamente lotada.

À medida em que o show foi transcorrendo algumas observações me vieram à mente. Em primeiro lugar o que me chamou a atenção foi como fez bem para a cantora aquela parceria com a moçada mais jovem. Imagino como foram os encontros entre uma cantora ícone de uma geração e aqueles jovens músicos trabalhando na busca de uma perfeita sintonia. A troca de experiências e referências, sem dúvida alguma trouxe uma jovialidade, uma vitalidade ao projeto e isso ficou evidenciado no palco. E a delicadeza de Gal ao referir-se aos músicos e parceiros apenas comprovou sua admiração a todos aqueles que contribuíram pelo resultado final.

Outra questão que vale destacar é o perfeito timing da intérprete em falar na hora e na dose certa. Suas intervenções eram curtas, diretas, bem humoradas, sua interação com o público era permanente e atenta, a ponto de sacar de vez em quando uma tirada inteligente em resposta a um ou outro comentário emitido pela platéia. Delírio total. O clima do show era leve, intenso, agradável, a ponto de chegarmos ao momento do bis completamente satisfeitos, sem aquela sensação de ‘ok, já deu!’, pelo contrário, ela ainda poderia continuar por mais alguns minutos tamanha qualidade do show. Na abertura do show, Gal limitou-se tão somente a cantar de forma direta 3 canções, sem interrupções. Apenas ao fim da terceira música é que ela se dirigiu à platéia para agradecer a presença e comentar um pouco mais do que viria pela frente. No meio do show ainda houve espaço para agradecimentos pontuais, tiradas inteligentes e alguns rápidos comentários sobre as músicas.

Estive recentemente num determinado show em que a artista falava longamente entre uma e outra canção esforçando-se para explicar e contextualizar o significado de cada música. Além de estender em mais de 30 a 40 minutos o tempo de duração do show, esta estratégia acaba trazendo um ritmo lento ao show e muitas das vezes uma impressão de montanha-russa, onde o show cresce, pique lá em cima pra minutos depois ficar bem light. Uma gangorra de emoções, sem dúvida. Além do fato de subestimar o público tendo que se explicar a cada música. Deixe que cada um tire suas próprias conclusões!

Voltando ao show da Gal, outro fato que me chamou a atenção foi a qualidade da voz da intérprete. O que foi aquilo? Uma segurança absurda nos graves, uma clareza na dicção, notas perfeitas e, claro, como deixar de mencionar os agudos incisivos, ali … no alvo, firmes, seguros … meu nome é Gal … meu nome é Gaaaaaaaaaaaaaaaal …”. Vendo e principalmente ouvindo alguns artistas jovens que após 2 a 3 músicas já não mantém a qualidade, chutando todas na trave (às vezes chutando para fora do estádio como Nelinho fez no Mineirão), ouvir uma cantora de 70 anos mantendo esse nível já valeu pelo ingresso. Nota 10!

Aproveitando esse gancho, gostaria de apenas pontuar alguns insights para que os artistas cristãos que porventura estejam lendo este texto aproveitem este exemplo para aplicarem em suas carreiras.

–       A troca de experiências é algo sempre muito importante! O artista que acredita que já sabe tudo, que não precisa de ninguém ou que acha que está sempre certo, este certamente corre um risco enorme de ficar desatualizado e distante das novas tendências. Especialmente aos artistas mais experientes, ter acesso a músicos e compositores jovens é uma atitude bastante inteligente.

–       Na maior parte das vezes o ‘menos é mais’. Muitos artistas confundem quantidade com qualidade. Menos melismas, menos blá blá blá, menos caras e bocas, menos atitudes santarrônicas milimetricamente pensadas. E no quesito menos é mais, a questão do tempo de ministração e a própria apresentação devem ser bem dosados.

–       A voz é um instrumento e como tal deve ser cuidado com toda atenção. Acho impressionante como muitos artistas que vivem da voz dão tão pouca atenção a este instrumento. De vez em quando vejo alguns artistas recorrendo aos serviços de preparadores vocais ou fonoaudiólogos para recuperar a voz após maratonas de shows ou mesmo depois de uma gripe ou algo do tipo. É importante que todos saibam que melhor do que buscar o ‘pronto socorro da voz’ o ideal mesmo é manter-se permanentemente sendo atendido por um profissional da área. Artistas como Cristina Mel e Soraya Moraes são exemplos de cantoras que sempre se preocuparam com as suas respectivas vozes, não é coincidência o fato destas duas manterem em alto nível seus timbres, trinados e agudos.

Preciso parar por aqui, pois o piloto já anunciou a descida no Santos Dumont, Cidade Maravilhosa. Aproveito para agradecer ao carinho enorme que recebi nestes dias em Goiânia. Parabéns ao pessoal da Gospel Fair pela organização deste evento que tem tudo para consolidar-se no cenário cristão nacional. Agradeço também ao pessoal das mídias que tão bem representaram o segmento e que a cada dia tornam-se mais relevantes em nosso mercado – Rádio Paz, Rádio Vinha Fm, Jovem X, Rádio Voz, TV ADNP, Garagem Gospel, Super Gospel e tantos outros! Aos 66 leitores e mais uns gatos pingados que seguem observando conosco! Meu muito obrigado!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, cronista do mundinho evangélico tupiniquim.