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Sou do tipo hiperativo que mesmo em meio a dias de descanso em família, sinto um comichão pra sempre estar em atividade. Qualquer atividade, seja ela desportiva, de lazer puro e simples ou mesmo de cozinhar (Sim! tenho alguns atributos culinários), o importante é estar ocupado com alguma coisa. Muitas vezes minha esposa chega a me alertar antecipadamente de que não quer viajar com um guia turístico tamanho o número de atividades que eu tento encaixar no roteiro da família. Mas a verdade é que não consigo ficar calmamente deitado numa rede em meio a uma manhã de sol e brisa constante na beira da piscina em uma cidade maravilhosa como Búzios, na Região dos Lagos fluminense. Então, faço tudo isso, neste cenário deslumbrante, esparramado na rede com minha família por perto e munido do computador onde neste momento começo a escrever mais um texto para o meu espaço virtual.

Durante estes dias de tentativa de descanso escrevi muitos textos, li algumas revistas e segui na leitura de meu livro sobre a vida do último Czar da Rússia, um calhamaço de mais de 500 páginas. E em meio a tantos insights um assunto me salta à lembrança a ponto de praticamente ser obrigado a escrever sobre o assunto. Boa parte dos textos publicados são fruto do meu dia a dia como executivo de uma gravadora multinacional. Além de cuidar dos projetos da gravadora, minha rotina diária está baseada no contato com pessoas, das mais diferentes formas e canais, onde cada vez mais o whatsapp assume a posição de principal veículo de comunicação. É impressionante como o telefone vem perdendo sistematicamente sua importância e até mesmo se tornando enfadonho e aborrecido! Muitas vezes opto em falar com as pessoas pela troca de mensagens em vez do telefone pela simples vontade de manter uma comunicação direta e resumida. Pode parecer antipático, frio, distante … e entendo que muitas das vezes o resultado é esse mesmo, mas convenhamos também que desta forma nosso dia rende muito mais!

Mas o tema de nosso post de hoje não é sobre comunicação. Apenas usei o texto introdutório acima para exemplificar que muitas das vezes um determinado assunto que se torna corriqueiro em meu dia a dia acaba tornando-se tema para este blog. Constantemente venho falando das transformações do mercado fonográfico. Se você está entre os 69 leitores deste blog, certamente já percebeu que este tema é recorrente desde o início deste espaço há mais de 9 anos atrás. Em papos internos com minha equipe tenho buscado demonstrar o quanto precisamos estar atentos a este novo momento da indústria e de como precisamos nos adequar às novas demandas que se apresentam à nossa frente. E entre os novos desafios que uma gravadora se impõe neste momento está o de ser efetivamente necessária aos artistas e ao próprio mercado. Acredito que se os profissionais de gravadoras não observarem com mais profundidade a razão de ser de suas empresas e atividades, estes correm o sério risco de ver seus empreendimentos sucumbirem do dia para a noite.

A própria transformação do mercado em função da transição do formato físico para o digital já promoveu uma mudança sensível no mercado de gravadoras. Vamos focar a lupa especialmente para o segmento gospel. Nos idos dos anos 90 tínhamos cerca de 30 gravadoras e pequenos selos atuando no que chamamos de mercado gospel. Isso se contarmos aquelas gravadoras que tinham alguma relevância nacional, porque se formos incluir alguns selos regionais certamente este número triplicará facilmente. Pois bem, com as crises econômicas que o país passou, a pirataria de CDs e DVDs, a entrada das gravadoras seculares no mercado e por fim, a queda nas vendas de produtos físicos e o crescimento irreversível do mercado digital, a quantidade de gravadoras atuando no mercado gospel tupiniquim foi reduzida para não mais do que 10 empresas verdadeiramente relevantes e atuantes. Confesso que estou sendo bastante bondoso com este número porque, de verdade, não considero mais do que 5 empresas no mercado gospel fazendo algo realmente interessante neste momento.

Então temos aqui um contrassenso, afinal se o mercado consumidor de conteúdo gospel segue crescente, se o ambiente digital proporciona o consumo de conteúdo de forma mais democrática, em escalas muito superiores ao proporcionado pelas vendas físicas, então por que o número de gravadoras do segmento segue em queda galopante? Muito simples. A esmagadora maioria das empresas do setor não se preparou adequadamente para este momento de transição. Isto quer dizer que numa época em que as mudanças ocorrem em ritmo intenso, em que os consumidores estão ávidos por novidades, as empresas não podem ser reativas, lentas e ultrapassadas. E foi isto o que vivenciamos (e ainda observamos) em muitas empresas deste segmento.
Infelizmente muitas das gravadoras do mercado gospel estão atreladas a denominações, ministérios, igrejas e isto acabou trazendo grandes prejuízos para a adequação destas empresas no novo formato da indústria. Sabemos que a direção de empresas ligadas a igrejas, em sua imensa maioria, é constituída por pastores, bispos e afins, ou então a apadrinhados da própria instituição, o que na maioria das vezes não configura em capacidade técnica e profissional para a gestão administrativa. Com isso, vemos que estas empresas que teoricamente teriam enormes chances de resultar em sucesso, na realidade tornam-se em fracassos redundantes e prejuízos gigantescos.

Neste novo momento da indústria fonográfica as gravadoras (que se levam a sério e agem de forma profissional) assumem um novo papel na relação com o mercado, consumidor e os próprios artistas. Em primeiro lugar, as gravadoras passam a ter novos players concorrentes: as empresas agregadoras de conteúdo e distribuição digital. Para aqueles que ainda não estão tão ambientados ao universo digital, há no mercado empresas que fazem a intermediação entre as plataformas digitais e os artistas/conteúdos. De uma forma simplista, estas empresas são os ‘despachantes’ que facilitam o acesso de artistas e produtores de conteúdo às grandes plataformas digitais como iTunes, Spotify, Deezer, YouTube, Vevo, AppleMusic e operadoras de telefonia, entre outras. Estas empresas apenas entregam o conteúdo, na imensa maioria dos casos, não fazem nada muito além de servir como atalhos entre as partes e por isso mesmo, possuem condições de remuneração bastante agressivas se comparado ao praticado pelas gravadoras.

Outra mudança considerável nesta atual fase tem a ver com a participação dos artistas em todo o processo. Se em tempos atrás o artista estava focado tão somente na produção musical, deixando que a gravadora e os escritórios de management cuidassem de todo o resto, hoje em dia as coisas mudaram e, mudaram bastante! O artista deixa de ser espectador para ser co-participante dos processos e principalmente dos investimentos. A esmagadora maioria das gravadoras migrou do modelo de contrato artístico para o contrato de distribuição ou licenciamento, onde os custos de produção dos álbuns e conteúdos em vídeo passam a ser de responsabilidade do próprio artista que assim detém a posse dos fonogramas de áudio e vídeo. Neste momento há uma nova relação entre artistas e gravadoras que inclui diversas contrapartidas, como por exemplo a cessão de datas de shows/ano por parte do artista à gravadora. Esta é uma alteração irreversível até porque as gravadoras estão cada vez mais inseridas e focadas na área de Live, ou seja, na produção e venda de shows.

E aí, você atento e perspicaz leitor do Observatório Cristão deve se questionar então porque um artista hoje em dia precisaria estar no cast de uma gravadora?

Pois bem, tentarei responder a este questionamento nas linhas a seguir. Em primeiro lugar, como já comentei mais acima, as empresas agregadoras oferecem o serviço básico de colocação de conteúdo nas plataformas digitais, nada muito além disso. Então, sinto dizer que se você optar em colocar sua música em meio a outras 30, 35 milhões de músicas numa plataforma qualquer, as chances de sua canção virar um hit é mais ou menos a mesma proporção de com um único bilhete e 6 dezenas, tornar-se o ganhador sozinho da Megasena. Tipo isso … vale tentar?
Então, o primeiro ponto a favor das gravadoras consiste na forma com que o conteúdo/artista é tratado. Cada vez mais as gravadoras terão estrutura de marketing digital para que seus projetos e lançamentos se destaquem em meio à multidão de outros conteúdos nas plataformas digitais. Cada lançamento, seja em áudio ou vídeo passa a ser tratado como produtos que merecem estratégias próprias, planejamentos exclusivos e destaque. Vale ressaltar que as próprias plataformas digitais priorizam a relação com as principais players do mercado. Ou seja, pequenos selos ou gravadoras e mesmo os agregadores não têm a mesma atenção recebida pelas majors, as principais gravadoras do mainstream. Neste caso o networking vale muito e faz uma tremenda diferença nos resultados finais.

A relação entre as grandes gravadoras e as plataformas digitais é mais um ativo importante em prol das companhias de música.

Trazendo um exemplo bem prático e que estou vivenciando neste atual cenário: antigamente (ano passado, pra falar a verdade!) meu Release Schedule, também conhecida como planilha de lançamentos, baseava-se em meses, ou seja, no mês de maio eu planejava ter 3 a 4 lançamentos, em junho outros lançamentos e assim seguia mês a mês. Hoje em dia, meu Release Schedule deixou de ser mensal para tornar-se diário e muitas das vezes temos 3 a 4 lançamentos diferentes num mesmo dia. Esta é a nova realidade da indústria fonográfica em tempos digitais! E com base neste planejamento temos condições de estabelecer toda a campanha de lançamento com diversas ações e estratégias e conseguir junto às plataformas o maior destaque para nossos artistas e seus respectivos projetos. Hoje em dia, a presença de um projeto na Home de determinada plataforma garante resultados 30 a 40% mais consistentes.

Outro diferencial nos serviços oferecidos pelas gravadoras tem a ver com o acesso às informações e novidades. Já comentei mais acima que um dos motivos da queda das gravadoras do segmento gospel teve a ver com a lentidão em entender as tendências e rumos do mercado no momento de transição. Pois bem, as grandes empresas da indústria fonográfica sempre têm e terão acesso privilegiado a informações, serão os parceiros preferenciais das plataformas estabelecidas e de todas a que porventura venham a surgir, além do que estas mesmas gravadoras, boa parte multinacionais, também têm profissionais extremamente capacitados e atualizados, o que certamente já é um diferencial gigantesco perante a concorrência.

Recordo-me que já no primeiro contato que tive com a companhia em que atuo nos últimos 7 anos, a palavra ‘digital’ naturalmente fazia parte do cotidiano de toda a equipe. Mesmo à época, a área digital que basicamente estava somente vinculada às operadoras de telefonia e a alguns agregadores de SMS e afins, toda a empresa já começava a se organizar para o momento de desembarque de grandes parceiros digitais. Acompanhávamos as notícias, experiências e resultados de nossas filiais no exterior onde o iTunes já marcava presença transformando o mercado local. No dia em que o iTunes passou a operar no Brasil, todo nosso catálogo gospel já estava automaticamente disponível para os consumidores no país. Em contrapartida, algumas gravadoras ditas ‘gigantes’ no mercado gospel demoraram mais de 3 anos até entrar nas plataformas digitais, algumas inclusive só vieram a estrear no iTunes quando os serviços de download já sofriam com a queda vertiginosa de suas atividades.

No caso de algumas majors outro diferencial tem a ver com o canal exclusivo de vídeos que cada artista automaticamente passa a ter. Estou falando do canal de vídeos do artista na plataforma VEVO, que é uma área premium de conteúdo de música em vídeo em oposição ao YouTube, que cada vez mais passa a ser um espaço de conteúdo diversificado não-musical. Por se tratar de um espaço exclusivo, a audiência fica mais qualificada, atraindo mais publicidade e consequentemente a monetização se torna melhor comparada à plataforma tradicional de vídeos. As gravadoras com conteúdo na VEVO têm acesso direto à plataforma e com isso, também conseguem mais destaque para os seus produtos e lançamentos. Em tempo: a palavra ‘destaque’ será amplamente utilizada pelos profissionais do mercado fonográfico, assim como relevância, CPM, entre outras palavras. Acostumem-se a estes novos termos e significados.

Acho que estou alongando-me bastante neste post, mas a realidade é que temos tantos aspectos para destacar neste assunto que mesmo com minha turma me intimando a desligar o computador e curtir uma piscina, vou prosseguindo refastelado na rede teclando este texto. Mas prometo a vocês 69 leitores que em uma próxima oportunidade tentarei seguir com mais algumas informações neste tema em posteriores posts. Finalizo o texto de hoje apenas destacando um último diferencial ou um ativo importante na relação gravadora e artistas em tempos digitais. E este ativo tem a ver com o conceito de transparência. Sim! E por mais óbvio, inerente e natural que esta questão esteja intrínseca à relação entre partes de um negócio, especialmente no meio gospel, este aspecto torna-se um ativo e tanto. Acho que comentei aqui mesmo no blog que meses atrás tive acesso ao contrato artístico de uma cantora e que (pasmem!) esta não recebia um único centavo proveniente das receitas digitais. Vou repetir: a artista, em contrato, abria mão de receber todo e qualquer valor proveniente de receitas digitais ou afins, ou seja, a ‘pobre coitada’ recebia apenas sobre as vendas advindas de CDs e DVDs. Por mais que o contrato tivesse sido redigido no século passado, não significa que seja pétreo, imutável, não adaptável a novas situações.

Empresas grandes, principalmente multinacionais, são auditadas periodicamente. Possuem sistemas completos de gerenciamento de dados, permitem acesso a relatórios, informações, detalhamentos, ou seja, são empresas transparentes e como tais, dão às partes envolvidas a tranquilidade no processo como um todo. Os artistas precisam levar este fato em maior consideração a partir de agora porque as receitas passarão (na verdade, já estão assim!) a vir em muitas linhas diferentes e não mais apenas pela venda física de CDs e DVDs. Com isso, o acesso a relatórios e sua posterior e constante análise das informações passa a ser algo fundamental, tanto para as gravadoras como para os artistas. Se uma empresa não tem um sistema organizado de dados, não permite o acesso transparente e atualizado aos envolvidos ou simplesmente sonega informações, deve-se ligar o sinal de alerta em nível máximo. Infelizmente sei de empresas no meio gospel em que a sonegação de informações é prática constante, usual e formal.

Um outro aspecto (sim! eu disse que seria o último, mas me permita apenas mais um pouco antes da pausa em definitivo!) que merece atenção e que será ou já está sendo prioridade entre as grandes gravadoras: a diversificação de receitas. Ou seja, como mencionei a pouco, as fontes de receita para gravadoras e artistas deixam de ser unicamente sobre a venda de CDs e DVDs e passam a ser muito mais diversificadas. E entre tantas opções quero ater-me a apenas mais 2 oportunidades. O Live e o Merchandising. Chamamos de Live todas as atividades relacionadas à realização de eventos, sejam eles a venda de shows (booking), a organização e produção de shows (management), festivais, congressos e afins. Esta é uma área que as gravadoras estão muito focadas no momento e em alguns casos, chega a ser 50% da receita anual da empresa. Já o Merchandising é a atividade em que a gravadora atua junto ao mercado para a criação de projetos especiais relacionados ao artista e/ou sua obra. Esta é uma área ampla de negócios e onde a criatividade é livre! Podemos ter ações de merchandising nos moldes tradicionais do uso da imagem do artista para a confecção de produtos – cadernos, moleskines, brinquedos, games, confecção, pins – ou atividades mais recentes como curadoria, presença em eventos, postagem em redes sociais, entre outras. Nestes casos, a gravadora atua como escritório de oportunidades e negócios aos artistas otimizando ao máximo as possibilidades de novas receitas a seu cast.

Meu caçula já veio reclamar por minha presença na piscina … é melhor eu obedecer porque tenho juízo! Quero apenas deixar registrado que não escrevi este texto como uma intenção não declarada de propagandear as benesses de um artista fazer parte de uma gravadora. Nem de auto-promover a empresa da qual faço parte. Não mesmo! Apenas me sinto no direito e até no dever de esclarecer aos artistas e profissionais do meio gospel sobre o que há de novo neste momento de tantas transições. Infelizmente nesta fase, com tantas incertezas e desconhecimento da realidade dos fatos, me deparo com muitas pessoas literalmente contando estórias e com isso iludindo pessoas de boa fé e inocência. O momento é de busca pela informação. Duvide dos ‘vendedores de atalhos’, dos experts em facilidades, dos vendedores de ilusões como escrevi há alguns anos aqui no blog. Tampouco se iludam com percentuais e condições que num primeiro momento pareçam interessantes. Analise do ponto de vista da contrapartida, ou seja, o que efetivamente o parceiro te oferece de serviços e benefícios em troca. Outro importante ponto para ser analisado tem a ver com os resultados. E este eu considero o mais importante de todos! Analise o posicionamento dos artistas do ponto de vista digital naquela determinada empresa, seus resultados, sua relevância. Em outras palavras, veja criteriosamente se os artistas que estão vinculados àquela gravadora ou empresa realmente estão se destacando entre os demais. Se possível, até converse com estes artistas e ouça deles suas próprias experiências. Não me canso de lembrar que uma determinada artista ligada a uma gravadora do meio gospel elencando as benesses de estar naquele cast. A dita cuja enchia a boca para falar que sua gravadora bancava a academia de ginástica, salão de cabelereiro e até algumas roupinhas. Sinceramente acho que deve-se esperar outro tipo de benefícios de uma gravadora séria e profissional, certo?

Espero que tenha contribuído de alguma forma neste momento e caso tenha alguma dúvida sobre este assunto, que tal deixar sua pergunta em nossa área de comentários. Terei imenso prazer em respondê-lo de forma exclusiva.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, entusiasta do mercado gospel e que descobriu aos 47 anos o prazer de se espreguiçar numa rede e ficar ali pensando na vida e escrevendo suas ideias, muito bom!

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Pode parecer coincidência mas efetivamente não o é … basta eu ficar um pouco mais de tempo em terra e os textos inéditos deste blog começam a escassear como as chuvas nesta época do ano na região sudeste do Brasil ou principalmente, no sertão do Nordeste. A verdade é que não tenho muitas oportunidades de tempo ocioso para dedicar-me a escrever qualquer coisa que mereça ser publicado neste blog que já está prestes a completar 9 anos de vida. Além da falta de tempo, confesso que também venho tendo poucos insights realmente inteligentes e pertinentes que possam transformar-se em conteúdo para o Observatório Cristão. Os meus 66 leitores sabem muito bem (vocês ainda estão por aí?) que tento ser bem criterioso quando se trata de textos para este espaço, principalmente em respeito ao QI e senso crítico dos nossos diletos parceiros de jornada.

Eis que marcando presença num estúdio de gravação em São Paulo, um dos amigos presentes me sugeriu escrever sobre um tema que, se não diretamente como ele me sugeriu, de algumas outras formas talvez mais leves tenham sido assunto de nossos textos aqui publicados. Mas pela forma como ele me sugeriu a abordagem e vendo a necessidade de que a classe artística tenha um entendimento mais claro acerca do fato, resolvi acatar humildemente a sugestão e sobre este assunto iremos tratar nos próximos minutos. Espero que consiga finalizar este texto a tempo de chegar no aeroporto Santos Dumont, na Cidade Olímpica …

Meu amigo sugeriu o tema da seguinte forma: “Mauricio, porque você não escreve lá no seu blog sobre a necessidade dos artistas se adequarem à nova forma de lidar com as suas gravadoras. Os artistas precisam entender que não é mais tempo de deixar que todo o trabalho seja feito pela gravadora” – e aí, veio a declaração que me impactou e serviu de incentivo para este texto – “Eles precisam entender que o lugar de ser artista é lá no palco ou no camarim … no dia a dia eles precisam ser gestores e principalmente participativos!” Por se tratar de um profissional muito experiente e por não ter qualquer vínculo com gravadoras, este comentário me soou bastante lúcido e principalmente, isento de maiores interesses e, de verdade, ele de uma forma bastante sintética e analítica conseguiu definir perfeitamente o atual momento da relação artista e gravadora.

A indústria fonográfica depois de 20 anos de queda livre de faturamento, em 2015 viveu um crescimento de 3,2% em nível global e especificamente no Brasil, o upgrade foi de 10,75%, ou seja, 3 vezes maior do que o patamar mundial. Isto é pra aplaudir de pé igreja!!!!!! Mas engana-se quem acha que o sol vai brilhar pra todos! Não mesmo! O momento é de grandes oportunidades com o crescimento exponencial do consumo de música através das plataformas de vídeo e áudio streaming e a manutenção da relevância do mercado mobile e de download no país, mas os resultados serão automaticamente de acordo com a forma e atitude desempenhada pelos artistas, seus escritórios de apoio e pelas próprias gravadoras.

Em primeiro lugar, com o crescimento do digital outros aspectos passam a ter relevância no dia a dia do mercado da música e, entre estas novidades destaco principalmente a importância do te inspiração, sonoridade. Ou seja, o sucesso passa a ser buscado através não somente da intuição, relacionamentos ou ideias mirabolantes e tende a ser mais criterioso, baseado em tendências, números, logaritmos, estatísticas, observação, pesquisa e conhecimento. E engana-se redondamente quem vê esta mudança como um retrocesso no espírito romântico onde a arte se faz entender pelo público através da qualidade e de seus atributos. Não é nada disso! Pelo contrário! A indústria da música, em especial, passa a entender melhor o perfil, desejos e tendências do público consumidor e de forma bem mais assertiva oferece a eles conteúdo que os atenda de forma mais plena.

O crescimento do mercado da música está diretamente ligado à popularização das plataformas de áudio e vídeo streaming. A apenas um clique o consumidor tem acesso a conteúdos do mundo todo, muitas das vezes de forma gratuita e portabilidade. Literalmente a música hoje pode acompanhar o consumidor onde e quando ele estiver! Ao consumir música por uma destas plataformas digitais, o indivíduo passa a criar sua própria cultura, demonstrando seus interesses, estilos, preferências e este consumo, de verdade, deixa rastros e vestígios que formam um perfil de consumo. E é justamente estas “pegadas” e consumo digital que devem ser observados, interpretados e servir como ferramenta na tomada de decisões. Falaremos muito a respeito deste assunto em um próximo post – os insights estão surgindo! – onde iremos abordar a necessidade de se investir em informações, a inteligência artificial.

Neste novo momento do mercado da música, outra importante alteração do status quo tem a ver com a participação dos artistas e de seus escritórios (algo meio raro ainda no meio artístico gospel) no processo cotidiano de trabalho. Não há mais espaço para artistas que dediquem-se tão somente aos seus processos criativos. A necessidade de se ‘arregaçar as mangas’ e participar lado a lado dos processos junto às gravadoras é fundamental. Não adianta a gravadora estabelecer uma mega campanha junto a uma plataforma digital se o próprio artista não entender e ‘comprar a idéia’ e, ainda mais, não participar ativamente dos processos de divulgação e engajamento junto ao seu público. Não dá pra ficar refastelado na rede tomando água de coco enquanto os simples mortais vão para as ruas atrás de resultados, oportunidades e negócios!

E não necessariamente o ‘arregaçar as mangas’ significa cuidar pessoalmente das suas redes sociais. Não! É muito mais do que isso e, principalmente tem a ver com a condução de tudo que diz respeito à sua carreira, ministério, seja lá como queira definir. A verdade é que o artista que souber conduzir sua carreira de forma pró-ativa, determinando claramente os objetivos, metas e desafios. Outro dia estava almoçando com um amigo cantor (que não era do cast de minha gravadora) e ele me dizia sobre sua insatisfação com sua atual gravadora, destacando o quanto se sentia desestimulado em lidar com eles por efetivamente não entenderem as mudanças do mercado fonográfico, entre outras questões. Tentando manter a calma, agindo de forma ética e principalmente lidando com muita paciência com o querido amigo, apenas o fiz entender que nesta nova configuração do mercado, os pontos positivos daquela empresa que no passado eram algumas de suas fortalezas e diferencial perante a concorrência, simplesmente se deterioraram nos últimos tempos e hoje tornaram-se questões de menor importância. Ou seja, para o querido amigo, estar naquela estrutura atualmente era algo inócuo e que efetivamente, em minha modesta opinião, ele deveria agir e cuidar pessoalmente de sua carreira.

Em suma, o momento agora é de participação integral por parte do artista! Os tempos são outros e mais do que nunca é fundamental que o artista tome as rédeas dos processos e que aja lado a lado com suas gravadoras, ou no caso dos independentes, que esteja à frente de todas as decisões de sua carreira.

Vamos em frente!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing, observador do mercado gospel e atualmente dedicado à implantação do projeto de música cristã na América Latina.

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Neste momento estou regressando de quase uma semana na capital cearense onde participei pela décima primeira vez da Expo Evangélica, a maior (apesar do querido Ewerton, organizador do evento, fazer questão de sempre enfatizar que sua feira não é maior ou melhor, mas “apenas” uma grande realização) feira do mercado cristão na atualidade no país. Em 4 dias de evento, a Expo Evangélica reuniu mais de 50 mil pessoas e recolheu mais de 17 toneladas de alimentos que serão destinados a instituições de caridade que atuam no Estado do Ceará, incluindo a região do sertão que passa por uma estiagem severa de quase 5 anos.

Estes intensos dias me ajudaram a trazer algumas percepções bastante interessantes que gostaria de dividir com meus 71 leitores (Sim! Conseguimos conquistar mais 5 leitores após anos e anos de muita labuta e divulgação. Espero manter esse mesmo ritmo e, quem sabe …, daqui algumas décadas consigamos chegar em 100 leitores do Observatório Cristão).

Em primeiro lugar, o DataOBC, instituto de pesquisas informais e achômetros do Observatório indica que 70% do público presente ao evento era composto por jovens até 25 anos. A pesquisa tem margem de erro de 20% para mais ou para menos! Independente do número exato desta pesquisa, a percepção geral era de que a massa presente à Expo Evangélica era composta por jovens. A primeira análise que me vem a mente sobre este fato é:

Até que ponto as igrejas e lideranças estão preparadas para lidar com essa faixa etária que está 100% conectada, interligada, tem hábitos e linguajar próprio?

Sinceramente acredito que boa parte das igrejas evangélicas, não somente no Ceará, mas em todo o país, ainda está focada em estratégias, atividades e expectativas do século passado. Muitas igrejas ainda baseiam seus trabalhos com adolescentes e jovens reproduzindo o modelo de cultos específicos às sextas ou sábados, uns 2 acampamentos por ano, um congresso e coisas do tipo. Sinceramente, acho que este público nutre outras expectativas bastante diferentes do que vem sendo oferecido a eles. E na velocidade com que as coisas acontecem nestes tempos frenéticos, acredito ser importantíssimo que a igreja evangélica brasileira mude suas estratégicas, comunicação, objetivos e principalmente sua mentalidade em se tratando dos jovens. Imagino que se não houver uma mudança neste sentido, corremos o sério risco de que muitos desta juventude tornem-se os ex-evangélicos ou evangélicos não-praticantes dos próximos anos. A igreja precisa ser atraente, interessante e consistente para reter esta enorme população.

Outro fato que me chamou a atenção foi a profusão de aparelhos celulares, de todos os tipos, modelos, estilos, com as capas mais diferentes, nas mãos destes mesmos jovens. E como a cultura da selfie, filmagem e mesmo fotografia faz parte do cotidiano das pessoas, assim como temos o hábito de beber água, falarmos ou nos alimentarmos. Quem não tem um celular à mão é como se estivesse isolado do mundo. Que esta mudança no hábito das pessoas é algo bastante perceptível, não há a menor dúvida, mas isso fica ainda mais evidente em um evento como a Expo Evangélicas onde as pessoas filmam e fotografam tudo. Estive nestes dias participando de muitas sessões de fotos dos artistas de nosso cast e percebi que as pessoas esperavam pacientemente por 30, 40, 60 minutos numa looooonga fila só pra ter a satisfação de tirar uma foto com um artista para expor em suas redes sociais como um prêmio alcançado. Muitos destes não se contentavam somente com uma foto, mas queriam também selfies e se possível um videozinho com uma mensagem pra alguém que não estava ali presente. A informação se tornou instantânea. Nada passa longe dos olhares e registros da multidão.

Alguns artistas que tive o prazer de levar para o evento estiveram pela primeira vez em terras cearenses. Muito do objetivo deste evento para as gravadoras é apresentar seus lançamentos, novidades e apostas para o grande público e mídias locais.

A surpresa para muitos era se deparar com milhares e milhares de pessoas cantando a plenos pulmões algumas canções que sequer são executadas nas rádios locais.

Este talvez seja um dos aspectos que mais me agradaram e que apenas fortalecem minha convicção sobre determinadas ações e estratégias que temos desenvolvido nos últimos anos. Artistas como Salomão do Reggae, Preto no Branco, Priscilla Alcântara, Marcela Taís se apresentaram no palco principal do evento acompanhados de um coral de milhares e milhares de vozes. Isto apenas demonstra a importância da web na consolidação de um artista. Se há tempos atrás a principal, se não única, forma de se popularizar um artista era massificando a divulgação em rádios, hoje em dia percebemos um novo caminho a se investir, ou seja, a internet. Não é coincidência que estes artistas citados (e pode-se incluir Leonardo Gonçalves) são fenômenos de popularidade nas redes sociais e, principalmente nos canais de vídeo streaming como YouTube e Vevo com muitos milhões de views.

Infelizmente muitas rádios e seus respectivos executivos ainda acreditam que podem determinar o sucesso em suas regiões de cobertura. Esta primazia já não os pertence mais (felizmente em muitos casos!) e agora está ameaçada pela internet que é um ambiente infinitamente mais democrático e ágil. Aos profissionais de rádio o dever de casa é tornar sua programação relevante a ponto de não ver migrar sua audiência jovem para canais de streaming como YouTube e o Spotify, por exemplo.

Ainda sobre os artistas, outro aspecto interessante é de que todos são considerados da nova geração da música cristã nacional. E neste seleto grupo podemos ainda incluir outros nomes como Gabriela Rocha, Daniela Araújo, Os Arrais, Eli Soares, Clóvis Pinho, entre outros. Ou seja:

Temos uma significativa alteração no line up de artistas que atualmente chamam a atenção do público.

Mudando do foco, mas ainda seguindo com as percepções destes dias em Fortaleza onde todos os dias olhei para o mar e sequer pisei na areia, outro fato que me chamou a atenção foi de que mesmo após 11 edições, a Expo Evangélica ainda se ressente da ausência de alguns dos principais players do mercado. Excetuando-se as gravadoras, que particularmente se destacam da mesmice reinante no que chamamos de mercado cristão, não tivemos a presença de editoras, confecções ou outras empresas que atuam nacionalmente. Neste ano, observamos uma significativa adesão das mídias locais, especialmente as emissoras de rádio que compareceram com seus stands, estúdios e divulgação do evento. Ou seja, me parece que a Expo Evangélica ainda precisa ser melhor reconhecida pela turma do sul do país (como o povo do nordeste se refere a tudo que é Brasil abaixo de Salvador). Aqui cabe uma crítica sobre o trabalho das editoras em nosso segmento, onde, a meu ver, definitivamente este é um ambiente em que a inércia me parece característica marcante. É assustador como este é um segmento que pouco (pra não ser ainda mais direto!) contribui para mudanças, fortalecimento, crescimento do mercado consumidor como um todo. E esta é uma opinião dividida também com boa parte dos livreiros, ou seja, de que as editoras são bem pouco pró-ativas e, isto fica ainda mais evidente em eventos como o que participamos nestes dias.

Anos atrás, bem antes mesmo de ingressar numa empresa multinacional, sempre comentava entre amigos, de que o mercado cristão no Brasil era extremamente inerte e, bastante amador, muitas das empresas administradas por pastores, estruturas familiares e coisas do tipo. Muito do ‘sucesso’ das empresas do meio gospel devia-se (ou deve-se) unicamente à demanda de consumo elevada pelo crescimento orgânico do segmento e consumidor cristão, mas não necessariamente por estratégias, planejamento ou qualidade nas atividades corporativas. Sempre comentava de que quando as grandes corporações enxergassem o segmento cristão como um importante nicho de consumo, estas chegariam ao mercado com muita força, literalmente tomando conta de tudo. Pois bem, estas projeções são realidade neste momento. Já temos importantes grupos editoriais nacionais e estrangeiros chegando com tudo ao mercado cristão nacional como Thomas Nelson e Editora Planeta, entre outras. Na área fonográfica, Sony Music e Universal Music vêm crescendo em importância e diminuindo significativamente a relevância de empresas nacionais que até então dominavam o mercado.

Relendo os itens que destaquei neste texto há uma questão que se repete em todos os aspectos e que me chama a atenção. E a palavra em questão é: mudança.

Temos transformações significativas nos hábitos de consumo, no perfil do consumidor, na relação do público com a música e os artistas, nas mídias onde a música e os artistas são percebidos, nas empresas que se destacam no cenário nacional, no que chamamos de primeiro time dentro do mainstream artístico, enfim, as mudanças são intensas, profundas, rápidas e irreversíveis. Quem não se ajustar … ficará lá no passado … #fato!

Finalizo este texto agradecendo a toda equipe da Ewerton Organização de Feiras, responsável pela realização da Expo Evangélica em Fortaleza. A forma atenciosa como todos somos tratados nestes dias são o maior diferencial que vocês podem ter. Dias intensos, cansativos, mas extremamente agradáveis. Obrigado Família Ewerton!!!!

Aproveito ainda para registrar mais um feito histórico alcançado nesta semana com a primeira colocação de Estêvão Queiroga no iTunes nos charts de Álbum, Single e Clipe, além de figurar entre o Top10 do Single Viral, site que acompanha tendências e músicas que foram muito executadas no Brasil de forma espontânea pelo público. E pra completar, Alexandre Magnani com o álbum “Janelas” alcançou a terceira posição de álbum no iTunes exatamente nestes dias, ao lado do amigo Queiroga. Pra ressaltar este feito, Magnani é um jovem artista, em seu primeiro trabalho solo e tem seu projeto disponível exclusivamente na distribuição digital pelo label da Sony Music. Parabéns ao dois jovens mancebos!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, alguém que simplesmente gosta de gente, gente de todos os tipos, exceto os invejosos e mentirosos. Destes quero muita distância!

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Acabo de receber o relatório semanal do Chart de Streamings do Brasil. Este relatório contempla as principais plataformas de audio streaming em atividade no país, Spotify, Deezer e Apple Music. Logo quando este relatório passou a ser produzido, a hegemonia da música internacional era amplo, geral e irrestrita. Entre o Top 10, praticamente 80% era de conteúdo estrangeiro e os 20% restantes dividiam-se entre o funk e sertanejo, sendo que estes ocupam apenas da sexta posição em diante.

No relatório que acabo de receber, o campeão da semana com mais de 1,4 milhão de streamings é a faixa “Bumbum de Granada” com os MC Jerry e MC Zaac. Como nunca havia ouvido falar da dupla, fui pesquisar um pouco mais na web a respeito deles e aí me deparei com o vídeo desta mesma ‘canção’ com incríveis 78 milhões de views após pouco mais de 45 dias do conteúdo ter sido publicado no canal oficial da dupla que conta com absurdos 4 milhões de seguidores.

A lista segue com nomes do show business mundial como Rihanna, Calvin Harris, Fifth Harmony, Drake, Justin Bieber, Matheus e Kauan, Lucas Graham, Maiara e Maraísa e na décima posição aparece, Mike Posner. Ou seja, 70% dos artistas mais ouvidos nas plataformas de streaming no Brasil na última semana são estrangeiros e entre a música nacional, figuram 2 sertanejos e 1 funkeiro. Na última linha deste Chart, ou seja, na posição de número 200, figura a cantora Pink! com exatos 143.255 streamings da canção “Just Like Fire”.

Já venho acompanhando esta lista com atenção, pelo menos nos últimos 3 a 4 meses. Confesso que sempre pesquiso a lista com a expectativa de encontrar ao menos um único artista de música gospel entre os 200 mais ouvidos pelo país. Logo quando começamos o projeto na Sony Music, isso já faz pouco mais de 6 anos, minha expectativa era para que os nossos artistas da área gospel estivessem entre os CDs e DVDs mais vendidos no relatório da Nielsen, que apura as vendagens físicas em pontos de vendas nas principais redes varejistas e cidades do país, mês a mês. Depois de alguns meses, muitos lançamentos e expectativa elevada, passamos a encontrar com mais frequência os produtos de nossa linha entre os mais vendidos do país, chegando inclusive a ter a cantora Damares nos anos de 2011 e 2013 entre os 10 produtos mais vendidos do país no mercado geral, de acordo com relatórios da ABPD.

Depois de um tempo, outro relatório passou a ser acompanhado atentamente por mim, semana após semana, o Chart Mobile onde eram destacados os serviços de TrueTone, Download de faixas por mobile e ainda o serviço de RingBackTone. Também após grande expectativa e um exaustivo trabalho junto às operadoras de telefonia, conseguimos inserir vários artistas do segmento gospel neste relatório e hoje já os encontramos com relativa periodicidade neste determinado Chart.

Agora, o desafio é outro! E diferente em outros aspectos também, pois no caso da venda de discos e mesmo na venda de conteúdo pelas operadoras de telefonia, havia um trabalho intenso de convencimento dos parceiros para a disponibilização de conteúdo em suas plataformas de negócio. Por exemplo, para um disco entrar na lista de mais vendidos do país, inicialmente tínhamos que fazer um grande trabalho de convencimento da Lojas Americanas em ter o referido produto em suas gôndolas. Sem isso, seria impossível almejar algo maior. O mesmo acontecia na área de telefonia, se não houvesse a negociação e convencimento por parte da gravadora para que a operadora inserisse aquele conteúdo religioso em seu cardápio de opção aos assinantes, nada mais poderia ser aguardado. Ultrapassados estes desafios, cabia à gravadora e por conseguinte, o artista, divulgar que seu produto ou conteúdo encontrava-se disponível nas lojas e nas plataformas de telefonia.

Neste momento temos outro tipo de desafio para que os artistas do segmento gospel surjam entre Rihanna, Justin Bieber e MCs dos mais variados nomes e codinomes no Chart de streaming do país. Diferentemente dos dois casos citados anteriormente, hoje o conteúdo gospel está presente nas plataformas de audio streaming com Spotify, Deezer ou mesmo Apple Music. Então, o nosso desafio não é de convencer os parceiros sobre a qualidade da música gospel ou mesmo sua demanda junto ao público consumidor. Não só estas plataformas estão muito cientes da vitalidade do mercado religioso como estão completamente abertos e dispostos a dar destaque neste conteúdo como realizar promoções e campanhas de grande impacto e divulgação.

O grande desafio que temos agora é que os artistas do segmento gospel entendam a importância deste canal de consumo de música e passem a trabalhar da forma como este ambiente demanda. Como temos insistentemente comentado aqui no blog, também em palestras, entrevistas e em rodinhas de conversa, é fundamental que todos os envolvidos na área artística gospel tenham consciência de que os hábitos mudaram, as estratégias mudaram e a demanda do público é completamente diferente neste momento. Portanto, a mentalidade – e principalmente as atitudes! – precisam ser outras!

Outro desafio que merece destaque, tem a ver com o público cristão que precisa ser mais intenso no relacionamento e consumo de música através das plataformas de audio streaming. Sendo 60 milhões de evangélicos no Brasil (de acordo com as expectativas mais otimistas) e mais outros tantos e tantos milhões de católicos que consomem música gospel, espera-se que a performance dos artistas no Spotify seja bem melhor do que o que vem ocorrendo. As plataformas de video streaming, You Tube e Vevo, têm vários conteúdos de música gospel com milhões e milhões de views, então porque não temos ainda artistas do segmento gospel entre os 200 mais executados nos canais de audio streaming? Em minha opinião, por falta de informação principalmente! E isto reforça a ideia de que os artistas e gravadoras têm importante parcela de culpa por esta desinformação do público.

Um detalhe a mais que gostaria de inserir nesta análise é com relação à forma com que se trabalha a música a partir de então. Ou seja, até algum tempo atrás todo artista tinha foco no disco, no álbum, no repertório de músicas … hoje em dia, esta estratégia é redirecionada para o single, a faixa, a música! Precisamos de mais hits no meio gospel. Acho que desde “Entra em minha casa, entra na minha vida” do Régis Danese não temos um hit nacional de verdade em nosso meio! O que temos são grandes sucessos de Damares, Bruna Karla, Anderson Freire, Leonardo Gonçalves, mas ainda nos faltam estes hits-arrasa-quarteirão que extrapolam o mundinho gospel e literalmente caem na boca do povo! Aí mais uma vez trago a responsabilidade aos artistas, pois são eles que definem seus repertórios. Também divido esta responsabilidade com as gravadoras em escolher o hit, trabalhá-lo com persistência e estratégia até que se torne realmente um sucesso. E por fim, trago ao cenário, a mídia gospel, em especial as rádios do segmento, pois sem o apoio delas, fica muito complicado criar um hit, pois ainda são importantes e decisivos canais de divulgação de conteúdo de massa em nosso meio.

Só pra ilustrar um pouco mais sobre a importância das emissoras FMs na construção de um hit, dias desses estava conversando com o diretor de uma importante emissora de música gospel no país, apresentando-o a alguns dos nossos mais recentes lançamentos. Algumas das músicas que destaquei para sua análise já estavam com mais de 15 milhões de views no YouTube e, surpresa das surpresas, o desinformado profissional de rádio jamais havia ouvido falar daquela canção e tinha uma leve impressão de já ter ouvido falar daquele artista. Ou seja, o nosso grande desafio neste momento é a desinformação e, o pior, o desinteresse.

Que façamos a mudança!

 

Mauricio Soares, blogueiro, jornalista, profissional de marketing, consultor, contumaz pesquisador sobre música, história da Segunda Guerra Mundial, história do Brasil e curiosidades.

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Mesmo que alguns dos 66 leitores estejam achando estranha a produção em massa de textos para o blog nos últimos dias, posso assegurá-los de que não contratei um ghost writer pra suprir minhas constantes ausências por aqui. Sempre deixei claro de que antes de mais nada o processo de produção do Observatório seguiria algumas premissas, entre elas, principalmente tempo, qualidade dos textos e relevância dos temas. E como neste momento consegui alguns espaços de tempo ocioso na agenda, com muitos deslocamentos aéreos e espera em saguões de aeroporto, então parte do processo foi resolvido. Pra completar alguns assuntos vêm surgindo e servindo como mote para os textos. Vivemos um momento de grandes transformações e isso tudo desencadeia em bons insights para os textos. Já, na questão da qualidade dos textos, prefiro que vocês mesmos analisem sobre este aspecto. Meu senso crítico pode estar meio descalibrado nos últimos dias o que fatalmente me faz perder a noção da qualidade dos textos. A conferir.

Começo a escrever este texto ouvindo o álbum “Final Feliz” da cantora e compositora Deise Jacinto. Pra mim, uma das melhores produções no nosso meio nos últimos meses, um disco pra ser degustado, com muita calma, atenção, sensibilidade … sugiro que você a inclua em suas playlists.

Há alguns anos os profissionais de gravadoras observavam determinados detalhes para decidir num processo de contratação entre os artistas novatos. Música tocando na rádio, agenda intensa de eventos, vendas de discos (mesmo que somente em mercados locais), participação em grandes shows e festivais regionais, apresentações em programas de TV, enfim, estas eram algumas das análises que os profissionais de A&R constantemente faziam antes de resolver investir num artista até então desconhecido. Depois estas análises foram ampliadas incluindo outras premissas como visualizações de clipes, seguidores em redes sociais, em especial o Facebook. Hoje em dia, todas estas informações são muito importantes num processo decisório, mas em especial há um fator que tem se destacado e atuado decisivamente a favor ou contra dos artistas num momento de pesquisa do A&R. A palavra do momento é “RELEVÂNCIA”, ou seja, a capacidade do indivíduo em ser percebido pelo público e consequentemente provocar reações, mudanças comportamentais, comentários e, principalmente influenciar pessoas. 

A web é um ambiente dinâmico, cheio de modismos, que determina tendências e que cada dia está mais presente na vida das pessoas. Hoje praticamente é impossível que um cidadão comum permaneça mais do que alguns dias (ou mesmo horas) sem se relacionar com o ambiente digital, em especial, a web. E neste universo, alguns jovens e adolescentes com espinha na cara, jeitão descolado (às vezes precisando de um banho!), linguajar próprio (quase um dialeto!) e falando num ritmo intenso, frenético, surgem na tela falando dos assuntos os mais variados possíveis. O cardápio de assuntos é bastante variado, são comentários sobre filmes, games, relacionamento, educação ou mesmo coisas sem sentido, tudo faz parte do menu à disposição do público. E o mais incrível é que estes ‘ilustres desconhecidos’ se tornam do dia para a noite verdadeiras celebridades arrebanhando multidões em sessões de autógrafos (Sim! Eles conseguem lançar livros!), palestras, workshops ou simplesmente eventos que contam com a presença do dito cujo para tirar selfies e mais selfies

Mas não vou me alongar comentando sobre estes fenômenos de popularidade que também são chamados de YouTubers, Influencer Marketing, It Girl/Boy, ou qualquer coisa do gênero. Meu foco como sempre está voltado ao universo artístico musical e toda esta introdução é só para fazer um paralelo entre esta tendência dos influenciadores digitais e os números que realmente importam neste momento em se tratando de carreira artística. Se tempos atrás ter um número gigante de seguidores no Instagram ou no Facebook era algo muito importante, neste momento o foco está todo direcionado para o número de seguidores nos canais oficiais dos artistas. Todo o trabalho de angariamento de novos seguidores deve estar focado prioritariamente para o canal de vídeos. É a partir daí que todas as demais ações de marketing digital começam e se tornam vencedoras. Em algumas pesquisas na web percebi que determinados artistas com dezenas de milhões de followers no Facebook, por exemplo, não reuniam mais do que 100 mil seguidores em seu canal de vídeos, que por sinal também carecia de conteúdos inéditos e relevantes.

Então, como meus leitores são extremamente inteligentes e não têm muito tempo a perder, irei direto ao assunto. A estratégia do momento é aumentar o número de seguidores nos canais de vídeos porque consequentemente as chances dos conteúdos terem maior visualização são bem maiores. Com os inscritos no canal de vídeos do artista, todo conteúdo inédito imediatamente é comunicado aos seguidores. Assim as ações de marketing digital ficam mais direcionadas ao público que ainda não faz parte desta comunidade. Outro detalhe importante que demonstra inclusive o nível de importância que o artista dá ao seu canal de vídeos tem a ver com a periodicidade em que esta disponibiliza conteúdos inéditos. Se a colocação de novos conteúdos é muito lenta, o artista acaba passando uma sinalização de que não se importa tanto assim com este canal de interação com seu público. Se diferentemente disso, o artista é ativo, constantemente disponibiliza clipes e conteúdo em vídeo em seu canal, automaticamente o número de seguidores e visualizações em seus vídeos aumentará exponencialmente.

Mas engana-se quem pensa que devemos só focar em video streaming … muito pelo contrário, da mesma forma que devemos aumentar e focar na conquista de followers para o canal de vídeos, devemos seguir a mesma estratégia em se tratando de seguidores para as playlists. Todos os artistas devem ter sua playlist com conteúdo próprio e, se possível, outras playlists onde atue como curador artístico, assim tornam-se ainda mais influenciadores. A importância de seguidores em canais de vídeos e playlists é porque estas 2 ferramentas são as principais fontes de monetização neste momento da indústria fonográfica. O Spotify é o maior parceiro da indústria fonográfica mundial e o YouTube/VEVO vem logo em seguida. 

Aumentar o número de seguidores em Instagram, SnapChat, Facebook, Twitter e outras redes sociais continua sendo fundamental, mas todas estas plataformas são especificamente ambientes de promoção e divulgação. Já os canais de audio e video streaming, além de divulgação e promoção, seguem como importantes fontes de receita para toda a cadeia de envolvidos na música.

Pra bom entendedor, parágrafo é livro! 

Mauricio Soares, entusiasta das novas tecnologias, cada vez mais antenado nas tendências, curador de algumas playlists no Spotify, jornalista, publicitário e fã da boa música.

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Diretamente da Cidade do México irei aproveitar algumas horas que terei sem reuniões para atualizar um pouco mais o nosso blog e comentar sobre alguns temas que venho já faz muito tempo pensando na possibilidade de virarem textos e que pela mais absoluta falta de disponibilidade (e disposição, muitas das vezes!) não consegui sequer iniciar em poucas linhas.

Hoje mais cedo o querido amigo Fábio Sampaio, band leader da Tanlan (se ainda não conhece esse som da turma dos Pampas, sugiro uma boa pesquisada em alguma plataforma de audio streaming como Spotify ou Deezer), fez um comentário em um dos muitos grupos de Whatsapp de qual participo. Ele reagia a uma outra postagem minha onde eu divulgava um show com o cantor-preto-no-branco-que-também-é-solista-compositor-músico-e-baiano, Clóvis Pinho, em um teatro do Rio de Janeiro. Sampaio, comentava com satisfação o fato dos artistas do meio gospel estarem pouco a pouco migrando para palcos de teatros e casas de evento tradicionais do país.

ler seu comentário, ainda fiz questão de lembrar sobre o sucesso arrebatador que tem feito o infante Leonardo Gonçalves em sua turnê “Princípio”que tem lotado teatros de norte a sul do país, inclusive em muitos locais onde ‘tradicionalmente’ o público evangélico é muito reticente a estes tipos de eventos. Não raramente, Leonardo tem sido praticamente obrigado a fazer mais de uma sessão de seu show, muitas das vezes num mesmo dia (sabendo-se do esforço vocal de Gonçalves em suas apresentações, ter um repeteco num mesmo dia é coisa pra gente grande mesmo!). Nesta semana, por exemplo, os ingressos da apresentação dele em Brasília esgotaram-se em menos de 24 horas, obrigando-o a fazer mais um sessão e, para surpresa de alguns, a procura do público foi igualmente intensa e ágil, ou seja, imediatamente após a abertura do segundo show, os ingressos se esgotaram mais uma vez. Se a produção do show tivesse programado mais 2 shows no mesmo local, certamente os ingressos se esgotariam como antes, tamanha procura do público.

tradicional Teatro Ópera de Arame na capital paranaense, a apresentação do Preto no Branco, teve seus ingressos esgotados em poucos dias e na própria data do evento, mais de mil pessoas tentaram em vão ter acesso ao show. O mesmo aconteceu em Porto Alegre, Joinville, Rio de Janeiro e outras cidades por onde a entourage tem passado. O incrível neste caso é que o projeto tem menos de 6 meses de lançamento, a agenda do PNB está lotada praticamente até o fim do ano, o público tem cantado todas as músicas em suas apresentações e o canal de vídeos do projeto conta com mais de 210 mil inscritos e quase 33 milhões de views.

cantora Marcela Taís também tem feito apresentações em diversos teatros pelo país. Boa parte destes eventos com casa lotada, sold out. Em breve, a dupla Os Arrais fará uma turnê intensa pelo país durante cerca de 20 dias com apresentações em diversos teatros e casas de evento. Mesmo várias semanas do evento, em algumas praças os ingressos já se encontram esgotados. Vale também lembrar sobre o sucesso do projeto Loop Session que reúne Leonardo Gonçalves, Mauro Henrique do Oficina G3 e ainda Guilherme de Sá, líder da banda do Rosa de Saron, e que tem levado centenas de pessoas aos teatros por onde tem se apresentado.

eu esteja me esquecendo de algum outro artista do meio que venha neste momento fazendo apresentações e turnês por teatros pelo país. De qualquer forma, todos os casos aqui exemplificados já corroboram para uma (excelência) tendência que estamos vivenciando neste momento que é a atitude dos artistas em sair do comodismo e conforto de só ‘jogar em casa’, ou seja, de se apresentarem somente em igrejas, festivais, congressos e eventos afins onde a platéia é praticamente garantida (e os aplausos idem). Percebo que alguns artistas estão literalmente querendo expandir o alcance de sua música, mensagem e arte. E esta expansão, sem dúvida, demanda atenção, produção, foco e uma boa dose de risco, afinal o empreendimento conta com venda de ingressos, logística, divulgação e tudo mais. Boa parte dos artistas que estão investindo em eventos nos teatros tem participado ativamente do processo de produção dos eventos, muitos dos quais como sócio investidores no projeto. Durante muitos e muitos anos os artistas do meio gospel simplesmente vendiam suas datas aos promotores locais de shows e praticamente não se envolviam em nada no processo de divulgação e mesmo no sucesso da empreitada. Recebiam seus cachês e independente do show ter dado certo ou não com relação à venda dos ingressos, voltavam tranquilamente para suas casas. Hoje em dia, com a permanência de promotores de shows no meio gospel cada vez mais rara, os artistas se viram na necessidade de ingressarem mais firme na produção de seus próprios shows. E o que parecia num primeiro momento uma atitude de sobrevivência, vem se revelando uma excelente oportunidade.

meio secular, muitos dos artistas e seus escritórios reservam para si a realização de shows (principalmente em períodos de lançamento de projetos artísticos) em algumas praças e regiões do país. No máximo, buscam parceria com produtores locais para a realização destes shows com divisão de percentuais sobre ganhos e despesas. Este tipo de atitude permite que o artista consiga recuperar seus investimentos em tempo menor, com maior controle sobre os processos de logística e divulgação e, ainda, traz para o próprio artista um maior senso de condução de sua carreira e participação nos seus próprios negócios. Esta mesma ação participativa começo a perceber já em alguns artistas do meio gospel tupiniquim e vejo isto como algo extremamente positivo.

quero também dar um outro enfoque sobre o sucesso dos shows dos artistas gospel em teatros e casas tradicionais de eventos pelo país. Com esta nova cultura, os artistas passam a ter um maio cuidado estético em suas produções. Deixam de simplesmente ligar os instrumentos para suas participações e passam a preocupar-se com o roteiro do show, tecnologia, o timing da apresentação, figurino e toda a produção em si. Isto é uma mudança bastante significativa se formos comparar com o que era oferecido (e ainda é por alguns dinossauros …) ao público cristão. O artista gospel sempre justificou o baixo investimento em produção e, consequentemente a baixíssima qualidade de seus shows, no argumento de que o objetivo maior seria a mensagem ali pregada … confesso que na minha modesta opinião isto me soa mais como uma desculpa esfarrapada do que como fato. É óbvio que uma pessoa vai a um evento de música gospel pra ser fortalecida pela mensagem cantada, pra ser renovada em sua fé, pra se alegrar com um ambiente saudável, mas tudo pode ter um resultado ainda maior se for acompanhado pela qualidade e profissionalismo que qualquer evento de entretenimento deve proporcionar ao público.

por falar em público, este é um detalhe que merece também uma especial atenção. Sempre ouvi falarem que o público gospel não paga ingresso acima de 15 reais e coisas do tipo. Que o público evangélico não se preocupa com shows muito estruturados e outros blá blá blá que justificam os baixos investimentos dos promotores de eventos pelo país. Pois este conceito se esvai ao constatarmos a imensa procura do público por ingressos de eventos onde a qualidade da música é notória. Muitos dos eventos, por sinal, com ingressos que vão de 50 a até inimagináveis 150 reais. Ou seja, o público cristão está reconhecendo cada vez mais a qualidade da música produzida por alguns artistas do segmento, reconhecem o esforço dos próprios em fazer seus eventos em locais onde o conforto e a acústica favorecem a qualidade do show em si e, principalmente, dá uma clara demonstração de que estão aptos e desejosos de contarem com mais shows de música gospel de qualidade em suas cidades.

10 para os artistas que estão acreditando neste novo nicho. Nota 10 para os empreendedores deste novo formato de consumo da arte cristã. E nota 10 ao público que reconhece a qualidade da nova música cristã desenvolvida no Brasil e tem investido seus recursos para prestigiar estes artistas.

Que os bons ventos soprem mais!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, profissional que acredita piamente na qualidade da arte cristã produzida no Brasil.

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Durante muitos anos participei como colunista da revista Consumidor Cristão publicada pela EBF Editora e voltada especialmente aos profissionais do mercado cristão e lideranças. Mensalmente trazia em meus textos informações, dicas e observações sobre marketing, vendas e principalmente palavras de incentivo pelo aumento da qualidade das atividades relacionadas ao setor. Este tempo foi intenso de palestras, consultorias, treinamentos e mesas de debate entre profissionais do que denominamos como mercado gospel. Muitas destas experiências serviram como incentivo para que tempos mais tarde tivesse coragem, eu mesmo de ter um espaço em que pudesse livremente expor minhas opiniões. Foi daí que surgiu o Observatório Cristão.

Aos poucos o blog foi migrando de uma temática mais técnica e focada no mercado distribuidor para seguir na direção do mundo artístico e fonográfico. Escrevo este texto após uma semana inteira dedicada a ações de marketing e promoção por duas das mais importantes cidades do belo nordeste brasileiro. Estive por dois dias e meio em Recife e praticamente por igual período em seguida na cidade de Fortaleza. Pude visitar muitas mídias e algumas livrarias especializadas. O texto a seguir será justamente fruto de minhas observações nestes últimos dias, o que na verdade, venho acompanhando esse ‘fenômeno’ se repetir nos últimos anos.

A busca constante por conhecimento e aprimoramento é fundamental em qualquer profissão. É deprimente quando lidamos ou ouvimos comentários acerca de um determinado profissional que ficou ‘parado no tempo’, ‘velho’, desatualizado. Em primeiro momento tenho a impressão de que este profissional simplesmente perdeu o elã, a paixão por seu ofício. E, modestamente, acho que esta é uma situação desesperadora, até porque se tem uma característica que posso destacar em minha carreira e vida é justamente a paixão que tenho pelos projetos que acredito e assumo. Em segundo lugar, essa falta de se buscar o aprimoramento constante denota acomodação, desleixo, preguiça, ou seja, qualidades nada alvissareiras! E em terceiro lugar, me vem à mente que este profissional traga resultados insuficientes, bem abaixo do potencial e estes resultados podem inclusive criar uma imagem distorcida do próprio negócio em si.

Trazendo esse assunto para mais perto de nosso cotidiano, gostaria de falar sobre 3 profissionais com os quais lido constantemente, a saber: lojistas, mídias e artistas. E quero começar a focar justamente pelos lojistas relembrando com grande saudade de meus tempos de colunista. Hoje em dia manter-se atualizado sobre lançamentos disponíveis no mercado, seja ele editorial ou fonográfico, é tarefa bem mais fácil do que em tempos atrás. Me lembro que há 20 anos atrás tínhamos como divulgação apenas uma ou duas revistas onde as editoras publicvam seus anúncios. De vez em quando recebíamos malas diretas pelo correios com catálogos e tabelas de pedidos. Era impressionante como o envio destes materiais eram constantes e muitas das vezes encontrava pilhas e pilhas de catálogos em cima das mesas de gerentes de lojas. Neste tempo, ainda eram poucas as emissoras de rádio do segmento e ainda mais raro era ter programas ou canais de TV com programação evangélica. Ou seja, a informação sobre lançamentos era algo muito complicado. Tempos depois o fax passou a ser uma ferramenta a mais de divulgação. Lembro-me que em muitas lojas, o dono deixava o aparelho desligado para poupar o seu rolo de papel e assim não ficar recebendo quilômetros e quilômetros de tabelas e materiais de divulgação. Isso parece que foi há séculos … impressionante a velocidade das transformações tecnológicas dos últimos anos … Mas, voltando ao tema, hoje em dia, com o advento da internet, redes sociais, comunicação instantânea, a informação ao alcance de um simples toque, manter-se alheio às novidades do mercado é simplesmente inaceitável, o que apenas demonstra uma absoluta falta de iniciativa e principalmente de seriedade com seu próprio ofício.

Em toda loja que visito sempre procuro de forma quase incólume pesquisar o estoque de produtos à venda. Paro sempre em frente ao balcão de CDs e DVDs e fico ali conferindo a oferta de produtos. Depois de um tempo, procuro achegar-me ao vendedor e fazer algumas perguntas para tentar decifrar o seu grau de conhecimento dos lançamentos e tudo mais. Em algumas oportunidades (bem raras é verdade!) deparo-me com vendedores que sabem tudo o que vem acontecendo no meio … lançamentos, sucessos, hits, agenda, notícias … nitidamente percebe-se que estamos diante de um profissional cheio de empenho e principalmente paixão pela música e seu ofício. Nestes casos os resultados de vendas refletem exatamente o ímpeto do vendedor. Já em contrapartida, quando visito determinada loja em que a área de discos fica relegada a um canto escuro, sem qualquer profissional especializado e apaixonado pela música, as vendas são pífias e não raro, acabo ouvindo do ‘gerente’ que cada vez tem vendido menos CDs e DVDs, uma observação óbvia, é claro!

Há alguns meses um dos representantes de vendas que trabalha comigo esteve numa determinada loja levando as novidades daquele mês. O esforçado vendedor investiu tempo para imprimir capas, materiais de divulgação e levou mais de 1 hora no processo de apresentação de seu portifólio, especialmente um determinado lançamento. A ‘gerente’ (tenho que colocar entre aspas porque essa função merece respeito!) ouvia tudo sem expressar ânimo algum. Em determinado momento o vendedor informa que aquela artista estaria na cidade daqui umas 3 semanas e que seria possível inclusive se programar uma tarde de autógrafos ou algo do tipo em sua loja. De forma direta, a enfadada ‘gerente’ responde ao vendedor: “ – Tá bom! Mas eu não quero tumulto aqui na loja, não! Não gosto de artista, não gosto de autógrafos e isso eu não quero aqui não!”

Em outra oportunidade, determinado vendedor agendou uma tarde de autógrafos em um de seus clientes. Tudo certo e na hora de fechar o pedido, este vendedor sugeriu uma determinada quantidade de discos para atender ao evento. O gerente optou por fechar o pedido em cerca de 30% do montante inicial. Dias depois, o artista chega na loja, fila dobrando a esquina e em apenas 15 minutos todo o estoque do lojista evapora. Ou seja, se tivesse seguido à risca a sugestão do vendedor, teria muito mais vendas daquele produto. O gerente no fim comentou constrangido: “ – Mas eu não tinha noção nenhuma de que este artista tinha essa força toda! Fui surpreendido!” Neste caso, o departamento de marketing da gravadora já havia alertado sobre a enorme expectativa pelo lançamento medido principalmente pelas redes sociais. A área de vendas seguiu com essa informação, mas o gerente em questão preferiu simplesmente seguir seu ‘instinto’ e no fim, perdeu vendas e mais vendas.

Venda não efetuada é venda que dificilmente se recupera, principalmente no varejo.

O público consumidor de produtos religiosos vem crescendo ainda bastante no Brasil, seguindo uma tendência da última década e meia. Por semana recebo em média 2 a 3 consultas de empreendedores pelo país querendo maiores informações sobre o processo de cadastramento para adquirir nossos produtos para suas livrarias. Cada vez temos mais mídias especializadas, isso sem falar no aumento das web stores facilitando a cada dia a distribuição não só no Brasil como também no exterior. O único problema neste momento é o cenário econômico, político do país que realmente parece querer dizimar os empreendedores com taxas, impostos, burocracia e tudo mais. No entanto, é notório que em tempos de crise, principalmente econômica, as pessoas costumam se aproximar mais das ‘coisas da fé’, ou seja, há uma tendência real de que as igrejas ficarão ainda mais cheias nos próximos anos. E aí, me vem uma dúvida: como um livreiro evangélico pode reclamar de queda nas vendas? É no mínimo contraditório que um mercado em franca expansão de seu público consumidor reclame dos resultados de vendas. A resposta para isso é somente uma, ou seja, falta de paixão, falta de aprimoramento e busca de conhecimento e falta de estratégias. Isso tudo somado acarreta em baixos resultados de vendas. Simples assim!

Especialmente nos últimos 15 anos visitei praticamente todas as principais emissoras de rádio do segmento Gospel no país. Perdi a conta de entrevistas em que participei ou simplesmente acompanhei ao vivo ao longo destes anos. Além das FMs, foram muitas as entrevistas com blogs, sites, programas de TV, revistas, jornais … uma infinidade de oportunidades. E posso confessar que não há experiência mais deprimente, frustrante e muitas das vezes ‘vergonha alheia’ pra mim do que deparar-me com um profissional de mídia que não sabe fazer seu dever de casa, se preparar adequadamente para uma entrevista. Já tive o desprazer de estar diante de um radialista que sequer sabia o nome de seu entrevistado, seu novo projeto ou mesmo história de vida. Entre uma impostação de voz no melhor estilo “Alberto Roberto” e uma piadinha infame, o locutor atônito não sabia o que perguntar. Ficava ali olhando para o artista simplesmente falando coisas desconexas e querendo mostrar uma intimidade que não tinha com o entrevistado. Já alguns seguem pelo famoso corolário de perguntas-padrão do tipo:

– E como você começou a cantar?

– Ô glória! Bem de pequeno … que bênção!

– E quais são as suas referências musicais?

– Eita Jeová … que maravilha!

– Este é seu primeiro disco?

– Que demais!

– Tem alguma música que é sua preferida?

– Ah, sim …

– É a primeira vez que você vem aqui na cidade? Já comeu nosso prato típico?

– Ô que benção …

– E você tem algum sonho pela frente?

– Ah, que bênção! Então pra finalizar nos deixe seus contatos, redes sociais, telefone …

– Que bom! Quer aproveitar e deixar sua mensagem aos nossos ouvintes?

– Obrigado por sua vinda!

Pode parecer um exagero nas tintas, mas infelizmente não é isso! Este tipo de ‘entrevista’ acontece em pelo menos 80% das oportunidades pelo país. É uma espécie de ‘entrevista-padrão’ seguindo um rígido código de alguma espécie de manual de jornalismo que seguramente não sei quem iniciou e foi se repetindo de norte a sul do país.

Em suma, a classe de profissionais de mídia precisa mudar urgentemente esse panorama em busca de maior aprimoramento, maior conhecimento, mais referências de profissionais diferenciados, mais amor à profissão e maior respeito à inteligência do público.

O último aspecto que gostaria de abordar neste post é justamente a classe artística. De igual forma como venho neste texto cobrando por um maior comprometimento com o respectivo trabalho dos profissionais de outras áreas, esta mesma situação se repete na direção dos artistas do segmento gospel. Conhecendo melhor o dia a dia de alguns artistas que ultimamente vêm se destacando no cenário artístico cristão, é interessante como um padrão se repete positivamente nestes casos, ou seja, a busca incessante por boas referências, o tempo de maturação de um projeto (entre a pesquisa de estilos, repertório e produção, nada acontecendo em menos de 12 meses) e, principalmente uma análise cuidadosa sobre as expectativas do seu público-alvo. Especialmente esta última categoria torna-se cada vez mais importante num momento em que temos tantas opções ao alcance de um simples portal de streaming. Ao artista não é mais permitido simplesmente gravar e impor pelos tímpanos adentro o que ele julga ser o estilo perfeito para seu público. A palavra de ordem deste momento é pesquisa e interação. Saber o que o público quer ouvir é meio caminho andado para se ter resultados positivos.

Tanto no dia-a-dia de lojistas, como de mídias ou mesmo artistas, as necessidades para alcançar uma performance positiva neste momento praticamente se assemelham de uma forma assustadora. Falamos muito de paixão e em todas as atividades é preciso ter este sentimento para que as atividades cotidianas sejam prazerosas e não jugo pesado e desestimulante. Não espere resultados espetaculares se você não trata sua atividade com a intensidade que ela demanda.

Se falta paixão no dia-a-dia em sua atividade, o melhor a se fazer é deixar o lugar disponível para que outro profissional possa desempenhar a função da forma correta!

Outra questão que falamos nos 3 casos é justamente a busca pelo conhecimento e aprimoramento. Informação é tudo ou meio caminho andado para o sucesso. Tantas vezes ouvimos esta expressão? Pois é, infelizmente muitas pessoas querem alcançar o sucesso tomando atalhos e renegar a importância do conhecimento é seguir por um caminho complicado e que geralmente não leva a lugar algum. Vivemos um tempo especial para quem busca pelo conhecimento. A tecnologia diminuiu as distâncias, aproximou culturas, transformou o mundo numa pequena comunidade e com isso, o conhecimento tornou-se democrático e acessível a todos, basta buscá-lo, somente isso!

Quem não busca conhecimento ou desenvolver-se em sua área de atuação determina seu próprio fim pelos próximos anos.

Se você é artista, mídia ou lojista, ou mesmo um profissional de qualquer outra área saiba que sucesso é decorrente de determinação, paixão, conhecimento, foco, transpiração, entre outras questões. O importante no processo de busca do sucesso é compreender que há algo diferente a ser feito, de que é necessário romper o estado inercial e a zona de conforto para buscar novos desafios e automaticamente ter melhores resultados. Lembre-se que não é possível ter resultados diferentes repetindo-se atitudes! É necessário mudar a visão e as ações para que tenhamos resultados diferentes! E quero finalizar apenas ressaltando que quando falo de sucesso, não significa de forma alguma o resultado financeiro ou o reconhecimento de terceiros. O verdadeiro sucesso é alcançado quando temos nós mesmos a satisfação e orgulho por nosso próprio desempenho e resultados. Sem paixão, conhecimento ou dedicação, tornaremo-nos pessoas frustradas e desinteressantes.

Boas mudanças!

 

Mauricio Soares, consultor, profissional de marketing, jornalista, bom de papo, alguém sempre disposto a contribuir com a melhora do segmento gospel e que atualmente não pára de assistir ao DVD Preto no Branco recém lançado com produção da Balaio Music. Boa dica de fim de ano!

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Depois de uma semana intensa de textos produzidos em série, dei-me as devidas férias não só para descansar a mente, mas principalmente para selecionar alguns temas realmente relevantes para o blog. Depois de mais de 8 anos escrevendo para o Observatório Cristão é natural que tenhamos um pouco mais de dificuldade em trazer assuntos novos, ainda não abordados ou mesmo com uma dinâmica diferente de tudo o que já foi postado por aqui. De vez em quando me permito voltar a um determinado assunto já publicado por entender que há algo novo a se dizer, mas confesso que cada dia que passa fica bem mais difícil atender à demanda dos 66 leitores do blog.

Entre um e outro vôo procuro aproveitar meu tempo ocioso para atualizar os textos e ideias. Hoje começo este texto tentando embarcar no avião rumo à cidade de Goiânia onde participarei mais à noite de um pocket talk show com a participação do amigo Leonardo Gonçalves. Por questões metereológicas meu vôo já está com mais de 1h30 de atraso, aeroporto fechado, sem previsão de retomada do tráfego, saguão abarrotado de gente, enfim, o cenário (quase) ideal para escrever mais um post … e é nesse clima que eu gostaria de falar sobre um assunto que passa desapercebido de muita gente.

Dias atrás num almoço com colegas de trabalho, surgiu o nome de um determinado pastor. A pessoa que trouxe este assunto à mesa era membro da igreja dirigida por aquele pastor. Em meio a elogios e comentários positivos sobre sua postura como líder, uma característica especial se destacou entre tantas, a de que ele era muito, mas muito direto com a questão do dízimo. No discurso daquele pastor quem não ‘pagava’ o dízimo não teria direito a usufruir do conforto da sua igreja. A palavra era bastante forte e às vezes até meio agressiva. Não vou ater-me ao mérito desta questão, mas sim no comentário feito em seguida sobre este mesmo pastor. A colega de trabalho destacava que ele costumava levar vários cantores em suas reuniões, gente com uma proposta até bastante diferenciada, o que criava uma imagem de que aquele pastor curtia um som inovador, inteligente, criativo, fora dos lugares comuns. Até aí, tudo tranquilo, o problema veio na sequência quando a colega enfaticamente disse que o pastor não admitia pagar cachê aos artistas. Se eles quisessem tocar na igreja dele deveriam fazer isso de modo voluntário ou no máximo à custa de venda de CDs e DVDs.

Confesso que não estava tão atento à conversa naquele momento até que este fato me chamou a atenção com um misto de incompreensão e susto. Como o discurso daquele pastor que não aceita pessoas que não pagam pelo ar condicionado, pelas poltronas ou mesmo da oportunidade de ouvir uma pregação mantinha a coerência recebendo em sua igreja artistas sem querer remunerá-los por isso? Me parece no mínimo contraditória esta posição, ou não?

Não! Este texto não será sobre o batido, cansado e chaaaaaaaato assunto sobre se artista gospel deve ou não receber cachês. Nada disso! Apenas peguei esse fato acima para corroborar e pintar com cores mais vivas sobre o verdadeiro assunto que passo a discorrer nas próximas linhas, concentrado também no sistema de alto falantes do aeroporto esperando ser convidado ao meu vôo.

Boa parte dos pastores vive do salário de sua igreja. Outros tantos mantêm um trabalho ‘convencional’ em paralelo. Alguns complementam seus ganhos com a venda de livros, palestras, congressos, ofertas, entre outras coisas.Já os artistas vivem da venda de shows, apresentações em igrejas, da venda de discos (e mais recentemente de vendas digitais), camisetas, bijouterias e muitas outras fontes de receita. E o compositor vive de qual receita? Basicamente os compositores vivem do percentual pago sobre a vendagem dos discos (físico e digital), isto no caso de autores com músicas gravadas por artistas vinculados a gravadoras (sérias!). Quando as músicas são gravadas por artistas independentes e algumas gravadoras (não tão sérias!), os compositores optam por receber um valor fixo adiantado. Vale ressaltar que uma música NUNCA é de fato vendida, pois a propriedade autoral é um bem inalienável, ou seja, jamais pode ser de fato transferido para um terceiro. Não por vias normais, é claro!

Outra fonte de receita dos compositores é proveniente da execução, ou seja, rádios, programas de TV e mais recentemente plataformas digitais, repassam aos compositores a parte que lhes cabe nesse enorme latifúndio. E aqui vale mais um adendo importante, pesquisando atentamente nos últimos meses sobre as mídias do segmento evangélico que recolhem o ECAD corretamente, a constatação estarrecedora é de que a imensa maioria das emissoras simplesmente se recusa a pagar o que se refere à execução. Simplesmente não pagam e fica tudo como está. O mais absurdo nesta história é que algumas destas emissoras são vinculadas a grandes igrejas, usam suas programações para pedir oferta 24 horas por dia e, absurdo dos absurdos, cobram dos artistas para que músicas sejam veiculadas na playlist. Ou seja, não só não pagam a quem de direito, como penalizam duplamente ao cobrar dos artistas pela execução.

Além da execução fonomecânica, os compositores também recebem percentuais pela apresentação de suas músicas em shows ao vivo. Qualquer evento, seja gratuito ou ingressado, que não seja realizado nas dependências de alguns ambientes específicos, tais como igrejas, templos ou afins, são obrigados a recolher uma taxa ao ECAD. Este valor será repassado posteriormente às associações e no fim chegará ao compositor, podendo ainda passar por uma publisher, caso o autor tenha este vínculo.

Em suma, diferentemente de boa parte dos trabalhadores, a classe de compositores não recebe seus rendimentos de forma direta e padronizada como qualquer empregado ao fim do mês. Independente do canal, o compositor sempre receberá um percentual, sobre fontes variáveis e basicamente em intervalos trimestrais. Ou seja, este profissional precisa ser muito produtivo, ter controle de seu dia a dia e não pode simplesmente abrir mão de determinadas receitas. Pois é justamente neste ponto que eu gostaria de escrever mais algumas linhas ‘aproveitando’ que meu vôo já ultrapassa atraso de mais de 2h30.

É meio que prática usual junto aos promotores de shows no meio gospel a solicitação para que autores simplesmente abram mão de receber seus direitos. Desde que me entendo como gente no mundinho gospel recebo solicitações desesperadas de pastores, promotores de eventos – geralmente faltando poucos dias para o evento – pedindo pela cessão de direitos autorais. Confesso que não entendo a lógica neste tipo de pedido, afinal a empresa que monta o palco recebe pelos serviços, o mesmo acontece com a empresa de sonorização, a agência que emite as passagens aéreas, os seguranças, a empresa de catering, as mídias que divulgam o evento, os artistas que irão se apresentar no palco … e muitas das vezes, o promotor do show sairá com uma bolsa recheada de dinheiro, fruto de seu tempo, esforço e dedicação. Ou seja, é lícito que toda a cadeia de envolvidos no processo seja devidamente remunerada por seus respectivos serviços.

Então por que o compositor, que é onde todo o sucesso começa, não merece participar do processo sendo remunerado de forma correta, profissional e ética?

A indagação é tão clara que não me sinto impulsionado a escrever mais tantas linhas na sequência. Os nossos 66 leitores já entenderam perfeitamente o objetivo central deste texto. Precisamos ser mais atentos a tudo que nos cerca, aos detalhes. Não podemos simplesmente reproduzir o que vem acontecendo nos últimos anos. É necessário analisar as questões por todos os ângulos e contemplando todas as pessoas envolvidas. Lembre-se que a regra básica e saudável de todo bom negócio é quando todos saem ganhando. Simples assim! E nesta mudança de hábito, a participação de artistas e gravadoras opondo-se a esta prática é fundamental! Não dá para deixar a classe de compositores sozinha figurando como vilã ao dizer ‘não’ a este tipo de solicitação. É importante que se tenha em mente de que todos são merecedores de receber por seu tempo, talento e dedicação.

Finalizo este texto já no saguão do aeroporto retornando para o Rio de Janeiro após uma noite especial participando do evento Encontro com a Voz FM, uma bela iniciativa que em 2016 iremos reproduzir em outras cidades do país.

Enjoy!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, contando os dias para entrar em férias com toda a família.