Home Sem categoria

0 616

Durante muitos anos participei como colunista da revista Consumidor Cristão publicada pela EBF Editora e voltada especialmente aos profissionais do mercado cristão e lideranças. Mensalmente trazia em meus textos informações, dicas e observações sobre marketing, vendas e principalmente palavras de incentivo pelo aumento da qualidade das atividades relacionadas ao setor. Este tempo foi intenso de palestras, consultorias, treinamentos e mesas de debate entre profissionais do que denominamos como mercado gospel. Muitas destas experiências serviram como incentivo para que tempos mais tarde tivesse coragem, eu mesmo de ter um espaço em que pudesse livremente expor minhas opiniões. Foi daí que surgiu o Observatório Cristão.

Aos poucos o blog foi migrando de uma temática mais técnica e focada no mercado distribuidor para seguir na direção do mundo artístico e fonográfico. Escrevo este texto após uma semana inteira dedicada a ações de marketing e promoção por duas das mais importantes cidades do belo nordeste brasileiro. Estive por dois dias e meio em Recife e praticamente por igual período em seguida na cidade de Fortaleza. Pude visitar muitas mídias e algumas livrarias especializadas. O texto a seguir será justamente fruto de minhas observações nestes últimos dias, o que na verdade, venho acompanhando esse ‘fenômeno’ se repetir nos últimos anos.

A busca constante por conhecimento e aprimoramento é fundamental em qualquer profissão. É deprimente quando lidamos ou ouvimos comentários acerca de um determinado profissional que ficou ‘parado no tempo’, ‘velho’, desatualizado. Em primeiro momento tenho a impressão de que este profissional simplesmente perdeu o elã, a paixão por seu ofício. E, modestamente, acho que esta é uma situação desesperadora, até porque se tem uma característica que posso destacar em minha carreira e vida é justamente a paixão que tenho pelos projetos que acredito e assumo. Em segundo lugar, essa falta de se buscar o aprimoramento constante denota acomodação, desleixo, preguiça, ou seja, qualidades nada alvissareiras! E em terceiro lugar, me vem à mente que este profissional traga resultados insuficientes, bem abaixo do potencial e estes resultados podem inclusive criar uma imagem distorcida do próprio negócio em si.

Trazendo esse assunto para mais perto de nosso cotidiano, gostaria de falar sobre 3 profissionais com os quais lido constantemente, a saber: lojistas, mídias e artistas. E quero começar a focar justamente pelos lojistas relembrando com grande saudade de meus tempos de colunista. Hoje em dia manter-se atualizado sobre lançamentos disponíveis no mercado, seja ele editorial ou fonográfico, é tarefa bem mais fácil do que em tempos atrás. Me lembro que há 20 anos atrás tínhamos como divulgação apenas uma ou duas revistas onde as editoras publicvam seus anúncios. De vez em quando recebíamos malas diretas pelo correios com catálogos e tabelas de pedidos. Era impressionante como o envio destes materiais eram constantes e muitas das vezes encontrava pilhas e pilhas de catálogos em cima das mesas de gerentes de lojas. Neste tempo, ainda eram poucas as emissoras de rádio do segmento e ainda mais raro era ter programas ou canais de TV com programação evangélica. Ou seja, a informação sobre lançamentos era algo muito complicado. Tempos depois o fax passou a ser uma ferramenta a mais de divulgação. Lembro-me que em muitas lojas, o dono deixava o aparelho desligado para poupar o seu rolo de papel e assim não ficar recebendo quilômetros e quilômetros de tabelas e materiais de divulgação. Isso parece que foi há séculos … impressionante a velocidade das transformações tecnológicas dos últimos anos … Mas, voltando ao tema, hoje em dia, com o advento da internet, redes sociais, comunicação instantânea, a informação ao alcance de um simples toque, manter-se alheio às novidades do mercado é simplesmente inaceitável, o que apenas demonstra uma absoluta falta de iniciativa e principalmente de seriedade com seu próprio ofício.

Em toda loja que visito sempre procuro de forma quase incólume pesquisar o estoque de produtos à venda. Paro sempre em frente ao balcão de CDs e DVDs e fico ali conferindo a oferta de produtos. Depois de um tempo, procuro achegar-me ao vendedor e fazer algumas perguntas para tentar decifrar o seu grau de conhecimento dos lançamentos e tudo mais. Em algumas oportunidades (bem raras é verdade!) deparo-me com vendedores que sabem tudo o que vem acontecendo no meio … lançamentos, sucessos, hits, agenda, notícias … nitidamente percebe-se que estamos diante de um profissional cheio de empenho e principalmente paixão pela música e seu ofício. Nestes casos os resultados de vendas refletem exatamente o ímpeto do vendedor. Já em contrapartida, quando visito determinada loja em que a área de discos fica relegada a um canto escuro, sem qualquer profissional especializado e apaixonado pela música, as vendas são pífias e não raro, acabo ouvindo do ‘gerente’ que cada vez tem vendido menos CDs e DVDs, uma observação óbvia, é claro!

Há alguns meses um dos representantes de vendas que trabalha comigo esteve numa determinada loja levando as novidades daquele mês. O esforçado vendedor investiu tempo para imprimir capas, materiais de divulgação e levou mais de 1 hora no processo de apresentação de seu portifólio, especialmente um determinado lançamento. A ‘gerente’ (tenho que colocar entre aspas porque essa função merece respeito!) ouvia tudo sem expressar ânimo algum. Em determinado momento o vendedor informa que aquela artista estaria na cidade daqui umas 3 semanas e que seria possível inclusive se programar uma tarde de autógrafos ou algo do tipo em sua loja. De forma direta, a enfadada ‘gerente’ responde ao vendedor: “ – Tá bom! Mas eu não quero tumulto aqui na loja, não! Não gosto de artista, não gosto de autógrafos e isso eu não quero aqui não!”

Em outra oportunidade, determinado vendedor agendou uma tarde de autógrafos em um de seus clientes. Tudo certo e na hora de fechar o pedido, este vendedor sugeriu uma determinada quantidade de discos para atender ao evento. O gerente optou por fechar o pedido em cerca de 30% do montante inicial. Dias depois, o artista chega na loja, fila dobrando a esquina e em apenas 15 minutos todo o estoque do lojista evapora. Ou seja, se tivesse seguido à risca a sugestão do vendedor, teria muito mais vendas daquele produto. O gerente no fim comentou constrangido: “ – Mas eu não tinha noção nenhuma de que este artista tinha essa força toda! Fui surpreendido!” Neste caso, o departamento de marketing da gravadora já havia alertado sobre a enorme expectativa pelo lançamento medido principalmente pelas redes sociais. A área de vendas seguiu com essa informação, mas o gerente em questão preferiu simplesmente seguir seu ‘instinto’ e no fim, perdeu vendas e mais vendas.

Venda não efetuada é venda que dificilmente se recupera, principalmente no varejo.

O público consumidor de produtos religiosos vem crescendo ainda bastante no Brasil, seguindo uma tendência da última década e meia. Por semana recebo em média 2 a 3 consultas de empreendedores pelo país querendo maiores informações sobre o processo de cadastramento para adquirir nossos produtos para suas livrarias. Cada vez temos mais mídias especializadas, isso sem falar no aumento das web stores facilitando a cada dia a distribuição não só no Brasil como também no exterior. O único problema neste momento é o cenário econômico, político do país que realmente parece querer dizimar os empreendedores com taxas, impostos, burocracia e tudo mais. No entanto, é notório que em tempos de crise, principalmente econômica, as pessoas costumam se aproximar mais das ‘coisas da fé’, ou seja, há uma tendência real de que as igrejas ficarão ainda mais cheias nos próximos anos. E aí, me vem uma dúvida: como um livreiro evangélico pode reclamar de queda nas vendas? É no mínimo contraditório que um mercado em franca expansão de seu público consumidor reclame dos resultados de vendas. A resposta para isso é somente uma, ou seja, falta de paixão, falta de aprimoramento e busca de conhecimento e falta de estratégias. Isso tudo somado acarreta em baixos resultados de vendas. Simples assim!

Especialmente nos últimos 15 anos visitei praticamente todas as principais emissoras de rádio do segmento Gospel no país. Perdi a conta de entrevistas em que participei ou simplesmente acompanhei ao vivo ao longo destes anos. Além das FMs, foram muitas as entrevistas com blogs, sites, programas de TV, revistas, jornais … uma infinidade de oportunidades. E posso confessar que não há experiência mais deprimente, frustrante e muitas das vezes ‘vergonha alheia’ pra mim do que deparar-me com um profissional de mídia que não sabe fazer seu dever de casa, se preparar adequadamente para uma entrevista. Já tive o desprazer de estar diante de um radialista que sequer sabia o nome de seu entrevistado, seu novo projeto ou mesmo história de vida. Entre uma impostação de voz no melhor estilo “Alberto Roberto” e uma piadinha infame, o locutor atônito não sabia o que perguntar. Ficava ali olhando para o artista simplesmente falando coisas desconexas e querendo mostrar uma intimidade que não tinha com o entrevistado. Já alguns seguem pelo famoso corolário de perguntas-padrão do tipo:

– E como você começou a cantar?

– Ô glória! Bem de pequeno … que bênção!

– E quais são as suas referências musicais?

– Eita Jeová … que maravilha!

– Este é seu primeiro disco?

– Que demais!

– Tem alguma música que é sua preferida?

– Ah, sim …

– É a primeira vez que você vem aqui na cidade? Já comeu nosso prato típico?

– Ô que benção …

– E você tem algum sonho pela frente?

– Ah, que bênção! Então pra finalizar nos deixe seus contatos, redes sociais, telefone …

– Que bom! Quer aproveitar e deixar sua mensagem aos nossos ouvintes?

– Obrigado por sua vinda!

Pode parecer um exagero nas tintas, mas infelizmente não é isso! Este tipo de ‘entrevista’ acontece em pelo menos 80% das oportunidades pelo país. É uma espécie de ‘entrevista-padrão’ seguindo um rígido código de alguma espécie de manual de jornalismo que seguramente não sei quem iniciou e foi se repetindo de norte a sul do país.

Em suma, a classe de profissionais de mídia precisa mudar urgentemente esse panorama em busca de maior aprimoramento, maior conhecimento, mais referências de profissionais diferenciados, mais amor à profissão e maior respeito à inteligência do público.

O último aspecto que gostaria de abordar neste post é justamente a classe artística. De igual forma como venho neste texto cobrando por um maior comprometimento com o respectivo trabalho dos profissionais de outras áreas, esta mesma situação se repete na direção dos artistas do segmento gospel. Conhecendo melhor o dia a dia de alguns artistas que ultimamente vêm se destacando no cenário artístico cristão, é interessante como um padrão se repete positivamente nestes casos, ou seja, a busca incessante por boas referências, o tempo de maturação de um projeto (entre a pesquisa de estilos, repertório e produção, nada acontecendo em menos de 12 meses) e, principalmente uma análise cuidadosa sobre as expectativas do seu público-alvo. Especialmente esta última categoria torna-se cada vez mais importante num momento em que temos tantas opções ao alcance de um simples portal de streaming. Ao artista não é mais permitido simplesmente gravar e impor pelos tímpanos adentro o que ele julga ser o estilo perfeito para seu público. A palavra de ordem deste momento é pesquisa e interação. Saber o que o público quer ouvir é meio caminho andado para se ter resultados positivos.

Tanto no dia-a-dia de lojistas, como de mídias ou mesmo artistas, as necessidades para alcançar uma performance positiva neste momento praticamente se assemelham de uma forma assustadora. Falamos muito de paixão e em todas as atividades é preciso ter este sentimento para que as atividades cotidianas sejam prazerosas e não jugo pesado e desestimulante. Não espere resultados espetaculares se você não trata sua atividade com a intensidade que ela demanda.

Se falta paixão no dia-a-dia em sua atividade, o melhor a se fazer é deixar o lugar disponível para que outro profissional possa desempenhar a função da forma correta!

Outra questão que falamos nos 3 casos é justamente a busca pelo conhecimento e aprimoramento. Informação é tudo ou meio caminho andado para o sucesso. Tantas vezes ouvimos esta expressão? Pois é, infelizmente muitas pessoas querem alcançar o sucesso tomando atalhos e renegar a importância do conhecimento é seguir por um caminho complicado e que geralmente não leva a lugar algum. Vivemos um tempo especial para quem busca pelo conhecimento. A tecnologia diminuiu as distâncias, aproximou culturas, transformou o mundo numa pequena comunidade e com isso, o conhecimento tornou-se democrático e acessível a todos, basta buscá-lo, somente isso!

Quem não busca conhecimento ou desenvolver-se em sua área de atuação determina seu próprio fim pelos próximos anos.

Se você é artista, mídia ou lojista, ou mesmo um profissional de qualquer outra área saiba que sucesso é decorrente de determinação, paixão, conhecimento, foco, transpiração, entre outras questões. O importante no processo de busca do sucesso é compreender que há algo diferente a ser feito, de que é necessário romper o estado inercial e a zona de conforto para buscar novos desafios e automaticamente ter melhores resultados. Lembre-se que não é possível ter resultados diferentes repetindo-se atitudes! É necessário mudar a visão e as ações para que tenhamos resultados diferentes! E quero finalizar apenas ressaltando que quando falo de sucesso, não significa de forma alguma o resultado financeiro ou o reconhecimento de terceiros. O verdadeiro sucesso é alcançado quando temos nós mesmos a satisfação e orgulho por nosso próprio desempenho e resultados. Sem paixão, conhecimento ou dedicação, tornaremo-nos pessoas frustradas e desinteressantes.

Boas mudanças!

 

Mauricio Soares, consultor, profissional de marketing, jornalista, bom de papo, alguém sempre disposto a contribuir com a melhora do segmento gospel e que atualmente não pára de assistir ao DVD Preto no Branco recém lançado com produção da Balaio Music. Boa dica de fim de ano!

0 664

Depois de uma semana intensa de textos produzidos em série, dei-me as devidas férias não só para descansar a mente, mas principalmente para selecionar alguns temas realmente relevantes para o blog. Depois de mais de 8 anos escrevendo para o Observatório Cristão é natural que tenhamos um pouco mais de dificuldade em trazer assuntos novos, ainda não abordados ou mesmo com uma dinâmica diferente de tudo o que já foi postado por aqui. De vez em quando me permito voltar a um determinado assunto já publicado por entender que há algo novo a se dizer, mas confesso que cada dia que passa fica bem mais difícil atender à demanda dos 66 leitores do blog.

Entre um e outro vôo procuro aproveitar meu tempo ocioso para atualizar os textos e ideias. Hoje começo este texto tentando embarcar no avião rumo à cidade de Goiânia onde participarei mais à noite de um pocket talk show com a participação do amigo Leonardo Gonçalves. Por questões metereológicas meu vôo já está com mais de 1h30 de atraso, aeroporto fechado, sem previsão de retomada do tráfego, saguão abarrotado de gente, enfim, o cenário (quase) ideal para escrever mais um post … e é nesse clima que eu gostaria de falar sobre um assunto que passa desapercebido de muita gente.

Dias atrás num almoço com colegas de trabalho, surgiu o nome de um determinado pastor. A pessoa que trouxe este assunto à mesa era membro da igreja dirigida por aquele pastor. Em meio a elogios e comentários positivos sobre sua postura como líder, uma característica especial se destacou entre tantas, a de que ele era muito, mas muito direto com a questão do dízimo. No discurso daquele pastor quem não ‘pagava’ o dízimo não teria direito a usufruir do conforto da sua igreja. A palavra era bastante forte e às vezes até meio agressiva. Não vou ater-me ao mérito desta questão, mas sim no comentário feito em seguida sobre este mesmo pastor. A colega de trabalho destacava que ele costumava levar vários cantores em suas reuniões, gente com uma proposta até bastante diferenciada, o que criava uma imagem de que aquele pastor curtia um som inovador, inteligente, criativo, fora dos lugares comuns. Até aí, tudo tranquilo, o problema veio na sequência quando a colega enfaticamente disse que o pastor não admitia pagar cachê aos artistas. Se eles quisessem tocar na igreja dele deveriam fazer isso de modo voluntário ou no máximo à custa de venda de CDs e DVDs.

Confesso que não estava tão atento à conversa naquele momento até que este fato me chamou a atenção com um misto de incompreensão e susto. Como o discurso daquele pastor que não aceita pessoas que não pagam pelo ar condicionado, pelas poltronas ou mesmo da oportunidade de ouvir uma pregação mantinha a coerência recebendo em sua igreja artistas sem querer remunerá-los por isso? Me parece no mínimo contraditória esta posição, ou não?

Não! Este texto não será sobre o batido, cansado e chaaaaaaaato assunto sobre se artista gospel deve ou não receber cachês. Nada disso! Apenas peguei esse fato acima para corroborar e pintar com cores mais vivas sobre o verdadeiro assunto que passo a discorrer nas próximas linhas, concentrado também no sistema de alto falantes do aeroporto esperando ser convidado ao meu vôo.

Boa parte dos pastores vive do salário de sua igreja. Outros tantos mantêm um trabalho ‘convencional’ em paralelo. Alguns complementam seus ganhos com a venda de livros, palestras, congressos, ofertas, entre outras coisas.Já os artistas vivem da venda de shows, apresentações em igrejas, da venda de discos (e mais recentemente de vendas digitais), camisetas, bijouterias e muitas outras fontes de receita. E o compositor vive de qual receita? Basicamente os compositores vivem do percentual pago sobre a vendagem dos discos (físico e digital), isto no caso de autores com músicas gravadas por artistas vinculados a gravadoras (sérias!). Quando as músicas são gravadas por artistas independentes e algumas gravadoras (não tão sérias!), os compositores optam por receber um valor fixo adiantado. Vale ressaltar que uma música NUNCA é de fato vendida, pois a propriedade autoral é um bem inalienável, ou seja, jamais pode ser de fato transferido para um terceiro. Não por vias normais, é claro!

Outra fonte de receita dos compositores é proveniente da execução, ou seja, rádios, programas de TV e mais recentemente plataformas digitais, repassam aos compositores a parte que lhes cabe nesse enorme latifúndio. E aqui vale mais um adendo importante, pesquisando atentamente nos últimos meses sobre as mídias do segmento evangélico que recolhem o ECAD corretamente, a constatação estarrecedora é de que a imensa maioria das emissoras simplesmente se recusa a pagar o que se refere à execução. Simplesmente não pagam e fica tudo como está. O mais absurdo nesta história é que algumas destas emissoras são vinculadas a grandes igrejas, usam suas programações para pedir oferta 24 horas por dia e, absurdo dos absurdos, cobram dos artistas para que músicas sejam veiculadas na playlist. Ou seja, não só não pagam a quem de direito, como penalizam duplamente ao cobrar dos artistas pela execução.

Além da execução fonomecânica, os compositores também recebem percentuais pela apresentação de suas músicas em shows ao vivo. Qualquer evento, seja gratuito ou ingressado, que não seja realizado nas dependências de alguns ambientes específicos, tais como igrejas, templos ou afins, são obrigados a recolher uma taxa ao ECAD. Este valor será repassado posteriormente às associações e no fim chegará ao compositor, podendo ainda passar por uma publisher, caso o autor tenha este vínculo.

Em suma, diferentemente de boa parte dos trabalhadores, a classe de compositores não recebe seus rendimentos de forma direta e padronizada como qualquer empregado ao fim do mês. Independente do canal, o compositor sempre receberá um percentual, sobre fontes variáveis e basicamente em intervalos trimestrais. Ou seja, este profissional precisa ser muito produtivo, ter controle de seu dia a dia e não pode simplesmente abrir mão de determinadas receitas. Pois é justamente neste ponto que eu gostaria de escrever mais algumas linhas ‘aproveitando’ que meu vôo já ultrapassa atraso de mais de 2h30.

É meio que prática usual junto aos promotores de shows no meio gospel a solicitação para que autores simplesmente abram mão de receber seus direitos. Desde que me entendo como gente no mundinho gospel recebo solicitações desesperadas de pastores, promotores de eventos – geralmente faltando poucos dias para o evento – pedindo pela cessão de direitos autorais. Confesso que não entendo a lógica neste tipo de pedido, afinal a empresa que monta o palco recebe pelos serviços, o mesmo acontece com a empresa de sonorização, a agência que emite as passagens aéreas, os seguranças, a empresa de catering, as mídias que divulgam o evento, os artistas que irão se apresentar no palco … e muitas das vezes, o promotor do show sairá com uma bolsa recheada de dinheiro, fruto de seu tempo, esforço e dedicação. Ou seja, é lícito que toda a cadeia de envolvidos no processo seja devidamente remunerada por seus respectivos serviços.

Então por que o compositor, que é onde todo o sucesso começa, não merece participar do processo sendo remunerado de forma correta, profissional e ética?

A indagação é tão clara que não me sinto impulsionado a escrever mais tantas linhas na sequência. Os nossos 66 leitores já entenderam perfeitamente o objetivo central deste texto. Precisamos ser mais atentos a tudo que nos cerca, aos detalhes. Não podemos simplesmente reproduzir o que vem acontecendo nos últimos anos. É necessário analisar as questões por todos os ângulos e contemplando todas as pessoas envolvidas. Lembre-se que a regra básica e saudável de todo bom negócio é quando todos saem ganhando. Simples assim! E nesta mudança de hábito, a participação de artistas e gravadoras opondo-se a esta prática é fundamental! Não dá para deixar a classe de compositores sozinha figurando como vilã ao dizer ‘não’ a este tipo de solicitação. É importante que se tenha em mente de que todos são merecedores de receber por seu tempo, talento e dedicação.

Finalizo este texto já no saguão do aeroporto retornando para o Rio de Janeiro após uma noite especial participando do evento Encontro com a Voz FM, uma bela iniciativa que em 2016 iremos reproduzir em outras cidades do país.

Enjoy!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, contando os dias para entrar em férias com toda a família.

Algumas práticas no meu dia a dia como executivo de uma gravadora, por mais que pareçam óbvias, efetivamente assumiram uma importância maior para mim somente nesta última fase de minha vida profissional. Estas novas práticas que hoje encaro como verdades absolutas, talvez sejam o maior ganho que tive nos últimos anos dentro do upgrade que conquistei do ponto de vista profissional. Aos mais próximos e amigos não tenho constrangimento algum de confessar que mesmo reconhecendo que no meio gospel sempre tive um certo destaque entre meus pares, especialmente nestes últimos anos considero que consegui ter um ganho de no mínimo uns 80% em minha expertise. Isto apenas comprova como o game no meio secular é completamente outro em comparação com o que vivenciamos no mercado gospel tupiniquim. E arrisco a dizer que este abismo entre estes dois mundos tende cada vez a aumentar mais.

Duas práticas em especial posso destacar entre estas novas atitudes que para mim tornaram-se fundamentais. A primeira é a questão – como já falei antes, é vergonhosamente óbvia, mas também verdadeira – de que todo projeto deve ser analisado criteriosamente sobre sua viabilidade econômica e comercial. Até então, todo projeto ou mesmo contratação era simplesmente analisado do ponto de vista do empírico: Vende ou não vende? Tem ou não tem mercado? Tem ou não tem potencial? Convenhamos que este tipo de análise meio Mãe Dinah, ainda mais nestes tempos bicudos que vivemos no Brasil em decorrência de uma política econômica desastrosa dos gênios (só que não!) petistas. A verdade é que o atual momento do mercado, em especial, do segmento fonográfico, não se permite futurologismos, achismos, sorte ou coisas do tipo. Todo projeto ou investimento deve ser devidamente planejado, analisado com critérios realistas onde as margens de erros e surpresas devam ser mínimas. É fato também que nenhum diretor artístico por mais genial que seja pode determinar categoricamente que este ou aquele artista será um sucesso estrondoso ou de que uma música se tornará um hit meses depois de ser lançada.

Como já escrevi há alguns anos aqui mesmo no blog, posso tranquilamente elencar várias atitudes e estratégias que farão com que um artista ou projeto chegue ao sucesso. No entanto, mesmo que todas estas ações sejam realizadas, não podemos de forma alguma garantir o êxito completo. Já em contrapartida, posso de igual forma destacar 10 passos para um rotundo fracaso e neste caso, garanto que a simples execução de um destes passos podem levar o incauto ao mais absoluto desastre. O risco é iminente na área artística, porém jamais deve servir como desculpa para vôos cegos onde o fator sorte é mais do que determinante para o sucesso de um projeto. Saber planejar, projetar, calcular, entender os caminhos do mercado, tendências e oportunidades é fundamental na análise sobre a viabilidade de um artista ou disco. E neste momento de transição, em especial, analisar e observar detalhes é vital. Por exemplo, artistas que até tempos atrás tinham uma boa vendagem de discos, mas que hoje têm baixa ou nenhuma força nas plataformas digitais merece atenção dobrada. As possibilidades deste mesmo artista manter-se vigoroso nas vendas físicas são bastante reduzidas. Então, claramente os investimentos projetados há 3 ou 4 anos atrás devem ser revistos dentro de uma nova realidade.

Ao longo dos últimos anos tenho alguns casos em que aparentemente o projeto deveria ser interessante do ponto de vista do investimento, mas que após análises e projeções mais técnicas optamos em não seguir adiante. No passado avaliava-se o histórico do artista em vendas. Hoje em dia avalia-se as projeções futuras de resultados dentro de uma nova ótica. Ou seja, antigamente nos processos de análise de viabilidade econômica o foco era no passado. Neste momento, este foco é alterado radicalmente e passamos a analisar o que está à frente. E neste caso, é importante que a própria classe artística entenda que estamos diante de um novo momento e que expectativas precisam ser repensadas dentro deste cenário atual. Muitos artistas ainda acreditam (ou preferem enganar-se) de que continuarão a ter vendas expressivas de discos pelos próximos anos. Querem manter seus status, suas regalias e principalmente o modelo antigo de relação com suas gravadoras onde tudo cai na conta da empresa e aos artistas, só os benefícios.

Hoje em dia os artistas precisam ser mais participantes do negócio e passar também a dividir com as gravadoras de forma mais equilibrada as despesas e receitas.

É óbvio que quando se fala em dividir o bolo, qualquer ser humano se retrai, mas a realidade é que neste momento (e tudo indica que será assim de agora em diante) os artistas precisarão ter postura de sócios e não de empregados. Esta mudança de cultura não é simples, não será feita sem traumas e dores, mas como todo ajuste inevitável, deverá acontecer mais dia, menos dia.

E antes de seguir para meu segundo ponto, quero esclarecer que não estamos diante de uma recessão no mercado fonográfico. Muito pelo contrário, o que acontece neste momento é uma fase de ruptura com práticas passadas e o início de uma nova etapa no processo. E como qualquer mudança, há insegurança, incerteza, mas também há oportunidades enormes pela frente.

Quem primeiro entender e decifrar este novo mercado certamente sairá na frente da concorrência e afirmo isto não somente às gravadoras, mas muito também aos artistas.

Assim como a análise de viabilidade financeira tornou-se fundamental no processo de investimento em projetos e artistas, outro aspecto mudou radicalmente nos últimos tempos e que também tem a ver com o processo de análise para contratação. Se em tempos atrás um artista era avaliado basicamente por seu histórico de vendas, no caso de artistas com algum tempo de mercado, ou por seu talento, carisma, perfil ou aspectos mais subjetivos, hoje em dia os critérios são outros e bem mais amplos do que os de até então. No passado a pergunta geralmente girava em torno de quantos discos aquele determinado artista vendera do último projeto. Depois a esta pergunta incluía-se a dúvida sobre a quantidade de shows. O artista tem uma agenda de eventos intensa? Tempos depois, já no início da era digital havia mais uma fonte de pesquisa. Além de informar-se sobre vendas e shows, o diretor artístico pesquisava a respeito das visualizações de clipes, imagens de shows e afins. O YouTube passou a ser mais uma importante fonte de pesquisa.

Hoje em dia, dentro do rigor e assertividade no processo decisório para se investir, as gravadoras passaram a analisar vendas físicas, agenda de eventos, quantidade de visualizações nos canais de vídeos, presença e relevância nas redes sociais do artista, resultados de vendas digitais, número de seguidores nas redes sociais e respectiva relevância de suas postagens. Neste item em especial reside boa parte da análise no momento, pois não necessariamente artistas com alto número de seguidores significa relevância junto ao público. Há casos clássicos de artistas com milhões de seguidores onde suas postagens são compartilhadas por míseros seguidores e outros artistas com menor número de fãs e altíssimo alcance de suas postagens.

Atualmente é bem mais comum gravadoras investindo em artistas sem discos lançados que tornaram-se conhecidos nas plataformas de vídeo. No meu caso, em especial, um jovem artista que possui alto número de visualizações e bom engajamento nas redes sociais passa a ser analisado de uma forma bem diferente. Recentemente temos dois casos que exemplificam perfeitamente este novo momento da música e do mercado. Por exatos 5 dias consecutivos, Os Arrais e Priscilla Alcântara figuraram no topo de vendas do iTunes no Brasil. O frisson que estes 2 produtos causaram nas redes sociais deram uma noção da enorme expectativa do público pela chegada destes produtos às plataformas e prateleiras das lojas. Tanto Arrais como Priscilla são artistas que sabem lidar muito bem com o marketing digital e trabalharam em sintonia fina com a equipe de marketing e planejamento da gravadora. O resultado foi fantástico! E engana-se quem imagina que este sucesso limita-se apenas ao universo digital. Ledo engano. As respectivas tiragens de “Paisagens Conhecidas” e “Até Sermos Um” já esgotaram-se no formato físico apenas poucos dias depois de entrarem no estoque da gravadora. Ou seja, neste momento as mídias físicas e digitais se completam fomentando-se uma a outra numa simbiose perfeita! Além disso, Os Arrais terão uma mini-turnê por 6 capitais no Brasil nas próximas semanas e todos os ingressos (Isso mesmo! Todos os ingressos. Sold Out) encontram-se esgotados. De igual forma, a agenda de Priscilla Alcântara está lotada de compromissos em todo o Brasil. Nas próximas semanas a espevitada e super bem humorada cantora estará por Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Recife, Fortaleza, Goiânia, Brasília e outras dezenas e dezenas de cidades. Ou seja, estamos diante de dois artistas jovens, que até então eram desconhecidos do grande público e que através de uma boa estratégia e planejamento utilizando o mundo digital, tornaram-se relevantes no mundo físico.

Vou me despedindo a partir daqui porque já estou chegando à capital federal para um dia inteiro de reuniões e muito trabalho. Para quem ainda não conferiu os novos projetos de Os Arrais e Priscilla Alcântara fica aqui minha sugestão. Aproveitando o momento #FicaaDica quero incentivar aos 66 leitores a clicarem no espaço de vídeos de nosso blog para conferir o clipe do talentosíssimo Wesley Santos do Hora Nona. Fiquem ligados nessa turma!
Abraços a todos!

 

Mauricio Soares, jornalista, marqueteiro, blogueiro, tricolor e torcedor pela saída do PT e sua quadrilha do governo.

No dia 20 de outubro a gravadora Sony Music lançou um projeto inédito e inovador, uma nova forma de lidar com a música dentro do conceito de divulgação e entretenimento através da web. O projeto Sony Music Live é uma grande aposta da empresa e tem tudo para ser também implantado nas filiais da companhia em outros países. A expectativa pelo sucesso do projeto é enorme e levando-se em conta os primeiros resultados e impressões de quem já conferiu e entendeu a iniciativa, as projeções são as mais positivas. O projeto que começou junto à área de música gospel já foi devidamente incorporado para toda a empresa, ou seja, nas próximas semanas teremos episódios do Sony Music Live com artistas cristãos e seculares em diferentes dias da semana.

O insight para este projeto surgiu durante minha última visita à sede da Provident, braço de música cristã da Sony Music localizada em Nashville, EUA. Numa reunião com os executivos da companhia questionei-os sobre a ausência de lançamentos de projetos de DVDs e a resposta deles foi categórica: “Não gravamos mais DVDs! Não há mercado mais para este formato. O DVD além de muito custoso rapidamente é disponibilizado na web. Ou seja, ficou um projeto inviável economicamente. Temos investido cada vez mais em conteúdo para a internet!” Ouvi atentamente aquela explicação e passei a pesquisar mais a respeito desta mudança no formato.

Nas semanas seguintes passei a freneticamente pesquisar modelos de clipes e afins, uma infinidade de conteúdos artísticos disponíveis na web. Percebi que nem sempre os clipes mais elaborados eram os mais acessados. Há um vídeo emblemático que sempre cito quando conto às pessoas sobre todo meu processo de pesquisa. Um determinado artista pop do primeiro time da música mundial, ganhador de diversos prêmios, com milhões de discos vendidos, inúmeros hits no topo da parada de rádios, pois bem esse mega pop star tem alguns vídeos quase caseiros, um dos quais gravado numa pequena livraria, com apenas uma câmera, sendo acompanhado por 2 músicos, inclusive o tecladista com uma mochila pendurada às costas. Em suma, a preocupação com a produção em si era a menor possível, o conceito é apresentar o artista e principalmente, sua arte em primeiro plano. Este vídeo tem mais de 50 milhões de views. Isso mesmo! Mais de 50 milhões de visualizações, o que certamente trouxe uma monetização absurda, tornando aquele simples vídeo uma ferramenta não só de divulgação, mas principalmente de geração de receita.

Em paralelo à pesquisa na web, comecei a estudar os números do mercado digital e observando linha a linha as receitas que aferimos em nosso projeto local constatei de que mais de 60% da receita digital de minha área era proveniente das plataformas YouTube/Vevo. Algo interessante começava a tomar forma naquele momento. Muitas reuniões depois com a equipe de New Business da gravadora comecei a formatar o projeto com meu parceiro de ‘viagens criativas’, Hugo Pessoa. Chegamos a uma ideia mais elaborada e apresentamos o projeto à gravadora com embasamentos técnicos, criativos e principalmente econômicos. Projeto e budget aprovados partimos para uma terceira fase, a realização do projeto em si e aí mais uma vez analisamos quais deveriam ser os artistas mais adequados para uma primeira fase do projeto. A dúvida era entre artistas muito populares ou artistas com relevância nas redes sociais e visualizações. Listas e seleções feitas, chegamos a um cast inicial de 10 nomes.

Mais reuniões, mais análises, muitas ideias foram surgindo nas reuniões de brainstorming com a equipe de Marketing Digital e New Business até que chegamos ao formato final que irá disponiblizar conteúdo inédito sempre às terças-feiras a partir das 18h no canal Sony Music Live no YouTube. Após acessar ao canal, o público irá migrar automaticamente para a plataforma VEVO onde ficarão os vídeos alocados nas páginas dos respectivos artistas. Por semana serão lançados entre 3 a 4 novos vídeos de um mesmo artista. A cada semana um novo artista será apresentado com episódios inéditos. Gabriela Rocha, Paulo César Baruk, Salomão do Reggae, Marcela Taís, Trazendo a Arca, Priscilla Alcântara, Leonardo Gonçalves, Os Arrais, são alguns dos artistas já confirmados na série que conecta pessoas e artistas dentro e fora dos palcos. O processo de seleção dos artistas passa prioritiariamente pelo grau de potencial de visualizações que cada artista traz em si. Neste item, alguns jovens nomes saem bem à frente se comparados com alguns medalhões do mainstream gospel.

Sony Music Live não é um DVD e muito menos um clipe. A cada episódio a série é gravada em um cenário inédito e exclusivo que nunca se repetem. Cada artista tem um conceito próprio e isso é respeitado pelos diretores de cada episódio, ou seja, manter uma proposta artística de acordo com o estilo de cada intérprete. Então, a cada semana o público sempre terá surpresas e muitas novidades. Após a estréia, cada episódio ficará disponível no canal oficial da série no YouTube e também nos canais exclusivos de cada artista na VEVO.

Sony Music Live é uma nova forma da indústria fonográfica lidar com as novas culturas, novas tecnologias, novos hábitos. Uma nova experiência se apresenta onde o público terá oportunidade de assistir a conteúdo de qualidade de uma forma diferente. Não costumo usar o blog para falar de projetos pessoais, mas neste caso abro mão de minha própria regra, afinal este é, sem dúvida, um projeto que tem tudo para sinalizar um caminho bastante interessante no mercado fonográfico, nada mais pertinente para o espírito deste blog.

Tenho me repetido muito ultimamente e batido sempre na tecla de que a música hoje em dia é totalmente visual. A própria expressão “você ouviu?” já foi alterada para “você assistiu?” tamanha a importância do vídeo na experiência do público com a música. Esta nova relação é o conceito gênese do projeto Sony Music Live, proporcionar ao público uma mudança no contato com o artista e sua música. Se você ainda não conferiu este projeto, fica a dica!

Enjoy!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, diretor artístico e alguém ainda apaixonado pela música em suas diferentes formas e ambientes. Viva a boa música! Sempre!

0 777

Gosto de observar meus filhos conversando entre si. De vez em quando me pego contemplando o jeito de cada um dos três meninos que tenho em casa. O meu primogênito já com 1,80m de altura, jeito de rapazinho, no auge da adolescência dos seus bem curtidos 15 anos de vida. Meu ‘filho do meio’ é um caso à parte com suas tiradas engraçadas e espirituosas vivendo a transição entre a infância e o início da adolescência com seus 12 anos de idade. Por fim, o caçula Benjamim que deixou a casa de ponta cabeça revertendo todos os planejamentos familiares feitos até então. Uma figurinha cativante, alegre e que já sabe se virar com impressionante jogo de cintura ao apresentar-se como bebê ou menino grande da forma que melhor lhe beneficiar. Cada um tem um jeitinho próprio, suas vontades, seus desejos, suas formas de expressão … mas uma coisa em especial todos repetem a mesma toada em níveis diferentes: são aficcionados em informação! E de preferência através de equipamentos eletrônicos, seja um tablet, computador, TV, web ou seus smartphones.

É até um pouco assustador ver como esses meninos já estão completamente conectados. E não ache que exagero quando afirmo que até o bebê (ou menino grande) de 3 anos de idade já está nesta vibe tecnológica. Não mesmo! Ele já liga a TV, consegue chegar no seu canal de preferência e por ali delicia-se assistindo à espevitada Peppa, SuperWings e tantas outras atrações. Esse mesmo rapazinho já pega meu celular ou um dos tablets de casa pra assistir a vídeos ou até mesmo acessar a jogos onde ele acredita estar realmente participando de uma partida. O mesmo acontece com os irmãos mais velhos que muitas das vezes são chamados pelos pais para ajudarem a resolver algum problema no computador ou coisas do tipo. Essa geração está conectada o tempo todo. Em algumas vezes chego a dar uma reprimenda neles pedindo para não entrarem na maratona neurotizante de migrar de um aparelho para outro em sequência. Será que só lá em casa isso acontece? Do menino sair do tablet, emendar no video game, voltar ao celular, computador e por aí em diante? Imagino que não …

Muda a cena …

Recentemente visitei os estúdios de TV de uma emissora de programação cristã ligada a uma denominação importante de nosso país. Estive por ali em algumas vezes pelo menos nos últimos 15 a 20 anos talvez. A impressão que tive ao descer às escadas de acesso para chegar aos estúdios era de que estava voltando à década de 90 porque tudo ali me remetia justamente ao passado. Os mesmos ‘puxadinhos’, estúdios acanhados, cenários simplezinhos, tudo muito improvisado no melhor estilo ‘tá dando pro gasto’. Em tempos de TV digital os equipamentos ainda mantinham um certo ar vintage, tudo seguia aquele mesmo script de ‘túnel do tempo’.

Diante daquela experiência passei a observar as outras áreas daquela mesma denominação. Além da TV, há emissoras de rádio, editora, gravadora, call-center, site, livrarias, todo um complexo para distribuir, produzir e atender o público com conteúdo gerado pela liderança da própria igreja. A TV, como já falei acima, está bem distante do ideal de uma emissora, não só pela questão de equipamentos mas também (e talvez principalmente) pela qualidade de sua programação. O improviso parece ser a palavra de ordem naquele ambiente. O mesmo acontece com as emissoras de rádio que não têm profissionais, uma plástica adequada e moderna, playlist atualizada, boa posição nas pesquisas de audiência, equipamentos potentes e por aí vai. A gravadora, segue a mesma linha, distribuindo ‘artistas’ do próprio universo da denominação sem que seus trabalhos consigam romper o território familiar do gueto em que se isolaram. E esta característica se repete na editora, nos eventos e todas as demais empresas do grupo. O que aparentemente é uma potência de comunicação, na verdade é uma sucessão de empresas e nomes de fantasia com alcance reduzido, qualidade duvidosa e resultados financeiros bastante acanhados.

A única área que realmente se destaca com maestria é justamente o conteúdo que sai do púlpito da sede daquela denominação. O líder supremo é um orador com excelência, um pastor dedicado, atencioso com suas ovelhas, humilde, bom papo, fino trato. Só que seu lado empreendedor carece de um melhor foco e, principalmente de organização, planejamento, mão de obra especializada e critérios. Não tenho a menor dúvida de que se este líder interrompesse todos os projetos para dedicar-se somente a um objetivo, os resultados seriam potencialmente diferentes. Se em vez de dedicar-se, ou melhor, abrir várias frentes de atenção, o foco estivesse, por exemplo, somente em seu canal de TV, certamente haveria recursos para que a emissora se transformasse em um padrão de qualidade em nosso meio. Numa segunda fase, talvez, já com a TV resolvida, esta denominação poderia dar foco em um segundo projeto, que na verdade, seria fortalecido ainda mais por ter uma audiência forte e de qualidade na TV. Na verdade é tudo co-ligado! Se a TV estiver forte, as demais empresas poderão seguir o mesmo ritmo. O problema é quando nada está bem e todas se anulam mutuamente numa sucessão de frustrações.

Um exemplo de sucesso que me vem à mente neste assunto é a Rede Record que pertence à Igreja Universal do Reino de Deus. Durante algum tempo a IURD mantinha o foco em diferentes áreas como agência de turismo, instituição financeira, emissoras de rádio, TV, gravadora, editora … seguindo o mesmo padrão de diferentes denominações. Até que um dia eles decidiram dedicar todo o foco, atenção, esforços, melhores profissionais e, principalmente recursos financeiros no fortalecimento da Rede Record. O resultado é que hoje esta emissora rivaliza em equipamentos, audiência, faturamento e qualidade com concorrentes bem estabelecidos. Na minha última viagem à Portugal tive a oportunidade de conhecer os estúdios da Record e saí de lá maravilhado com a qualidade da estrutura e dos equipamentos. Certamente a Rede Record de Portugal é uma das mais bem aparelhadas emissoras de toda a Europa, não devendo nada às mais importantes emissoras do mundo.

Mudança de cena parte 2 …

O talentoso e prodigioso cantor aventura-se a começar a produzir seu próprio trabalho. Arranjos, composições, instrumentos … tudo passa pelo crivo e ação do próprio artista. Tempos depois ele passa a produzir para outros artistas. Horas, dias, meses de estúdio. A rotina dividida entre produções de terceiros e apresentações de seu próprio trabalho. Já não satisfeito com a correria, o artista e produtor multitarefas se acha preparado para ter seu próprio selo. A partir daí ele se investe na figura do empresário. Dali para ele ter também uma loja virtual vendendo de discos a camisetas, passando por badulaques, livros e tudo mais é apenas mais um passo.

Mas isso tudo já não é suficiente. Além de artista, compositor, produtor, arranjador, empreendedor, esse rapaz também acredita que tem um chamado especial para Washington Olivetto, então passa a elaborar estratégias de marketing. Suas redes sociais são invadidas por posts onde ele divulga sua linha de camisetas, suas pulseiras, agendas, seus eventos e tudo mais. Ele também tem umas tiradas engraçadas e passa nas horas vagas a fazer um bico de Stand Up Comedy Gospel. Ele é hilário! Sensacional! E em tempos de redes sociais porque não criar logo um Vlog, um canal de vídeos no YouTube? Então agora ele também assume seu lado pastoral postando diariamente pílulas com mensagens de “Alto Ajuda” e afins.

O dia de um ser humano ativo como o mencionado acima é igual ao seu e ao meu, ou seja, tem ‘apenas’ 24 horas, então por mais que ele seja (e se julgue) um prodígio digno das tirinhas de Stan Lee, a verdade fria dos fatos é de que em alguma (ou algumas) área específica as coisas não caminharão tão bem como se espera. É humanamente impossível manter o nível de qualidade elevado com tantas atividades que demandam dedicação e atenção o tempo todo.

Pra fechar a cena …

Estamos diante de um período especial no meio evangélico no Brasil. O segmento cresceu muito nas últimas décadas, rompeu barreiras, conquistou muitas coisas, mas agora estamos diante de uma fase determinante de como seremos para as próximas gerações. A fase do eu-faço-tudo ou da gambiarra-gospel definitivamente não tem mais espaço nos dias atuais. A necessidade de um salto de qualidade após a fase do crescimento, do aumento da quantidade é uma questão de sobrevivência.

E esta necessidade de se organizar melhor as coisas não tem nada a ver com o que saem apregoando os puristas que vociferam seus discursos contrários à profissionalização, ao uso correto do marketing ou mesmo de estratégias como se isso fosse mercantilizar ou afastar a fé genuína e a sã doutrina dos caminhos bíblicos. Organização, método, planejamento, profissionalismo, qualidade, entre outros aspectos, devem fazer parte do dia a dia das igrejas, empresas, veículos de comunicação e por aí vai …

Como aqui sempre procuramos direcionar os textos para a classe artística, entendendo que entre os 66 leitores temos alguns desta área, esta posição de organizar os objetivos, estabelecer as metas, elaborar as estratégias e rodear-se de profissionais gabaritados para melhores resultados, também se aplica à carreira artística. Aqueles que entenderem este recado, certamente terão melhores condições de consolidarem suas carreiras de agora em diante.

E tendo dito!

 

Mauricio Soares, consultor de marketing, publicitário, jornalista, um ser em constante ajuste buscando sempre ser melhor.

Já estamos caminhando para o nono ano de atividades no Observatório Cristão. Por aqui tivemos muitos textos relevantes, outros nem tanto, muita informação, algumas projeções que tornaram-se realidade tempos depois, muito humor, dicas, críticas. Enfim, de tudo um pouco. O que me motiva a reservar um tempo de meu dia a dia para dividir minhas experiências, conhecimento e observações é a sensação prazerosa de poder contribuir aos nossos 66 leitores com um melhor entendimento do que nos cerca no meio artístico, fonográfico e religioso. O dia em que eu sentir que minha contribuição já não é mais tão importante, da mesma forma com que surgi, certamente irei sumir, sem deixar muitas explicações ou explicações.

O texto que escrevo neste momento já foi iniciado, interrompido e abortado, pelo menos umas 6 ou 7 vezes nas últimas 3 semanas. O tema esteve claro à minha mente por estes dias, mas o desenrolar do texto não seguiu a mesma tendência e por isso, travei … não consegui concluir a tarefa com a qualidade que me auto-imponho como padrão do blog. Então, mais uma vez tentarei tecer algumas linhas que falem sobre MOTIVAÇÃO. Espero que consiga chegar ao fim com a satisfação de ter entregue algo de valor aos meus seletos ‘observadores’.

Dias atrás conversei com um artista do meio gospel. O jovem tem uma agenda intensa de apresentações em igrejas, shows, congressos. Em meio a uma ou outra viagem, pausas para atender mídias, gravar vinhetas, atender pessoas. A rotina é intensa e estafante. Ele me conta sobre alguns casos engraçados entre tantas viagens, alguns outros ‘perrengues’ como viagens em monomotores, estradas de terra e coisas do tipo. A sua aparência é de alguém no limite do cansaço e da estafa, no entanto, em nenhum momento ouço queixas de sua parte pela rotina massacrante dos últimos dias. Pelo contrário, só ouço comentários efusivos de sua parte e relatos emocionados do que Deus tem feito através de sua vida. Acho interessante porque um dos indicadores do resultado de seu trabalho não é a quantidade de pessoas em seus eventos, mas sim, o número de testemunhos e conversões em cada evento. E engana-se quem imagina que este referido artista seja um destes jovens iniciantes, cheios do primeiro amor, de idealismo e expectativas. Estou falando de uma pessoa com muitos prêmios, com grandes sucessos, com agenda intensa, uma carreira sólida e de credibilidade.

Também recentemente conversei com outro artista e ele me relatava a mesma experiência, ou seja, agenda cheia, muitos compromissos, muitas entrevistas, participação em programas de TV, muito trabalho. A diferença consistia nos comentários pessoais sobre toda esta rotina. Em vez de comemorar as conquistas, o cantor apenas reclamava de que estava no limite, de que em algumas vezes o valor do cachê não fora suficiente para suas expectativas, de que o tempo de deslocamento para algumas apresentações era enorme e por esta toada seguia numa lamentação sem fim até que num determinado momento começou a reclamar da obrigação de ter que ficar tirando foto com todos que o pediam por uma selfie. Ouvi aquilo tudo com um misto de tristeza e decepção por constatar in loco o quanto aquele jovem artista estava distante da real motivação de um artista cristão

A carreira artística por si só não é fácil. Sempre me assustei com a ideia de repetir um mesmo roteiro por 1, 2 até 3 anos inteiros. É exatamente isso o que acontece com o artista. Ele repete um mesmo repertório por loooooooooongos meses até que o substitua por outras canções. Há artistas que interpretam a mesma música por décadas e são reconhecidos por isso. Eu não consigo me ver nesta situação, tendo que repetir-me inúmeras vezes com o mesmo script. Além disso, o artista é obrigado a conviver com deslocamentos constantes por aeroportos nada confortáveis, vôos com horários tresloucados, conexões desconexas, atrasos sistemáticos, bagagens extraviadas e por aí vai. Tem ainda a questão de dormir fora de casa enfrentando desde hotéis 5 estrelas a quartos/pousadas de beira de estrada, passando ainda a casas de irmãos (já passei por isso e vivenciei coisas inimagináveis) e outras roubadas.

Já a questão gastronômica é um capítulo à parte. Nos meus tempos de integrante de um grupo musical já fomos agraciados com cachorro quente de carne moída após horas e horas de viagem, macarrão sem molho, refrigerante quente, estrogonofe de batata palha, entre outras iguarias. Não são raras as vezes em que o artista vai jantar após um evento já pela madrugada tendo que seguir viagem apenas poucas horas depois. Em suma, a vida artística é uma sucessão de experiências inusitadas e poucos são aqueles que podem chegar a um determinado momento em que podem decidir excluir-se de toda e qualquer agenda mais arriscada. No geral, é uma vida de sacrifício e muita dedicação.

A grande questão é: como encarar a carreira artística, em especial, no meio cristão? Se for só pela grana, arrisco a dizer que assim como no futebol onde temos craques como Neymar, Ronaldo, Kaká, entre outros vivendo muito bem, a verdadeira realidade é que a esmagadora maioria dos atletas vive com no máximo 2 salários mínimos. O glamour da vida artística não condiz com a realidade de boa parte dos cantores e cantoras, seja no meio secular como também no segmento religioso. Então, se a sua expectativa e principal motivação para ingressar no universo artístico for uma estabilidade financeira, arrisco a dizer que você pode estar seguindo uma trajetória perigosa e que no futuro traga frustrações e problemas maiores.

Um artista cristão deve antes de tudo ter uma motivação clara e dela não se afastar um único instante. A principal motivação de um artista religioso deve ser que ele seja um instrumento para que a Palavra de Deus seja pregada ao maior número de pessoas. Este é o ponto! Qualquer coisa diferente disso certamente estará fora do foco do que Deus quer para a vida e ministério de um artista cristão. Tudo o mais será resultado desta motivação e em nenhum momento, por mais benefícios que possa alcançar, nada será mais valoroso do que ver o resultado de todo seu esforço atingindo e transformando vidas. A motivação de um artista cristão jamais deve ser o reconhecimento pessoal, jamais deve ser a remuneração financeira (que virá naturalmente pela qualidade do trabalho), jamais deve ser a visualização e reconhecimento de seu próprio trabalho. Antes de qualquer outra questão, a motivação deve ser o próximo e a mensagem libertadora e transformadora de Cristo. Todo é resto será sempre o resto, nada mais do que o resto.

Minha palavra de hoje é de que todos possam reavaliar suas reais motivações, metas e objetivos. Se o EU estiver à frente de qualquer uma destas motivações, é hora de rever seus conceitos. Se o PRÓXIMO estiver à frente das motivações, tudo indica que esteja no caminho certo. Infelizmente, vivendo neste mundo artístico por tantos anos, já tive que lidar com situações absurdas onde o EU imperou por inúmeras vezes causando desapontamentos e decepções homéricas. E este texto não foca somente nos artistas cristãos, mas para qualquer pessoa, em diferentes áreas de atuação, pois a mensagem de Deus é clara e abrangente, não- excludente, democrática, ampla, geral e irrestrita.

Ainda dá tempo de mudar suas motivações. Pense nisso!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, blogueiro.

11 962

Alguns temas que surgem no nosso dia a dia muitas vezes acabam tornando-se pautas por aqui no Observatório Cristão. Há insights que rendem um belo texto, alguns até mais do que um único post e tantos outros merecem especial atenção mas não se sustentam para mais do que 2 ou 3 parágrafos. Então, numa tentativa de não deixar de lado estes temas nanicos, o post de hoje será composto por vários pequenos assuntos que estão diretamente relacionados ao nosso mundinho e cotidiano gospel.

Começamos pelo marketing-carona. Nunca ouvi esse termo sendo utilizado, então posso jactar-me de criar esse novo formato de ação estratégica de marketing. Longe de sentir-me um marqueteiro ‘acima da média’ vou ‘baixando minha bolinha’ e explicando de bate pronto o que vem a ser isto. Hoje em dia este recurso vem sendo amplamente utilizado, em sua grande maioria por cantores jovens e sem expressão e, nada mais é do que a postagem de vídeos e clipes nas áreas de comentário nas redes sociais. Já vi marketing-carona no Instagram, no Twitter, mas especialmente no Facebook ele se alastra como uma sarna. É um tal de “confira o clipe do fulano de tal”, “veja o clipe da cantora tal” … e tudo isso rivalizando em atenção com o post original publicado.

Muitas das vezes essa ‘estratégia’ é usada à exaustão! Outro dia entrei na fanpage oficial da empresa em que trabalho e estava ali postado nas últimas 20 inserções dos artistas e notícias da gravadora, um famigerado vídeo de um artista do norte do país que se dizia ser a grande sensação do arrocha gospel … pânico total! Parecia uma espécie de maldição … por onde eu clicava aparecia aquele vídeo horroroso como se fosse uns zumbis de walking dead.

Então, que fique bem claro aos artistas e seus “açessores”: fanpage é algo pessoal, intransferível e não se deve invadir, mesmo que seja para pedir ajuda para as crianças albinas da Etiópia. Marketing carona é over demais! Cafona demais! Além de ser um claro atestado de mediocridade e oportunismo desclassificado. Fui claro?

Outro assunto que merece ser destacado no blog é sobre a inclusão de clássicos da música gospel e regravações. Estava eu ouvindo dias atrás um disco de uma jovem cantora que eu tinha enorme curiosidade em conhecer e no meio de um EP com 6 faixas, eis que me deparo com uma versão revisitada de um hino do Cantor Cristão ou Harpa Cristã para os mais pentecas. Alguém pode me explicar o motivo de no meio de um projeto de estréia de uma artista, o produtor incluiu uma canção pra lá de gravada e interpretada? Não seria mais interessante seguir no objetivo de mostrar a artista e toda sua versatilidade, investindo em músicas inéditas e novas propostas?

Um jovem artista precisa mostrar pra que veio ao mundo artístico. E definitivamente não será com uma canção tradicional, amplamente conhecida e regravada que ele mostrará seus dotes artísticos. A não ser que a proposta do disco seja de revisitar os clássicos (o que por si só não me agrada a ideia), deixar de gravar algo inédito para incluir aquela canção que todo mundo já ouviu, não me soa nada bem!

Ainda no tema repertório, outra questão que eu gostaria de comentar tem a ver com a inclusão de versões internacionais. Acho que o artista e seu respectivo produtor precisam fazer um pouco mais de esforço em pesquisa para buscar referências e canções internacionais que realmente mereçam ser regravadas como versões. É muito chato, diria até meio cômico ver uma mesma música ser regravada por 10 artistas brasileiros num mesmo momento. Já teve caso de 2 artistas na mesma gravadora lançarem versões internacionais idênticas num intervalo de 3 meses.

Um dos problemas que percebo em nosso meio é que as referências são as mesmas. Ou seja, tem o artista da moda e todo mundo sai gravando as músicas daquele determinado nome. O que acontece é que o que poderia ser bom, acaba saturando tamanha a quantidade de versões gravadas. Hillsong, Jesus Adrian Romero, Kari Jobe, Amy Grant, Michael W Smith, Sandi Patty … estes são alguns dos artistas que já foram exaustivamente versionados no Brasil. E a ‘culpa’ disso, principalmente em tempo digital onde tudo está ao alcance de poucos cliques, é basicamente a preguiça de pesquisar por novas sonoridades, novos nomes, referências e informação.

O quarto assunto deste post miscelânea é com relação às participações especiais. Quais são ou deveriam ser os critérios para as participações especiais num disco? Sinceramente não tenho uma lista sobre este assunto, mas analisando alguns projetos que contavam com participações especiais acabei criando algumas opiniões a respeito. Em primeiro lugar, num disco de 10 faixas em média, não dá para ter mais do que 2 participações, por mais que o artista tenha um enorme ciclo de amizades. Não se esqueça de que o artista principal deve ter máxima exposição no seu próprio projeto.

Outra questão neste tema é que espera-se um mínimo de relacionamento entre o artista e o seu convidado. Não entendo muito bem como pode funcionar a química entre os intérpretes se alguns acabam se conhecendo no próprio estúdio no dia da gravação ou às vezes, sequer se encontram quando suas agendas não permitem que gravem numa mesma sessão. É fundamental que um mínimo de afinidade os artistas tenham entre si. Assim como já mencionei sobre as versões internacionais, da falta de referências e da repetição de nomes, acho que esta mesma preocupação precisa se ter quando o assunto é participação especial. Acho que daria para fazer algumas coletâneas de CDs só com participações de Baruk, Leonardo Gonçalves, Adhemar de Campos, Pregador Luo, para citar somente alguns. Acho que o artista deve ter um senso crítico ao convidar determinados artistas que estão nesta fase ‘arroz de festa’. É melhor pensar em outras opções para que a participação realmente seja especial.

Ainda sobre as participações … tempos atrás fui obrigado a comentar com uma artista que em toda entrevista, toda postagem, qualquer oportunidade que surgia fazia questão de enfatizar a maravilhosa, a espetacular, a estupenda participação do determinado artista. Menos! Não precisa falar mais da participação do que do seu próprio trabalho. Isso demonstra, antes de mais nada, uma tremenda insegurança, o que não é nada bom!

Vou ficando por aqui. À medida que fui escrevendo este texto uma série de outros assuntos e caminhos foram surgindo, então não se assustem se voltarmos a falar com mais profundidade sobre um destes temas aqui apresentados.

Por hoje é só!

 

Mauricio Soares, jornalista, diretor artístico com mais de duas décadas de bons serviços ao mercado gospel e cada vez mais impressionado e maravilhado com as oportunidades que surgem no meio artístico.

2 1090

Tenho observado que cada vez mais os artistas do universo gospel estão se envolvendo com a área de merchandising desenvolvendo ou representando produtos de marca própria, especialmente camisetas, bonés, óculos, bijouterias e outros artigos diversos. Particularmente acho que esta diversificação deve ser vista de forma muito positiva e importante por parte dos artistas, mas que como toda novidade carece de ser tratada com muito cuidado e análise crítica para que um boa oportunidade não se torne um problema ou decepção.

Na linha de merchandising há três caminhos a seguir. O primeiro e mais comum é o próprio artista desenvolver sua linha de produtos do ponto de vista criativo, depois seguir para o processo de fabricação e por fim, administrar as fases de marketing, distribuição, faturamento e atendimento. O que aparentemente pode parecer como o mais seguro e mais lucrativo, afinal o artista tem controle sobre todas as fases do negócio, traz também um risco maior de problemas e dor de cabeça. Basta uma única fase deste processo não correr bem para que toda a cadeia produtiva do negócio seja prejudicada.

Há uns 10 ou 15 anos lembro-me que alguns artistas de música gospel usavam bastante deste modelo de negócio produzindo eles próprios suas camisetas, chaveiros, bonés, bandanas, faixas de testa e tudo mais que parecesse interessante do ponto de vista comercial e de promoção. O processo geralmente era bastante artesanal, movido pelo espírito de empreendedorismo, mas completamente ausente de planejamento ou mesmo de uma visão analítica sobre lucros, despesas e outras questões que fazem parte do processo de qualquer negócio. Especialmente na área de confecção, a esmagadora maioria dos artistas focava em lançar camisetas que estampassem seus próprios nomes ou produtos no melhor estilo de camiseta política ou promocional. O bom gosto muitas das vezes passava ao largo … e outra característica destes produtos era o custo de venda ao consumidor, geralmente muito abaixo dos padrões de mercado, camisetas de malha sendo vendidas em torno de 15 a 20 reais, ou seja, certamente produtos de baixo custo e qualidade.

Com o crescimento das agendas (e dos cachês) e da própria venda de CDs, os artistas foram deixando de lado a venda de produtos personalizados e focaram tão somente nestes dois segmentos que traziam boa lucratividade  com baixo tempo de dedicação pessoal. Somente nos últimos 3 a 4 anos é que o merchandising voltou com força total nos arraiais artísticos gospel, coincidentemente no período em que observamos a queda nas vendas de discos e no crescimento da internet e das plataformas de relacionamento digitais.

O segundo modelo da área de merchandising e que vem crescendo potencialmente nos últimos tempos é o licenciamento de marcas, onde o artista simplesmente entra no processo por sua relevância junto a nichos ou grupos sociais, especialmente em redes sociais e deixa que uma empresa terceirizada e especializada no processo de vendas, criação, administração, marketing e atendimento, assuma todo o restante do processo. Neste modelo o artista recebe um percentual sobre as vendas dos produtos relacionados à sua marca e deve basicamente cooperar no processo de divulgação e promoção dos produtos. Em muitos casos, o artista participa ativamente do processo de criação, de escolha de produtos, mas sua participação é puramente de consultoria, opinativa. O grosso mesmo do trabalho fica por conta da empresa que tem toda a expertise no negócio. Há alguns casos em que o artista inicia-se na área de merchandising no primeiro modelo e com o seu crescimento como brand, marca própria, acaba seguindo para o segundo modelo do negócio.

Um dos melhores cases de sucesso neste segmento, sem dúvida, é o cantor André Valadão que começou a desenvolver a marca “Fé” com camisetas, passou para bonés, óculos, e hoje está presente em capacetes para motociclistas, sapatos, tênis e até mesmo em lona de caminhões, um verdadeiro fenômeno de vendas e aproveitamento de uma marca. Depois da experiência de administrar todos os processos, hoje o cantor terceirizou as atividades recebendo apenas os royalties da operação. Sem dúvida, uma grande decisão que criou melhor rentabilidade com menor esforço. No meio gospel, outra empresa que se destaca nesta área e a grande pioneira do merchandising foi a Editora Luz e Vida com o seu personagem Smilinguido, presente de lancheiras a cadernos, malas, confecção, produtos de papelaria, canecas e dezenas e dezenas de outros produtos.

O terceiro modelo é justamente um formato híbrido onde o artista contrata uma empresa para desenvolver toda a linha de produtos personalizados da criação à produção e somente depois ele assume a parte de marketing e distribuição, sendo muitas das vezes responsável pela co-distribuição dos produtos através de sua loja própria e a empresa de merchandising também comercializando os seus produtos.

Independente do modelo de negócio o certo é que estamos diante de uma tendência e principalmente, de uma boa fonte de receitas para quem vive da música. Isso é fato! A questão que se deve observar neste caso é para os detalhes que podem transformar algo positivo num tremendo tiro no pé.

O primeiro ponto a se observar tem a ver com a natureza dos produtos a se licenciar. Não dá para simplesmente sair por aí ‘assinando’ qualquer item sem avaliar a adequação com a marca e a demanda. Há muitos anos atrás lembro-me que um mega líder gospel foi procurado pela Loterj, entidade que administra as loterias no Rio de Janeiro, para estar à frente de uma raspadinha, aqueles cartões que distribuem prêmios instantâneos, com o foco no público gospel. A intenção era fazer uma raspadinha que ajudasse instituições evangélicas e claro, trazer uma boa grana para a própria Loterj. A ideia pode até parecer exdrúxula, sem sentido, mas a realidade é que ela foi levada bem a sério e chegou a ser quase lançada, sendo abortada somente semanas antes de surgir nas mídias.

Outra questão que merece atenção é a falta de noção do próprio artista que acredita que tudo anunciado por ele será automaticamente ‘comprada a ideia’ pelo público e, principalmente, se tornará espiritualmente comercializável. Soube de um determinado artista que pra defender uma empresa específica pela qual havia sido contratado como garoto-propaganda, em vez de simplesmente dizer que aquele produto ou marca satisfazia às necessidades de seus clientes, optou em ‘espiritualizar’ declarando que aquela empresa tinha uma visão de apoio ministerial e blá blá blá … na verdade, em nenhum momento este artista declarava claramente que havia um interesse comercial na parceria e pior, ainda, tentava induzir seu público a engolir a ideia de que aquela determinada empresa tinha interesses não comerciais … não me engana porque eu não gosto!

A quantidade de artistas que utilizam-se das redes sociais para instituir o jabazinho básico também chama a atenção. Neste caso não chega a ser um licenciamento, merchandising ou algo similar, o que acontece é que fruto de sua popularidade nas redes sociais o artista passa a receber roupas, corte de cabelo, viagens e todo tipo de benesses no melhor estilo toma-lá-dá-cá ou para os mais antigos, o sistema de escambo ou permuta. O artista posta em suas redes que ama comer as “Tortas da Tia Naná” (#QueDelícia!), se veste com as camisetas do “Filho do Rei Fashion”(#EuIndico), faz o makeuphair com o fabuloso “Jorge Nogueira”(#MãoSanta), só usa acessórios da “Sempre Linda” (#ArrasoTotal) e grava seus discos no estúdio “No Céu” (#TopdasGaláxias) com profissionais de outro mundo! (#SóFeras) … só que toda esta rasgação de seda explícita tem motivos e benefícios nem sempre tão explícitos …

Ainda na questão de licenciamentos é fundamental que o artista tenha a preocupação com a qualidade do produto que está emprestando sua marca. Não dá para simplesmente sair por aí divulgando esse ou outro produto sem preocupar-se se aquele determinado produto funciona, se tem qualidade ou se atende de verdade às necessidades do público. Neste caso, o discurso “eu só divulguei” simplesmente não funciona. Entende-se que o artista testou o produto, conhece a idoneidade da empresa, privilegia o bem estar de seu público. Então, antes de sair assinando contratos transformando-se no Milton Merchan Neves, é fundamental uma boa pesquisa antes!

Especificamente na área de confecção gostaria de ressaltar uma mudança sensível no conceito do negócio. Tempos atrás, os artistas lançavam linhas de camisetas que faziam alusão ao próprio artista com aquelas fotos horrorosas, mal impressas, com gosto duvidoso. Junto a esta ‘linha’ havia outra ainda pior, que relacionava-se com o produto, o lançamento em questão. Aí neste caso as estampas eram a capa do CD (criatividade passou longe), alguma frase de efeito em letras garrafais transformando a pessoa num outdoor ambulante ou, ainda, o título da música de trabalho ou algo do tipo. O que eu posso afirmar, com muita satisfação inclusive, que esta fase já passou (e espero que não retorne!) e agora os artistas precisam desenvolver novas coleções não com o conceito de material promocional, mas com a ideia de moda e como tal, tendências, estilos, tecidos diferenciados, cortes exclusivos e principalmente bom gosto são fundamentais!

O artista que aventurar-se nesta área deve entender que no máximo sua marca deve servir como conceito e não foco principal. Muitos artistas já entenderam essa mudança e estão desenvolvendo belíssimas coleções que em nada ficam devendo às marcas tradicionais de moda. O resultado é que as vendas crescem, a marca se torna mais respeitada, mais gente divulga o próprio artista e surge uma importante receita para o próprio negócio em si. A boa notícia é que já estão surgindo no país, boas empresas nesta área de desenvolvimento de marcas e produtos voltado exclusivamente para o público cristão com foco no e-commerce.

Antes de finalizar este texto, quero aproveitar este espaço para comentar sobre o grande sucesso do Encontro de Mídias e Lojistas promovido pela Sony Music que acontecerá nos primeiros dias do mês de julho. É impressionante notar a necessidade que os profissionais deste segmento têm de participar de algo realmente mais profissional. A adesão de mais de 60 mídias ao projeto sinalizam claramente que há uma orfandade do meio com a descontinuidade da Expo Cristã. Eventos como este valorizam a mídia e os profissionais do segmento e certamente mostrou-se uma iniciativa de muito valor. Parabéns a todos os envolvidos neste projeto.

Foco!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, incentivador contumaz do mercado cristão tupiniquim.