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Concorrência saudável fortalece o mercado

obc, post gravadorrasComo profissional de marketing tive oportunidade de passar por algumas das principais gravadoras do segmento evangélico nacional e posso afirmar com bastante propriedade de que cada uma destas empresas possui características bem definidas e de fácil percepção. É como se cada uma destas gravadoras tivesse personalidades humanas muito claras. Mas não vou me ater, ou melhor, a apresentar estas características porque meu enfoque neste post será outro.

As empresas evangélicas deste segmento de negócios seguem linhas bem distintas de gestão. Passando do relacionamento umbilical às denominações de onde surgiram e assim sendo dirigidas por pastores indicados pela matriz ou ainda, por gestões familiares, de artistas e por fim, por empresários e empreendedores.

Como fruto destes diferentes formatos de gestão, as gravadoras em nosso meio também possuem diferentes objetivos primordiais. As gravadoras ligadas às denominações têm como foco principal municiar a própria igreja com produtos e música de acordo com a necessidade da última. Por não ter preocupação tão fundamental na venda e comercialização e por ter uma reserva garantida de mercado, estas gravadoras geralmente têm ações menos agressivas de marketing, estratégia e distribuição. Por outro lado, vemos gravadoras sem este apoio buscando espaço neste mercado cada vez mais competitivo.

Seja uma gravadora comercial ou ligada à uma igreja, uma questão observamos claramente entre todas estas: a completa ausência de relacionamento entre os players em prol de uma política de fortalecimento do próprio nicho de negócios. Em poucas palavras: as gravadoras evangélicas não trabalham em conjunto e conseqüentemente assim apenas diminuem as chances de um mercado forte!

Infelizmente as gravadoras de música gospel praticam uma política de isolamento absoluto, onde inexistem alianças, reuniões, discussões, aproximações ou trocas de informações. Há cerca de 6 anos atrás, de forma bastante idealista e voluntária, encabecei uma série de eventos entre as gravadoras do segmento. As reuniões chegaram a reunir uns 10 representantes de gravadoras e o objetivo principal era formular ações contra o aumento da pirataria no nosso mercado.

A campanha era apenas um gancho para que as gravadoras caminhassem no sentido de formarem uma associação de classe, nos mesmo moldes que existe entre as editoras cristãs, que hoje denomina-se ASEC. Depois de umas 3 ou 4 reuniões, o movimento extinguiu-se por absoluta falta de vontade dos pares em dar o primeiro passo no sentido da aproximação e da conversa.

O que se seguiu foram ações individuais das gravadoras com campanhas de combate à pirataria em suas mídias próprias. O alcance desta campanha, como já era esperado, foi ínfimo e demonstrou claramente de que se não andássemos como uma associação estas iniciativas seriam inócuas.

Anos depois e agora conhecendo profundamente o dia-a-dia de uma gravadora multinacional, fico ainda mais estarrecido com a forma de lidar com os concorrentes junto às gravadoras do segmento evangélico. Se entre as gravadoras evangélicas há um absoluto distanciamento e mudez, já entre as gravadoras seculares, esta troca é constante chegando ao ponto de informarem à ABPD – entidade que reúne as principais majors do mercado fonográfico nacional – dados de vendas, lançamentos e todo tipo de informação estatística importante para a definição da realidade do setor.

Estes relatórios são disponibilizados por todos os membros da ABPD incluindo as vendas físicas e digitais, sendo tabuladas, analisadas e posteriormente informadas aos próprios participantes da Associação. O entendimento neste caso é de que o mercado precisa ser fortalecido. A comunicação entre mercado produtor, mídia e consumidores deve ser constante e transparente.

Outra diferença na forma de lidar entre os concorrentes fica clara na questão de contratos com os artistas. Quando um determinado artista opta por interromper ou mesmo não renovar seu contrato artístico com determinada companhia, esta decisão é respeitada por todas as partes sem maiores traumas e até certo ponto amigável. Quando um artista decide trocar de gravadora por entender que para sua carreira esta decisão irá trazer benefícios, há uma conversa entre as partes para se chegar a um bom acordo.

Quando um artista quer mudar de gravadora ainda durante o contrato em vigor, diversas opções são apresentadas na mesa de negociação, sendo que a mais comum é o pagamento simples de multa ou mesmo um acordo de pagamento de royalties no próximo trabalho a ser lançado pelo artista diretamente para a gravadora anterior. Assim, a gravadora atual fica satisfeita com o novo contratado. O artista se sente estimulado a fazer um belo trabalho numa nova gravadora e aquela última, que teoricamente perderia o passe do artista, ainda receberá uma renda extra decorrente da negociação. Ou seja, as empresas são concorrentes e não inimigas mortais!

Infelizmente o que temos visto entre as gravadoras do mercado gospel neste quesito é exatamente o oposto. Ou seja, a concorrência entre os pares é luta encarniçada de inimigos e opositores ferrenhos! Pior ainda quando determinada gravadora mantém em sua corporação veículos de mídia. É notória a política de “farinha pouca meu CD primeiro” administrada por algumas empresas que detêm o monopólio de algumas FMs pelo país.

Para concluir e ainda avançar em um tema que citamos mais acima, a relação artista x gravadora gospel precisa também ser repensada. Assim como no casamento, na vida profissional ou mesmo em outras questões do cotidiano, uma relação saudável deve ser mantida baseada pelo bem estar entre as partes, no respeito, na educação, na cumplicidade. Não podemos acreditar que seja possível manter uma relação de qualidade entre uma gravadora e o artista onde sempre este último se vê acuado e sob pressão.

Infelizmente o que temos visto nesta questão é uma relação distante da razão. Uma relação neurótica, possessiva e como não dizer (sem medo de provocar um choque nos mais puritanos!) opressora e até mesmo chantagista! São palavras fortes? Sim, são! Mas como podemos classificar gravadoras evangélicas que no calor das “negociações” de convencimento a um artista para permanecer em seu cast afirma para o artista acuado a seguinte pérola da diplomacia stanilista:

“Se você não renovar o contrato conosco, nunca mais irá tocar suas músicas em nossas rádios, muito menos você irá cantar em nossas igrejas, em nossos eventos ou seja lá onde for!”

Pois é! Esta frase não foi dita recentemente uma só vez, mas tem sido dita com assustadora recorrência, além de outras pérolas da arte da negociação.

As mudanças no mercado fonográfico são irreversíveis e não é como uma estratégia de “avestruz” (enterrando a cabeça na terra ao se deparar com um risco iminente) que as gravadoras do mercado gospel irão sobreviver e se adequar às novidades. Mas, sim, com permanente troca de experiências, informações, ações coordenadas e principalmente respeito entre as partes. Vamos abaixar as bazucas e conversar? Que tal um capuccino com biscoitos?

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Mauricio Soares é publicitário, entusiasta do networking, amante da natureza, da ecologia, da paz e respeito entre os povos (e também entre os gestores das gravadoras gospel) e vota no primeiro turno em Marina Silva.

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