Contra todos os modismos e a favor da qualidade musical

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Alguns leitores do nosso blog perguntaram dias atrás o porquê de incluir o vídeo da cantora Adele num espaço geralmente dedicado à música gospel. A minha resposta é sempre a mesma: música de qualidade merece todos os aplausos e toda a divulgação possível! E é exatamente isso o que penso sobre a música. Já disse por aqui e vivo repetindo numa ladainha sem fim, de que música, em minha modesta opinião, só existe de dois tipos: a ruim e a boa, nada além disso!

E em meio a tantos loops, batidões, refrões exaustivamente repetidos como mantras, muita sensualidade, caras e bocas, decotes ousadíssimos e disfarces eletrônicos, a música pop internacional nos presenteia e até mesmo surpreende com uma nova alternativa de qualidade, neste caso, a jovem inglesa, Adele.

O primeiro álbum lançado mundialmente em 2008, com o minimalista título de “19”, tinha a ver, em parte, com o furacão Amy Winehouse e a onda vintage adotada por novos talentos britânicos na época. Adele estava no miolo, mas era apenas “mais uma”, ainda que “Chasing Pavements” revelasse um futuro brilhante. Mas apenas dois anos depois, quando a fanfarrona Amy já não representava nenhuma ameaça, a jovem cantora retornou ao cenário com pompa e estilo (põe estilo nisso!) para cravar seu nome na história recente da música pop.

A cantora Adele é a síntese mais perfeita de um projeto completamente bem pensado e estratégico. Depois de arrebatar o público europeu, o grande desafio seria atingir o público norte americano. E o álbum “21” foi talhado para virar sucesso mundial e até por isso fica clara inclinação ao country e ao blues, estilos mais afeitos ao gosto ianque.
O peso-pesado Rick Rubin (Slayer, Beastie Boys e Johnny Cash) ajudou neste mergulho sulista. Mais do que canções certeiras, é a voz desta singela londrina que deixa qualquer um boquiaberto. Além de técnica apurada, a moça possui aquela entrega apaixonada que só grandes divas são capazes de transmitir. Assim, intensa e vulnerável, ela entrega pérolas como a poderosa “Rolling in the Deep” (confira o vídeo em nosso blog) ou a suingada “I’ll Be Waiting”, e surpreende por fazer de “Lovesong”, do Cure, uma bossa doce e romântica.

Confesso que já ouvi esse CD “21” umas 50 vezes a ponto de saber de cor a ordem e introdução de cada canção. E o que me chama muita atenção neste trabalho, além da técnica apurada da cantora é sua extrema segurança e principalmente sua autenticidade na interpretação de cada canção. Virei fã de carteirinha!

Pano rápido e voltamos para maio, junho de 2009.

Nesta época, em função do projeto Fé do cantor André Valadão, vivi uma intensa ponte aérea Rio-Beagá. Numa destas idas à capital da boa comida, fui recepcionado por Alex Passos, amigo e profissional da mais alta qualidade. Depois de falar 8.679 palavras em menos de 3 minutos, o elétrico Passos, me apresentou um CD, na verdade, um arremedo de um projeto gravado.

Com a indefectível introdução de que “eu nunca vou me aproveitar de nossa amizade pra te apresentar nada, bicho! Mas eu pirei quando ouvi isso e disse pra mim mesmo: preciso mostrar isso ao Mauricio!”- Alex me fez ouvir algumas canções do cantor Thalles e fomos no circuito Confins-Centro degustando as canções e comentando sobre nossos assuntos cotidianos. No fim, acabei não pegando o CD e seguimos nosso dia de compromissos.

Tempos depois, conversando com André Valadão, ele me falou de um cara, ex-vocal do JotaQuest e do Jammil que havia se reconvertido e que cantava muito … mais uma vez ouvi a respeito do talento e da música do Thalles.

Parecendo uma tática orquestrada pelos mineiros, Valadão, o Felippe, me falou também do Thalles. Assim como eles, várias e várias outras pessoas me falavam do Thalles, mas sempre ressaltando como uma espécie de ‘notinha de rodapé’ – “o som dele é ótimo, não é muito comercial, mas é algo muito bom, muito especial!”

Encurtando a história, não resisti e fui conhecer o rapaz. Encontramo-nos no Rio de Janeiro, conversamos bastante, ouvi muito seu trabalho, vi os vídeos do que posteriormente seria seu primeiro DVD e fomos caminhando de forma firme, mas sem prazos. A cada vez que ouvia o material, eu simplesmente me apaixonava pela proposta. Fui apresentando o material para minha equipe de trabalho, para amigos e a empatia era imediata, mas sempre com aquela fatídica pergunta de todos os interlocutores: “Será que o público vai gostar? Será que vai vender?”

Resolvi fazer valer a minha idéia de que existem apenas dois tipos de música e segui no objetivo de avalizar aquele projeto. Com certa dificuldade fui convencendo os “entendidos superiores” e ao fim da peleja, estávamos lançando o projeto do Thalles.

Um dia escreverei em detalhes todo o processo estratégico para esse lançamento. Na verdade, muito em breve estarei escrevendo e descrevendo alguns cases de sucesso de lançamento, reposicionamento e outras histórias de nossa trajetória ao longo destes 22 anos de labuta.

Mas voltando ao tema de nosso post, medidas as devidas proporções, Adele e Thalles têm similaridade entre si pelo fato de ser ambos atualmente grandes sucessos, cada qual em sua área e dimensão. E o motivo do sucesso entre tantos aspectos é a qualidade de suas músicas.

Ao ouvirmos o CD do Thalles nos deparamos com uma sonoridade totalmente diferenciada das convenções do cenário musical gospel tupiniquim. Quando ouvimos a obra prima de Adele, também nos deparamos com uma proposta totalmente diferente do que era visto como tendência da indústria fonográfica e de entretenimento pouco tempo atrás.

O meu objetivo neste texto, escrito mais uma vez aguardando um vôo, desta vez para a Veneza Brasileira, a linda cidade do Recife, é estimular aos artistas do mundo gospel, aos compositores, às rádios, aos lojistas e principalmente ao público consumidor, que estejam abertos a ouvir, divulgar e consumir produtos e projetos diferenciados doEstablishment que denominamos como ‘estilo de música gospel brasileira’.

Que nos livremos de rótulos, de pré-conceitos, da falta de ousadia e sensibilidade para conhecer e degustar o ‘novo’. Que nossos horizontes e principalmente nossos padrões sejam definidos principalmente pela qualidade e autenticidade, abrindo mão de modismos, tendências e mesmo da idéia de que todo sucesso merece ser repetido exaustivamente como uma fórmula única.

Apenas a título de registro, hoje no país, o cantor Thalles com todo seu suingue, caretas, performance, carisma e qualidade, é um dos nomes mais requisitados para eventos, além de seus produtos começarem a figurar na lista dos mais vendidos.

Já o álbum “21”, de Adele, tornou-se o álbum mais baixado da história dos EUA, informou o site Gigwise. O segundo álbum da cantora britânica já vendeu quase 1,2 milhão de cópias no formato digital. No Brasil seu single lidera nas rádios pelo país e seu CD figura entre os mais vendidos no cast internacional. Pra completar, em fevereiro, Adele tornou-se a primeira desde os Beatles a ter duas músicas e dois álbuns no Top5 britânico ao mesmo tempo.

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, amante da ótima música,entusiasta do novo, defensor da ética, da moral, dos bons costumes, do respeito nas redes sociais, do respeito aos idosos, a favor da doação de sangue, do teste do pezinho e aguardando a contratação do sucessor do Conca para o meio campo do meu Fluminense.

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