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CRÍTICA ARTÍSTICA NO MEIO CRISTÃO. É POSSÍVEL?

VALE A PENA A LEITURA!
Nesta semana recebi uma indicação de link para conferir. Diariamente recebo dezenas de links de vídeos, áudios e alguns poucos de textos. Tirei um tempinho para conferir o texto em função da fonte, neste caso, o blog Balaio de Notas. Gosta da proposta desse blog que difere e muito de boa parte do que encontramos nessa miscelânea que conhecemos como web. Se você ainda não investiu um tempo para ler os textos ali publicados, fica aqui minha sugestão. Mas voltando ao artigo proposto, fiquei especialmente satisfeito em ver que de alguma forma influenciamos para que uma maior meditação sobre nosso meio jornalístico gospel seja feita neste momento. O texto fala sobre a necessidade de termos um maior e melhor senso crítico nas análises dos projetos e, ainda, na capacidade técnica que essa turma ‘crítica gospel’ necessita. Boa leitura e obrigado ao Thiago Aguiar por prontamente liberar o texto para publicação em nosso blog.

Eu sempre me perguntei como poderia julgar a arte feita por alguém, às vezes me sentindo mal por fazer uma crítica a algum trabalho – seja um livro, uma música, um trabalho audiovisual, uma obra de artes plásticas – sobretudo no meio cristão, onde o conteúdo veiculado, a mensagem, na maior parte das vezes tem mais relevância que a parte técnica.

Tenho acompanhado algumas discussões sobre a quase completa (é uma paradoxo?) ausência de crítica artística profissional no meio cristão, crítica essa baseada em critério objetivos relacionados às artes, se é que isso é possível em algo tão abstrato e subjetivo quanto as manifestações artísticas.

Dessas afirmações carregadas de interrogações já se percebe como entramos em um terreno pantanoso. É válida a crítica artística séria, fundamentada, com conteúdo, no meio cristão? Creio que sim e não penso sozinho. Acredito que a crítica artística séria – na mesma proporção em que as manifestações artísticas feitas por aqueles que crêem e seguem os passos de Jesus se desenvolvem – teria um papel importante em estimular a reflexão e a análise crítica.

Mas para que a crítica artística seja possível é preciso que haja critérios. Creio que só é admissível a resposta gostei/ não gostei para o público final, que tem todo direito de rejeitar ou acolher uma manifestação artística. Em relação àquele que se propõe a realizar uma crítica artística, vai precisar que mais isso.

Para a crítica da arte produzida por cristãos que querem se comunicar com as pessoas e dizer algo ao mundo, acredito que Francis Schaeffer (sugiro você gastar um tempinho para entender a relevância desse autor na reflexão artística no meio cristão) no livro “A

arte e a Bíblia” trouxe algumas reflexões, e quero me valer delas para traçarmos alguns critérios que podem nortear aqueles que querem analisar e emitir opiniões fudamentadas sobre uma dada manifestação artística.

Vou tentar expor brevemente o que ele chamou de “Quatro Padrões de Julgamento”. Seria eles: excelência técnica, validade, cosmovisão que está sendo comunicada e integração entre conteúdo e veículo.

Antes disso quero ressaltar que, por artista cristão, Schaeffer entende ser aquele indivíduo nascido de novo que produz sua arte dentro da cosmovisão cristã. Vamos entender melhor logo abaixo.

EXCELÊNCIA TÉCNICA

O primeiro desses critérios de julgamento é, talvez, o que se tem mais “pudor” ou receio em se enfrentar friamente nas artes com conteúdo cristão. Seja pela preocupação em não ferir o artista, que também é “irmão”, seja pelo medo de se invalidar o conteúdo que está sendo transmitido.

O fato é que podemos realizar uma análise objetiva da parte técnica de uma obra. Uma peça teatral pode ter sido mal montada, encenada, mal escrita, não obstante sua nobre mensagem. Uma música pode ter sido mal gravada, mal interpretada, seu arranjo pode apresentar problemas técnicos. Enfim, cada manifestação artística possui seus desafios técnicos que podem ter sido resolvidos ou não.

Nesse aspecto Schaeffer ressalta: “Ao reconhecer a excelência técnica como um aspecto de uma obra de arte, podemos ser capazes de dizer que, ainda que não concordemos com a cosmovisão de um determinado artista, não obstante, ele é um grande artista.”

Sendo bem direto, no que se refere à excelência técnica, aqueles que se propõem a analisar manifestações artísticas precisam entender do riscado. O crítico de uma dada manifestação artística precisa compreender bem os aspectos técnicos envolvidos com aquela arte. Fora disso temos uma opinião baseada nas preferências pessoais. O simples gostei ou não gostei antes falado. O crítico vai além. Expõe de maneira clara e fundamentada as qualidades ou as deficiências técnicas da obra.

VALIDADE

Por esse critério Schaeffer questiona se um artista é honesto consigo mesmo e com sua cosmovisão ou “se faz a sua arte apenas por dinheiro ou para ser aceito”.

Essa reflexão é muito relevante. Somos pródigos em gerar artistas que se perguntam o que as pessoas querem “consumir”. Vou falar da música, que é a área artística onde posso dizer que entendo um pouco mais do que nada. É relativamente comum os artistas (compositores, cantores, músicos, arranjadores, produtores) se preocuparem em fazer o som do momento, o estilo do momento, a frase do momento.

Em relação a esse critério proposto, a honestidade artística fica sob julgamento. Não é um critério fácil de ser aplicado. É preciso conhecer bem o artista (sua vida, ministério, propostas artísticas) para não se incorrer no erro de avaliar mal. Caso não se tenha informações consistentes, é melhor o crítico se abster de tecer considerações sobre tal critério.

Contudo, acredito na importância dessa reflexão. Acredito na sinceridade artística e no poder que uma obra tem – quando feita com todo o potencial humano, sem preocupações ou amarras – em transmitir uma mensagem. Acredito também na liberdade artística, na capacidade de reinvenção e no papel de vanguarda das artes.

CONTEÚDO

Aqui tratamos da cosmovisão do artista. E no caso do artista cristão, a cosmovisão do artista é vista sob a ótica das Escrituras. Não há outro critério de julgamento possível, a partir da compreensão protestante de supremacia da Bíblia como a Palavra de Deus.

Como cosmovisão cristã, Schaeffer entende como uma espécie de consenso compartilhado por aqueles que aceitaram Cristo como seu Salvador e têm a vida guiada pelas Escrituras.

Nesse aspecto a crítica artística pode cumprir um papel de grande relevância. Em tempos de enfraquecimento do ensino bíblico, precisamos da coragem e da capacidade de confrontar – objetivamente e com toda a sabedoria – conteúdos desviantes da Palavra manifestados em obras produzidas por cristãos.

Conforme ressalta Schaeffer, “a cosmovisão do artista não pode ser isenta do julgamento da Palavra de Deus”. E prossegue o autor: “Precisamos perceber que, quando algo falso ou imoral é expresso por meio de uma arte de alta qualidade, isso pode ser mais destrutivo e devastador do que se fosse comunicado por meio de uma arte de qualidade inferior ou de uma afirmação prosaica”.

Na arte cristã, nada mais nocivo de que uma mentira falseada de verdade ou de uma meia verdade. Nesse aspecto não há outro caminho, deve o crítico conhecer bem as Escrituras.

ADEQUAÇÃO DA FORMA AO CONTEÚDO

Esse critério de julgamento é talvez o que revela a maior maturidade do artista: saber expressar determinado conteúdo com uma certa forma. Determinadas mensagens são melhor expressadas por determinadas formas. Essa frase é polêmica? Podemos dizer qualquer coisa a partir de quaisquer formas nas manifestações artísticas? Não tenho respostas para essas perguntas.

Apenas para tentar exemplificar: expressar uma natureza humana decaída, perversa e pecadora por meio de uma peça teatral soturna, decadente, delirante. Ou uma doce canção que expresse a ternura da relação de amor entre um pai e um filho.

Esse critério pode encontrar inúmeras controvérsias e deve ser utilizado em conjunto com os demais critérios, conforme alerta o autor.

Bom, fica aqui essa breve reflexão sobre a possibilidade de alguns critérios para a crítica artística no meio cristão. Penso que ela é possível. Penso que ela deve ter um papel construtivo, jamais como instrumento de poder e de destruição, como ocorre entre muitos críticos de arte, que passam a ter a capacidade de alavancar carreiras ou simplesmente impedí-las. Isso jamais no meio cristão.

Penso também que aqueles que por ela transitarem precisam, antes de tudo, de consistente embasamento técnico, um mínimo de conhecimento das artes em geral (veja o que ocorre ao mundo ao seu redor) e conhecimento da Palavra.

Além disso, os artistas cristãos também precisam encarar a crítica – quando bem embasada e que constrói – como algo natural e relevante para o desenvolvimento artístico.

 

Thiago Aguiar – cristão, músico, advogado, responsável pelo projeto Balaio de Notas http://www.balaiodenotas.com

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • Giovanna Vargas

    04/03/2013 at 22:21

    Boa Noite Mauricio,
    Realmente muito bom este texto do Thiago, isto nos remete a pensar e ter a certeza de que nossos artistas gospel tem que se especializar naquilo que fazem bem como olhar o que ocorre ao redor, as mudanças, as novidades e principalmente aceitar as criticas como algo positivo.
    Vamos deixar de nos fazer de coitadinhos, de vítimas e tomar o lugar que nos é devido, estudando e adquirindo competências para mostrar a este mundo ao que viemos, a essência que é levar a palavra do Senhor com excelência!!!

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