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Crossover – é possível isso?

Muitos dos textos aqui publicados são fruto de conversas travadas com amigos, profissionais do meio, músicos, artistas. Nesta semana tive o prazer de receber em meu escritório, Fábio Sampaio, vocalista da banda gaúcha Tanlan. Antes que queiram saber o que significa o nome da banda, adianto que tem a ver com algum golpe de kung fu ou coisas do tipo … acho que os integrantes praticavam artes marciais ou eram fãs do Bruce Lee, confesso que até hoje não entendi muito bem essa explicação, mas é por aí … ou seja, não tem muita explicação, sonoramente o nome ficou bom e é isso que vale … vamos em frente!

E entre muitas perguntas, questionamentos, dúvidas, informações sobre o mercado, tendências, produções musicais, projetos, estratégias e tudo mais, tivemos tempo para também falar um pouco sobre o conceito de crossover. Para quem não está tão familiarizado com o termo, crossover significa em rápidas palavras a possibilidade de um artista estender sua arte para diferentes públicos. Exemplificando, seria como se um artista de música gospel tocasse nas FMs populares, sua música fosse reconhecida por toda a sociedade, que este artista fosse figurinha fácil nos programas de TV, enfim, que o seu trabalho não fosse tão somente consumido pelos evangélicos, mas também por flamenguistas, engenheiros, motoboys, pagodeiros e todo tipo de gente.

O exemplo mais imediato do crossover nos remete logo aos Estados Unidos, onde temos vários artistas que começaram no meio gospel e depois migraram para o mercado popular. Alguns mantendo-se fiéis ao estilo mais tradicional de música cristã e outros que simplesmente mantiveram a fé, mas seguiram em carreiras na música popular. Nomes como Whitney Houston, Beyoncé, Elvis Presley são exemplos deste fenômeno. Outros artistas como Michael W. Smith, Kirk Franklin e Yolanda Adams conseguiram romper com o mercado gospel e são executados e reconhecidos no meio artístico fora do próprio segmento. Ou seja, extrapolaram os limites do mercado religioso sem abrir mão de seus estilos musicais. Temos ainda os casos de Amy Grant que depois de uma carreira estabelecida como cantora gospel seguiu numa linha mais romântica ou o P.O.D. que segue até hoje atuando no mercado secular, sem abrir mão de conceitos e mensagens cristãs.

No Brasil, o exemplo mais contundente de tentativa de alargar o mercado gospel aconteceu com a Banda Catedral. Lá pelos idos dos anos 90, o quarteto formado por Júlio, Kim, Cézar e Guilherme arrebanhou fãs em todo o Brasil e alavancou a carreira da banda que até hoje não teve similar na história da música gospel tupiniquim. Tamanho sucesso motivou para um convite da gravadora multinacional Warner para que o Catedral desenvolvesse uma carreira com o claro objetivo de promover esse crossover. Em meio a muitas polêmicas e outras questões nada nobres – vale a pena conferir o texto sobre boatos publicados há tempos atrás aqui no blog – a Banda Catedral acabou sucumbindo ao projeto de tornar-se a primeira banda gospel a conseguir alcançar sucesso no crossover.

Particularmente não creio no “crossover puro sangue”, para nossa realidade no país, em se tratando de artistas que passeiam no universo gospel. O que eu entendo como crossover tem a ver mais com a sonoridade e linguagem do que propriamente em fusão de públicos ou um maior espaço na mídia. Na verdade, creio que estamos vivendo um momento onde teremos um ambiente mais consolidado para a “música do bem”, ou seja, um estilo musical onde artistas de fé cristã usarão como temas em suas músicas uma linguagem mais universal e menos evangélica. Assuntos como amor, amizade, respeito, bem estar, companheirismo estarão mais presentes nas composições em contraposição aos chavões e temas largamente utilizados pelos artistas do universo gospel mais tradicional.

Acho importante que essa jovem turma que vem se destacando nesse novo estilo musical ajuste melhor os seus discursos. Uma das preocupações que percebo nesses jovens artistas é a necessidade quase patológica de refutar o rótulo de música gospel, artistas gospel ou coisas do tipo. Imagino que deva ser um suplício para estas pessoas, mesmo sendo evangélicas, ter que a todo tempo tentar disfarçar suas próprias condições atrás de discursos filosóficos, termos e trejeitos. Entendo que hoje em dia, ser reconhecido como “evangélico” nem sempre é tão positivo, haja visto tantos escândalos e problemas que nos deparamos no país nos últimos anos. Infelizmente! Na preocupação em refutar rótulos, essa turma acaba por criar um novo rótulo, “os artistas que não têm rótulo”.

Creio que há algo novo e muito positivo nesse movimento e ele é muito bem vindo para o mainstream. Apenas imagino que pequenos ajustes no discurso é que devam ser promovidos. O crossover tão propalado deve ser prioritariamente artístico, musical, na forma e conteúdo. O público que irá consumir essa música, não tenham dúvida, será prioritariamente cristão, seja católico ou evangélico. É quase uma ilusão pueril acreditar que o público secular irá consumir esse perfil de música de forma espontânea, até porque espera-se para um artista secular algumas posturas que não coadunam de forma alguma com as práticas e conceitos da fé cristã.

Artistas como Aline Barros, Régis Danese, Irmão Lázaro e mais recentemente, Thalles, conseguiram extrapolar o segmento gospel participando de programas de TV, sendo citados por outros artistas seculares como Ivete Sangalo, Luan Santana, entre outros, suas canções tocaram em algumas emissoras de rádio populares, mas de forma alguma estes conseguiram atingir o nível de crossover. O que aconteceu nestes casos é que a música e os nomes dos artistas chamaram a atenção de um público além do mercado gospel, mas em momento algum, estes mesmos artistas deixaram de ser reconhecidos como artistas de música gospel. Ou seja, simplesmente não houve crossover.

Os artistas desse novo estilo musical que particularmente chamo de Nova Música Cristã Brasileira têm muito a contribuir para o crescimento da música cristã no país. E eles nem são tão inovadores assim, pois lá nos idos dos anos 80, o Rebanhão já propunha uma nova linguagem no cenário artístico nacional. Outro representante dessa linguagem diferenciada, sem dúvida, foi e ainda é, João Alexandre, músico que fez muito sucesso lá pelos anos 90 e se mantém na ativa até os dias atuais.

Para quem não está muito familiarizado nessa turma que anda fazendo um som diferenciado, indico os trabalhos da própria Tanlan, banda de pop rock do Rio Grande do Sul que acaba de lançar um novo trabalho pela Sony Music. Os gaudérios participam ativamente do cenário indie do sul participando de shows, festivais e tocando em alguns lugares bem alternativos. Aos poucos já começam a se destacar em outras regiões do país. A cool Marcela Taís é outra artista que vem se destacando no país com uma musicalidade e poesia impressionantes, a ponto de conquistar o prêmio Pra Curtir no último Troféu Promessas. Posso incluir neste mesmo grupo artistas como Hélvio Sodré, Leonardo Gonçalves e Daniela Araújo que cada vez mais estão inovando na estética da música cristã com muita poesia e projetos de altíssimo nível. A seleção prossegue com Aerowyllis, mais uma banda do sul do país, os niteroienses do Crombie, a turma do Palavrantiga que agora está na Som Livre após uma passagem pela gravadora Canzion.

Mauricio Soares, adepto da boa música, pai, consultor, blogueiro, torcedor do tricolor das Laranjeiras, jornalista e publicitário.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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