SHOPPING CART

Crossover Fake

Ao longo dos poucos mais de 7 anos em que escrevemos neste blog muita coisa mudou. O mercado fonográfico mudou sensivelmente. Os hábitos de consumo mudaram radicalmente. A tecnologia cada vez modifica mais e mais as relações na sociedade. O Brasil mudou, neste caso, nos últimos anos para muito pior se comparado a anos atrás. E se observarmos mais atentamente aos textos aqui publicados também iremos perceber muitas transformações neste período. A mudança é uma condição natural do ser humano. Particularmente não curto muito ter que lidar com pessoas que não buscam por mudanças de conceitos e pensamentos. Confesso que não tenho muita paciência para pessoas que sofrem da Síndrome de Gabriela, já citada aqui mesmo no blog por algumas vezes.

Há alguns anos atrás, especialmente depois que ingressei no meu último emprego, via a questão do crossover como uma transformação natural do meio gospel, um amadurecimento que aconteceria mais tempo, menos tempo. Na minha visão, a música gospel ultrapassaria as barreiras do próprio segmento e poderia ser consumida por pessoas que não necessariamente professam a mesma fé ou ideologia. Naquele pensamento, imaginava eu que a música cristã suplantaria todos os rótulos a ela impostos e seria reconhecida como uma manifestação cultural simplesmente. Para esta migração bastava que os artistas assumissem posturas menos herméticas, menos estereotipadas, com discursos, arte e atitudes menos relacionadas ao que um artista gospel possuía até então.

Mais recentemente parei para conversar com alguns profissionais do meio secular e em determinado momento passamos a falar sobre o conceito do crossover na música cristã nacional. Ao longo destes últimos meses, este pensamento que eu tinha até então sobre o crossover sofreu algumas alterações bem significativas. Na visão destes profissionais extremamente competentes e experientes, a qualidade da música cristã produzida no país não fica em nada devendo ao que se produz no meio popular. Muitos inclusive fazem questão de destacar a incrível qualidade de boa parte dos intérpretes deste segmento que é uma das marcas fortes e que chamam a atenção de todos.

No entanto, há realmente condições de artistas do meio gospel migrarem ou ampliarem seus respectivos públicos no autêntico movimento de crossover? Para tentar responder e analisar o que este tipo de estratégia decorreria é que irei dedicar-me nos próximos minutos de voo entre a Cidade Maravilhosa e a belíssima Curitiba, onde ficarei pouco mais de 24 horas atendendo a uma agenda intensa de compromissos.

Em primeiro lugar, você já parou para analisar de que os principais nomes da música gospel nacional que tornaram-se conhecidos além-fronteiras do mundinho crentês, nos últimos anos não optaram em seguir uma estratégia de crossover? Pois bem, a artista mais reconhecida fora do segmento gospel nacional é justamente Aline Barros. Alguém por aí a viu cantando músicas de duplo sentido, buscando criar uma imagem de artista pop, romântica ou algo do tipo? Não! Simplesmente porque desde sempre, Aline Barros seguiu focada em ser uma artista de música gospel e através de seu talento, carisma, foco e senso de oportunidade, sua arte rompeu as barreiras do nicho e a fizeram ser uma artista reconhecida não só em seu meio, mas também na área secular. O mesmo podemos dizer de artistas como Régis Danese, Damares, Thalles, Irmão Lázaro e, mais recentemente, Leonardo Gonçalves, só para citar alguns. O que os levou a tornarem-se conhecidos por quem não professa a fé protestante e a sociedade em geral é prioritariamente sua música, a qualidade da arte que produzem e defendem ao longo dos anos.

Quer ser reconhecido fora do segmento gospel? Então produza música de qualidade!

O conceito de crossover está diretamente ligado à produção artística que pode ser consumida por diferentes grupos. Teoricamente, um artista que busca esta estratégia tem como foco comunicar-se com grupos diferentes do qual tem maior empatia ou adequação. Adaptando para a realidade do músico cristão, o crossover seria a capacidade do artista de ser consumido tanto pelo público gospel como pelo público secular.

Como todos sabem, trabalho numa corporação multinacional, secular. Arrisco a dizer que cerca de 20 ou 30% dos funcionários de minha empresa podem ser considerados como evangélicos ou cristãos praticantes. A esmagadora maioria é de pessoas que não tem qualquer relação mais próxima com o ambiente cristão. Só que muitos deste grupo, que aparentemente são alheios à música gospel reconhecem, curtem, buscam informação, divulgam e compartilham canções de Leonardo Gonçalves, Os Arrais, André e Felipe, DJ PV e outros artistas do cast gospel, simplesmente porque estas pessoas reconhecem a qualidade desta arte e porque em determinados momentos são de alguma forma impactados com as mensagens. Não foi uma ou duas vezes em que uma funcionária entrou em minha sala para elogiar a música deste ou daquele artista gospel, muitas das vezes a pessoa me comenta sobre o que a música a proporcionou e coisas do tipo. Cada um fala desta experiência com a música do seu jeito, mesmo que para isso seja necessário inserir alguns palavrões como hipérbole para ressaltar o impacto que a canção os proporcionou. E aí eu me pergunto, isso é ou não é um crossover?

A música precisa antes de mais nada, comunicar-se com o público. Qualquer público!

Uma das preocupações que eu reparo ser bem constante com a turma que insiste no crossover gospel é justamente renegar todos os rótulos! Principalmente aqueles que remetam a sua música ao conceito de segmento gospel. Lendo uma entrevista de um destes jovenzinhos do crossover ficou nítido para mim de que a maior preocupação dele era justamente mostrar-se distante de qualquer indício de que fizesse música cristã. Mesmo sendo ele filho de pastor, casado com filha de pastor, vivendo profissionalmente da igreja através de um cargo na igreja, tendo toda sua vida diretamente ligado à igreja e o absurdo dos absurdos, cantando e se apresentando em eventos de igreja para o público cristão. Surreal! Simplesmente surreal! Não há pecado em apresentar-se como uma artista cristão que faz uma música diferenciada! O errado é justamente renegar o público, o segmento, o mercado que os sustenta! Isso sim é errado!

Não há como fugir de rótulos! Mesmo quando se tenta negar a existência de rótulos acaba-se por criar um rótulo, ou seja, o rótulo do Não-Rótulo. Então, se é para ser reconhecido por algum rótulo, que seja o do artista que faz uma música de qualidade, que explore a poesia, a criatividade e que saia do senso comum. Pronto! Isso é ter um bom rótulo!

É um engano e até certo ponto, arrogância, imaginar que o público cristão não tem capacidade de reconhecer uma proposta musical diferenciada, que não rime JESUS com LUZ com CRUZ … cansei de ler e ouvir destes jovenzinhos do crossover que a música cristã é brega e que eles produziam algo para cabeças pensantes! Quanta petulância! A verdade é que há sim um grupo crescente de jovens cristãos que curtem uma música com propostas diferenciadas, com poesia, criatividade, novos formatos e linguagens. Prova disso é o crescimento de artistas como Marcela Taís, Salomão do Reggae e DJ PV que fogem por completo ao estereótipo do artista gospel. Por falar em Salomão do Reggae, há algumas semanas atrás o meu parceiro de longa data, Sidnei Gomes, apresentou a música “Baseado em Que?” para alguns funcionários de nossa empresa. Todos amaram a música e a criatividade da letra da canção que trata de um tema tão diferenciado como o uso de drogas. O pessoal da gravadora ficou tão fissurado, pra usar um termo adequado, no som do Salomão, que todos queriam conhece-lo pessoalmente. Ou seja, através da sua própria arte, uma arte engajada e de qualidade, o artista gospel atingiu um público completamente diferente.

Deixe que a sua arte fale por si. Não se preocupe em explicar-se o tempo todo!

Quando um artista busca o reconhecimento além dos arraiais do mundo gospel, automaticamente ele assume determinados riscos. É absurdamente enganoso imaginar que um artista cristão possa caminhar em meio ao mundo secular sem ter que negociar certos dogmas, conceitos e atitudes. Temos inúmeros casos de autêntica saia justa de artistas de música gospel que participaram de programas de TV seculares. Há o caso clássico de uma renomada artista gospel que após se apresentar em um programa de TV – que naquela edição estava sendo gravado à beira mar – o apresentador convidou suas assistentes de palco para jogar oferendas ao mar.

Não estou dizendo que um artista gospel não deva ir em programas seculares. Não mesmo! Pelo contrário. Apenas estou alertando para os artistas que querem seguir nessa estratégia de crossover de que a situação merece todo cuidado e sabedoria! O artista deve aproveitar toda e qualquer oportunidade para que sua arte e principalmente sua mensagem sejam divulgados. Raríssimos são os programas em que realmente o mais saudável é manter-se distante! Em sua grande maioria, estes programas devem ser encarados como oportunidade de evangelismo. Mas imagino que é bem diferente uma aparição (cada vez mais rara) de um artista gospel num programa de TV secular e uma carreira artística pautada no crossover.

Um artista que quer militar tanto na seara gospel como na secular irá se confrontar com situações onde sua posição de fé e doutrina serão naturalmente confrontados. Temas polêmicos como casamento gay, drogas, liberação sexual e outros assuntos usuais na pauta de nossa sociedade certamente irão surgir e os artistas cristãos crossover terão que se posicionar. E aí, não há a menor dúvida, uma posição a favor da fé e doutrina cristã e contrária ao pensamento totalitário e reinante na grande mídia farão que a imagem deste artista seja rotulada como a de alguém retrógrado, radical e coisas do tipo. Ou seja, toda a estratégia vai por ladeira abaixo.

Ou seja, é melhor que um artista gospel rompa com as barreiras do meio gospel sendo justamente reconhecido como um representante de qualidade do segmento, do que como um “agente secreto gospel” que apresenta uma boa música, que tem um discurso adequado ao meio popular, com roupas e trejeitos, bandeiras e atitudes populares mas que a qualquer momento possa ser descoberto e revelado como um artista infiltrado.

Se você é cristão e mantém o sonho de ser reconhecido no mercado secular, particularmente só acredito em dois caminhos. O primeiro é justamente o que estamos falando exaustivamente neste texto, ou seja, produzir uma música cristã de qualidade a ponto de romper com o próprio nicho. A segunda opção é bem mais complicada. Aventurar-se a ingressar no mercado secular competindo diretamente com os artistas seculares, cantando e produzindo música secular. Há alguns casos de artistas seculares de sucesso nacional que conseguem manter-se com relativo sucesso nesta estratégia. Mas vale ressaltar, que nestes casos, os artistas são exclusivamente seculares. A vida artística é popular e a vida pessoal é cristã. Ou seja, não podemos considerar que estes estejam fazendo o autêntico crossover.

Pra pensar …

P.S. – Se você concorda ou não com este ou qualquer outro texto de nosso blog, gostaria de incentivá-lo a expor sua opinião em nossa área de comentários. Sempre os comentários são lidos e muitas das vezes, quando necessário, posteriormente comentados por mim. Sua opinião é muito importante! E acabo este texto já no saguão de embarque no Aeroporto de Curitiba (na verdade, de São José dos Pinhais). Escrevo este post tendo que aturar uma menininha de uns 3 anos no máximo gritando, esperneando, chorando e tumultuando o ambiente diante de uma mãe apática que assiste ao teatro impassível. A boa notícia é que já percebi que ela vai embarcar em outro voo. Livramento purinho!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e consultor de marketing.

 

 

 

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

5 Comments

  • Edson Nova

    16/04/2015 at 22:31

    Concordo com absolutamente tudo! Até porque a música cristã não tem um fim em si mesma. Ela atua em função de algo anterior e superior à ela. Em minha opinião, os artistas do nosso meio têm se preocupado demais em fazer sucesso e fama. Não há nada de errado em ser profissional e se dedicar integralmente num ministério musical, mas o foco deve ser a mensagem e aqueles a quem devemos evangelizar.

    Eu acho que ninguém fez um crossover melhor que o próprio Jesus. Quem imaginaria que um homem judeu pobre, que nunca saiu da Palestina e viveu sob o jugo do império romano seria a base de fé de 1/3 do mundo contemporâneo? Mas a mensagem do amor é irresistível, invencível, e autoexplicativa. Acho que essa é a melhor estratégia de crossover: amar!

    Responder
  • Karen & Bethel's son

    18/04/2015 at 17:43

    Olá Maurício! A algum tempo vejo algumas publicações suas e tenho curtido muito o que vc pública e só nesse post me ousei deixar um comentário e quero dizer que você nos abre um novo conceito sobre pensamentos e conclusões que muitas vezes levamos durante anos como os mais corretos ou os mais convenientes, e fico muito feliz de ver que existem pessoas com pensamentos e opiniões inteligentes sobre assunto polêmicos.
    Quero deixar uma opinião quanto a essa ideia que muitos de nós artistas sofremos, que é exatamente a discriminação do próprio público a respeito de viver de cachês artísticos e nos julgarem por isso, mesmo que você separe bem o “culto” do “show”, a “missão” do “profissional”, pois creio que somos profissionais cristãos nos shows gospel que usam do trabalho para também evangelizar, mas isso muitas vezes é motivo para críticas e acusações, infelizmente nosso seguimento ainda é visto com um certo preconceito, principalmente partindo dos crentes… Agradeço por esse espaço e parabenizo você pelo blog e ótimos temas abordados.

    Responder
  • Nicoli Francini

    23/04/2015 at 17:11

    Passando pra registrar minha presença, nem acreditei que tinha três textos novos meia hora de leitura rica e interessante, sucesso.

    Responder
  • Rafael Gotardo

    29/04/2015 at 11:25

    sempre aprendendo com esses textos do Mauricio, minutos bons de leitura que tem nos ajudado no ministério. Grande abraço

    Responder

Deixe uma resposta