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Dias de sol na capital cearense…

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Neste momento estou regressando de quase uma semana na capital cearense onde participei pela décima primeira vez da Expo Evangélica, a maior (apesar do querido Ewerton, organizador do evento, fazer questão de sempre enfatizar que sua feira não é maior ou melhor, mas “apenas” uma grande realização) feira do mercado cristão na atualidade no país. Em 4 dias de evento, a Expo Evangélica reuniu mais de 50 mil pessoas e recolheu mais de 17 toneladas de alimentos que serão destinados a instituições de caridade que atuam no Estado do Ceará, incluindo a região do sertão que passa por uma estiagem severa de quase 5 anos.

Estes intensos dias me ajudaram a trazer algumas percepções bastante interessantes que gostaria de dividir com meus 71 leitores (Sim! Conseguimos conquistar mais 5 leitores após anos e anos de muita labuta e divulgação. Espero manter esse mesmo ritmo e, quem sabe …, daqui algumas décadas consigamos chegar em 100 leitores do Observatório Cristão).

Em primeiro lugar, o DataOBC, instituto de pesquisas informais e achômetros do Observatório indica que 70% do público presente ao evento era composto por jovens até 25 anos. A pesquisa tem margem de erro de 20% para mais ou para menos! Independente do número exato desta pesquisa, a percepção geral era de que a massa presente à Expo Evangélica era composta por jovens. A primeira análise que me vem a mente sobre este fato é:

Até que ponto as igrejas e lideranças estão preparadas para lidar com essa faixa etária que está 100% conectada, interligada, tem hábitos e linguajar próprio?

Sinceramente acredito que boa parte das igrejas evangélicas, não somente no Ceará, mas em todo o país, ainda está focada em estratégias, atividades e expectativas do século passado. Muitas igrejas ainda baseiam seus trabalhos com adolescentes e jovens reproduzindo o modelo de cultos específicos às sextas ou sábados, uns 2 acampamentos por ano, um congresso e coisas do tipo. Sinceramente, acho que este público nutre outras expectativas bastante diferentes do que vem sendo oferecido a eles. E na velocidade com que as coisas acontecem nestes tempos frenéticos, acredito ser importantíssimo que a igreja evangélica brasileira mude suas estratégicas, comunicação, objetivos e principalmente sua mentalidade em se tratando dos jovens. Imagino que se não houver uma mudança neste sentido, corremos o sério risco de que muitos desta juventude tornem-se os ex-evangélicos ou evangélicos não-praticantes dos próximos anos. A igreja precisa ser atraente, interessante e consistente para reter esta enorme população.

Outro fato que me chamou a atenção foi a profusão de aparelhos celulares, de todos os tipos, modelos, estilos, com as capas mais diferentes, nas mãos destes mesmos jovens. E como a cultura da selfie, filmagem e mesmo fotografia faz parte do cotidiano das pessoas, assim como temos o hábito de beber água, falarmos ou nos alimentarmos. Quem não tem um celular à mão é como se estivesse isolado do mundo. Que esta mudança no hábito das pessoas é algo bastante perceptível, não há a menor dúvida, mas isso fica ainda mais evidente em um evento como a Expo Evangélicas onde as pessoas filmam e fotografam tudo. Estive nestes dias participando de muitas sessões de fotos dos artistas de nosso cast e percebi que as pessoas esperavam pacientemente por 30, 40, 60 minutos numa looooonga fila só pra ter a satisfação de tirar uma foto com um artista para expor em suas redes sociais como um prêmio alcançado. Muitos destes não se contentavam somente com uma foto, mas queriam também selfies e se possível um videozinho com uma mensagem pra alguém que não estava ali presente. A informação se tornou instantânea. Nada passa longe dos olhares e registros da multidão.

Alguns artistas que tive o prazer de levar para o evento estiveram pela primeira vez em terras cearenses. Muito do objetivo deste evento para as gravadoras é apresentar seus lançamentos, novidades e apostas para o grande público e mídias locais.

A surpresa para muitos era se deparar com milhares e milhares de pessoas cantando a plenos pulmões algumas canções que sequer são executadas nas rádios locais.

Este talvez seja um dos aspectos que mais me agradaram e que apenas fortalecem minha convicção sobre determinadas ações e estratégias que temos desenvolvido nos últimos anos. Artistas como Salomão do Reggae, Preto no Branco, Priscilla Alcântara, Marcela Taís se apresentaram no palco principal do evento acompanhados de um coral de milhares e milhares de vozes. Isto apenas demonstra a importância da web na consolidação de um artista. Se há tempos atrás a principal, se não única, forma de se popularizar um artista era massificando a divulgação em rádios, hoje em dia percebemos um novo caminho a se investir, ou seja, a internet. Não é coincidência que estes artistas citados (e pode-se incluir Leonardo Gonçalves) são fenômenos de popularidade nas redes sociais e, principalmente nos canais de vídeo streaming como YouTube e Vevo com muitos milhões de views.

Infelizmente muitas rádios e seus respectivos executivos ainda acreditam que podem determinar o sucesso em suas regiões de cobertura. Esta primazia já não os pertence mais (felizmente em muitos casos!) e agora está ameaçada pela internet que é um ambiente infinitamente mais democrático e ágil. Aos profissionais de rádio o dever de casa é tornar sua programação relevante a ponto de não ver migrar sua audiência jovem para canais de streaming como YouTube e o Spotify, por exemplo.

Ainda sobre os artistas, outro aspecto interessante é de que todos são considerados da nova geração da música cristã nacional. E neste seleto grupo podemos ainda incluir outros nomes como Gabriela Rocha, Daniela Araújo, Os Arrais, Eli Soares, Clóvis Pinho, entre outros. Ou seja:

Temos uma significativa alteração no line up de artistas que atualmente chamam a atenção do público.

Mudando do foco, mas ainda seguindo com as percepções destes dias em Fortaleza onde todos os dias olhei para o mar e sequer pisei na areia, outro fato que me chamou a atenção foi de que mesmo após 11 edições, a Expo Evangélica ainda se ressente da ausência de alguns dos principais players do mercado. Excetuando-se as gravadoras, que particularmente se destacam da mesmice reinante no que chamamos de mercado cristão, não tivemos a presença de editoras, confecções ou outras empresas que atuam nacionalmente. Neste ano, observamos uma significativa adesão das mídias locais, especialmente as emissoras de rádio que compareceram com seus stands, estúdios e divulgação do evento. Ou seja, me parece que a Expo Evangélica ainda precisa ser melhor reconhecida pela turma do sul do país (como o povo do nordeste se refere a tudo que é Brasil abaixo de Salvador). Aqui cabe uma crítica sobre o trabalho das editoras em nosso segmento, onde, a meu ver, definitivamente este é um ambiente em que a inércia me parece característica marcante. É assustador como este é um segmento que pouco (pra não ser ainda mais direto!) contribui para mudanças, fortalecimento, crescimento do mercado consumidor como um todo. E esta é uma opinião dividida também com boa parte dos livreiros, ou seja, de que as editoras são bem pouco pró-ativas e, isto fica ainda mais evidente em eventos como o que participamos nestes dias.

Anos atrás, bem antes mesmo de ingressar numa empresa multinacional, sempre comentava entre amigos, de que o mercado cristão no Brasil era extremamente inerte e, bastante amador, muitas das empresas administradas por pastores, estruturas familiares e coisas do tipo. Muito do ‘sucesso’ das empresas do meio gospel devia-se (ou deve-se) unicamente à demanda de consumo elevada pelo crescimento orgânico do segmento e consumidor cristão, mas não necessariamente por estratégias, planejamento ou qualidade nas atividades corporativas. Sempre comentava de que quando as grandes corporações enxergassem o segmento cristão como um importante nicho de consumo, estas chegariam ao mercado com muita força, literalmente tomando conta de tudo. Pois bem, estas projeções são realidade neste momento. Já temos importantes grupos editoriais nacionais e estrangeiros chegando com tudo ao mercado cristão nacional como Thomas Nelson e Editora Planeta, entre outras. Na área fonográfica, Sony Music e Universal Music vêm crescendo em importância e diminuindo significativamente a relevância de empresas nacionais que até então dominavam o mercado.

Relendo os itens que destaquei neste texto há uma questão que se repete em todos os aspectos e que me chama a atenção. E a palavra em questão é: mudança.

Temos transformações significativas nos hábitos de consumo, no perfil do consumidor, na relação do público com a música e os artistas, nas mídias onde a música e os artistas são percebidos, nas empresas que se destacam no cenário nacional, no que chamamos de primeiro time dentro do mainstream artístico, enfim, as mudanças são intensas, profundas, rápidas e irreversíveis. Quem não se ajustar … ficará lá no passado … #fato!

Finalizo este texto agradecendo a toda equipe da Ewerton Organização de Feiras, responsável pela realização da Expo Evangélica em Fortaleza. A forma atenciosa como todos somos tratados nestes dias são o maior diferencial que vocês podem ter. Dias intensos, cansativos, mas extremamente agradáveis. Obrigado Família Ewerton!!!!

Aproveito ainda para registrar mais um feito histórico alcançado nesta semana com a primeira colocação de Estêvão Queiroga no iTunes nos charts de Álbum, Single e Clipe, além de figurar entre o Top10 do Single Viral, site que acompanha tendências e músicas que foram muito executadas no Brasil de forma espontânea pelo público. E pra completar, Alexandre Magnani com o álbum “Janelas” alcançou a terceira posição de álbum no iTunes exatamente nestes dias, ao lado do amigo Queiroga. Pra ressaltar este feito, Magnani é um jovem artista, em seu primeiro trabalho solo e tem seu projeto disponível exclusivamente na distribuição digital pelo label da Sony Music. Parabéns ao dois jovens mancebos!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, alguém que simplesmente gosta de gente, gente de todos os tipos, exceto os invejosos e mentirosos. Destes quero muita distância!