Home Humor Eis que vos digo: Fica esperto pra não dançar!

Eis que vos digo: Fica esperto pra não dançar!

Acho muito interessante como de tempos em tempos me pego repetindo mesmos assuntos para diferentes momentos e interlocutores. Me parece que há alguns temas que se tornam mais relevantes em determinadas épocas e com isso acabo sempre voltando ao tema em conversas com amigos. Talvez euseja mesmo repetitivo …

Ultimamente tenho falado muito sobre a diferença entre ‘fenômenos’ e artistas consolidados. Creio que pelo menos nas duas últimas semanas tive umas 5 ou 6 conversas especificamente para tratar deste tema. E com tantos subsídios, tomarei a liberdade para expor um pouco mais sobre esse assunto nas próximas linhas deste texto. Texto por sinal, escrito durante o voo entre a capital fluminense e Curitiba onde irei participar de algumas reuniões e à noite prestigiarei a inauguração de mais uma filial da Livraria Luz e Vida. Fico muito feliz em ver novos canais de venda sendo inaugurados, isso demonstra que estamos diante de um mercado em ebulição e franco crescimento.

A carreira artística talvez seja uma das mais inconstantes profissões que temos conhecimento. Longe da tranquilidade e estabilidade de um serviço público, a vida artística é algo mais instável do que ações da Bolsa após crises econômicas mundiais. Um artista vive essencialmente de sua capacidade de se reinventar e de trazer algo realmente interessante e atraente ao público, mídia e mercado. Temos inúmeros casos de artistas de “uma música só”, compositores que escreveram um único sucesso, cantores de uma determinada época e coisas do tipo. Se analisarmos alguns casos de sucesso não continuado poderemos perceber que boa parte destes tem uma similaridade em suas trajetórias de sucesso avassalador e fracassos retumbantes. Sem dúvida, a falta de um novo projeto artístico de qualidade na sequência é um fator bastante recorrente. É impressionante como determinados artistas e compositores foram capazes de interpretar e criar músicas antológicas, lançarem discos fantásticos e logo em seguida, decepcionarem atodos com uma nova produção sofrível. E para isso há uma série de aspectos que podem ser elencados de forma muito clara, tais como: arrogância pelo sucesso, erro na avaliação de um novo repertório, mudança radical de estilo, deslumbre, falta de estrutura de apoio, entre outros.

Mas além da questão artística propriamente dita, um outro aspecto precisa ser analisado em se tratando de uma carreira efêmera ou sólida. Talvez o planejamento de uma carreira artística seja tão ou mais importante do que a escolha de um repertório, produtor musical ou a parceria com uma gravadora. Em minhas andanças pelo país e conversando com centenas de cantores e aspirantes ao estrelato, percebo claramente a falta de um plano de ação para médio e longo prazos. Em geral, estes artistas não conseguem planejar mais do que 12 meses pela frente e, em geral, esse planejamento ‘de longo prazo’ (só que não!) está relacionado à data de lançamento de um novo CD. Nada a ver com investimentos, metas, objetivos, planos! E esta falta de avaliação das possibilidades futuras tem levado muitos artistas, especialmente do segmento gospel, a encurtarem sensivelmente as suas carreiras e seus respectivos potenciais de sucesso.

 

Uma decisão mal feita tem resultadosdiretos e muitas das vezes a curto, médio e longo prazos!

 

O grande desafio hoje em dia para um artista no meio gospel é primeiramente se destacar em meio a tantos outros. A ‘concorrência’ atualmente é típica de vestibular de medicina para faculdades federais. É muita gente querendo seu lugar no palco dos grandes eventos, igrejas, festividades. Recebo em média, 15 a 20 CDs por semana para avaliação. É gente de todo canto do Brasil e muitas das vezes de outros países. Pelo correio eletrônico de contato da gravadora, são em média 20 a 30 mensagens de apresentação por dia! É muita gente querendo ter uma carreira artística. E o mais interessante nestes casos são as estratégias e mensagens que recebo. Confesso que muitas das vezes dou gargalhadas intensas com as mensagens que nos chegam. Ontem mesmo recebi uma mensagem de um postulante a cantor que no título do e-mail estava em letrasgarrafais: “Sou o que vocês precisam!” – simplesmente fantástico! Um dia irei escrever um texto somente sobre essas ‘abordagens’.

Ultrapassado o desafio de romper com o anonimato, o artista está longe de ter alcançado o nirvana. Pelo contrário! A partir de um mínimo reconhecimento por parte do público e da mídia, o artista deve superar todas as expectativas e realmente mostrar o seu diferencial. Hoje em dia não adianta ter só talento, o artista precisa ter um diferencial, uma proposta própria que o destaque dos demais. Além de buscar sempre o melhor repertório, o artista tem que investir em sua carreira e divulgação. E aí é outro problema enorme, pois geralmente os investimentos são altos e a garantia de retorno inexiste. A contribuição de pessoas experientes no meio é fundamental para poupar de ações infrutíferas e dinheiro desperdiçado. Corra dos ‘vendedores de facilidades e ilusões’! Então, mesmo que você seja um jovem artista, a necessidade de um planejamento de carreira é fundamental. Estabeleça suas metas, prazos, avalie seus pontos fracos e fortes, pense sua carreira!

Hoje em dia o artista não precisa ter ‘só’ o talento. É necessário um diferencial!

A diferença entre um artista ‘fenômeno’ e ‘consolidado’ reside basicamente na forma de condução de sua carreira. Um artista ‘fenômeno’ geralmente é aquele que alcançou o sucesso num tempo menor do que o habitual. E por isso mesmo, muito do aprendizado que se adquire com o tempo é deixado de lado e com isso, muitos erros são cometidos ao longo do caminho. Há artistas neste naipe que conseguiram alcançar o sucesso em pouco tempo e nesta mesma velocidade conseguiram fechar portas com pastores, mídias, lojistas, promotores de shows e mais uma fila de gente. O alerta que semprefaço é de que o sucesso faz com que as pessoas acatem essa ou aquela falha do artista, afinal naquele momento ‘ele é o cara!’. Mas basta uma pequena oscilação ou mesmo queda de popularidade deste mesmo artista para que todosaqueles que simplesmente ‘engoliram’ o estrelismo do pop star, passem a deixá-lo de lado e mesmo fechar portas e oportunidades, no melhor estilo ‘roda gigante’.

O artista ‘fenômeno’ não pode se iludir imaginando que os tempos de ‘vacas gordas’ durarão ad eternum. Conversando com o cantor Leonardo Gonçalves e alguns amigos curitibanos em meio a um jantar super especial, justamente este tema veio àbaila. E uma das frases do Leonardo que me chamou a atenção foi justamente o tempo ‘de vida útil’ de um artista. Na opinião dele, uma carreira de um cantor dura em média uns 15 anos e das mulheres um tempo bem maior. E acreditando nisso, o próprio Leonardo já vem desde já se preparando para esta segunda fase de sua carreira. Isso é planejamento!

Ainda nesta mesma conversa, o próprio Gonçalves também comentou que o artista se ilude com o sucesso achando que isso ocorre basicamente por seu próprio desempenho. E de acordo com ele – e nisto eu concordo plenamente! – o sucesso se dá pela melodia, pela qualidade musical. Basta analisarmos alguns cases recentes de sucesso para chegar à conclusão de que a música tornou-se sucesso, muitas das vezes até mesmo, apesar do seu intérprete. Então, neste caso, fica ainda mais perceptível de que para um artista tornar-se consolidado, a preocupação na escolha das melhores músicas é questão de sobrevivência. Por isso, é injustificável que o artista inicie um disco sem ter o melhor repertório que possa selecionar. Não entendo como existem artistas que preocupam-se com o figurino, com as cordas de Praga, com o fotógrafo, com o designer e, em contrapartida, dão tão pouca importância ao processo de seleção de músicas para o repertório.

Especialmente no meio gospel, um artista consolidado é aquele que possui agenda intensa, com eventos em igrejas e grandes shows. Engana-se o artista que se jacta por ter apenas shows vendidos para prefeituras ou grandes festas. Nestes locais, o artista é apenas entretenimento, ou seja, é apenas uma atração. O lugar onde se forma público, onde se conquista respeito e admiração é justamente nas igrejas, independente se estas são megatemplos ou diminutas congregações de periferia. Ainda sobre a questão da agenda, o artista consolidado é aquele que deixa as portas abertas por onde passa. Diferente de alguns que simplesmente deixam um rastro por onde passam, ou seja, criam tantos problemas e inimizades que jamais pisarão novamente naquela cidade ou região. Isso é como um rastilho de pólvora! Um pastor ou promotor de evento maltratado, desrespeitado, não medirá esforços para divulgar e propagar a respeito da performance ou atitudes daquele determinado artista. Uma fama negativa em nada contribui para tornar um artista em consolidado.

Neste momento, o mercado fonográfico passa por profundas transformações. Especialmente no segmento gospel há uma série de alterações no quadro que merece muita atenção. Há um claro movimento de concentração de labels em parceria com grandes gravadoras. Também é perceptível a mudança de prioridades e postura de determinadas gravadoras, especialmente àquelas ligadas a denominações. Algumas destas gravadoras simplesmente estão sendo descontinuadas, outras mudaram o foco deixando de ser competitivas e priorizando apenas o consumo interno de seus fiéis e líderes. Há ainda empresas que insistem em seguir com estratégias que funcionaram muito bem no século passado, mas que hoje são absolutamente obsoletas e anacrônicas. Ou seja, cada vez teremos menos players neste mercado e também é motivo de atenção ao artista que pretende se tornar consolidado, saber optar pela melhor parceria com quem caminhar.

 

Fique atento às mudanças do mercado.Observe e antecipe-se às grandes transformações!

Este texto começou a ser escrito durante o voo para Curitiba e agora finalizo-o no saguão de embarque retornando à Cidade Maravilhosa. Um grande abraço a todos e espero contar com sua visita nos próximos dias!

 Mauricio Soares, publicitário, palestrante, consultor de marketing