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Ele é meu! Ele é meu! Ele é meu! Ou entendendo a verdadeira relação artista-gravadora

Relacionamento. Essa é uma palavra que carrega em si uma riqueza de significados e experiências. A palavra “Relacionamento”, na maior parte das vezes, nos remete à idéia de tempo, intimidade, conhecimento mútuo, cumplicidade.

Podemos considerar alguns tipos de relacionamento. Temos aqueles “relacionamentos naturais”, baseados na empatia, na proximidade, na confiança, na leveza. Uma amizade verdadeira entre pessoas é um relacionamento não imposto, ele é leve, sutil, onde duas pessoas encontram pontos de afinidade entre si e cultivam com o tempo uma relação de confiança.

Outro “relacionamento” natural é o familiar. Não necessariamente pautado na empatia, mas em uma história de existência. A relação fraternal é algo que em sua grande maioria supera diferenças, aproxima pessoas que possuem visões diferentes de mundo, mas que reconhecem que os laços sanguíneos, familiares, superam quaisquer diferenças.

Não sou um estudioso das relações humanas, mesmo observando o comportamento das pessoas como dever de ofício. Para um maior aprofundamento das relações humanas reconheço que precisaria de muito mais estofo psicológico. Então para não correr o risco de sair tergiversando sobre o tema que não me garanto, vou direto ao assunto.

Como mencionei antes, na minha modesta opinião, existem dois tipos de relacionamentos, os naturais – amizade e familiares – e os de interesse mútuo, geralmente pautados através de termos, regulamentos ou contratos.

Já me antecipei afirmando que não vou me arriscar a comentar algo no campo psicológico, então o tema desse post, após toda esta introdução, tem a ver com a relação entre artista e gravadora. Essa é uma relação pródiga em assuntos! São tantos ângulos que podem ser observados sobre esse tema central que vou ater-me a um ponto específico.

Ao ver alguns comentários, entrevistas e mesmo reações de executivos de gravadoras sobre o relacionamento artístico fico assustado com a forma que estes profissionais ainda insistem em tratar essa relação. É comum vermos reações destemperadas, agressivas e vingativas (Oh! Lord na voz do Lázaro) de certos “executivos” quando a relação artista-gravadora se extingue.

O que percebo é que muitos destes profissionais enxergam o artista como um mero patrimônio e não como um parceiro na busca dos melhores resultados em conjunto. Quando vejo estes “executivos” afirmarem que determinado artista é” da gravadora, percebo nitidamente um sentimento de posse, de poder, de domínio e porque não dizer, de orgulho!

Relações naturais são pautadas pela confiança e como tais não se ajustam em papéis, em termos, em contratos formais! Estes relacionamentos são dirigidos e mantidos pela empatia, carinho e naturalidade. Já um relacionamento artista-gravadora é uma atividade comercial e como tal, deve ser regida por cláusulas, obrigações, direitos e tudo mais!

Contratos artísticos devem ser completos com riqueza de detalhes – apesar de que já tive oportunidade de ter em mãos alguns contratos esdrúxulos como de uma determinada artista que resumia-se em 2 páginas, cerca de 3 ou 4 cláusulas que nada diziam sobre coisa alguma! – para orientar perfeitamente a relação artista-gravadora. Nestes contratos estão estabelecidas, muitas das vezes, as quantidades de obras que o artista deve ceder e produzir para a gravadora. Bem como os tempos de execução e de validade.

É neste item que quero enfocar mais um pouco. Todo contrato tem seu tempo de duração, portanto ele tem início e fim! Ao término do contrato, ambas as partes devem avaliar se é válido ou não a renovação do contrato nas mesmas bases ou mudando-se alguns itens. Mas, frise-se – todo mundo deve ter liberdade de querer ou não permanecer na relação!

O que ainda percebo no mundinho gospel é uma relação esquizofrênica muitas das vezes no término dos contratos artísticos. A reação de determinados executivos no momento de discutir um novo período de relação é assustadora e absolutamente destemperada, especial quando o artista toma a decisão de não renovar o contrato.

Para as gravadoras “rejeitadas” na hora da renovação, o espírito é de “caça às bruxas”. Na época Stalinista, na antiga União Soviética, muitas fotos e documentos históricos foram alteradas eliminando antigos líderes do Partido Comunista e da história soviética por não mais se alinharem ao pensamento do poder central. O que vemos em muitas gravadoras são atitudes semelhantes a isso!

São muitos os exemplos de artistas gospel que ao se desligarem de suas antigas gravadoras, no dia seguinte são tratados como párias, como traidores, como persona non grata do universo daquela determinada empresa. Suas canções evaporam do playlist da emissora de rádio coligada, suas imagens são apagadas do site da Cia. e mesmo seus pagamentos de royalties de produtos no catálogo (e do qual possuem direitos ad eternum) deixam de ser efetuados — ou no mínimo sofrem uma queda vertiginosa já na apuração do trimestre seguinte.

Muito desta atitude Stalinista deve-se ao fato de como os artistas são vistos por suas gravadoras! Mais uma vez reafirmo que muitas destas gravadoras vêem e afirmam categoricamente que os artistas do cast são, na verdade, como “patrimônio da empresa” no sentido mais deturpado do conceito, algo semelhante a uma mesa, um automóvel, um mero bem de consumo!

Uma das análises que todo artista deve fazer ao escolher se determinada gravadora é interessante para se estar no cast é justamente a forma como ela lida com o artista e principalmente como ela age no fim dos seus relacionamentos! Não adianta se iludir! Se determinada gravadora “detonou” o artista X em sua saída, ela fará exatamente o mesmo contigo, pois isso é um padrão de comportamento.

Este post é motivado por fatos reais! Nas últimas semanas tenho recebido em meu escritório e conversado em outras oportunidades com inúmeros artistas assustadoramente magoados, assustados e acuados pela forma como têm sido tratados. O clima é de assédio moral mesmo! Lembro-me de alguns anos atrás ter assistido in loco a determinada executiva de gravadora bradar a plenos pulmões para uma artista que esta voltaria de joelhos para a gravadora. Uma cena horrível! Digna de filme de terror mesmo! E o mais triste é que essas histórias acabaram caindo no folclore do mundinho gospel e as pessoas pouco a pouco foram tratando como algo normal! Com comentários do tipo: “Ah! Mas tal pessoa é assim mesmo! Ela tem temperamento muito forte, fala o que quer mesmo!”

Chego ao fim deste post escrito durante dois vôos pelo país com a sensação clara de que poderia ter escrito muito mais sobre esse assunto, mas como reconheço a capacidade intelectual dos 32 leitores do Observatório Cristão (sim! Já passamos a barreira de 30 leitores assíduos nesse blog!), vou parando por aqui. Até porque os comissários de bordo chegaram com uma lauta refeição em pleno vôo Rio-Curitiba. Um saquinho de 15g de amendoim e um copo de refrigerante. Vou me fartar de tantas calorias. Hummm… agora vem o comissário/garçom com um cardápio em mãos oferecendo um lanchinho extra… será que um dia teremos um daqueles jovens gaúchos com um espeto de picanha oferecendo uma fatia por 10 reais em pleno vôo?

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador do mundinho gospel, sempre alerta sem nunca ter sido escoteiro, profissional de marketing que não gosta de conhecer o mercado de dentro de uma sala com ar condicionado e tuiteiro nas  horas vagas.’

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