SHOPPING CART

Está faltando assunto?

Recentemente em meio a uma instigante conversa com um jornalista da mídia evangélica este me confidenciou sobre a dificuldade em ter, por parte dos artistas gospel, alguma declaração mais bombástica, algo que realmente se diferenciasse do padrão usual de respostas. Ainda na conversa, este mesmo jornalista me disse de como havia rendido uma entrevista com um determinado artista recentemente. De como este artista falou abertamente sobre uma quantidade grande de assuntos, alguns até bastante espinhosos! Mas que essa experiência, mesmo sendo maravilhosa, era algo absurdamente raro nas plagas da música gospel.

Na edição da Revista Veja desta semana (3a semana de abril), há uma resenha sobre o lançamento de um livro que reúne uma compilação de textos do jornalista Paulo Francis. O jornalista, falecido há alguns anos, era um mordaz crítico da sociedade norte americana e da política brasileira, em especial. Para os mais novos, vale a pena uma pesquisa sobre quem foi Paulo Francis e de como ele tratava com um olhar e uma escrita afiada, as dicotomias e mazelas do mundo que o cercava.  Ainda no texto de Veja, o jornalista destaca a atemporalidade dos textos de Paulo Francis. Em muitos casos, os textos, escritos no século passado, permanecem completamente atuais.

Estes dois fatos descritos acima me fizeram pensar sobre como nossos ”formadores de opinião” no meio evangélico tupiniquim estão cada vez mais distantes do que se espera deles, ou seja, de que formem opiniões, de que exponham seus pensamentos, de que criem uma análise crítica da sociedade, de que estimulem outras pessoas a pensarem e agirem diferentemente do status quo.  É tão raro vermos alguém nesse segmento religioso indo de encontro a idéias, pensamentos e atitudes, que isso pode nos trazer uma imagem errônea de que somos um grupo coeso em sua ideologia, bandeiras, desejos e anseios. Somos, na verdade, diametralmente o oposto disso!

Hoje pela manhã, acompanhando pelo rádio, como faço todos os dias a caminho do trabalho, o programa ”BandNews Rio de Janeiro” com Ricardo Boechat, o apresentador comentou sobre o antes permanente interesse da mídia em buscar a opinião do Senador Demóstenes Torres sobre os mais diferentes temas. O Senador era implacável nos comentários, nos seus posicionamentos. Não havia meia palavra! Talvez por isso mesmo, a grande surpresa do país ao constatar o envolvimento do político com um contraventor e uma série de irregularidades. Mas a questão que focamos aqui não é sobre a lisura do Senador, mas em sua postura de dizer o que pensava e em defender seus pontos de vista.

Ainda sobre o tema, o mesmo jornalista citado logo na abertura deste post comentou sobre a dificuldade de contar com opiniões e depoimentos de profissionais do meio gospel, principalmente na área fonográfica. “Acabo tendo que recorrer sempre às mesmas pessoas em minhas matérias porque delas sei que posso esperar algo mais contundente, mais consistente. Infelizmente essas pessoas recorrentes não são mais do duas ou três pessoas! Muitas das vezes quando tento ampliar o leque de entrevistado, se faço determinada pergunta sobre um assunto mais inovador, como mercado digital, por exemplo, a impressão que tenho é de que o interlocutor desconhece completamente do assunto. Além disso, muitas das vezes temos prazos para o fechamento da matéria e o entrevistado simplesmente não responde às perguntas ou então, pior ainda, a pessoa não tem autonomia suficiente para responder pela empresa. Precisa de uma autorização superior para atender à entrevista! Realmente é muito difícil!”

Se fizermos uma pesquisa entre 100 entrevistas recentemente realizadas com artistas do meio gospel e publicadas na mídia do segmento, iremos constatar uma profusão de repetição de termos e chavões dando a impressão de que simplesmente há um rodízio de perguntas e respostas independente do autor das declarações. É um tal de “o ministério que Deus me confiou”, “nosso chamado é para alcançar as nações”, “todas as minhas conquistas foram alcançadas com muita luta e lágrimas”, “este é um novo tempo em minha vida e ministério!”, “o que importa é fazer não a minha vontade mas a dEle!”, “Deus me deu essa promessa e ela vai se cumprir!”… e por aí vai! Grande parte desta falta de criatividade também podemos creditar aos jornalistas e incautos que hoje pululam nos sites e mídias evangélicas.

Estou neste momento retornando de um evento em São Paulo onde recebi muitas revistas e jornais evangélicos. Ontem à noite, antes de recolher-me ao descanso merecido, resolvi folhear algumas destas revistas e confesso que por pouco não perdi meu sonho tamanha a quantidade de bizarrices que pude ler! Tem uma entrevista com um pseudo cantor gospel do Nordeste que o cara começa a inventar palavras no melhor estilo Odorico Paraguassu. Num determinado momento da entrevista o cantor disse que “prioristicamente blá blá blá”… o “Odorico Gospel” na verdade queria dizer “prioritariamente”, mas sacou esse neologismo do sertão e do jeito que falou, a revista publicou! Ainda na mesma revista há uma matéria (claramente paga) onde uma vereadora destaca como sua grande contribuição à causa evangélica a criação do “Dia do Cantor Gospel” … pasmem!

Não me lembro de ter visto recentemente qualquer declaração de um formador de opinião evangélico sobre a questão da corrupção endêmica na política brasileira. Também não vi qualquer manifestação sobre a votação no STF da questão dos anencéfalos. As drogas cada vez mais estão afetando a sociedade brasileira e também não vejo nenhum movimento mais contundente de algum mega líder cristão. Ou seja, na ausência de pessoas querendo posicionar a favor das grandes causas da sociedade brasileira, acabamos sendo “representados” por pessoas completamente obtusas, muitas das vezes com interesses nebulosos.

A impressão que tenho é que essa massa evangélica que hoje soma alguns milhões de brasileiros – entre 35 a 60 milhões numa versão mais evangelástica! – segue numa toada determinista, no melhor estilo “deixe que me guiem, porque no fim eu sei onde quero chegar”. Mas no fundo mesmo, é só uma enorme massa de manobra sendo usada para interesses nem sempre nobres de alguns poucos. E muito dessa sensação é fruto de uma absoluta e completa ausência de pessoas que exprimam de forma coerente, contundente e séria suas opiniões dentro dos mais nobres conceitos cristãos.

Sinceramente espero que os artistas sejam mais criativos e audaciosos em todas as oportunidades em que sejam convidados a se manifestar. Também espero que os jornalistas e incautos que pululam nas mídias evangélicas procurem ampliar o espectro de suas perguntas. Que sejam mais inquiridores, mais perspicazes, menos “chapa branca”, que estimulem mais os grandes debates. Que deixem de reproduzir textos pré-fabricados somente tecendo loas a este ou aquele artista. Que estimulem para si o sentimento-mor de todo o jornalista: a dúvida na realidade dos fatos que se nos apresentam! Não aceitem as interpretações já manufaturadas por terceiros! Criem suas próprias opiniões!

Espero ainda que os homens de boa fé e capacidade intelectual que certamente existem em grande quantidade no meio evangélico brasileiro, assumam suas respectivas responsabilidades e deixem de lado a segurança, conforto e sentimento de auto-preservação e questionem o roteiro pré-moldado que alguns que se dizem porta-vozes do meio evangélico brasileiro querem nos empurrar!

Se hoje somos reconhecidos como PROTESTANTES certamente não é pelo fato de que simplesmente nossos antepassados na fé aceitaram calmamente o status quo vigente à época! Questione, analise e posicione-se, sempre! Pense nisso!

 

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, alguém que trabalha e acredita que ainda podemos ter um país e uma sociedade positivamente influenciados pelos conceitos cristãos. Pode ser utopia? Sim pode ser! Mas é melhor acreditar nisso e trabalhar em prol da realização deste sonho. Estou fazendo a minha parte e você? 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Deixe uma resposta