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FALANDO DE MÚSICA, COVER E VERSÕES EM TEMPOS DIGITAIS

Aproveitando a minha boa maré de disposição para escrever novos textos, seguimos firmes no propósito de manter o nosso humilde e longevo (já são mais de 10 anos!!!!) blog sendo atualizado com muito mais frequência do que o normal. De fato, tenho conseguido interessantes insights de temas sobre o mercado, tendências, marketing, música e todos os assuntos que interessam aos nossos prestigiosos 69 leitores e, por isso, tenho me esforçado para reservar parte de meu tempo para sentar-me à frente do computador e digitar meus textos.

No último post publicado, falamos a respeito da importância da música no sucesso de qualquer projeto ou artista. No texto destacamos a necessidade de dedicarmos tempo e atenção para buscar o HIT, aquela música capaz de destacar-se em meio ao oceano de lançamentos que chegam ao mercado a cada semana. E gostaria de seguir falando um pouco mais deste tema: a música. Neste texto inédito meu foco principal passa a ser duas questões que percebo estarem no centro de polêmicas, atenção e principalmente, no dia a dia do que chamamos de mercado da música gospel tupiniquim.

O primeiro tema tem a ver com as versões de canções internacionais. Dias atrás fui dar uma pesquisada no YouTube e deparei-me com inúmeras versões de uma mesma música como se houvesse um concurso nacional em que cada artista ou postulante ao estrelato fosse incentivado a dar sua roupagem a uma mesma canção. “Oceanos”, “Ousado Amor” e “Lindo És” são algumas destas músicas que possuem diferentes versões de diferentes artistas. Não! Não estamos falando de covers … disso falaremos em seguida. O que estamos enfocando neste momento é a absurda preguiça de vários artistas – de diferentes estilos e tamanhos – que optam em seguir o caminho mais fácil, teoricamente, da música que já foi testada em outros países e que teria grandes chances de se tornar sucesso também em nosso meio. Não vejo nenhum problema em termos influências estrangeiras, buscarmos referências gringas e coisas do tipo. Longe de mim querer passar a sensação de xenófobo ou purista, mas o que poderia ser apenas uma referência, está tornando-se default, ou seja, um padrão a ser seguido! E é justamente aí que consiste todo o problema! Em primeiro lugar não podemos deixar de destacar que as realidades são bastante distintas. Especialmente o Brasil tem uma cultura toda própria, uma riqueza de estilos, de influências e isso não pode ser simplesmente deixado de lado. A música brasileira é reconhecida internacionalmente e, sem dúvida, é uma das nossas identidades culturais de nosso país assim como a culinária e o futebol. Então porque será que no meio cristão brazuca, estamos tão caracterizados pelo pop rock anglo?

Uma questão que não me canso de destacar é que a internet não é um território sem leis, muito pelo contrário! E isso inclui a necessidade de ter autorização para a gravação de versões através de editoras que representam os compositores no Brasil. Muitos artistas estão simplesmente criando versões próprias, postando na web e até lançando nas plataformas digitais sem que tenham a devida autorização por parte da Publisher pra tal utilização da obra. E aí temos muitos conteúdos que são derrubados posteriormente pelas Publishers. Ou seja, não é porque você é um crente dizimista fiel que pode sair por aí gravando versões de músicas sem estar devidamente liberado para isso. Agora, tirando o foco nos artistas que estão gravando em sequência uma versão atrás da outra, gostaria de também colocar nesta pauta os produtores musicais e, principalmente os compositores deste nosso segmento. Há uma clara padronização do que chamamos hoje de worship, ou seja, aquela música com influências do pop rock, especialmente britânico, com espaço para ministrações, sussurros, gemidos, solos de guitarras, refrões exaustivamente repetidos, pontes, subidas de tom e apoteose pra transformar o ambiente. Há casos de produtores que já estão conhecidos no mercado por serem ‘especialistas’ no estilo gringo e se vangloriam de beber diretamente das fontes além-mar trazendo para si um ‘upgrade que agrega valor e dá um plus a mais’ … wow! Fantástico! #sqn! Além dos produtores que indicam aos artistas estes atalhos das intermináveis versões, os compositores também contribuem para esta questão, simplesmente por não se esforçarem em oferecer aos artistas conteúdos que, de fato, façam a diferença. Tenho recebido muitas composições nos últimos meses e confesso que poucas são as canções que tem me surpreendido positivamente tamanha a quantidade de temas básicos, repetitivos, frases feitas, melodias fracas, enfim uma obviedade ululante que não motiva ninguém!

O ato de compor precisa trazer em si uma auto crítica em nível máximo.

É perceptível que pela grande demanda de canções, muitos compositores entenderam que esta seria uma importante fonte de receita para seu sustento próprio e passaram a trabalhar quase que como montadores de uma fábrica chinesa oferecendo em série suas músicas e, neste caso, infelizmente a quantidade não tem vindo acompanhada da qualidade, o que acaba pondo por terra todo o processo de busca e criação do sucesso. Vale lembrar mais uma vez que um projeto de sucesso sempre vai começar a partir da música certa! É impressionante como esta questão por mais óbvia que possa parecer, segue sendo renegada por boa parte dos artistas. Para que os artistas deixem de gravar uma versão atrás da outra é fundamental que os produtores musicais trabalhem focados na busca do repertório perfeito! Sim, eu sei que isso demanda tempo, trabalho, networking, pesquisa … mas preciso também ratificar de que a montagem do repertório de qualidade é uma das principais atribuições do produtor, porque se ele não se preocupa com esta fase do processo, sequer pode ser considerado um produtor, mas sim um arranjador, o que convenhamos, é o que constantemente acontece por aí nos estúdios espalhados pelo Brasil.

O outro tema correlato que eu gostaria de mencionar neste momento em que estou seguindo diretamente para a Capital Federal onde terei 3 dias intensos de reuniões, audições e contatos, tem a ver com a prática dos covers. Pra quem não está ambientando com o assunto e a expressão, cover é quando um artista grava sua versão de uma música que desponta como sucesso no meio. Nesta semana recebi de uma querida amiga profissional da área de comunicação e que atua com maestria em nosso segmento, um vídeo de um jovem artista interpretando um destes recentes sucessos. No link enviado, vi um jovem cantor interpretando uma canção em estúdio, com uma boa banda o acompanhando, uma boa produção de imagens … coisa boa mesmo! E no contato, esta amiga me pediu para dar uma ‘sincera avaliação’ daquele material e principalmente da estratégia usada por aquele cantor em interpretar covers. Assisti o vídeo na íntegra e minutos depois voltei ao contato dando minhas impressões. E motivado por este acontecimento, resolvi dedicar mais uns minutos para comentar neste texto que publicamos agora, sobre esta questão específica. Vários artistas que depois se tornaram ícones da música mundial saíram do anonimato absoluto através de vídeos no YouTube interpretando canções de sucesso. No meio gospel tupiniquim também já temos vários casos de artistas que despontaram de igual forma. Mesmo na empresa onde atuo, hoje tenho alguns artistas que foram descobertos justamente por este tipo de material. Então, vou aproveitar sua especial atenção e listar algumas dicas e/ou comentários sobre estes conteúdos.

Em primeiro lugar, o objetivo principal de um cover é mostrar que o jovem artista em questão tem qualidade e merece ter a atenção do público. Então, esta é a oportunidade de literalmente mostrar-se para o que veio … ou seja, não adianta de nada interpretar a canção original repetindo tudo o que foi feito pelo cantor original, incluindo aí as pausas, respirações e mesmo os trejeitos. É aquela história … se eu tenho a opção de consumir um produto original, porque vou optar em uma cópia? Portanto, se a ideia é se apresentar através de covers, então faça algo diferente e que chame a atenção – neste caso e, pra não gerar dúvidas, ‘chamar a atenção’ é do ponto de vista positivo, ok? Nada de performances ridículas que te farão virar meme ou uma nova versão do “Para Nossa Alegria”. Cuidado com o diferencial.

Então, se é pra fazer diferente, opte em ter um músico acompanhando ou você mesmo cuida também do instrumental. Opte em fazer versões pessoais com arranjos diferentes e explore ao máximo sua forma de interpretar a música. Lembre-se que nem toda a música pode se encaixar com sua voz, extensão ou mesmo estilo … não saia por aí gravando vídeos de tudo quanto é sucesso. Tente manter um estilo, até porque se o objetivo é te apresentar ao público, ter uma marca própria é fundamental.

Outro detalhe, você não precisa ser um Spike Lee, um Almodóvar ou mesmo um Fernando Meirelles produzindo vídeos maravilhosos, mas também não precisa gravar seus conteúdos na cozinha com aquela parede descascada, reboco caindo ou com sua foto do Glamour Foto Estúdio ao fundo (os mais antigos entenderão a piada!) e nem mesmo em seu quarto com as roupas todas jogadas na cama, numa bagunça de dar gosto … O mínimo de apuro estético é fundamental porque se o objetivo é apresentar sua qualidade, não vale a pena competir com o ambiente trash no vídeo e outros pontos focais. Muita atenção aos detalhes! Em contrapartida, não faça de seus vídeos que deveriam parecer produções caseiras, mais naturais, em absurdas super produções que mereçam o Leão de Cannes. Os vídeos de covers que mais funcionam são exatamente os caseiros, autênticos, com uma produção de qualidade honesta e simpática. Ah, por favor, não utilize mais aquelas lampadinhas amarelas, velas e afins, esta fase já passou … Pessoalmente não curto estes vídeos de covers pretensamente caseiros mas que são absurdamente bem trabalhados, muitos dos quais gravados em estúdios, com o pessoal da banda barbudo, calças rasgadas, chapéu na cabeça no melhor estilo hipster meticulosamente despojado de boutique. Atenção, este é um comentário pessoal … completamente desprovido de algo mais científico … mas que este modelo está saturado … ah, isso está mesmo! de qualquer forma, é minha opinião e nada mais …

E, por fim, acho que convém reforçar mais uma obviedade … mas que infelizmente é deixada de lado em muitos destes artistas de covers … afine a voz! Cuide para que sua performance seja verdadeiramente boa e para isso, além de uma produção de vídeo, arranjos personalizados, boa luz, boa captação de som, garanta que o vídeo traga um resultado de qualidade. Muitos postulantes a artistas tiveram suas trajetórias interrompidas justamente porque não souberam entregar performances vocais de qualidade. Dias atrás me deparei (assustei-me mesmo!) com um vídeo de uma artista já consolidada do meio gospel que resolveu postar um vídeo com amigos onde a qualidade do áudio era sofrível, pra não dizer terrível … ops, acabei dizendo né? Então, repito … o áudio em questão era terrível, horrível, vergonha alheia nível máximo … ou seja, a vontade desenfreada em ter likes, conteúdos e mesmo a atenção do público foram mais importantes do que a básica intenção de apresentar algo de qualidade. Tiro no pé!

Completando o post de hoje, já que o piloto já avisou que estamos em procedimento de descida, quero também destacar que a estratégia do cover deve ser utilizada até um certo estágio da carreira do jovem artista. O que o mercado e o público esperam depois de um tempo de estrada e já com uma maior relevância, é que o artista apresente projetos autorais e inéditos. Temos o caso de um jovem cantor do meio cristão que despontou cantando vários covers (excelentes, por sinal) e alcançou um bom destaque, mas que até agora não trabalhou mais do que uma ou duas canções autorais, sem maior relevância e, por isso mesmo, segue neste momento sendo reconhecido como um cantor de covers, o que convenhamos não chega a ser uma imagem tão positiva. Então, repetindo, o uso de covers tem tempo de validade para aqueles que pretendem seguir uma carreira artística, assim como a utilização de versões internacionais no repertório. Pra ser respeitado e mostrar de fato sua qualidade em meio a este ambiente tão competitivo, o artista precisa mostrar um projeto autoral e inédito que o destaque e marque sua carreira.

Para bom entendedor …

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e alguém que curte ser surpreendido por uma canção inédita que arrepia de verdade!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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