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FALANDO DE NÚMEROS, EUFEMISMO e outras coisas …

Chegando ao hotel na madrugada após horas e horas acompanhando a gravação do novo CD da cantora Damares, fui conferir alguns emails, visitar algumas páginas de notícias e no meio de tanta informação recebi uma mensagem de um amigo falando sobre um texto publicado num blog. Como curioso que sou, mesmo fora do horário convencional resolvi pesquisar e conferir o conteúdo deste texto que estava gerando um certo agito nas redes sociais. Em resumo, o texto apresentava uma lista dos cachês de shows de boa parte do jet set artístico gospel tupiniquim. Esse papo de cachê no meio artístico gospel me remete às discussões acaloradas dos anos 80, 90, no máximo. Então confesso que comecei a ler o texto com aquela sensação de que estava à frente de um prato requentado … nada muito novo …

Sinceramente não sei muito bem a motivação de alguém em publicar uma matéria desse teor. Seria expor os ganhos dos artistas transformando-os em possíveis alvos de sequestros-relâmpago? Seria uma inveja “santa” (odeio este termo!) pelo sucesso dessa turma que canta? Seria uma tentativa de desmoralizar os artistas do segmento dando a entender que essas pessoas não têm direito a ter uma vida confortável? Será que artista evangélico deveria ser um grupo nômade como aqueles bolivianos que tocam gaitinhas nas praças dos grandes centros em troca de esmolas? Ou ainda, como a turma alternativa hippie que vive de artesanato e da boa vontade alheia para ter sua subsistência garantida?

Particularmente acho esse tipo de discussão algo muito pobre e até mesmo míope. Como profissional de marketing que sou, almejo ter o melhor salário, ter acesso aos melhores restaurantes, ter a melhor moradia, saúde, educação, ou seja, ter e proporcionar para minha família o maior conforto e bem estar. Isso é lícito! Então por qual motivo os artistas evangélicos não podem ter como retorno ao esforço e dedicação deles uma remuneração à altura do que oferecem?

O que mais me alegra é ver um artista, alguém que trabalha comigo ou um amigo, prosperar fruto de seu esforço e trabalho! Isso é muito saudável e justo! Nesta lista havia muitos valores absolutamente equivocados. O autor listava fulano de tal 15 mil reais, João das Couves: 100 mil reais … a pergunta que se deve fazer não é porque tal artista está cobrando tantos reais, dólares ou euros, mas quem está pagando, se este ficou satisfeito com o investimento e se, na verdade, tem quem pague! A mesma lei da oferta e da procura que rege o sistema capitalista há séculos, se faz presente na relação comercial entre a contratação deste ou daquele artista. Ou seja, se determinada cantora é sucesso nas rádios, está presente na TV, suas músicas são cantadas nas igrejas, seus CDs são vendidos nas lojas, se ela consegue lotar estádios … então essa vale muito! Agora se aquele artista tem uma banda que não acerta uma nota, sua apresentação é digna de pena, ninguém canta suas músicas e ele tem uma postura inadequada, então esse aí não vale 5 reais! Mais simples impossível!

Lendo a lista percebi que o autor do texto não citou as fontes. Também não incluiu nenhum comentário dos mencionados na sua lista de execração pública. Ou seja, em termos jornalísticos, aquele texto era completamente ridículo, para não precisar incluir outros adjetivos. E posso confessar, consternado, que muito me impressiona como esse tipo de “bomba” (que na verdade foi não mais do que um estalinho) parece imediatamente fomentar apoiadores. Li um pouco dos comentários postados pelo público e o que constatei foi um monte de gente sem qualquer base do assunto falar como se fossem oriundos de Harvard ou Berkeley, tamanha eloquência em opinar. Além de muitos sequer dominarem a língua pátria, o que se percebe é uma raiva desmedida, uma inveja enorme pelo sucesso alheio e principalmente, uma frustração incomensurável por ser outro e não ele quem recebe os cachês e usufrui das benesses de ser um profissional de sucesso. Típico das redes sociais que na verdade transformaram em ringue de UFC cibernético!

Esticando um pouco mais o assunto, é impressionante o desconhecimento de boa parte do público, lideranças e da própria mídia, sobre o que é o dia a dia de um artista, seja gospel ou popular. Você já parou como deve ser entendiante ter que cantar as mesmas músicas por 1, 2 … 10, 20 anos? Já parou para pensar como deve ser chato ter que ficar longe de casa, de sua família por dias e dias, tendo que conviver com horas e horas de espera em saguões de aeroportos, tendo que muitas das vezes deslocar-se em vans apertadas, sem ar condicionado e muitas das vezes sem qualquer manutenção. Já pararam para pensar que muitos artistas viajam 4, 5 horas por estradas esburacadas, poeirentas e ao chegarem na cidade, serem confortavelmente instaladas no melhor hotel da cidade que sequer tem banheiro no quarto? Isso para não falar nas vezes em que são intimados a se alojarem na casa do pastor ou daquele empresário “bem sucedido” da igreja que disponibiliza o melhor colchonete da cidade para seu descanso e relax. Estes que cismam em atacar os artistas nas redes sociais e na web também devem desconhecer a quantidade de artistas que levam calote – no mais verdadeiro sentido da expressão – de pastores e contratantes de shows que depositam o restante dos cachês em plena sexta-feira após o horário bancário. Aí quando já retornam para suas cidades na segunda-feira, estes artistas recebem uma ligação do gerente do banco dizendo que o envelope de depósito não tinha nada dentro, que o registro era fictício.

Posso listar vários outros casos para exemplificar que a vida de um artista no meio gospel não é esse mar de rosas que alguns imaginam. Já pararam para analisar sobre a qualidade da estrutura oferecida para a apresentação dos artistas por este país? Já vi bateria com as peles furadas, palco caindo aos pedaços, microfones com colônias de bactérias e todo tipo de fungos além daquele odor de hiena sexagenária com o pelo molhado! Que maravilha! Também já constatei camarins com 50 graus de temperatura, banheiros entupidos, 896 pessoas se acotovelando em exíguos 20 metros quadrados, com aquela mesa recheada de empadas de velório, bebidas maravilhosas e quentes como as tubaínas Sol de Verão, Dolly e outras marcas menos nobres. Ou seja, a vida de um artista não é fácil e sinceramente acho mais do que justo que eles recebam por todo o esforço, retorno e qualidade que possuam.

Há alguns anos atrás li uma entrevista do Kaká onde ele justificava os altos salários dos jogadores de futebol lembrando que a indústria esportiva no mundo faturava bilhões e bilhões de dólares e que eles como protagonistas de todo esse universo, acabavam ficando com a menor parte. Num primeiro momento você pode achar que o discurso dele beira o corporativismo, mas a verdade é que tem uma boa dose de razão. Da mesma forma, já tive discussões acaloradas com promotores de eventos, muitos pastores por sinal, onde eles criticavam os artistas pela falta de uma maior ajuda. Leia-se, trabalhar sem receber o previamente combinado. Estes justificavam que tinham que pagar os seguranças, o som, a luz, o transporte, o hotel, a alimentação. Então, deixa eu entender … o evento acontece em função do artista, todo mundo recebe e ele fica chupando o dedo de bolsos vazios? Só ele é que tem que ter coração na obra?

Como já disse anteriormente, esta discussão sobre valores é vazia. Sinceramente creio que o assunto principal possa ser outro como o uso adequado dos termos. Acho que o debate deveria ser mais focado no uso de expressões como “ministro”, “levita” e até mesmo “pastor” em lugar do termo correto: artista. Mas isso é tema de outro texto e há muito tempo atrás já abordei sobre isso em um texto aqui mesmo no blog com o título de “Gospelmente Correto” ou algo similar. E se você não teve oportunidade de conferir a lista, acho que agora não será mais possível, pois o autor retirou a matéria do ar.

Enjoy!

Mauricio Soares, publicitário, consultor de marketing e peladeiro nas horas vagas!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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