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Falando de rótulos, história e principalmente novidades

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No painel sobre música gospel promovido durante a Festa Nacional da Música realizado recentemente em Canela/RS, tive oportunidade de falar sobre diferentes assuntos relacionados ao tema proposto juntamente com os cantores Asaph Borba e PG, o gerente comercial da MK Music, Carlos Knust e, ainda, o jornalista e promotor de eventos, Oziel Alves.

Particularmente acho muito louvável esse tipo de evento. Sinceramente acho que em nosso meio são raríssimas as oportunidades para se discutir sobre questões importantes do mercado fonográfico, tendências, novas tecnologias e mesmo uma análise mais aprofundada de nossa história como movimento artístico nacional. Então, quando sou convidado a participar de qualquer iniciativa deste tipo, sempre procuro ajustar meus compromissos para marcar presença.

E neste painel, um dos assuntos mais abordados pelos participantes foi justamente a definição do que é música gospel. Todos foram unânimes em afirmar que o termo “música gospel” mais confunde do que esclarece, criando uma imagem distorcida para o mercado como se este movimento fosse algo único, coeso, definido.

Quando falamos de música gospel, muito mais do que um estilo musical, na verdade, definimos uma linguagem peculiar. O que une os mais diferentes estilos musicais sob a bandeira do gospel não é sua sonoridade ou linha melódica como a bossa nova, o pop, a música clássica, para citar apenas alguns, mas justamente a mensagem que este tipo de manifestação artística costuma seguir.

Na miscelânea de estilos que tornou-se a ”música gospel” temos o pop rock, reggae, rock progressivo, MPB, balada, hip hop e mais uma infinidade de sons variados debaixo de um mesmo guarda-chuva cultural. O único estilo realmente genuíno entre todos os sub estilos da música gospel nacional é justamente o que chamamos de “música pentecostal”. Este estilo é algo próprio da cultura evangélica brasileira e não há qualquer similaridade em qualquer outro país.

Tendo contato permanente com vários profissionais leigos em termos de mercado religioso no meu dia a dia, definir o que seria “música pentecostal” torna-se um exercício permanente de criatividade. Para estes costumo explicar que essa música é uma espécie de simbiose entre a música sertaneja de raiz com influências da cultura musical nordestina com elementos como o baião, o forró e até mesmo o xote. Mas ouvindo alguns trabalhos mais recentes de artistas do segmento, fica ainda mais evidente que hoje podemos ampliar este espectro para a música pop sertaneja, o arrocha e o brega, ou seja, a música pentecostal também começa a passar por mudanças onde o que irá determinar o seu estilo não mais será a sua sonoridade, mas sim, sua mensagem, recheada de passagens bíblicas e metáforas do cotidiano do crente.

Analisando o universo artístico gospel neste momento, fica nítido que alguns estilos e fórmulas estão desgastados, necessitando buscar novas influências e caminhos. Há alguns anos atrás, a cantora Cassiane introduziu um novo estilo à música pentecostal que passou a ser seguido por 10 entre 10 artistas do segmento. Tempos depois, o ministério Diante do Trono trouxe uma inovação ao louvor congregacional que transformou e catapultou a música gospel no país. Tivemos o louvor extravagante, o louvor G12, o ‘adorador sem face’, o mantra gospel … depois vieram artistas como Fernandinho que mesclou o pop rock com o louvor e André Valadão, representante-mor do pop adoração balada. Mais recentemente incluímos em nosso seleto rol de estilos e tendências, a black groove pop adoração do performático e carismático Thalles.

Em paralelo a todas estas novidades e modismos, hoje temos também o movimento que tive a liberdade de denominar como Nova Música Cristã Brasileira que é um som mais influenciado pelo folk sulista norteamericano mesclado com a sonoridade tipicamente presente na MPB. Tudo muito leve, muito cru, sem tantos elementos, bastante despojado e onde a interpretação do artista e principalmente a criatividade e poesia das letras assumem destaque no conjunto da obra. Talvez, penso eu, estes sejam hoje os artistas com maior possibilidade do tão sonhado movimento de crossover ampliando a atuação da música gospel para além-fronteiras do próprio segmento.

E entre tantos novos artistas deste novo estilo que tem tudo para crescer nos próximos anos, destaco em especial, dois jovens artistas, que passaram recentemente a fazer parte do cast da gravadora onde trabalho, estou falando dos gaúchos da Tanlan e da brasiliense-adotada, Marcela Taís. Dificilmente uso esse espaço do blog para falar de artistas com quem mantenho relação profissional estreita, mas neste caso, abrirei esta exceção porque realmente acho que o projeto destes artistas merece uma análise um pouco mais profunda.

Comecemos por Marcela Taís, uma jovem cantora nascida no Mato Grosso do Sul, pertíssimo do pantanal e hoje radicada na frenética e intensa capital federal. Conheci o som desta menina por indicação de algum amigo pelo twitter. Cliquei no link e me deparei com o clipe da canção “Cabelo Solto”, uma música leve, agradável, boa mesmo de se ouvir … ela falava de coisas de Deus sem precisar falar de doutrina ou coisas do tipo. Gostei! Indiquei-a no blog, nas redes sociais … conheci-a pessoalmente tempos depois. Mantivemos uma relação de amigos, consultor, pupila … e durante muito tempo passei a conhecer mais o seu trabalho, seus projetos, suas ideias e ambições. Tempos depois, recebo mais uma canção inédita, “Escolhi Te Esperar”, e mais uma vez fui arrebatado pela proposta, que música! Mais umas semanas depois e eis que me chega às mãos o clipe desta mesma canção. Fantástico!

O som de Marcela Taís foge do lugar comum! Sua poesia, suas ideias, sua forma de lidar com as coisas de Deus de um jeito todo próprio, trazem uma lufada de ar fresco para nosso segmento. Mas aí você pode me perguntar com aquele ar de ceticismo tão comum quando nos deparamos com algo novo:

“ – Mas esse tipo de música vende? Tem mercado para essa nova proposta artística em nosso meio?” – o que imediatamente me vem à mente quando sou confrontado por esse tipo de questionamento é justamente a lembrança de quando comecei a divulgar o trabalho do Thalles pelas rádios do país. “ – Muito bom! Mas isso vende? Hummmm … não sei não!”, o resultado desses questionamentos vemos todos os dias com shows sold out em todo o país.

Na mesma contramão da obviedade, temos a Tanlan – incrível porque até agora não perguntei aos meninos o significado desse nome, mas vou descobrir em breve e contarei a todos vocês, meus seletos 44 leitores – uma banda do sul do país que toca um pop rock de enorme qualidade. O som é muito bom, de verdade, mas o que me chama ainda mais atenção é justamente a qualidade das letras dessa turma que tem o Fábio Sampaio como vocalista e principal letrista.

Muita gente torceu o nariz e fez cara de espanto quando anunciei a contratação da banda. Apenas alguns mais iniciados de nosso meio conheciam o trabalho dessa turma dos Pampas. Aqui mesmo no blog escrevi há algum tempo atrás sobre a dificuldade de encontrarmos novos artistas e bandas no cenário pop rock gospel. Recordo-me que falei sobre a necessidade de termos mais artistas do gênero para dividir o palco com Oficina G3 e Resgate. E depois de tanta procura, análise e mesmo expectativa, pude ouvir o CD inédito da Tanlan numa tarde descompromissada no meu escritório no Rio de Janeiro onde recebi justamente o Fábio Sampaio para uma visita de cortesia. Ouvimos o CD juntos antes da masterização, analisamos alguns detalhes, conversamos muito sobre o projeto em si e ao fim, fiquei com uma cópia do CD. Levei este CD para meu carro e ouvi-o por umas 10 a 15 vezes nos dias seguintes.

A Tanlan é uma banda que no cenário gaúcho já passeia na seara gospel-secular participando de festivais, shows, eventos sem necessariamente levar o carimbo de banda gospel. Os meninos tocam música! E música de qualidade! Música com conceitos cristãos com letras inteligentes e muita poesia. O desafio agora é romper com as fronteiras do Rio Grande e apresentar esta proposta ao Brasil continental. Numa primeira oportunidade meses atrás, a Tanlan participou do Congresso Oxigênio em Recife e foi aclamada pelo público. Creio que nas próximas semanas, com o lançamento do seu primeiro projeto pela Sony Music, a banda inicie uma extensa agenda de eventos pelo país.

Este texto escrevo no vôo entre Recife e Rio de Janeiro. Deveria ser entre Recife e Porto Alegre para que no fim do dia eu pudesse assistir ao show de lançamento do novo trabalho da Tanlan, mas infelizmente a Azul Linhas Aéreas simplesmente cancelou minha reserva e não consegui nenhum vôo que pudesse chegar a tempo de assistir o show. Sem dúvida, sinto-me frustrado por não honrar um compromisso assumido, mas principalmente por perder a oportunidade de assistir à performance da Tanlan ao vivo.

Neste texto falamos de muitos assuntos em sequência … sobre o que é música gospel, sobre os diferentes estilos de um mesmo conceito artístico, sobre modismos e tendências, sobre o mais recente movimento que percebemos tomar forma na música cristã tupiniquim e, por fim, das propostas inovadoras e de qualidade das obras de Marcela Taís e Tanlan. Música gospel é isso tudo! É algo muito intenso e rico. O importante é que sempre estejamos com ouvidos atentos e abertos para novos sons, novos nomes e novas propostas. A vida é um moinho … vamos pensar diferente, sempre! Antes de despedir-me, sugiro que vocês busquem no YouTube e na web, informações sobre os trabalhos de Marcela Taís e Tanlan. Até a próxima! Bye!

Mauricio Soares, alguém que detesta sanduíches servidos pelas companhias aéreas. Um indivíduo que está sempre disposto a conhecer novos lugares, novos sons, novas pessoas. Publicitário, jornalista, blogueiro.