Falando do futuro, do passado, do presente.

Como já havia adiantado no post anterior, em mais uma série de viagens pelo país, estou aproveitando meu tempo entre saguões, vôos e lanches absurdamente sem graça para escrever mais alguns textos inéditos para o Observatório Cristão.

Ultimamente os insights de pautas para textos vêm surgindo numa boa velocidade e quantidade. O problema maior tem sido definir a ordem de prioridade destes temas e, principalmente, tempo disponível para desenvolvê-los.

Muitos dos textos que publico resultam de conversas com amigos, profissionais do mercado, artistas … e ultimamente me pego repetindo constantemente um termo e é por ele que quero seguir nas próximas linhas. Às vezes me sinto bem repetitivo. Como converso com muitas pessoas durante uma semana, os temas e assuntos acabam se repetindo numa rotina bem grande.

Quem sofre com essa repetição geralmente são as pessoas que trabalham mais perto de mim. Meu fiel escudeiro de mais de 10 anos de trabalho, Sidnei Gomes, deve ter perdido a conta de tantas vezes repeti determinadas expressões, explicações e opiniões. Coitado!

E, recentemente a expressão “novo conceito de negócio” está na lista número um de expressões que venho utilizando nos meus bate papos. O que tenho dito com grande frequência é que o mercado fonográfico mudou e vem mudando radicalmente nos últimos anos e a tendência clara é de que continuará se transformando nos próximos anos até que no futuro iremos olhar para os dias atuais com aquela visão de passado distante. Quando falo de “novo conceito de negócio” refiro-me a diferentes aspectos do que denominamos de mercado fonográfico.

Incluo nestas categorias assuntos tão díspares como marketing, relação artista x gravadora, vendas, canais de distribuição, ferramentas de divulgação, estratégias, expectativas, atitudes, só para citar alguns.

O que me assusta neste momento, em especial, é como os atores deste mercado ainda estão míopes às mudanças.

Particularmente no segmento gospel essa miopia chega às raias da cegueira absoluta. Já mencionei aqui mesmo neste blog sobre a transformação do mercado fonográfico a partir da chegada da mídia CD em substituição ao LP. Recordo-me que muitas gravadoras à época chegaram a apostar de que a mudança entre os formatos duraria décadas! Em menos de 2 ou 3 anos, o CD decretou o desaparecimento do LP como uma enorme onda de um tsunami. Não sobrou nada!

Naquela época soube de uma grande gravadora do mercado gospel que cogitava em comprar uma fábrica de discos na Europa e a partir daí, produzir ela própria seus produtos.

Todo o mercado sinalizava um caminho, mas os executivos daquela gravadora apostavam que o negócio era excelente! Ter uma fábrica de LPs e controlar sua própria produção

parecia ser uma cartada de mestre. Felizmente, por entraves burocráticos, aquela gravadora acabou não conseguindo trazer para o Brasil a tão almejada fábrica de LPs e de uma forma inesperada, a empresa acabou sendo salva de um investimento desastroso.

Neste novo conceito do mercado fonográfico o foco é todo no ambiente digital. Hoje já colocamos como real e muito importante o resultado digital no faturamento das gravadoras. Nos EUA, no último ano, as vendas digitais já representaram 52% do resultado do mercado fonográfico.

Muito em breve no Brasil iremos seguir a mesma tendência. Hoje as vendas digitais em nosso país já representam cerca de 30% do faturamento do mercado e com taxa de crescimento bastante elevada nos últimos períodos.

E engana-se quem pensa que esta tendência não será seguida pelo mercado evangélico. Na verdade, esta mesma tendência de consumo vem crescendo rapidamente. No caso do mercado gospel, o problema não é de demanda, mas sim de oferta, afinal boa parte das gravadoras e produtos do segmento gospel ainda não encontram-se disponíveis nos catálogos das operadoras ou plataformas digitais. O crescimento do mercado digital no meio cristão é fato! Não adianta vir com oração contrária, vigília de poder a favor do CD ou qualquer campanha do tipo … em mais tempo ou menos tempo, nosso mercado será digital.

Ainda falando deste “novo modelo de negócio” vale a pena trazer para a conversa a postura dos artistas de música gospel. Vamos falar a respeito da relação artista x gravadora.

Neste item as mudanças também já são bastante sensíveis!

Não há mais espaço para gravadora que não sabe fazer conta! É impressionante como temos empresas que simplesmente colocam um preço no produto e imaginam que a margem de lucro é suficiente para pagar todas as despesas demais. Boa parte destas empresas que “não sabem fazer conta” estão ficando pelo caminho ou já estão falidas.

É claro que em nosso meio temos algumas empresas que confundem os caixas da pessoa jurídica comercial com a pessoa jurídica eclesiástica e outras fontes mais … no entanto, mesmo estas chega uma hora em que a necessidade de se controlar as despesas torna-se mais do que necessária.

E neste “novo modelo de negócio” nenhuma empresa vai sobreviver pagando as contas do aniversário da mãe da cantora ou então, bancando o DVD com estrutura digna do Rei Salomão e coisas do tipo. Tempos atrás, os artistas eram convencidos a assinar contrato em troca de cheques polpudos e muitas das vezes em troca de vistosas pick ups reluzentes e turbinadas. Neste tempo, as gravadoras digladiavam-se entre si pagando os melhores cachês para ter esse ou aquele pop star … na verdade, esta era a época do leilão aberto! Hoje em dia, esse modelo já não se sustenta mais! O artista precisa ser cooperativo com a gravadora, até porque atualmente sua maior fonte de receita não é mais os royalties e sim, sua agenda de eventos. O artista a partir de agora precisa mudar sua forma de relacionar-se com as gravadoras. Não há mais espaço para a relação paternalista onde tudo é pago pela gravadora! A palavra de ordem é participação integral, rentabilidade, controle de investimentos, análise e estratégia.

Outra mudança importante que devemos observar é na relação artista x gravadora x rádios. A maneira como as rádios enxergam estes dois atores – artistas e gravadoras – precisa ser reformulada imediatamente. Assim como as gravadoras hoje mudaram sua forma de lidar com os artistas, também com relação aos investimentos com as mídias esse processo se alterou profundamente.

As rádios precisam focar na busca de audiência e para isso, é fundamental, que a sua programação seja adequada e de qualidade ao público alvo.

Ainda temos rádios que acreditam que o seus ouvintes aceitam qualquer tipo de música e artista.

Conversando recentemente com um locutor de uma emissora ele me confidenciou que a audiência de sua emissora despencou 5 posições no IBOPE porque o departamento comercial estava interferindo na programação incluindo artistas de péssima qualidade na playlist. A esta estratégia eu chamo de “tiro no pé” (com calibre 12) … não tem nada mais importante para uma rádio do que a sua audiência e o seu público. E público garante-se através de bons locutores, boa plástica, boa sintonia, mas principalmente com boa música e nomes de destaque na música gospel.

E seguindo este novo modelo, os artistas precisam participar ativamente em parcerias com a gravadora e as emissoras. É muito comum no meio secular, a cessão de datas dos artistas para a realização de shows promovidos pelas principais rádios. Para as rádios, o foco precisa ser em aumentar a audiência, melhorar a posição no IBOPE e gerar contratos junto ao mercado publicitário.

É importante frisar que nunca na história de nosso país, o mercado publicitário esteve tão ávido em anunciar nas mídias segmentadas, mas as rádios, é claro! também precisam fazer a sua parte.

Certamente temos muitas outras mudanças no que exaustivamente vendo falando como o “novo modelo de negócio” no mercado fonográfico. Creio que algumas das principais questões já apontei neste texto.

Sinceramente eu torço e espero que todos os envolvidos neste mercado compreendam o quanto antes estas mudanças e não surpreendidos pela avalanche que certamente chegará muito em breve. Quem avisa amigo é …

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, blogueiro, entusiasta apaixonado do mercado evangélico e de todas as suas inúmeras possibilidades.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Deixe uma resposta