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Foram as Águas de Março que chegaram em Janeiro

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Há cerca de 3 semanas atrás nos deparamos com a tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro. De uma forma inesperada chuvas torrenciais atingiram 7 cidades da região, com maior destaque para o distrito de Itaipava em Petrópolis e as cidades de Nova Friburgo e Teresópolis. Desmoronamentos, rios caudalosos onde antes existia um pequeno córrego, pedras de toneladas sendo deslocadas, destruição, desabamentos, mortes, dor, casas destruídas, famílias dilaceradas, lama, terra, choro, pânico, desespero, desabrigados, corpos, corpos, corpos… muitos corpos inertes surgindo e centenas, talvez milhares de corpos soterrados que permanecerão para sempre naquele túmulo de pedras e lama.

Mas por que comentar esse assunto num local onde habitualmente falamos de música, de mercado, marketing, tecnologia, design? Porque num momento de tristeza e de dor, a vida assume um novo significado. Vemos como somos frágeis diante da força da natureza. Percebemos claramente que somos como uma chama que se apaga ao leve toque do dedo do Criador. E aí constatamos claramente que a vaidade, a busca desenfreada pelo conforto, pelo reconhecimento ou mesmo das riquezas, não passam de atalhos que acabam nos levando a lugar algum.

Uma das maiores lembranças deste episódio que quero guardar em minha mente foram as manifestações de solidariedade da população brasileira. Em poucos dias, correntes de apoio se formaram em diferentes pontos das cidades. Mutirões por recolhimento de donativos surgiram de forma espontânea enlaçando pessoas desconhecidas em prol de um objetivo único: trazer alívio à população serrana que tanto havia sofrido.

E neste mutirão de solidariedade, particularmente fui arrebatado numa vontade intensa de ajudar e participar. Confesso que jamais havia me envolvido antes em movimentos do gênero, mesmo quando a minha própria cidade local, Niterói, foi atingida pelas fortes chuvas de abril de 2010. Mas dessa vez foi diferente! Assistir à tragédia pela TV e manter-se alheio às necessidades foi impossível.

As chuvas aconteceram na madrugada de quarta-feira e estenderam-se por mais alguns dias. Na quinta à noite soube pela rádio da necessidade por voluntários no 12º Batalhão da Polícia Militar em Niterói e na sexta-feira “dispensei-me” das atividades na empresa e comecei a trabalhar como voluntário. Naquela altura, poucas pessoas ainda estavam envolvidas no voluntariado, mas muitas outras já começavam a doar água, roupas, comidas.

O 12º BPM foi o local definido pela coordenação da Polícia Militar do Rio de Janeiro como o local de concentração, triagem e envio dos donativos com destino às cidades atingidas. Dali subiriam os caminhões em comboios escoltados pela PM e os helicópteros da Marinha seriam abastecidos para atender às comunidades isoladas.

O primeiro dia de meu voluntariado foi muito cansativo. Fiquei cerca de 10 horas trabalhando ininterruptamente carregando sacas de arroz, água, mantimentos. Aquela altura, pouco mais de 50 voluntários revezavam-se nas atividades. Retornei o dia seguinte, agora acompanhado de minha esposa. Naquele sábado contamos com 120 voluntários e no domingo, cerca de 430 voluntários. Na segunda, no fim de meu expediente passei no Batalhão e ainda ajudei a descarregar e carregar alguns caminhões.

A sensação era de que todo nosso esforço valia a pena, mas ainda os resultados efetivos eram pequenos face ao tamanho descomunal da tragédia. Na terça seguinte, novamente dispensei-me das atividades e voltei ao voluntariado, agora com esposa e meus dois filhos. No twitter, ao retornar para casa iniciei uma campanha intensa por ajuda e voluntários. A adesão de amigos foi enorme e muitos artistas e pastores começaram a se mobilizar com recolhimento de donativos.

Particularmente fiquei feliz com a pronta adesão do Apóstolo Estevan Hernandes e do Pr. Rinaldi da Igreja Quadrangular em São Paulo. Os dois rapidamente conseguiram carretas e muitos donativos. Artistas também passaram a promover eventos como o Rio Solidário, Mobilização pelo Rio, entre outros.

Na quinta-feira, feriado no Rio de Janeiro, e lá estava eu juntamente com meu amigo de Sony Music, Bruno Baptista, gerente A&R, recebendo os donativos num calor senegalês de uns 40 graus. Saímos de lá literalmente imundos e muito suados, mas com a alma mais leve do que jamais havíamos sentido antes.

Ainda retornei algumas vezes ao Batalhão. Aos poucos a mídia foi diminuindo o enfoque, as tragédias comunitárias foram dando lugar às tragédias individuais, ao sofrimento personalizado, individualizado. Dor, apenas dor e não mais manchete de jornal. Depois de alguns dias, ainda ecoou na minha mente a imagem de uma família doando muitos gêneros e fazendo questão que aqueles mantimentos fossem enviados para Nova Friburgo. Não entendi tamanha preocupação, afinal todos precisam de ajuda. Antes mesmo de explicá-la sobre nossa logística, a mãe daquela família tratou de explicar seu pedido: “É porque perdemos 25 parentes e amigos em Friburgo!”

Confesso que depois desse episódio, mudei meu conceito sobre vários aspectos. Confesso que estou buscando viver melhor minha vida em família, com meus amigos. A oportunidade de ajudar, mesmo de uma forma tão simplória, pessoas que jamais conheci e certamente conhecerei, foi uma experiência marcante. Tudo isso me fez sentir uma pessoa melhor. Quero aqui louvar o envolvimento de vários líderes, pastores, pessoas comuns, artistas do mundo gospel, que de alguma forma quiseram ajudar. O esforço de todos nesta corrente certamente amenizou bastante a dor daquelas pessoas.

O ponto negativo, para não fugir à regra, fica por conta de nossos governantes que hoje já não mais sobrevoam e nem aparecem nas regiões atingidas. Eles hoje já estão preocupados com os preparativos do Carnaval que está chegando, com os novos mandatos que assumiram nestes dias e com os negócios e oportunidades que surgem a cada momento. Fica ainda uma tristeza por ver que a grande maioria dos mega líderes pop star evangélicos que povoam a programação dos canais de TV pelo país, pouco ou nada mesmo fizeram neste momento de tragédia, apenas continuaram no discurso egocêntrico de suas campanhas de milagres, busca dos patrocinadores, vendas de livros e CDs e caravanas à Terra Santa.

Hoje temos 30 mil desabrigados na Região Serrana. Em Niterói, atingida em abril de 2010, cerca de 7 mil pessoas ainda estão desalojadas. Destas, mais de 4 mil ainda não receberam o aluguel social, verba destinada a custear uma moradia provisória. Os 7 mil imóveis alardeados pelos políticos após as chuvas têm previsão de entrega apenas no segundo semestre de 2012. Mas voltando ao placar da tragédia da Região Serrana, hoje são contabilizados 878 mortos e oficialmente cerca de 450 desaparecidos, mas verdadeiramente são estimados entre 1,5 mil e 2 mil desaparecidos e consequentemente, mortos. Continuemos orando por estas famílias e agindo.
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Mauricio Soares, 41 anos, publicitário e brasileiro, mas que neste momento gostaria de morar no Egito onde a população está nas ruas clamando por mudanças. Triste povo que aceita a sua situação e ainda faz ironia de seu cotidiano.

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