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Frases alheias

Na Revista O Globo, suplemento dominical do Jornal O Globo, há uma seção que sempre leio antes de folhear toda a revista. Sigo rapidamente para a página da Seção Entre Ouvidos, uma espécie de registro sobre frases engraçadas, pitorescas, perspicazes docotidiano carioca. Ali tem espaço para o feirante filósofo, para a dona de casa, para o cobrador de ônibus, para a dondoca da zona sul, a aspirante a celebridade, o vendedor de mate nas areias da praia e por aí vai.

Então, como não consigodormir de jeito nenhum neste vôo de volta para o Brasil, resolvi reunir algumas frases que acho interessantes, outras que ouvi e ouço constantemente e ainda algumas pérolas …

“O som é algo meio Hillsong! Tem uma pegada bem pop rock gringa, saca?”– frase proferida por 11 entre 10 jovens artistas que querem impressionar dando a sensação de que estão fazendo algo absurdamente inovador, moderno e diferenciado. Geralmente o som não tem nada de inovador, mas um simples arremedo de tudo que já ouvimos por aí.

“Não ligue para mim. Se eu realmente gostar de seu trabalho, irei atrás de você!”  – tem coisa mais chata do que uma pessoa te entregar um CD e depois ficar ligando insistentemente para saber se já ouviu com ‘carinho’? Geralmente a cobrança vem acompanhada da frase: Eu sei que você deve receber dezenas de discos, tem muito trabalho … mas …” A verdade é que ao receber um CD ou DVD, automaticamente deveria ser entregue um cartão com a frase em destaque. Ou será que alguém tem dúvida de que se o artista realmente for diferenciado, um A&R vai deixar passar a oportunidade? O chato é ter que responder (sempre com educação) de que o referido projeto está aquém do critério ou perfil da gravadora.

“Eu estava pensando …” – se esta frase é proferida por um artista, prepare-se porque vem algo mirabolante pela frente e na verdade não tem nada de “pensando”, o fundo, ele está te dizendo: ”eu quero fazer isso, fazer aquilo” e a possibilidade da gravadora ter que arcar com os custos desta ideia é tão certa como pegar um engarrafamento na Marginal do Tietê às 10 da manhã em plena segunda-feira.

“Meu CD foi produzido por João Ouvido de Ouro, esse cara produziu Joana do Reteté, Maria do Monte, Dedé de Jeová … os grandes nomes da música gospel. Os músicos foram … o fotógrafo foi aquelesuper conceituado … clicou todas as grandes artistas e modelos … o projeto gráfico foi com Rangs Donner, conhece? E a masterização fiz lá em Nova Iorque com o mesmo engenheiro que fez Madonna, Beyoncé, Adele, Lady Gaga, Carmem Miranda, só gente fera!”– quando o artista fala mais da ficha técnica do que as suas músicas ou do projeto em si, é sinal de que realmente tem muito pouco a dizer!

“Não é pelo dinheiro! Eu quero uma proposta pra minha carreira, quero ver o que a gravadora pode fazer por meuministério. Se Deus confirmar, estou em paz!” – quando o artista começa com esta primeira frase, esqueça! Você pode ter um curso de oratória, experiência em negociações entre árabes e judeus, ter todo um projeto estratégico com slides, animações, vídeos, gráficos, ou demonstrar claramente que o mercado mudou, que não tem mais essa opção … nada! O dito cujo só vai querer mesmo ouvir o quanto de din-din irá tilintar em seu cofrinho! Não perca seu tempo!

“Tenho um artista que preciso te apresentar antes de mostrar para a gravadora XYZ … “ – geralmente essa é uma frase daquele cara que você não fala há uns dois anos e que te liga no fim de uma tarde de sexta-feira.Depois de alguns segundos ele te assegura que o artista tem alguém disposto a investir, que o artista está ‘arrebentando’ na região, que o menino é o novo Thalles Roberto e que ele está me dando essa indicação porque é meu amigo e no futuro irei agradecê-lo por este presente estupendo! Em 25 anos de labuta, raríssimos foram os ‘fenômenos’ que descobri desta forma. Na verdade, só 1 ou 2 … nada além disso!

“Todo mundo tem seu valor. Alguns têm até etiqueta de preço!” – me impressiona como tem gente que … deixa pra lá!

“Eu tenho já algumas propostas. A dona Clotilde Ferreira já me chamou pra conversar. O pastor Agamenon também …” – como na adolescência, o menino de espinha no nariz quer se sentir pretendido por todas as menininhas. Na minha remota adolescência lembro-me que disputávamos para saber quem tinha mais pretendentes e possibilidades de engatar num namoro. Meninices! Este é um approach pra lá de manjado e confesso que em meu caso, cansei de perguntar, o porquê dele estar na minha frente tendo tantas propostas interessantes. Geralmente o interlocutor disfarça, muda de assunto e acaba com a justificativa mais ‘cara de pau’ de que na verdade, acredita muito no nosso trabalho e blá blá blá …

“Quem tá feliz dá um grito de júúúúúúbilo” – frase gritada pelo artista quando este quer ouvir a participação do público. É uma espécie de mantra!

“Eu queria gravar um DVD … é o meu sonho!” – assim como tenho o sonho de ver meu Fluminense ser campeão da Libertadores e do Mundial da FIFA. Ou seja, no tempo certo o sonho pode virar realidade … ou não …

“Posso dar uma olhadinha nas fotos?” – esqueça! O que o artista quer te informar é que na verdade ele quer dirigir todo o projeto de desenvolvimento da capa. Na sequência, definir o single, criar a estratégia de marketing, decidir a tiragem inicial, estabelecer as ações digitais, fazer uma turnê no Brasil e no exterior e decidir quais programas de TV irá gravar. Ah! Já ia me esquecendo … temtambém a criação do roteiro do clipe, a escolha das locações, do figurino, a edição  das imagens e a coordenação de toda equipe de captação das imagens. É só pra dar uma ajudinha, viu?

“Eu mesmo me produzi. As composições são todas minhas. Se pudesse, tirava as fotos também!”  – alerta vermelho no mais alto grau! Chama o GATE, o Esquadrão Anti-Bombas. A possibilidade de nada dar certo é enorme! Tem gente que quando se olha no espelho se apaixona pela própria imagem, é mais ou menos por aí!

“Meu site? Estou reformulando. Minha fanpage? Já estamos fazendo” – como uma operadora de telemarketing falando tudo no gerúndio, quando nos deparamos com alguém nesse estilo isso quer dizer que nada está sendo feito. Pelo menos até agora, mas já vamos estar providenciando.

“Vou fazer uma turnê nos Estados Unidos! Pregar, evangelizar! Exercer o Ide … Ô glórias!” – balela! Vai fazer outlet todos os dias! Vai se empanturrar no Cheesecake Factory, alugar aquele carrão maneiro. Vai nos parques de Orlando, passear na International Drive e à noite cantar numa igrejinha para 50 pessoas porque precisa faturar uns trocadinhos para comprar aquela bolsa da Michael Kors … que bênção!

“Agora vira pro irmão do lado e diga …”  – esta é a versão gospel da antiga brincadeira “macaco mandou …”

“Trabalhando muito! Minha agenda está cheia até 2018!” – leia-se: estou cantando em tudo quanto é evento. É o autêntico: Me chama que eu vou! Enterro de anão, casamento de cachorro, grupo de senhoras, visita ao Lar do Idoso, não importa! O que está valendo é encher a agenda do site com um evento atrás do outro. É preciso passar a ideia de que todo mundo quer sua participação noseventos. É o sucesso! Teve um cantor que ficou tanto tempo fora de casa quequando retornou, o filho disse: Mãe tem um homem na sala!

“Quantos CDs você vendeu do último trabalho? Ah, não sei …” – em outras palavras: Vendi pouco, mas dessa vez tenho certeza de que vou vender 1 milhão de cópias! Eu tenho a promessa né? Não morrerei enquanto ela não se cumprir … Oh Aleluias!

“Ah, eu estou sim aberto a propostas. A desafios … acho que lá na gravadora onde estou não irei mais crescer. Além do mais, tudo é sempre para aqueles escolhidos, para os protegidos sabe?” – aí você conversa, conversa, conversa, faz uma proposta de trabalho. O artista coloca no Instagram, passa a te seguir em todas as redes sociais, curte suas fotos, manda mensagens engraçadinhas na timeline e dias depois, renova seu contrato com a antiga gravadora ganhando algum bônus extra. A tática é mais conhecida do que andar em pé e ainda funciona!

“Meu sonho um dia é gravar em espanhol ou inglês … eu tenho uma promessa de que eu teria minha voz nos quatro cantos deste planeta!” – posso afirmar categoricamente que a esmagadora maioria dos artistas que têm esse objetivopensam que é só entrar em estúdio e gravar um CD no autêntico portunhol ou embromation tipo Joel Santana. A grande maioria não tem sequer noção do que um trabalho no mercado latino significa e de quanto tempo de dedicação exclusiva o projeto internacional demanda.

“Já estou super feliz de estar entre os 500 indicados de minha categoria!” – traduzindo: o que eu quero de verdade é desbancar todo mundo e ganhar esse prêmio! Eu mereço! Se eu perder vou dizer pra quem quiser ouvir que é uma marmelada!

“Oi … alô … quem? (mudança de voz) … sim é o assessor dele … Euclides … “– cantor fingindo ser o assessor para atender a convites de agenda por telefone.

“Nós fomos cantar …” – marido de cantora se incluindo no ‘ministério’ como se ele e a esposa fossem uma mesma pessoa. Alguns psicólogos podem explicaresse fenômeno.

“Tenho mais de 300 composições. Vou mandar tudo pra você ouvir!” – ameaça real e perigosa de compositores que nunca conseguiram ter uma única música gravada por algum pop star. Está tudo catalogado, registrado … prontinho!

“Estou te mandando uma música maravilhosa! Sim! Ela é exclusiva pra você! Fiz pensando em você! Você me dá tantos mil reais e eu assino todos os documentos liberando pra você. Um monte de artista me pediu essa música, mas é sua! Você depois vai me agradecer por isto que estou fazendo pra você!” – um mês depois de gravar o CD e de escolher essa canção feita sob medida para ser o single nas rádios, você encontra uma, duas, três, … seis artistas que gravaram a mesma música! E quando esta música cai no repertório de um medalhão, descobre que a canção está editada (algumas vezes com data retroativa, mas isso é outra história) e que você pode até ter o risco de sofrer retaliações. Muy amigo!

“Agora só vocês …” – recurso do cantor que não alcança a nota ou que já não tem mais voz durante o show … e o povo segue cantando …

“E qual a expectativa por esse seu novo trabalho?” – indagação de boa parte dos jornalistas quando o estoque de perguntas chega perto do fim em meio à entrevista 

“E como você concilia tantas atividades? Pai, pastor, compositor, artista, voluntário de ONG, líder de caravana para a Terra Santa, marido, palestrante … seguida da indefectível e onipresente resposta: Ah! Deus é quem nos capacita! Temos um chamado, então isso tudo agente faz feliz né? É a obra! – outra pergunta indispensável numa entrevista.

“Estou anciosa para ouvir seu CD! Vai ser uma bença!” – declaração de fã nas redes sociais fazendo questão de ressaltar toda a admiração pelo artista e seu total desprezo para com nossa língua pátria! Temos ainda “trofél”, “cecular”, “adimiro”, mas de verdade, nada supera o “ancioso”!

“Me segue que eu te sigo de volta!” – é a nova versão digital da síndrome de perseguição. Tem coisa mais sem noção do que você ficar implorando pela atenção alheia como se sua vida fosse realmente interessante, empolgante e importante para os demais? É impressionante como tem gente que se humilha clamando para ser seguida, curtida, adicionada … se nem teu namorado te segue, você acha mesmo que está com essa bola toda?

Já estamos sobrevoando o estado de São Paulo. Não consegui dormir nem 10 minutos. Pelo menos aproveitei o tempo para escrever mais este texto. Quem tiver mais frases neste estilo pode contribuir na área de comentários. Tenho certeza de que algumas pérolas foram deixadas de lado.

 

Mauricio Soares, publicitário, observador do cotidiano, jornalista.

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