Garantindo o lugar na dança das cadeiras

“Pedra que muito se muda não cria limo jamais … você não é pedra meu bem e já quer se mudar” – esta canção foi um grande sucesso na voz de Alcione. E a partir dela quero seguir neste novo texto do Observatório Cristão ainda em meio a um vôo entre São Paulo e Fortaleza. Nesta viagem estou conseguindo colocar as idéias e textos em dia para o blog.

Com tantos anos de experiência no meio artístico gospel tive o prazer de trabalhar com tantos e tantos artistas do segmento. Me orgulho de ter participado do início de muitos nomes que hoje figuram no bastião de celebridades e referências na música gospel. E convivendo com esse ambiente posso destacar que uma das características da classe artística é uma constante insatisfação ou curiosidade pelo novo. É impressionante como temos artistas que já passaram por 6, 7 … 10 gravadoras ao longo de suas carreiras, entremeadas por fases independentes. O artista até parece esses jogadores de futebol com passagens por vários times pelo país e o mundo, sempre declarando em suas entrevistas de apresentação à imprensa o imenso carinho pelo novo clube, chegando muitas das vezes se deixar fotografar beijando o escudo da agremiação. Poser total …

Com a chegada e as transformações do mercado digital em todo o mundo, torna-se cada vez mais importante para a rentabilidade do artista na companhia que sua obra esteja concentrada no mesmo catálogo. Artistas que têm como hábito trocar de gravadora como se troca de camisa serão bem menos atrativos do que aqueles que preferem seguir numa relação mais duradoura. Ressalte-se que o mercado digital trabalha com escala, ou seja, quanto maior conteúdo disponível, o artista terá mais fontes de receita. Os artistas de um único hit ou projeto entram em desvantagem frente a outros nomes que possuem vasta discografia e produções. Este é um importante dado que merece ser analisado daqui em diante.

Defendendo a tão atacada classe das gravadoras, posso assegurar que muito artista tem dificuldade em trabalhar com selos ou empresas discográficas pelo simples fato de não poder e saber controlar seu ego ou ciúme do sucesso alheio. Isto é fato! Geralmente as críticas são sempre direcionadas às gravadoras e seus respectivos profissionais. Basta ler um destes pseudo-blogs-de-fofocas-gospel para confirmar a tese de que os artistas são as vítimas e as gravadoras as vilãs. Longe de defender integralmente as gravadoras e principalmente alguns de seus gestores, mas efetivamente os artistas têm enorme parcela de culpa no insucesso ou mesmo deterioração da relação entre as partes.

No dia a dia quando temos ciência de que uma determinada pessoa casou-se e separou-se por 2, 3 vezes em seqüência, a tendência é imaginar que o problema não está nos parceiros, mas no próprio sujeito. Podemos aplicar esse mesmo conceito aos artistas que ficam de gravadora em gravadora, declarando a plenos pulmões que agora está feliz por fazer parte da nova família. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos …
Especialmente no cenário gospel nacional, atualmente as opções de gravadoras efetivamente profissionais e alvissareiras são bem escassas, limitando absurdamente assim a estratégia de ficar mudando de empresa a cada término de projeto ou contrato. A melhor opção para aqueles que já estão numa empresa de nível é ajustar os ponteiros e no autêntico estilo “discutir a relação”, encontrar soluções para eventuais crises ou insatisfações. O risco de se ficar pulando de galho em galho é num eventual arrependimento, perder a posição que outrora possuía.

Semanas atrás fui procurado por um amigo que tinha como objetivo recolocar um determinado cantor nas gravadoras. O dito cujo havia saído de várias companhias reclamando aos quatro ventos, sem ter qualquer sentimento de gratidão, reconhecimento ou mesmo educação. Na última passagem, decidiu tocar sua própria carreira seguindo como cantor independente e criando um selo próprio. Como era de se esperar, 3 anos depois o artista sumiu do cenário nacional, afundou-se em uma dívida altíssima, acumulou cheques sem fundo de “clientes” de índole duvidosa e jogou sua carreira no limbo. Ou seja, o artista viu que não era tão bom e competente como se imaginava e as gravadoras tão ruins como alardeava aos berros por aí.

O certo é que hoje o artista precisa andar lado a lado com sua gravadora. A fase de ficar jogado no sofá comendo pipoca em plena quarta-feira assistindo a Sessão da Tarde já passou. O artista precisa ser pró-ativo e somar-se aos esforços da gravadora em busca dos objetivos de ambos. A tendência do mercado fonográfico mundial é a concentração de conteúdo em poucos players. Arrisco a dizer que nos próximos 2 a 3 anos teremos não mais do que 4 empresas atuando no meio gospel em nível nacional e verdadeiramente profissional. Cada vez mais teremos labels, projetos e artistas sendo distribuídos pelos grandes players do mercado.

Então, como já mencionei mais acima no texto, o futuro (nada distante, registre-se!) é que os artistas com histórico e longevidade na relação das gravadoras sejam os mais valorizados pelo mercado. As gravadoras serão avaliadas mais pelos seus respectivos catálogos do que por seus bens e patrimônios imobilizáveis como prédios, estúdios ou mesmo estoque.

Com estas mudanças, outra tendência é o crescimento (não inchaço, ressalte-se!) do número de artistas no cast das gravadoras. E assim, no melhor estilo “dança das cadeiras” arrisca-se aquele que ficar o tempo todo se levantando à procura de novos lugares. O risco de ficar sem cadeira alguma se torna cada vez maior.

Quem tem ouvidos, ouça!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, tricolor e alguém que curte viagens em família, culinária, um bom papo e observar tudo o que nos cerca.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Deixe uma resposta