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Gerenciamento de carreira. Agindo no presente para garantir o futuro.

Voltando à rotina de aeroportos em intermináveis obras, tapumes, poeira, saguões entupidos de gente e mudanças de portões de embarque a cada minuto, acabei tendo a felicidade em reencontrar uma antiga amiga de trabalho que atualmente dedica-se a outras atividades em outra empresa. Papo vai, papo vem chegamos ao recorrente tema do mercado fonográfico, artistas, projetos culturais, pressão cotidiana e tudo mais que chamamos de cotidiano pessoal e profissional. E já bem no fim de nosso papo eis que surge um assunto que servirá como base para este texto que escrevo a caminho de São Paulo e depois para a ensolarada cidade de Fortaleza onde participarei da Expo Evangélica, o maior evento do segmento no Norte e Nordeste do país.
Falamos sobre o posicionamento de alguns artistas que não entendem ou não querem entender as mudanças radicais pelas quais o mercado fonográfico e artístico vem passando nos últimos anos, especialmente nos recentes dois anos. O papo tinha como alvo a necessidade de mudanças de posturas quanto à relação artista e gravadora, assim como a relação com as mídias sociais, tecnologia e demandas do público. Sem ter muito tempo para aprofundar nossa conversa e mesmo o tema, simplifiquei o debate sinalizando de que o que realmente falta a boa parte dos artistas, seja do segmento secular ou gospel, independentemente, é uma visão de futuro, uma postura de planejamento de suas próprias carreiras.
Mesmo na expectativa por nossos respectivos embarques e a tensão por uma possível mudança de portão de embarque, seguimos conversando e um dos aspectos que concordamos é de que em se tratando de artista jamais podemos ter a expectativa de que este tenha uma postura racional, cartesiana, tabulada, afinal trata-se de um artista e não de um economista ou engenheiro, profissões em que notadamente espera-se por pensamentos e atitudes mais equilibradas e seguras. Este é um argumento do ponto de vista de nossa experiência em lidar com estes seres por anos e anos mais do que justificável. Tenho inúmeros casos e experiências em que o artista tomou atitudes completamente incompreensíveis, positivas e desastrosas, o leque de opções é bem extenso.
Entendendo que lidamos com um ser diferenciado, criativo, volúvel e inesperado é inadmissível que este não tenha ao seu lado alguém mais racional, equilibrado, que dê um perfeito equilíbrio nas decisões e atitudes. Infelizmente boa parte dos artistas contam em seu staff com pessoas que não têm esta postura de equilíbrio. É impressionante como certos “assessores” querem ser mais artistas do que os próprios artistas, inclui-se aí esposos, esposas de artistas e uma série de produtores e afins.
Uma das maiores diferenças que vejo no meu dia a dia e de meus pares na direção artística do cast secular é justamente na ausência de interlocutores que realmente entendam do negócio e que atuem como balizadores na relação artista e gravadora. A falta de empresários e managers no meio artístico gospel traz uma série de prejuízos e resultados negativos que influenciam diretamente na condução dos projetos e mesmo da carreira de artistas. Considero que esta falta de profissionais dando suporte aos artistas é um dos mais importantes aspectos para a constante troca de gravadoras no meio gospel. Já pararam para observar a quantidade de artistas que ficam pulando de gravadora em gravadora? Será que o problema está nas gravadoras ou no artista que não consegue se adaptar à relação profissional que se exige na função?
A necessidade de se ter um profissional experiente ao lado de um artista é mais um detalhe que aponta para a falta de planejamento de médio e longo prazo na carreira artística. E aí chegamos ao ponto principal deste texto que escrevo em meio a turbulências do vôo na aproximação da capital paulista.

O artista, assim como qualquer profissional, precisa ter um planejamento de médio e longo prazo de sua carreira. A isto chamamos de gerenciamento de carreira.

Confesso que acho assustador e mesmo muito triste, frustrante talvez, ver artistas que já tiveram e viveram o sucesso anos atrás amargando o ocaso de suas carreiras. O meio artístico gospel é bem mais condescendente do que o seu similar secular. No meio popular, o artista precisa de hits para não correr o risco de desaparecer das mídias e ser atropelado por um novo modismo de verão. A concorrência é absurda, cruel e intensa. No meio gospel é tudo bem mais leve e não raro vemos artistas com carreiras de sucesso por anos e anos. Se o artista gospel mantém uma carreira produtiva do ponto de vista artístico lançando projetos a cada 2 anos em média, não errando absurdamente no repertório e principalmente não “fechando portas” com acessos de estrelismo ou escândalos pessoais, a tendência é que tenha uma longeva carreira.
É bem verdade que problemas como adultério ou divórcio em tempos atrás determinavam o fim ou queda abrupta de uma carreira artística e principalmente ministério pastoral. Mas como já mencionei, isso foi em tempos longínquos, hoje em dia é comum vermos bispos que trocam de esposas e a transformam em bispas e cantores sorrindo para fotos com a terceira ou quarta esposa. Que fase!
Sou um observador por natureza. Gosto de informação e de analisar fatos. Faço isso de forma até natural. E como falei antes, me entristece ver artistas de 30 anos de carreira tendo que enfrentar extenuantes viagens pelo Brasil para ter que trazer o sustento ao fim do mês. E saibam que isto é muito, mas muito comum em nossas plagas. Ao conversar com alguns destes ícones, vejo claramente que a imensa maioria nunca deu o devido valor para o futuro. Simplesmente viveram e conduziram suas carreiras como “se não houvesse amanhã” e que suas carreiras jamais chegassem ao “tempo das vacas magras”.
Outra característica destes artistas é a ausência de pessoas capacitadas para a condução de suas carreiras. Em boa parte, estes ícones são rodeados de maridos experts em tudo, de filhos que nunca trabalharam e atendem ao telefone da agenda ou de fãs que passaram a ser assessores para ter a feliz oportunidade de conviver com seu ídolo bem de perto. Em 100% dos casos, este tipo de artista também se julga conhecedor de todas as técnicas de marketing, produção musical, design, estratégias comerciais e temas afins. Ou seja, geralmente são pessoas que não sabem lidar com opiniões diferentes, mesmo que sejam com as melhores das intenções.
Tenho repetido muito ultimamente (esta é uma característica pessoal: repetir assuntos, frases … ninguém é perfeito!) sobre as mudanças do mercado fonográfico. Mesmo tendo acesso privilegiado às novidades, informações e experiências deste mercado pelo fato de trabalhar numa empresa de ponta, multinacional e ao lado de grandes profissionais, ainda assim não posso cravar com total segurança sobre como será o mercado fonográfico daqui uns 5 anos, simplesmente porque as mudanças tecnológicas de hábitos de consumo estão acontecendo num ritmo alucinante! Então, até mesmo por uma questão de sobrevivência o artista precisa ter uma visão analítica do atual cenário e projetar sua carreira e projetos para os tempos vindouros.
As estratégias usadas em 1990 são dignas de museu ou livros de história. O mesmo acontece para as ações implementadas nos anos 2000. Não diferente também de tudo que foi feito até uns 5 anos atrás e – pasmem! – até mesmo o que foi feito há 2 anos passados já soa como vintage. Em suma, se eu pudesse, entregaria um aparelho de perda de memória utilizada por aqueles agentes do MIB, para cada artista que encontrasse pelo caminho.
O planejamento de carreira de um artista deve ser feito por profissionais. Deve seguir etapas bem definidas e estar suscetível a mudanças se necessário. Um artista perspicaz deve pensar sua carreira, objetivos e metas para os próximos 5 anos, talvez os próximos 20 anos divididos em período qüinqüenais. Pode ser um caminho, talvez. Quantos artistas planejam suas carreiras desta forma em nosso meio? Confesso que poucas vezes ouvi de artistas algo parecido com o que podemos chamar de planejamento de carreira. E isto pode ter um preço alto no futuro. Exemplos não faltam para ilustrar essa questão.
Agindo no presente. Pensando o futuro. Mãos à obra!

Mauricio Soares, jornalista, observador, publicitário, consultor de marketing.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • Andersonn Clayton

    29/07/2014 at 22:52

    Muito bom mais esse texto Mauricio…não tem como não concordar com tudo que você citou acima. Gostei da parte de fãs se tornando assessores, pior ainda é quando estes impedem quem realmente quer ajudar profissionalmente o artista sem aparecer mais que ele, afinal o artista é o artista e não os assessores….resta saber quem vai sobreviver as mudanças, mais do q nunca, no mercado gospel e no segmento evangélico.

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