Home Mercado Gospel INVESTINDO NO CONTEÚDO NACIONAL. FALANDO SOBRE COMPOSIÇÃO E VERSÕES.

INVESTINDO NO CONTEÚDO NACIONAL. FALANDO SOBRE COMPOSIÇÃO E VERSÕES.

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Na semana passada publicamos o primeiro texto após o meu momento sabático de 3 meses … e aí conforme esperado, a vontade de seguir publicando mais textos chegou de forma mansa, tranquila, mas chegou, ainda que num ritmo bem low profile. Recebi de uns 4 a 5 amigos mensagens de felicitações pela volta do blog com textos inéditos … pelo visto, o nosso tradicional quórum de 69 leitores precisa ser recuperado. Então vamos caprichar. Tenho pela frente 2h20 de vôo entre o Rio de Janeiro e Recife. Vamos lá … apertem os cintos!

Dias atrás em conversa com a equipe de Label na empresa em que trabalho, ouvi o comentário de que em comparação à quantidade de pedidos de versões solicitadas por artistas seculares, o nosso núcleo gospel era imbatível na proporção de 30 por 1 … ouvi atentamente o comentário tentando alguma resposta mais coerente, mas no fim, apenas concordei com a cabeça deixando claro de que nesta questão não há o que se explicar, apenas aceitar (ou não!).

Hoje cedo eu fiz este mesmo comentário com os grupos que temos pelo whatsapp junto aos artistas de nosso cast. E aí incluí não só o relato da conversa descrita acima, mas também minha posição a respeito. A grande questão é que a música gospel, desde os anos 80 no Brasil vem bebendo freneticamente da fonte de intermináveis versões de canções internacionais, especialmente norte-americanas. O cantor e compositor, o excelente letrista, Fábio Sampaio, front man da Tanlan comentou que “Este é um tema bastante pertinente e até, porque não dizer, controverso em nosso meio. Estudando a história da música cristã brasileira fica evidente que, por diversas razões, produzir versões se tornou o ethos da música gospel. Fábio continua com sua excelente intervenção destacando que pode haver até uma explicação histórica para essa cultura de versões. “Isso acontece, principalmente, mas não exclusivamente pelo fato de que o Evangelho chegou ao Brasil através de missionários estrangeiros (norte americanos e europeus). Muitos tinham como metodologia a exclusão da cultura local e imposição de sua própria cultura. E isso perpetuou-se nos dias atuais. Outro fator curioso é que não há como definir qual estilo seria o “brasileiro”, criando um terreno fértil para as versões, já que assim, padronizamos a estética sem muito esforço, já que nos apoiamos em fórmulas pré-estabelecidas e comprovadamente de ‘sucesso’”.

Tentando prosseguir na rota apresentada pelo Fábio Sampaio acredito que a música cristã brasileira de fato não criou uma identidade cultural forte. Se na cultura nacional, o samba e a bossa nova representam o que temos de mais expoente na música produzida no país e percebida no exterior, no tocante ao que chamamos de música gospel, esta identidade ainda é bastante fluida, incipiente, para não dizer inexistente. Talvez alguns possam dizer que a música ‘pentecostal’ possa ser considerada como um estilo essencialmente nacional, específica de nosso meio, mas para tornar-se uma referência cultural este estilo deve ser percebido não somente pelo próprio segmento como também pela sociedade como um todo e, convenhamos que no exterior, a música gospel produzida no país ainda não consegue avançar além fronteiras. Então, do ponto de vista técnico, seguimos carentes de uma identidade cultural gospel definida.

Voltando ao contato que tive com os artistas pelo app de conversas, escrevi um pequeno texto para validar o que eu penso a respeito da profusão de versões internacionais em nosso meio. Neste texto além de expor a impressão de nossa equipe de Label, deixei claro que devemos dedicar mais tempo ao processo de produção de músicas. E que este tempo de dedicação deve vir acompanhado de muitas atitudes bastante definidas. Em primeiro lugar, boa parte do processo de criação de uma música demanda de tempo, atenção, foco e dedicação. Casos clássicos em que a melodia e letra surgem num piscar de olhos, devem ser tratados como exceção e como tal, não se tem qualquer controle a respeito. Simplesmente a inspiração, surge do nada e … pronto! O sucesso está nas mãos, mas quem garante isso? Ninguém! Não mesmo! Então, para não depender do acaso, o que se deve fazer é trabalhar, trabalhar, trabalhar … em primeiro lugar, não creio que possamos oferecer algo se não temos posse do conteúdo. Em outras palavras, se no nosso meio as canções falam de questões espirituais, relacionados à Palavra de Deus, como podemos escrever sobre estes temas se não tivermos vida e intimidade com Ele? Já recebi muitas músicas … incontáveis composições … e posso garantir que é sistemático … ao ter contato com algumas destas canções, muitas das vezes fica a sensação de bla bla bla … com infindáveis chavões, palavras de efeito, referências repetidas … ou seja, mais do mesmo … e aí, ao pesquisar sobre os autores, não me surpreendo em perceber que o que a caneta registra, não significa que a vida representa. Entenderam ou preciso ser mais claro?

Quando tratamos de assuntos espirituais, conhecimento e experiência, vivência e intimidade fazem total diferença.

Entendendo que esta questão básica de intimidade com Deus é ponto pacífico, podemos seguir para outros aspectos. Seguindo no mesmo conceito de que só podemos dar aquilo sobre o que temos, sempre entendi que o processo de composição é um grande trabalho braçal, mental, demanda dedicação e este trabalho consiste também e, ou principalmente na busca por conteúdos. Então, como poder trabalhar com a palavra se a leitura é pouca? Sinceramente não consigo entender como algumas pessoas se julgam compositores se ao menos não têm controle sobre a própria língua natal. Recebo constantemente composições, inclusive tenho um grupo de whatsapp somente com compositores e sendo um Diretor A&R, este trabalho é uma das bases de meu ofício cotidiano (pra quem não está ambientando à sigla, A&R significa “Artístico & Repertório”, já traduzido ao português). E aí posso garantir que ao menos 50% das músicas que recebo, contém erros grosseiros de português – isso é inadmissível! Então, para aqueles que pretendem seguir na carreira de compositor, minha dica ou clamor mesmo, é que dediquem tempo, muito tempo mesmo! para a leitura … livros, revistas, textos … não importa, o que conta é buscar referências, informações, estilo, ampliar consideravelmente o conteúdo, o estofo cultural … isso é fundamental. Na minha última viagem em família, como forma de passar o tempo na estrada, propus aos meus filhos uma simples brincadeira … eu falava uma palavra e pedia que eles explicassem o respectivo significado, um simples exercício como este pode fazer uma diferença e tanto! Uma das lembranças que tenho de minha infância era justamente os jogos que fazia com meu pai neste mesmo sentido. Diariamente eu lia o dicionário e comentava com ele o significado … até hoje algumas palavras trago em minha memória.

Leitura é fundamental. Buscar conhecimento é tarefa cotidiana e algo a ser perseguido todo o tempo.

O trabalho de composição é algo que demanda tempo e pode ser feito de forma individual, em parcerias ou até mesmo no estilo colaborativo ou cooperativo com a participação de um grupo criativo. Esta é uma questão bastante pessoal … há casos de compositores que só trabalham solitários, outros encontram parceiros ideais … às vezes pode se contar com a ajuda de um ‘colador’ de frases soltas, alguém que consegue organizar ideias e transformá-las em algo de qualidade. O processo de composição é algo muito interessante porque não segue regras ou formatos determinados. O importante é conhecer seu processo próprio de criação, respeitá-lo e dedicar-se a ele da melhor forma.

Outra característica do processo de composição tem a ver com a ideia de erro e tentativa, acerto e tentativa … ou seja, é praticamente impossível que se ache a ‘música’ numa única vez. O processo de composição exige tempo, senso crítico e bom senso. Outra forma de avaliação é a consulta a terceiros. Sempre que possível, apresente sua música para que outras pessoas possam escutar e opinar a respeito. No entanto, neste caso, saber escolher os ‘ouvidos’ faz parte do processo de análise criteriosa. Não adianta mostrar as composições pra mãezinha querida ou aquela tia que acha tudo perfeito o que você faz desde os primeiros dias de vida. Não busque a aprovação imediata, como um diamante, burile, lapide ao máximo sua produção.

Não há regras, formatos ou atalhos para se encontrar o hit.

Especialmente no exterior, a figura do “cantautor” é algo extremamente valorizado, algo como se fosse um patamar acima do intérprete ou mesmo do compositor. Para quem não está familiarizado com a expressão, “cantautor” significa o compositor que canta ou vice-versa. Esta valorização deve-se ao fato de que uma pessoa ter 2 talentos artísticos – cantar e escrever – seja algo a ser destacado. No Brasil, não somente no meio gospel, mas também secular, a figura do compositor não raras as vezes é algo colocada em segundo plano. Basta olharmos o ranking do Top 20 ou 30 das músicas mais executadas no país neste momento ou nos últimos anos … se conseguirmos identificar os autores de 10% das canções, podemos nos considerar como profundos entendedores deste mundo da música. Mas não quero trazer a responsabilidade sobre a baixa valorização aos compositores no nosso país a questões simplistas … é fato que o reconhecimento ao compositor se dá não somente pela produção de um único hit, mas especialmente de um conjunto de hits, uma obra completa. Vejamos o que aconteceu com Sullivan e Massadas nas décadas de 80 e 90, a grande quantidade de sucessos em sequência, transformou-os em referência de hits na MPB, colocando-os no Olimpo dos compositores do país. No nosso caso, compositores mais antigos como Josué Teodoro, Jorge Raeder, João Alexandre, Nelson Bomilcar, marcaram lugar de destaque no meio gospel, sendo seguidos décadas depois por nomes como Anderson Freire, Tony Ricardo, Clóvis Pinho, entre outros.

É fato que a estratégia de versões internacionais é um atalho tentador, afinal a música já foi testada e se chamou a atenção para contar com uma versão em português é porque de fato alcançou o sucesso. A questão é que seguindo esta toada, estaremos cada dia mais dependentes de conteúdo estrangeiro, iremos diminuir a força da produção local e adiaremos por mais anos e anos, a criação de uma identidade cultural sólida e reconhecida. Hoje em dia é muito claro que temos um cenário relevante de intérpretes. Isso é muito notório e repercutido por toda a classe artística secular … é impressionante os relatos entusiasmados que recebo sobre os cantores de música gospel brasileira de artistas do universo sertanejo, funk e mesmo da MPB. Entre meus pares na gravadora, o mesmo acontece … são elogios rasgados à qualidade das músicas, extensão vocal e técnicas da turma gospel e isso, é motivo de orgulho.

O nosso último grande hit que atravessou todos os limites, números, recordes … talvez tenha sido a música “Ninguém Explica Deus” de autoria de Clóvis Pinho. A música está prestes a alcançar 200 milhões de views no YouTube, foi regravada por alguns artistas seculares e gospel no Brasil, entrou na playlists de celebridades da TV, da música e da web … ou seja, transformou-se num grande sucesso. Isto é muito gratificante! E, sem dúvida, esta composição abriu um enorme caminho ao artista, intérprete e compositor. Precisamos de mais hits … precisamos de mais sucessos … precisamos de novos temas, novas propostas musicais …

Não estou dizendo que devemos promover um caça às bruxas ou um boicote ao que vem de fora. Longe de mim lançar um discurso xenófobo, mas o que eu quero incentivar através deste texto é para que a produção local seja fortalecida, respeitada e propagada cada vez mais. No entanto, não quero propor um sistema de reserva de mercado como o que vivemos nas décadas de 70 e 80 que proibia o acesso à tecnologia estrangeira, colocando o Brasil num atraso absurdo por décadas. Minha proposta é de que os artistas, ao buscarem repertórios, que dêem prioridade aos compositores locais … que deixem a tentação de buscar atalhos e versões de sucessos internacionais que muitas das vezes (a grande maioria) não conseguem ter o mesmo sucesso por aqui como têm por lá. Tenham paciência e disposição para buscar parceiros de composição, para contatar compositores e dar-lhes alguns caminhos a seguir, que tenham vontade de buscar sempre a excelência. Em contrapartida, que os compositores também façam o máximo esforço em oferecer cada vez mais conteúdos melhores e de qualidade. Invistam tempo e principalmente atenção ao processo criativo. Atentem-se aos detalhes, à poesia, à criatividade, ao novo, ao diferente … busquem novas referências. Aproveitem que nos apps de streaming há milhões de músicas para dar um ‘reset’ nas suas próprias referências musicais. Conheça novas propostas. Por fim, leve-se a sério e aja como tal, dando a devida importância onde o verdadeiro sucesso começa sempre: na música.

Não há artista de sucesso sem música. Buscamos o hit sempre e valorizemos as etapas, detalhes e aspectos do sucesso.

Ufa! A comissária de bordo acaba de anunciar nossa chegada ao Recife. Consegui iniciar e finalizar um texto numa pegada só … parece que estou voltando ao pique de antes. Quero me despedir e indicar a vocês uma música muito especial e que vem alcançando excelente repercussão nestes dias: Inteiro, faixa composta por Priscilla Alcântara uma jovem de 21 anos. Ou seja, nada melhor para ilustrar tudo aquilo que comentamos acima.

Divirtam-se!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que segue freneticamente em busca de novos hits.

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    Excelente exposição, me ajudou bastante a ampliar minha cosmovisão musical.

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    Gostei do seu comentário, eu só acho difícil para novos compositores, com novos hits, conseguirem um espaço de mostrar o seu trabalho, tenho presenciado ” panelas” no meio gospel.

  • Rony e Suelen Oficial

    Deborah, desculpe-me pelo termo “panela”, também sou amante da música e Bíblia, meu comentário foi devido a ter me deparado com excelentes compositores, com excelentes hits mas que não conseguem um espaço, em contrapartida observo uma enxurrada de músicas CTRL C/CTRL V e versões.

    • Deborah Brandão

      Concordo com o excesso de cópias KKK Sou coordenadora de uma web rádio e as vezes é até difícil atender pedidos de ouvinte devido ao grande número de intérpretes diferentes de uma mesma música kkj. Falando nisso, entre em contato conosco para falarmos sobre suas músicas. E-mail divulgacao@candelariafm.com.br

      • Rony e Suelen Oficial

        Obrigado, Deborah. E- mail enviado.