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Jacaré que não se cuida vira bolsa de madame

No meu último texto publicado aqui no blog despedi-me dos 66 leitores prometendo que durante minhas férias iria aproveitar os momentos de descanso em família para escrever um pouco mais para o Observatório Cristão. Começo este texto justamente no caminho de volta ao Brasil sobrevoando o Caribe e América Central e percebendo que pelo menos 2 de meus desejos não se concretizaram. O primeiro desejo não realizado foi descansar, afinal isso seria algo praticamente impossível em meio a tantas atividades, passeios, montanhas russas, loopings, compras intermináveis e, ainda mais, sendo o guia de um grupo de 8 pessoas que incluiu minha família, mais sogros e cunhada. Ou seja, uma aventura digna daqueles filmes de sessão da tarde! O segundo desejo, também não realizado, foi justamente em decorrência do primeiro, afinal, como reservar algumas horas para o ócio criativo se o que menos me restou nestes dias foi justamente o tempo?

Então, para distrair-me nesse longo trajeto até o calorão brasileiro, vou tentar escrever um texto que vem me chamando a atenção muito nos últimos dias e que somente agora passo a transformá-lo em um post para o blog. Existem certas ocasiões em que devemos ser muito claros e diretos para que a mensagem seja perfeitamente compreendida. Com meus filhos, em especial o caçula Benjamim, determinadas ordens precisam ser acompanhadas por explicações detalhadas sobre motivos, consequências e todo tipo de informação extra para que a interpretação daquele fato seja devidamente clara. Seguindo o objetivo didático deste blog vou aproveitar estas primeiras horas de voo para repassar aos nossos seletos leitores sobre algumas questões deste novo momento do mercado fonográfico.

Em primeiro lugar, talvez em toda a história do mercado fonográfico mundial, nunca os artistas tiveram que assumir um papel tão pró-ativo como o que vivemos neste período. Definitivamente a fase em que o artista deitava-se refastelado em seu sofá enquanto a gravadora e sua equipe trabalhavam pelo seu sucesso, esta já se foi! À gravadora, em sua esmagadora maioria, cabe a incumbência de cuidar dos processos de manufatura e distribuição do conteúdo, seja ele físico ou digital. Em alguns casos, a gravadora também irá cuidar do planejamento e execução das ações de marketing promocional/tradicional e digital.

Já publicamos diversos outros textos aqui no blog sobre este novo tempo do mercado musical e falamos muito sobre o crescimento do conceito de selos, também conhecidos como labels. Este fenômeno é muito comum no exterior e cada vez será mais presente no mercado brasileiro, incluindo o meio gospel. As grandes corporações como Sony Music, Universal Music, Warner Music são formadas por inúmeros selos que cuidam de todo o processo artístico que inclui a própria produção musical, assim como contratações do cast e mesmo a estratégia de marketing, neste caso agindo sempre em conjunto com a gravadora. Para exemplificarmos ainda melhor, basta conhecer a estrutura da Provident, uma das mais tradicionais gravadora norte-americanas de música cristã. Ali encontramos cerca de 20 labels com nichos bem definidos de atuação que vão desde selos especializados em música country sulista passando por música eletrônica, adoração, pop e até reggae e surf music gospel.

No Brasil, a Sony Music na área gospel já segue esta tendência e conta com diversos selos como Louvor Eterno, Melody Gospel, AB Records, Salluz, entre outros. E esta tendência tem tudo para seguir firme e forte pelos próximos anos! Certamente veremos muitos artistas que hoje ainda encontram-se vinculados a gravadoras em contratos no formato tradicional migrando pouco a pouco para o conceito de selos próprios onde assumirão todos os processos de produção musical. E independente se o artista irá ou não montar o seu próprio selo, a grande verdade é que as gravadoras deixarão definitivamente o modelo de contrato tradicional onde todas as matrizes e despesas de produção musical correm por sua conta. A partir de agora, o artista que não participar no investimento de gravação de suas obras terá grandes dificuldades em manter-se ligado a uma gravadora.

E esta mudança não é fruto do desejo desenfreado do maior lucro por parte das gravadoras. Não mesmo! Esta é uma questão simples de sobrevivência porque as vendas físicas despencaram nos últimos anos em função da pirataria e mais recentemente pela mudança nos hábitos de consumo com o crescimento do mercado digital. Há alguns meses atrás uma amiga, profissional do mercado fonográfico confidenciou-me sobre as dificuldades pelas quais sua gravadora estava passando naquele momento com a queda nas vendas, os altos custos de divulgação e tudo mais. Depois de ouvir um pouco da situação e perceber o temor pelo futuro da própria empresa e de seu emprego, fiz-lhe uma simples pergunta sobre os modelos de contrato artístico em vigor em sua companhia. E a resposta, que na verdade eu já suspeitava, era de que a gravadora mantinha todos modelos tradicionais (defasados) onde assumia todas as despesas e investimentos do projeto, inclusive com valores determinados de produção musical. Na mesma hora comentei de que este modelo estava fadado ao insucesso absoluto, de que nas condições atuais do mercado manter-se naquele formato de negócio significava prejuízos certos e a própria sobrevivência da empresa. Para ajudar-lhe a entender as novas formas de contrato artístico elenquei em detalhes diversos modelos de acordo entre uma gravadora e o artista que atualmente estão em uso.

Algum tempo depois perguntei a esta amiga se ela já estava conseguindo implementar as alterações nos modelos de contrato de sua empresa depois de minha ‘consultoria’ e a resposta foi de que até aquele momento não havia conseguido convencer seus superiores sobre a importância destas mudanças. Mais recentemente conversamos e ficou muito claro de que a estratégia de sua empresa segue em manter os modelos de contrato, mas com um visível enxugamento do número de artistas no cast. Simplesmente não há outro caminho! Contratos e a relação gravadora x artista precisam ser imediatamente repensados, reavaliados e ajustados de acordo com o novo perfil do mercado. Quem não promover tais mudanças terá destino nada glorioso nos próximos (curtos) anos!

E nesta mudança de atitude é importante que cada artista saiba o que precisa fazer para manter-se adequado às novas realidades:

  1. Todos os custos de produção, seja de um CD, EP ou mesmo um DVD devem ser arcados pelo próprio artista. Em alguns casos, a gravadora pode até promover um advanced dos custos de produção que serão devidamente descontados dos royalties até que o custo seja devidamente recuperado. Nestes casos, as gravadoras consideram esta possibilidade apenas para artistas com comprovado retorno em vendas e a recuperação dos royalties ou, então, no caso de artistas com histórico de vendas e relação com a própria gravadora. Em bom português, a fase onde a gravadora literalmente apostava e arriscava seus investimentos em projetos já passou! Agora estamos vivendo uma fase muito clara onde o artista precisa mais do que nunca acreditar (e investir) em seu potencial!
  2. Cada vez mais a divulgação de um álbum ou single, se fará através de conteúdo em vídeo. E neste caso, o artista precisa também contribuir na produção destes materiais. É fundamental que o artista mantenha-se próximo à gravadora estabelecendo a quantidade de vídeos e clipes que cada um passa a assumir os custos. E esta divisão de tarefas pode ser inclusive destaca em alguma cláusula no contrato. Algo como a cada lançamento, a gravadora custeia 2 clipes, mais alguns Lyric e Pseudo-vídeos e o artista outros 2 a 3 clipes, por exemplo.
  3. As principais gravadoras hoje em dia possuem equipes de marketing digital e é importante que todo artista esteja muito próximo a este time estabelecendo as diversas ações promocionais a cada lançamento. Atualmente procuro promover encontros desta equipe de marketing digital com meus artistas para tratar especificamente das estratégias de cada lançamento. E percebo que quando o artista possui ele próprio algum tipo de profissional em sua equipe, os resultados deste planejamento são bem superiores. Cada vez mais torna-se fundamental que além do profissional que cuida da agenda, cada artista também tenha alguma pessoa que cuide especificamente de seu marketing digital. Não confundir este profissional de marketing digital com aquele primo que gosta de ficar horas e horas no Facebook e Instagram!!!!! Estamos falando de um profissional que trabalha com estratégias, ferramentas de tecnologia, pesquisa e informação, além de ter bom senso estético e qualidade mínima de texto.
  4. Com a concorrência se acirrando cada vez mais, o artista precisa intensificar seu networking e suas ações de promoção e divulgação e isto significa entre outras coisas, que será necessário abrir mão do conforto da poltrona da sua sala para realizar visitas, entrevistas, maratonas de divulgação e outras promoções. Conheço alguns artistas que só querem dedicar um tempo de divulgação se for no programa do Raul Gil ou algo do tipo. Rádios comunitárias ou programas de TV web, nem pensar! Entrevista para sites ou emissoras de rádio, simplesmente não rola! Tarde de autógrafos com todos aqueles adolescentes em cima, nem pensar! Só que enquanto o pop star se faz de difícil para atender a estas mídias, o jovem cantor bem instruído não perde uma única oportunidade de divulgar seu trabalho. Quem segue se iludindo de que seu nome já basta para o sucesso, está correndo sérios riscos pela frente! Hoje em dia, todo artista precisa se auto-promover e arregaçar as mangas para garantir o máximo de exposição possível!
  5. Outra importante mudança que todo artista precisa estar atento é justamente na produção musical. Não dá para seguir neste mercado focado em atitudes que davam certo no meio físico já que estamos diante da revolução digital. Uma destas mudanças tem a ver com a quantidade de músicas e com a periodicidade dos lançamentos. Conversando recentemente com uma das grandes artistas do meio gospel, ela me disse que no seu próximo álbum terá apenas 10 músicas no repertório. Fiquei feliz em ver que estava diante de alguém bem sintonizado com as novas tendências do mercado. Se antigamente um disco robusto contava com 14, até mesmo 16 ou 18 faixas, hoje em dia convivemos com o limite de 10 faixas por projeto. O consumo de música hoje também segue a velocidade da sociedade cada vez mais fast food, mais imediatista. Quantas pessoas hoje em dia têm tempo para ficar uma hora e meia ouvindo atentamente uma música? E seguindo esta mesma tendência, imagino que cada vez mais os artistas estarão lançando álbuns no menor espaço de tempo. Se há tempos atrás um artista lançava um novo disco num intervalo entre 1 ano e meio e 2 anos e meio, às vezes até mais do que isso, nos próximos anos veremos artistas apresentando seus trabalhos a cada 12 meses ou até menos. Já temos alguns casos no exterior de artistas lançando EPs a cada 9 a 12 meses. Particularmente creio que em breve teremos artistas lançando EPs de 3 a 4 músicas num intervalo de 6 meses. A conferir.
  6. Voltando às questões de custo e investimento que citamos no início desta lista, fica muito claro de que sendo o artista o responsável pela produção musical, a partir de agora, o cuidado (e preocupação) com o budget do projeto assumem grande importância. Se quando era a gravadora a responsável pelos pagamentos, o artista literalmente ‘viajava na maionese’ sem qualquer preocupação com orçamentos, hoje em dia isto assume lugar de destaque na elaboração do projeto. Nada como doer em seu próprio bolso! Então, o artista precisa também imbuir-se da figura do produtor no seu próprio projeto estabelecendo prazos, metas e orçamentos. E aí reside um detalhe que gostaria de compartilhar com meus 66 leitores. Ultimamente tenho recebido projetos onde o artista garante que investiu uma determinada soma astronômica para os padrões de mercado. É muito fora do padrão em nosso meio, alguém investir 150 mil na gravação de um disco, mas infelizmente tenho ouvido relatos neste sentido. E sendo muito claro, tenho que alertar que, exceto seja este artista um fenômeno de vendas e popularidade, muito dificilmente este valor investido será recuperado! A não ser que este tenha em mente que o disco (e principalmente o DVD) será apenas um portifólio para a venda de shows e apresentações, a possibilidade dele reaver o investimento pela simples venda de discos físicos ou digital é praticamente nenhuma. Assim como em qualquer negócio ou investimento é fundamental que seja feita uma análise financeira do projeto em si, destacando viabilidade econômica, riscos e investimentos. Sem isso, tudo não passa de um simples exercício de fé ou mesmo de insanidade.

Vou ficando por aqui. Acho que já está bem claro de que todo o artista, iniciante ou mesmo veterano, precisa reavaliar urgentemente suas atitudes, estratégias e posicionamentos.

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, brasileiro cansado de tantas notícias de violência, corrupção e outras questões que nos fazem sentir com vontade de uma mudança radical em nosso país.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

5 Comments

  • Alex Eduardo

    23/03/2015 at 22:47

    Quanto a questão de diminuir a quantidade de faixas do CD concordo por conta dos repertórios atuais que estão muito abaixo da média (mediocridade). No mercado internacional o que vem se estabelecendo são as versões simples do álbum com 12 faixas, e um álbum DELUXE com mais 4 faixas ou mais. Tudo depende da qualidade do repertório também. Aqui no Brasil funciona muito diferente do mercado global. O lance é se adaptar. Descer o álbum para 10 faixas é pensar no futuro.

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  • Thiago Alves

    24/03/2015 at 17:30

    Blog cada dia mais top, abre mais minha mente . Venho de uma família de cantores e podemos observar que quando há 100% dedicação do cantor é notório uma colheita diferenciada, gravar um CD não é tão simples, repertório tem q ser muito bem selecionado(mais importante), correr atrás do investimento, diálogo com maestro pra cada arranjo, vocal etc e a questão espiritual nos faz divulgar e cantar com um gostinho diferente cada canção … Tenho pouco tempo de ministério e comecei já nessa onda, demorou quase 3 anos produção do meu primeiro cd devido minhas condições financeiras e o desejo de ter o melhor(o melhor custa caro), estou investindo no cd novo desde ano passado e o desgaste, cansaço a espera não se compara a glória de pegar um sonho projetado pra glória de Deus nas mãos, investir no meu ministério e no crescimento do reino foi tão gratificante, que quero gastar toda minha vida na obra do senhor e no fim direi quanto valeu, certo disso faria tudo de novo. Sempre acreditei no dom e talento que pela graça Deus me presenteou. Acredite em sí.

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