Home Observatório Cristão Jornalismo é coisa séria! Sendo jornalismo cristão, mais ainda!

Jornalismo é coisa séria! Sendo jornalismo cristão, mais ainda!

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Constantemente tenho dito sobre a necessidade de artistas e profissionais buscarem maior conhecimento e entendimento do universo digital. Neste texto que escrevo durante minha curta passagem em Goiânia sigo nesta mesma linha de raciocínio, mas numa vertente um pouco diferente. Há algumas semanas atrás participei de um programa de TV e entre alguns assuntos propostos o diretor me pediu para falar de pirataria no mercado fonográfico, em especial no meio gospel. Olhei para ele como se se estivesse diante de algum náufrago que ficou anos distante da realidade comentando sobre notícias que haviam caducado fazia um bom tempo.

“ – Como pirataria? Pirataria do que?” – indaguei eu tentando entender a proposta do diretor. Ele seguiu sua explicação: “ – Ah, pirataria de CDs … como as gravadoras lidam com a pirataria de discos no meio gospel aqui no Brasil?”, insistiu ele. Ainda me refazendo do choque procurei explicar a todos ali presentes que este seria um tema defasado, ultrapasado, fora de tempo, afinal as gravadoras estão neste momento (ou deveriam estar!) focadas no mercado digital, nas novas plataformas, na mudança de consumo, na nova relação do consumidor e o conteúdo, ou seja, ninguém mais está preocupado com pirataria de discos! Acho que nem mesmo quem ‘sobrevivia’ desse comércio ilegal.

Também recentemente dei entrevista para uma revista de circulação nacional. O jornalista, um dos mais competentes de nosso segmento, queria entender a quantas anda o mercado fonográfico dando ênfase ainda ao segmento gospel no país. Umas das primeiras perguntas foi novamente sobre a famigerada pirataria de discos. E aí fui obrigado a novamente falar sobre a mudança do mercado, sobre os novos focos do meio fonográfico e das possibilidades que as tecnologias abrem para a música e a arte em geral. Já na segunda pergunta, o jornalista insiste em afirmar que o mercado fonográfico vive dias de crise, passa por problemas e blá blá blá … na verdade, essa é uma ideia que foi passada anos atrás e vem sendo repetida numa cantilena sem fim … Não! O mercado fonográfico não está em crise! Ele está em transformação. A crise só chega para as empresas que não se atualizam e insistem em repetir fórmulas que deram certo no passado mas que hoje são inócuas!

Com muita calma e um ar professoral fui explicando que há tempos atrás as gravadoras trabalhavam com 2 a 3 mil pontos de distribuição em todo o Brasil e hoje temos um mercado com 280 milhões de aparelhos celulares, mais de 90 milhões de pessoas com acesso a internet de qualidade, mais de 60 plataformas digitais oferecendo conteúdo ao consumidor e ainda assim, mantendo contato com mais de 1,5 mil lojas, mercados, lojas especializadas. Ou seja, em vez de retrair-se, o mercado só cresceu nestes últimos anos. Então onde está a crise?

Estes exemplos são para alertar, principalmente aos jornalistas que atuam no segmento gospel sobre a necessidade de se buscar conhecimento sempre! Já tive a infeliz experiência de participar de um programa de rádio onde o locutor não tinha a menor noção do artista que estava à sua frente para ser entrevistado. Não que o artista fosse um ‘ilustre desconhecido’, longe disso! O locutor é que não tinha feito seu ‘dever de casa’ e estudado o mínimo que fosse, a respeito da história e carreira do artista. Isso é básico e infelizmente não raro em nosso meio.

Estudar a respeito do assunto que se queira enfocar é fundamental. Um jornalista bem embasado do ponto de vista da informação é condição primária no exercício da profissão.

Ouço muita gente reclamar de que nosso meio é amador. E de fato creio que há mesmo muito a se melhorar. Mas no meio de um ambiente amador é ainda mais fácil daqueles que levam a sério suas atividades se destacarem ante aos demais. Nada a ver com o discurso de um artista do mundinho gospel de dias atrás, estou falando de busca e valorização do conhecimento. Em especial no meio jornalístico gospel precisamos ter mais gente capacitada para valorizar a área e a própria profissão. Recentemente foi publicado por um importante site de notícias cristãs brasileiro e imediatamente replicado por sites de fofocas gospel (Como fofoca gospel?!?!? Pode isso Arnaldo?) uma notícia envolvendo uma igreja importante no exterior. A notícia foi pinçada diretamente de outro site no exterior e traduzida para o português. Não houve dolo algum por parte do site brasileiro, a falha é que não houve uma melhor apuração sobre o assunto. O que deveria ter sido feito neste caso era o jornalista do site procurar a igreja no exterior diretamente ou seus representantes no Brasil, ou ainda, apenas citar a fonte da notícia. Checar a veracidade das notícias faz parte do dia a dia de um bom jornalista para que este não se torne apenas uma fonte de boatos ou coisas do tipo.

Pesquisar. Duvidar. Trazer uma interpretação aos fatos é papel primordial da imprensa. Quem simplesmente repete notícias é máquina copiadora, não jornalista!

Outro dia soube de uma pessoa que trabalha no segmento e que comentou sobre uma determinada empresa que não dava a devida valorização à classe jornalística gospel. No conceito ‘investimento’ leia-se não distribuir passagens aéreas para os jornalistas irem em eventos, não distribuir brindes que não fossem seus próprios lançamentos, não oferecer banquetes com camarões VG e nem investir verba de publicidade sem critério e análise nos veículos de comunicação do segmento.

Enquanto os veículos de comunicação sujeitarem seu espaço editorial às questões comerciais, sua autonomia estará em risco! Isso vale para revista, jornal, rádio, blogs, enfim, um veículo de comunicação deve priorizar seu papel de levar informação de qualidade para o seu público-alvo. O resultado comercial é fruto antes de mais nada da credibilidade e alcance do veículo. Ao colocar seu espaço editorial no balcão de negócios o veículo claramente desvaloriza seu próprio projeto e dá sinais claros ao seu público de que o respeito à sua inteligência é mínimo. Basta folhear algumas revistas e jornais do nosso meio para constatar com tristeza de que essa é uma prática usual. Numa rápida conferida você irá ver que boa parte, senão todas as matérias ditas ‘editoriais’ estão diretamente relacionadas à presença de anúncios das mesmas empresas citadas nos textos. Isso, na minha modesta opinião, é uma clara afronta à inteligência do público consumidor daquele veículo.

Quero deixar claro aqui que não tenho nada contra revistas-catálogo-tipo-páginas-amarelas ou jornais neste mesmo estilo. Esta pode ser uma modalidade de negócios e deve ser tratada como tal. A questão que volto a frisar é sobre a transparência desta operação. Não dá para querer enganar o público e mesmo o mercado travestindo-se de veículo informativo quando na verdade o objetivo é tão somente comercial. E não me venha com o blá blá blá de que é para o Reino porque por mais que o discurso seja recheado de boas intenções, o foco é pagar as contas no fim do mês e não há nada de errado nisso! Mais uma vez, o erro está em não fazer as coisas às claras!

Será que a classe jornalística cristã quer ser tratada com esta distinção do pagou-virou-meu-amigo? Ou será que os profissionais querem ter suas atividades devidamente respeitadas por todos e seguindo os códigos de conduta e ética que devem ser modelo, independente da fé que se professa?

Outra questão que gostaria de inserir nesse texto que finalizo no caminho de volta para o Rio de Janeiro é com relação à linguagem utilizada por alguns veículos em nosso meio. Se o objetivo da imprensa e mesmo como cristãos é de levar a mensagem para o maior número de pessoas, temos que ter muito cuidado com a forma de nossa comunicação. Como no meu dia a dia tenho contato com muitas pessoas que não são evangélicas e não dominam o linguajar ‘crentês’ procuro traduzir muitos dos nossos termos para expressões que podem ser facilmente compreendidos por quem não é deste segmento. Esta atitude precisa ser replicada com mais frequência nos veículos de comunicação cristã. Ouvindo programas de rádio pelo Brasil fico observando a quantidade de termos específicos do linguajar que apenas servem para reforçar o estereótipo do crente. Precisamos trazer uma linguagem menos hermética, mais coloquial para atingir e comunicar pessoas de fora de nosso ambiente. Em sites e revistas também vemos essa cultura do ‘crentês’ utilizada à exaustão. Me divirto ao ler algumas resenhas e análises de lançamentos de discos repletos de adjetivos ‘crentescos’ … realmente é muita bênção irmão!?!?!?

Todo cuidado com a forma de expressar-se! Evite termos que só mesmo os crentes podem entender. Lembre-se que a notícia precisa ser entendida pelo maior número de pessoas.

Mas ainda assim tenho muita esperança. Principalmente numa turma jovem que está chegando ao mercado e que vem buscando excelência e conhecimento para ser usado no meio cristão. Vejo que temos muito a progredir, especialmente em se tratando do jornalismo cristão. Num ambiente complicado como o de rádios, já começo a ver executivos de emissoras evangélicas tratando com todo respeito que o próprio veículo merece, valorizando sua programação, os artistas e principalmente seu público. Na mídia impressa, cabe meu registro e respeito o trabalho que Mário Fernando, editor da Revista Comunhão vem há 18 anos desenvolvendo no Estado do Espírito Santo, assim como as revistas Ultimato e Cristianismo Hoje. No meio digital, alguns poucos sites que optam por não seguir a cartilha do Ctrl C Ctrl V, também têm feito diferença.

Finalizo o texto querendo deixar uma palavra de incentivo a todos aqueles que querem dedicar suas vidas ao jornalismo no meio cristão. Que levem com a maior seriedade o trabalho que Deus coloca em suas mãos, que optem por seguir o caminho da excelência e relevância para que assim e, somente assim, o mercado publicitário os reconheça e os trate com o devido respeito.

Vamos em frente!

 

 

Mauricio Soares, jornalista, cristão, sem muita paciência pra mimimi.

  • Lucas

    Olá, td bem? não tenho outro meio de contato então gostaria de dizer por aqui mesmo. Na maioria das lojas aqui do RJ que vou não tem o novo CD E DVD infantil da Cristina Mel, nem o novo da Marcela Taís, nem mesmo nas lojas americanas. A distribuição digital dos lançamentos da Sony está ótima, mas está falhando bastante quando é a do produto físico. Espero que compreenda. Abçs!