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Mantendo o bom senso na relação do artista e o público

Meus últimos dias têm sido bastante intensos. Estamos com muitas produções musicais em andamento simultaneamente. Outros projetos já começaram a fase de escolha de repertório. Alguns projetos especiais também estão em adiantada fase de definições. Tudo isso aliado às demandas naturais do dia a dia de uma gravadora que neste momento estão alavancadas com a chegada do mercado digital com novas exigências e protocolos. Talvez por toda essa correria, para mim estão cada vez mais raros os prazerosos momentos à frente de meu computador para escrever os textos para o blog Observatório Cristão. Neste momento, depois de um dia que começou às 5 da manhã com uma viagem para São Paulo onde passei o dia inteiro correndo de um lado para o outro entre reuniões e visita a estúdios, encontro-me dentro de um “agradável” vôo entre a terra da garoa e a capital do Estado de Rondônia com um pit stop em Cuiabá.

Alguns minutos antes de embarcar nessa epopeia aérea perguntei às pessoas em meu twitter sobre quais temas poderia escrever nesse tempo de viagem. Surgiram sugestões que variaram entre o não-pagamento de gravadoras e editoras nas questões autorais até sobre montagem de repertório (este tema já gerou 3 posts no Observatório. Vale a pena pesquisar em nossos arquivos de textos), entre outros assuntos. E no meio do turbilhão de sugestões e pedidos surgiu uma indicação que chamou-me a atenção e que passarei a dissecar a partir de agora.

Já há algum tempo venho conversando com os artistas, em especial do cast da gravadora em que trabalho, sobre a equilibrada relação com o público. Em tempos de redes sociais e do crescimento e popularização da web, a distância entre o artista e o seu público está cada vez menor. E dentro dessa aproximação, algumas questões precisam ser melhor avaliadas. Portanto vamos tentar nas próximas linhas comentar um pouco mais sobre a (tensa) relação entre o artista e seu público.

Do ponto de vista do artista, uma das dicas que venho repetindo exaustivamente nos últimos tempos é: não seja distante a ponto de criar antipatia com seu público, mas também não seja tão acessível a ponto das pessoas acharem que podem falar o que, quando e como quiserem. Esse equilíbrio entre a simpatia e o distanciamento dos meros mortais deve ser algo totalmente dosado e definido pelo próprio artista. Dentro deste distanciamento ”sensato” nas redes sociais uma boa dica é manter contato com o público de forma educada, polida, atenciosa, mas sem extrapolar para confidências (mesmo que por DM), fuxicos e coisas do tipo. Os fãs geralmente querem manter uma relação de intimidade com os artistas e muitas das vezes extrapolam os limites. Então o ideal é que o artista entre no Twitter ou Facebook e coloque suas noticias, comentários, informações e dentre as várias perguntas e comentários, escolha algumas (apenas algumas) para responder de forma aleatória.

As redes sociais vêm criando um outro fenômeno além da proximidade entre as pessoas. Esse ambiente também tem servido para afastar as pessoas e criar atritos até então impossíveis tempos atrás. Hoje em dia, qualquer molequinho dos altos dos seus 13 anos de enorme experiência de vida se acha no direito de opinar a respeito de temas tão distintos como arranjos musicais, figurino das artistas, roteiros de clipes, composições, marketing, design, antropologia, física quântica, engenharia mecatrônica e culinária. E muitas das vezes esses Washington Olivetto usam as redes sociais para falarem as maiores asneiras do planeta. Esses Nelson Mota se revestem de críticos de tudo e todos com uma riqueza de vocabulário digna de uma criança de 3 anos. Sobre esses Steven Spielberg costumo dizer para os artistas fazerem apenas uma coisa: catapultem esses seres do alto de suas sabedorias diretamente para o buraco negro de Andrômeda! Ou, usando a linguagem mais adequada, bloqueiem-nos como uma autêntico jogador da seleção brasileira de voleibol. POW!

Deixando de lado as questões digitais, atemo-nos às relações pessoais, físicas, de carne e osso. Como você reagiria após passar 4 horas voando por uma companhia aérea após 2 horas esperando no saguão de um aeroporto lotado e onde durante o vôo foram servidos 15g de amendoim acompanhados de refrigerantes completamente sem gás? E se depois do suplício aéreo você ainda fosse obrigado a seguir por mais 3 horas de carro numa estrada esburacada sendo transportada por um motorista que não quer perder a oportunidade de prosear durante toda a viagem? E se depois desta viagem você fosse obrigado a visitar a rádio local onde o locutor faz as perguntas mais sem noção do planeta e o seu mais recente CD não está sequer na playlist? E se depois dessa triste entrevista você ainda fosse sequestrado para visitar uma livraria local e lá tivesse que atender a 250 pessoas que querem autógrafos em 115 marca-páginas, 64 agendas, 78 Bíblias e apenas 5 CDs, sendo que 2 são tão antigos que a capa está completamente desbotada? E se depois da livraria o falante motorista te levasse para o hotel dizendo que estaria no saguão esperando daqui há 30 minutos para levá-lo para a programação? Mas não para por aí! E o que você faria se o pastor pedisse para você cantar 15 músicas direto num som típico de carro de som de feira?

Pois bem … não precisa me responder qual seria a sua reação. Mas você sabe que este tipo de situação, por mais absurda que possa parecer, é absolutamente comum no dia a dia dos artistas em nosso meio gospel? E pra finalizar, após toda essa maratona de Hércules, o artista ainda tem que sorrir e atender a todos os pedidos de fotos, autógrafos e afins. Muitas das vezes o artista termina sua apresentação, completamente em bicas, e surge um animadinho fã por detrás das cortinas com um sorriso maroto e a indefectível pergunta: Posso tirar uma fotinha contigo?

Não é fácil atender a todas estas cobranças de um público que imagina ser o artista uma espécie de super homem, sorriso Colgate, paciência de Jó, hálito de hortelã e vitalidade ilimitada! É duro ser artista!

Mas tudo bem! Não vou ficar passando a mão na cabeça dos artistas. Não! Não irei defendê-los como o advogado do O.J.Simpson! Em contrapartida, os artistas precisam valorizar a relação com as pessoas. Acho absurdamente ridículo artistas que simplesmente não dão atenção alguma às pessoas no camarim ou no backstage e que quando sobem ao palco simplesmente se transformam nos mais humildes, simpáticos e ‘santos’ seres do universo. Em especial nestes eventos, o ideal é que o produtor do artista estabeleça com antecedência como o artista irá atender aos fãs. Alguns artistas preferem atender o público antes de subir ao palco. Outros já preferem se recolher antes da ministração e depois atendem aos pedidos dos fãs. Se é antes ou depois não importa, mas o certo é que o artista tem obrigação de atender o seu público!

Também repudio artistas que se fazem de difíceis ou simplesmente não atendem às mídias! Principalmente neste caso, não se trata da relação com um fã, mas com um profissional que de alguma forma irá contribuir para a divulgação do próprio artista e seu trabalho. Em mais de 20 anos de trabalho, jamais deixei que um artista sob a minha direção deixasse de atender a um pedido da mídia. Lembro-me que durante uma turnê com a Banda Catedral visitamos uma rádio comunitária em Campinas onde o estúdio era em um cômodo de uma residência. Tivemos que cruzar a sala, cozinha e só depois alcançamos o “estúdio”. Recentemente vasculhei na web contatos de rádios on line e sites para incrementar ainda mais o nosso mailing de mídias. Não deixei de registrar nenhuma mídia, nem a mais humildes delas! Todas são absurdamente importantes!

O artista precisa entender que seu trabalho e sucesso dependem exclusivamente do público. Sem público não há reconhecimento. Sem público não há resposta. Sem público não há relevância. Sem público não há arte! É triste constatar que temos artistas no meio gospel que simplesmente fazem questão de mostrar sua indiferença para o público. A história nos dá fartas histórias de artistas que maltrataram o público e a mídia que simplesmente foram esquecidos, apagados do mercado.

Para resumir nosso texto entendo que neste caso devemos buscar o bom senso sempre! Se você é artista, valorize seu público. Seja educado. Solícito. Simpático. Atencioso. Mas também não se deixe oprimir por opiniões diferentes e muitas das vezes maldosas. Estabeleça um conjunto de regras e atitudes junto à sua produção para que o atendimento do público em shows seja o mais ordeiro e organizado. Saiba impor limites. Respeite sua saúde e a si mesmo!

E se você não é artista, por favor, seja mais tolerante, compreensivo, menos crítico, mais educado, discreto e paciente. Saiba respeitar o momento íntimo de cada artista. Não busque intimidade se ela não for oferecida espontaneamente a você! Assim como nos para-choques de caminhão, mantenha a distância! Assim sempre poupamos colisões e decepções desnecessárias.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, colunista, blogueiro, A&R, consultor e um profundo observador das relações humanas. Mais um texto redigido durante uma das minhas viagens pelo país. Acabo de comer meus 15g de amendoim e agora vou dar uma relaxada ouvindo o excelente trabalho do cantor mineiro Bruno Branco. Mais uma boa e agradável descoberta que tive o enorme prazer de conhecer recentemente. Se você curte música cristã inteligente e criativa, segue essa indicação.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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